Shiver
79 Capítulo 79
O vento uivava do lado de fora, e Selena poderia se considerar feliz por ter se livrado dele; não havia estado tão ruim nas ruas da cidade quanto ela o ouvia na torre, porém, e não era como se ela não houvesse tido preocupações maiores naquela noite. Passou pelos guardas da entrada mais discreta da torre sem dar muita atenção a eles — não mais do que um inclinar da cabeça —, mas parou do outro lado, surpresa, ao ver Jaime recostado contra a parede de pedras, os olhos claros já erguidos em sua direção.
“Minha senhora,” ele cumprimentou, cuidadoso. “Deu tudo certo, eu espero?”
Morzan a incumbira de sabotar a remessa de tecido que um mercador aliado de Fäelan enviaria cedo na manhã seguinte, longe da missão mais difícil e sangrenta que ela já realizara; estavam copiando agora a primeira estratégia do elfo, e atacando seus aliados sempre que podiam, fossem nobres ou plebeus, com a intenção de incentivá-los a deixar de apoiar o Renegado. Selena não tinha certeza se estavam funcionando tão bem quanto gostariam — era no fim uma questão de seus ataques assustarem as pessoas mais ou menos do que a perspectiva de qualquer represália de Fäelan.
“Sim,” Selena respondeu, seguindo o gesto de Jaime para que começasse a subir as escadas. “Correu tudo como o esperado.” Uma pausa curta. “Está tudo bem?”
“Sim.” Continuaram o caminho em silêncio, e ele parou apenas quando chegaram ao patamar em que começavam os aposentos de Morzan, aparentemente sem querer continuar para a sala. “Tenha uma boa noite, minha senhora.”
E já começou a afastar.
“Jaime,” Selena chamou, mesmo assim. “Você sabe onde Morzan está?”
Ele sustentou seu olhar. “Em seu estúdio, eu acredito.” Um instante de hesitação, e então advertiu, “Ele tem companhia.”
Selena franziu as sobrancelhas. “Companhia?”
Leu a resposta em sua expressão desagradada antes que Jaime a dissesse em voz alta, e por isso passou por seu quarto antes de sair a procura de Morzan; lavou o rosto e os braços com um pano úmido, trocando também suas roupas por um vestido azul simples que usaria em uma noite tranquila na torre. Soltou sua trança e perdeu alguns minutos desembaraçando alguns nós de seu cabelo, e finalmente escolheu um anel decorado com pérolas e uma pedra azul clara para vestir na mão direita.
Satisfeita com sua aparência, desceu apenas um lance de escadas; permitiu que um dos guardas batesse na porta e a anunciasse, e entrou no estúdio já esperando quem encontraria lá dentro. Mesmo assim, precisou contar a vontade de estreitar os olhos em resposta ao sorriso enviesado que Aleifar lhe oferecia, e cumprimentou, “Lorde Aleifar.” Juntou as mãos na frente do corpo. “Não esperava encontrá-lo aqui.”
“Pensei que estivesse ocupada esta noite, Senhora Selena. Ou se arrumou para o benefício de Morzan depois de voltar? Espero não estar arruinando seus planos.” Aleifar se sentava em uma das duas cadeiras em frente à escrivaninha, e, atrás dela, Morzan ergueu as sobrancelhas para Selena em um movimento breve e um tanto irônico. Sem esperar que ela respondesse, porém, Aleifar continuou, “Vim convidá-los para me acompanharem em uma viagem a Ceunon. Você teria interesse?”
Selena sorriu.
Aproximando-se da mesa em passos lentos, se permitiu um momento para escolher um morango da bandeja de prata sobre ela antes de se sentar. “O que tem em Ceunon?”, perguntou, retornando o olhar de Aleifar com sua expressão mais inocente.
