Shiver

1 Capítulo 1


Em meio à imensidão branca que eram os entornos de Carvahall, as tendas coloridas dos mercadores pareciam ser um vislumbre de outro mundo – e, de certa forma, Selena refletiu, realmente eram. Não apenas porque eles traziam consigo bens e notícias a que os moradores de Carvahall não teriam acesso de outro modo, mas também porque, com suas viagens frequentes, os mercadores pertenciam a todo o Império, e não eram restritos a apenas uma vila, a apenas um vale. Eles olhavam para as montanhas que cercavam o Vale Palancar e não viam as paredes de uma prisão: eles sabiam o que os esperava do outro lado.

Mais de uma vez, Selena considerara partir com os mercadores e ir com eles para o sul. Ela poderia viajar e conhecer cada uma das grandes cidades do Império – Teirm, Urû’baen, Gil’ead, Dras-Leona, Belatona, até mesmo Feinster – e descobrir um jeito de viver em uma delas. Mas as chances de seu pai, Cadoc, permitir que ela fosse eram tão pequenas, e Garrow nunca a perdoaria. Ela teria que fugir de casa sem a benção de seu pai, e embora ela soubesse que aquela não era uma necessidade, não era assim que Selena desejava se despedir de sua família.

Os planos de seu pai, no entanto, eram tão inadmissíveis quanto eram sem graça. Já fazia mais de um ano que ele insistia para que ela encontrasse um marido, e em Carvahall, quase todos eram fazendeiros. Obedecer aos desejos de seu pai sempre significara aceitar passar o resto de sua vida fazendo o que ela mais odiava, exatamente nas mesmas condições em que vivera até então.

Cadoc lhe propusera um meio-termo na noite anterior, e embora Selena estivesse longe de considerá-lo uma boa saída, ele parecia, cada vez mais, sua melhor opção. Sua única opção, talvez.

“Eron veio falar comigo mais cedo,” seu pai lhe dissera, se referindo a um jovem fazendeiro que morava nas proximidades de Therinsford. “Ele planeja pedir sua mão em casamento.”

Selena arqueara uma sobrancelha em resposta. “Eron quer se casar comigo? Ele nem ao menos me conhece.”

Seu pai só suspirara. “Das jovens do vilarejo, você é uma das mais bonitas, Selena, e Eron diz que já ouviu falar muito de você. Ele parece achar seu anseio por aventuras interessante, diferente da maior parte das pessoas.”

Correndo os dedos pelos cabelos castanhos, Selena se forçou, mais uma vez, a considerar a possibilidade. Eron era um jovem bonito, filho mais novo de um casal de fazendeiros. Ele tinha o hábito de comprar gemas dos mercadores e as transformar em belas joias, que ele vendia pelo dobro do preço que pagara inicialmente. Aquele era mais um passatempo seu, Selena ouvira dizer, do que uma ocupação, mas ele estava se provando extremamente talentoso, e, é claro, aos poucos juntara uma pequena fortuna.

“E o que você acha dele, pai?” ela havia perguntado, cuidadosa.

“É um bom partido. Rico, e agrada aos olhos.” Cadoc hesitara então. “Ele falou que planeja se mudar da fazenda de seus pais para uma casa em Therinsford, e mais tarde para Ceunon.”

Selena franzira o nariz. “Therinsford é uma bagunça,” declarara. “Pode ser maior que Carvahall, e embora essa seja uma mudança que eu normalmente aceitaria de bom grado, não é o que você chamaria de grande, e—”

“Pensei que você diria isso,” seu pai interrompera. “Therinsford tem uma biblioteca, no entanto. Você não gostaria de viver em um lugar mais perto de livros?”

Não daqueles livros, Selena pensara. “Eu já vi a ‘biblioteca’ de Therinsford. É velha e empoeirada, e todos os livros lá estão caindo aos pedaços. E eu já li todos eles, de qualquer modo.”

“Já?” seu pai parecera cansado. “Pense bem sobre isso, Selena. Eron planeja convidar você para passar o dia com ele amanhã, visitando os mercadores, e sugiro que não desperdice a oportunidade de conhecê-lo melhor. Ele não seria um mau marido, e você não pode continuar rejeitando todas as propostas de casamento que recebe, ou logo todos os rapazes decentes desistirão de você.”

Selena prometera que pensaria no assunto, e agora, na manhã seguinte, estava sentada diante da janela, esperando por Eron e tentando se acostumar à possibilidade de tê-lo como marido. Se ele realmente planejava se mudar para Ceunon, mesmo que em um futuro distante, ela estava diante do que provavelmente seria sua única chance de sair do Vale Palancar.

Ela estava fazendo um ótimo trabalho de se convencer mais e mais de que não queria Eron quando ouviu a batida na porta, e deixou escapar um suspiro antes de se levantar para atender. Eron estava usando o que ela imaginava que fossem suas melhores roupas – um comprido casaco verde alguns tons mais escuro do que seus olhos, decorado com padrões bordados em linha preta, uma calça de couro, e botas resistentes para andar na neve – e carregava uma capa e um embrulho no braço esquerdo.

Ele inclinou a cabeça em um cumprimento respeitoso, os cabelos loiros refletindo a luz das velas de dentro da casa. “Selena.”

“Eron.” Ela forçou um sorriso e deu um passo para o lado para deixá-lo entrar. “Olá.”

O sorriso que Eron lhe devolveu ao se sentar à mesa pareceu mais genuíno. “Seu pai avisou que eu viria?”

“Sim. Avisou sim.”

“E ele também disse que eu lhe trouxe um presente?”

Selena franziu a testa. “Um presente?”

“Nada muito extravagante,” Eron disse. “Só algo que vi durante minha última viagem a Ceunon, e pensei que você iria gostar.”

A risada de Selena soou mais constrangida do que ela se sentia. “Você realmente não precisava. Mas agradeço.”

Eron lhe estendeu o pacote que carregava, sorrindo. Selena o desembrulhou cuidadosamente – a última coisa que queria era que seu pai ficasse bravo por ouvir dizer que ela fora mal educada – e ficou maravilhada ao revelar um belo livro de capa de couro.

“Eles fazem uma nova versão dele toda década,” Eron explicou. “Essa é uma cópia antiga. É uma espécie de guia sobre os mais importantes nobres e famílias da corte de Galbatorix; conta suas histórias e um pouco da genealogia de cada família. Não é exatamente acurado, e deve estar cheio de informações erradas que beneficiem o rei, mas achei que você talvez interessasse. As iluminuras são lindas, e é verdade que livro nos dá um vislumbre de como é a vida na corte.”

“É incrível,” Selena admitiu. Eron chamara o presente de simples, mas ela duvidava que esse fosse o caso. Ela sabia quão caros livros eram – ela sempre examinava cada volume que os mercadores traziam, embora nunca pudesse comprar nenhum – e, julgando pelas iluminuras, aquele estava longe de ser um livro comum. A primeira figura era um retrato do rei, parcialmente escondido em sombras, sentado em seu trono. Seu rosto não era mostrado.

“Quer vir comigo à taverna?” Eron perguntou, os olhos verdes brilhando. “Se você trouxer o livro, podemos ler juntos.”

Ler juntos. Se havia uma coisa que Selena odiava, era ler com alguém. Ainda assim, o livro a interessara, e ela queria no mínimo ver mais das iluminuras. “Quero sim,” respondeu. “Só me espere vestir algo mais quente.”

De volta a seu quarto, Selena demorou um pouco ao escolher nada menos que suas melhores roupas – como seu pai esperaria, – vestiu uma capa cinzenta por cima, e ajeitou o colar que um dia fora de sua mãe para que ficasse visível. O pendente era uma bonita, mesmo que um tanto rústica, rosa de prata.

Eron estava esperando por ela junto a janela, olhando para fora com a testa franzida.

“Como está o tempo?” Selena perguntou, parando ao lado da mesa para pegar o livro.

“Não está nevando no momento,” Eron respondeu. “Mas estão esperando uma tempestade mais tarde.”

“Mesmo?” ela se esforçou para manter o rosto neutro; amava tempestades, apesar do estrago que podiam causar.

“E forte.” Eron definitivamente não compartilhava sua empolgação. “Os mercadores estão com medo de partir. Talvez fiquem em Carvahall por mais alguns dias, esperando o tempo melhorar.”

“Algo bom saiu disso tudo, então.”

“Acha mesmo?”

Selena encolheu os ombros. “Carvahall é um lugar diferente quando eles estão aqui.”

Ele a estudou por um instante. Inclinou a cabeça levemente, aceitando seu comentário, e sorriu. “Está pronta? Se sairmos agora, teremos tempo suficiente para ir e voltar antes que comece a nevar.”

Selena concordou com a cabeça e seguiu Eron para fora da casa. O caminho até a taverna foi mais demorado que o costume devido à neve e a quantidade de pessoas em Carvahall. A maior parte dos mercadores conduzia suas negociações no acampamento, fora do vilarejo, mas alguns andavam pelas ruas, batendo de porta em porta ou indo direto às pessoas para quem sabiam que iriam vender.