“Lenhadores,” Aleifar respondeu, com pouco caso; sorria um pouco, porém, e talvez houvesse achado graça. “Entre outras coisas. O irmão mais novo de seu governador, porém, chegou a Urû’baen hoje ao final da tarde, e fez uma visita aos aposentos de Fäelan tão logo terminou de se estabelecer. Parece algo digno de nossa atenção, não acha? Por mais que Ceunon, como todas as cidades nortenhas, tenha bailes medíocres e comida pior.” Ele fez uma pausa, um brilho maldoso em seus olhos verdes. “Você não tinha dito ter vindo do norte, Senhora Selena? Não gostaria de confessar de onde?”
“De Ceunon,” ela mentiu com facilidade, e se satisfez ao ouvir Morzan rir um pouco. Encontrou uma noz sobre a bandeja e a levou aos lábios, respondendo o olhar pouco impressionado de Aleifar com um sorriso pequeno. “Não me lembro de lá ser tão ruim assim. Quando nós vamos?”
Foi Morzan quem respondeu. “Em dois dias. E é, um pouco, especialmente se comparado com as cidades mais ricas do sul. As coisas em Ceunon e Gil’ead costumam ser mais... simples.”
“Mais simplórias, talvez,” Aleifar o corrigiu. “As festas e banquetes em Feinster e Belatona raramente deixam a desejar, e até mesmo em Dras-Leona eles sabem organizar um evento lascivo, por mais que tenham também aquela terrível propensão a assistir os sacerdotes de Helgrind cortarem fora partes do próprio corpo e pregar desapego.” Lançou um olhar desagradado a Morzan. “Não sei como você os suporta.”
Morzan não se importou.
“Não me lembrava que você fosse tão sensível, Aleifar,” respondeu, encolhendo os ombros. “E eu evito esse tipo de ocasião, se precisa saber.”
Aleifar riu pelo nariz. “Se você diz. De toda forma,” continuou, “todas as cidades do sul possuem suas atrações. No norte, porém, eles não possuem nem as instalações, nem o espírito, nem a comida para serem dignos de qualquer atenção.”
Se pudesse ser sincera, Selena achava graça de seu desdém. “Estive no festival de verão em Teirm, algumas semanas atrás,” contou, mais genuína do que deveria ser. “Achei bastante agradável.”
“Se você gostar de peixe,” Aleifar respondeu, seu tom carregado de desprezo.
Ela sorriu para ele. “Não particularmente desgosto.”
“Teirm é no litoral,” Morzan apontou, porém, a voz macia. “É um pouco diferente.”
Era mesmo, e Selena ainda se lembrava de como, em sua primeira viagem pelo Império com Morzan e seus guardas, Adam lhe contara sobre como gostaria de morar na costa, se tivesse escolha; se lembrava também do ruído constante das ondas, e de Morzan a levando para voar sobre o mar de noite. “Sim,” concordou, ouvindo a própria voz um pouco mais baixa. “É mesmo.”
Aleifar revirou os olhos para aquilo. “Não significa tanta coisa assim. Você já foi a Kuasta alguma vez, Senhora Selena? Um lugar medonho.” Ele fez uma pausa breve, quase pensativo, antes de perguntar a Morzan, “Não foi de lá que Brom veio? Me lembro de ser algo assim. Não suponho que tenha encontrado alguma pista dele, naquela viagem em que o rei o mandou a procura de seus inimigos?”
“Nós passamos por Kuasta, sim,” Morzan respondeu facilmente. “Embora eu não consiga imaginar o que Brom poderia ter interesse em fazer por lá, hoje em dia. Não é exatamente um lugar bem posicionado.”
“Bom para se esconder, talvez,” Aleifar opinou.
“Ele não estava por lá.” Morzan abaixou os olhos de cores diferentes para a própria taça de vinho por um instante, a girando entre os dedos longos. “Brom deve preferir estar bem posicionado para nos atingir a priorizar a própria segurança, e não é como se alguém tenha conseguido chegar perto de matá-lo ou capturá-lo recentemente. Se eu me lembro bem, de qualquer forma, ele também deixou de lado os costumes de sua cidade natal bem rapidamente, mesmo como um noviço em meio aos Cavaleiros.”
Aleifar riu daquilo. “Como bem deveria; como eu disse, é um lugar estranho.” Olhou para Selena, quase curioso. “Você já foi informada a respeito de Brom, eu imagino? Os Varden provavelmente já ouviram falar da Mão Negra de Morzan, a essa altura.”