Eron observava tudo isso com um pequeno vinco entre as sobrancelhas. “Não acha que há algo estranho sobre os mercadores esse ano?” perguntou quando estavam quase chegando à taverna.

Selena olhou para ele, confusa. “Como assim?”

“Não sei dizer exatamente, mas eles me parecem um tanto tensos.”

“Talvez estejam preocupados com o tempo,” ela supôs. “Se é verdade que precisarão passar mais alguns dias por aqui.”

“Talvez.” Eron abriu a porta para ela, sorrindo de leve.

O ar dentro da taverna estava quente e confortável em contraste aos ventos gelados da rua. Agora que Eron comentara, Selena viu que era verdade que o lugar estava mais quieto do que deveria. Os poucos mercadores que terminaram os negócios mais cedo estavam sentados em grupos de dois ou três, conversando em voz baixa. Todas as vozes altas e conversas animadas vinham dos próprios aldeões.

“Você escolhe uma mesa enquanto peço algo para bebermos?” Eron perguntou.

Ela concordou com a cabeça; se afastou tanto da porta – não queria aguentar o vento frio toda vez que alguém a abrisse – quanto das mesas mais cheias – queria certa privacidade para examinar melhor o livro – e escolheu se sentar com as costas para a parede.

Selena observou as outras pessoas por um instante, então suspirou e abriu o livro. Ao lado do retrato do rei havia um curto texto sobre como ele e os Treze Servos – os Renegados, ela concluiu – foram corajosos o suficiente para se erguer contra o que a ordem dos Cavaleiros de Dragão se tornara – uma instituição corrupta e decadente. Uma mentira tão óbvia, Selena pensou. Embora o Império enforcasse qualquer um que ousasse contar a história, todos em Carvahall sabiam os motivos de Galbatorix para derrubar os Cavaleiros foram menos heroicos e mais egoístas. Ele o fizera por poder e vingança, não pelo bem maior. Ainda assim, ela achava a história da Queda fascinante.

Depois disso, o livro falava um pouco sobre os perigos que o rei correra para criar o Império e sua devoção a seu povo – outra mentira. Selena tinha pouco interesse pelo próprio Galbatorix – quase todos em Carvahall odiavam a ele e o Império – mas seus servos eram outra história.

As próximas páginas tratavam dos Renegados. Em primeiro lugar vinha Morzan, é claro; diferente do rei, o livro mostrava seu rosto em detalhes. Ele tinha cabelos negros bastante escuros, e olhos de cores diferentes – um azul, um preto. Selena traçou as linhas de seu rosto com os dedos. Ele é bonito, pensou um pouco surpresa. Se não soubesse a verdade, não acreditaria que Morzan pudesse ter muito mais que trinta anos.

“E aí está a causa de todos os nossos problemas.” Eron estava de volta, encarando o retrato de Morzan sem disfarçar sua repulsa. Quando Selena ergueu uma sobrancelha, ele explicou: “Se Morzan não tivesse traído os Cavaleiros, Galbatorix não teria conseguido derrotá-los.”

“Será que não?” Selena perguntou. “Ele era apenas um entre treze Renegados. Acho que Galbatorix teria conseguido convencer um dos outros a ajudá-lo mais cedo ou mais tarde.”

“Não, acho que não.” Eron se sentou. “É mais difícil ser o primeiro.”

“Suponho que sim,” Selena concordou, embora ainda não estivesse completamente convencida.

Eron lhe passou uma caneca de chá bem quente. “Perguntei a um mercador se eles estão enfrentando algum problema no momento, e ele me garantiu que não há nada acontecendo.”

Selena lançou um olhar na direção de dois mercadores que conversavam baixo em uma mesa afastada. “É? Acho que eles realmente parecem nervosos.”

Ele assentiu. “É possível que ele tenha mentido. De qualquer maneira, acho uma boa ideia tomarmos cuidado enquanto eles estão por aqui—”

Eron se interrompeu quando a porta da taverna se abriu, deixando entrar um vento frio que alcançou até mesmo eles na mesa distante. Um estranho, Selena pensou ao ver o homem que entrava, mas ele não era. Ela estivera estudando seu rosto apenas momentos antes, em uma página em um livro.

Notas finais
Fandom de CDH, estou de volta! (cadê eu antes? nessa conta, só em uma oneshot hahah). Espero de verdade que tenham gostado, e quero muito saber o que acharam. O próximo capítulo vem o mais rápido possível (vai vir rápido, relaxa), e já aviso que vai ser necessário aguentar um pouco de "Morzan" pra chegar em "Brom" (durante tudo existe a Sel, however, que é o que importa aqui). Se você chegou aqui nas notas finais, já te amo. Se comentar, amarei mais ainda. beijinhos ♥