Mas ela já estava bastante familiarizada com as tentativas de Aleifar de se intrometer entre ela e Morzan e conseguir informações. “Estou bem ciente,” respondeu, apenas, e escolheu outro morango da bandeja.
“Eu conto aos meus servos mais importantes sobre Brom,” Morzan pareceu preferir esclarecer de uma vez. “Porque ele tem uma certa tendência a tentar assassiná-los.” Encontrou o olhar de Selena, algo de divertido em seu rosto. “E nós não iríamos querer isso, não é mesmo?”
Ela riu. “Eu certamente não.”
“E falando em seus melhores criados,” Aleifar se interpôs. “O que aconteceu com o capitão de sua guarda? Não o vi quando cheguei. Certamente não está ainda emburrado?”
Morzan sorriu um pouco. “Jaime é por natureza uma pessoa mais paciente do que eu,” ele disse. “E não é incapaz de se mostrar um tanto rancoroso, então é possível que esteja testando a teoria que eu vou me cansar da situação antes que ele. É claro que, quando chegarmos a esse ponto, vou apenas apontar que ele não está me tratando com o respeito que mereço, e ele terá que concordar. Mas continua fazendo bem seu trabalho, até agora, e não é um problema de atitude demasiado inconveniente, então o estou entretendo por enquanto.”
Vendo que Aleifar estava prestes a fazer algum comentário, muito provavelmente bastante desagradável, Selena se apressou para falar, “Eu o vi mais cedo,” contou. Não era da conta de Aleifar saber de nada daquilo, é claro, mas dificilmente seria um problema se ele ouvisse. “Quando voltei da minha missão. Acho que estava esperando por mim.”
“Como eu disse,” Morzan apontou, embora algo em seu rosto parecesse mais pensativo ao olhar para ela, “ele faz bem seu trabalho.”
Era impossível negar que a presença de Jaime fosse reconfortante, e qualquer irritação que ele ainda sentisse a respeito de Morzan não parecia se aplicar a ela, o que Selena considerara uma surpresa agradável. Sabia, logicamente, que o guarda não tinha mais a má vontade para com ela que sentira no começo, mas ela sentia que ganhara um pouco de seu afeto também; uma constatação que lhe trazia uma sensação de realização e segurança que ela talvez não pudesse ter previsto.
“Eu o acho ótimo”, Selena opinou. Respirou fundo uma vez, alisando a saia de seu vestido com as mãos, e disse, “Se importam se eu me retirar para a noite? Tive um dia longo.”
Morzan se limitou a sacudir a cabeça, mas Aleifar abriu um sorriso enviesado. “Não a estive privando da companhia de Morzan, eu espero?” o Cavaleiro perguntou, e talvez se sentisse muito satisfeito consigo mesmo apenas por ser tão inconveniente. “Eu peço desculpas.”
Selena poderia ter revirado os olhos para aquilo, mas apenas sorriu para ele ao se levantar. “Não dependo dele tanto assim,” respondeu, se esquivando do pior da pergunta. “Tenha uma boa noite, Lorde Aleifar.”
Se despediu de Morzan com um olhar, e ele sorria também.
“Boa noite, Sel,” disse, apenas, com um inclinar muito leve da cabeça.
Quando ela saiu da sala, porém, fechando as portas de madeira atrás de si, sentiu sua mente tocar a sua. Já vai se deitar?, Morzan perguntou, um pensamento breve e muito suave.
Não vou conseguir dormir tão cedo, Selena respondeu, já começando a subir as escadas na direção de seu quarto. Então pensei em ler um pouco. Se não for demorar muito, eu apreciaria companhia.
Tocando sua mente daquela forma, conseguia sentir sua satisfação. Consegue esperar uma hora?
Vou estar por aqui, ela disse, quase uma promessa.
Ao tirar o próprio vestido e procurar uma camisola bonita e confortável, precisou concluir que, tudo considerado, a noite não fora assim tão desagradável.
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