Shiver

74 Capítulo 74


Notas iniciais
Surprise, surprise! Não é que estou viva? Gente, estive simplesmente lotada de coisas pelo combo trabalho + pós então acabei sumindo por aqui mesmo, desculpa! Estou de volta, com sorte para ficar (para ficar, com certeza; com sorte para aparecer com mais frequência), e com um capítulo especial pois: de aniversário of our one and only Ana Banana! Parabéns demais, amiga, e te desejo simplesmente tudo de bom nesse mundo! Espero que goste do capítulo ♥

Selena não se lembrava de já tê-lo visto tão tenso. Morzan tinha os braços cruzados, o maxilar apertado, e ela o via de perfil, apenas, enquanto ele olhava através da janela pequena para a noite lá fora. Os cabelos pretos cortados recentemente, muito macios contra a pele clara de seu pescoço, os olhos obstinados e muito duros; daquele ângulo, ela via o escuro.

“Conte-me de novo,” disse, e era mais uma ordem do que um pedido. “Do começo.”

Na cama, Jaime pareceu deixar escapar um suspiro muito pequeno. Estava recostado contra uma porção de travesseiros, e, àquela altura, o curandeiro já havia terminado de tratá-lo; sem camisa, tinha faixas claras cobrindo o ferimento em seu peito e também enrolando seu braço esquerdo, perto do ombro, o tratamento completo com misturas de ervas e magia. Não havia sido nada muito fundo, nada muito grave, Selena sabia agora, mesmo que aquela quantidade de sangue a houvesse assustado, mesmo que Jaime parecesse ainda um pouco pálido.

Ela se ajeitou na cadeira onde estava sentada, as mãos ao redor do próprio corpo.

“Eu estava na cidade, indo encontrar alguém,” Jaime começou novamente, e Selena sabia que estava sendo vago de propósito apenas pela irritação súbita nos olhos de Morzan. “E fui surpreendido por um grupo de homens — seis ou sete, acho, mas talvez mais. Não estavam usando armadura e não tinham nada em suas roupas que os identificasse, e não eram rostos que eu reconhecesse tampouco. Eram lutadores treinados, e eu não teria conseguido impedi-los, não fosse a joia de proteção que me deu, meu senhor. Parou todos os seus golpes, no início, e então quaisquer ferimentos mais sérios até que a guarda da cidade chegasse ao local.”

Selena gostaria de poder saber o que Morzan estava pensando, ao vê-lo continuar para a janela, os lábios apertados e o maxilar rígido. “O feitiço deveria ter durado muito mais do que isso,” foi o que disse, finalmente, a voz dura. “Mesmo contra armas encantadas, deveria ter durado mais.”

“Foi Fäelan,” Selena disse, e o olhar que Morzan lhe lançou foi duro e irritadiço. “Ele é o mais velho de vocês, não é? Deve ter mais experiência que você com magia, e talvez tenha pensado ou conheça um feitiço que você não—”

“É claro que foi Fäelan,” Morzan a interrompeu, impaciente e incomodado, e Selena se calou, mordendo o interior da bochecha. “Mandando outros fazerem seu trabalho sujo. Eles vão se arrepender.” Um relance rápido dos olhos díspares na direção de Jaime. “Vou lidar com isso eu mesmo.”

Ele não esperou uma resposta — não que Jaime parecesse disposto a lhe dar uma, os olhos verdes sóbrios e um vinco pequeno entre as sobrancelhas escuras —, dando as costas aos dois e já cruzando o quarto diminuto de Jaime em direção à porta. Parou uma mão na maçaneta de metal apenas quando Selena perguntou, ouvindo a própria voz muito pequena:

“Você quer companhia?”

Ajuda, tivera vontade de dizer, mas julgara que talvez ele não apreciasse a palavra. Sabia que talvez fosse mesmo bom que ela o acompanhasse, e que aquele era o tipo de coisa que deveria fazer, como sua Mão Negra, mas não pôde evitar se sentir aliviada quando Morzan sacudiu a cabeça uma vez num movimento curto.

“Não,” ele disse, apenas. “Fique aqui.”

Ela o observou ir, e o silêncio no quarto rapidamente se tornou desconfortável. Jaime havia abaixando os olhos pálidos, observando os padrões do próprio cobertor; seria impossível adivinhar no que pensava. Com os braços ao redor da barriga, Selena se levantou e se aproximou alguns passos, hesitante.

“Ele se preocupa com você,” disse, seu tom tentativo, e Jaime encontrou seu olhar.

Não parecia ter achado o comentário minimamente reconfortante. Uma pequena prova de que Morzan se importava, se importava de verdade, e Selena a apreciaria, em seu lugar; já apreciava da forma como era, por mais que a sensação fosse também a de estar na beira de um precipício, algo de mais perigoso em Morzan ficando aparente, contido apenas por barreiras muito frágeis. Ela se assustava, mas não achava que por conta dele, e sim pela seriedade da situação como um todo.

Jaime, por outro lado, parecia achar a noção inteira de alguma forma um incômodo.

“Quando ele disse que preferia que você ficasse,” ele respondeu, a voz baixa, “não quis dizer que precisava ficar aqui.”

Selena engoliu em seco, e era difícil não se sentir ferida por suas palavras quietas. Tentou lembrar a si mesma que ele acabara de passar por uma situação difícil, e fazia sentido que quisesse ficar sozinho.

“Quer que eu vá?” perguntou, tentando manter seu tom gentil.

Ele estudou seu rosto por um instante, e então sacudiu a cabeça.

“Prefere ficar, minha senhora?”

“Não se não quiser que eu fique,” ela se esquivou. “Não quero incomodar.”

Jaime fez que não, se sentando melhor onde estava.

“Pode ficar,” disse. “Eu ia chamar Adam ou Owen, mas se quiser, você pode me ajudar em vez deles.” Viu algo em seu rosto, e seu sorriso foi pequeno. “Nada muito complicado, minha senhora. Aqui na gaveta de minha mesa de cabeceira, há algumas chaves. Consegue pegar para mim?”

Selena assentiu, grata por ter algo para fazer, e se ajoelhou no chão ao lado da cama de Jaime. Abriu a gaveta com cuidado, e não tinha qualquer intenção de invadir sua privacidade — sabia como ele podia ser uma pessoa fechada —, mas foi impossível evitar reparar no conteúdo, de toda forma. Tudo muito bem organizado no espaço pequeno: uma pilha baixa de pergaminhos, talvez carta; uma caderneta de capa de couro; o pendente que Morzan lhe dera em seu último aniversário, com os feitiços de proteção, que ele tirara quando o curandeiro tratava de suas feridas; ao lado, um anel de prata. Havia também uma pequena caixa de metal, fechada, e um frasco parecido. Num canto, um molho de chaves escuras.

O pegou, e, sem saber se saberia diferenciar uma da outra, as ofereceu para Jaime. Ele o aceitou, separando com facilidade três chaves, e as devolveu a Selena separadamente. “Para meu estúdio,” disse, indicando a primeira, “para a gaveta da escrivaninha, e para a estante com os registros da guarda. Na estante, na primeira caderneta à direta, na prateleira de cima, você vai encontrar uma lista com os horários e deveres de cada guarda. Na mesa, pergaminho em branco e pena e tinteiro. Pode buscá-los para mim?”

“Sim,” Selena respondeu, prontamente. “Sim, é claro. Um instante.”

Julgou melhor não comentar sobre Jaime ter acabado de ser atacado nas ruas da cidade, estar com ferimentos no peito e no braço, e já querer trabalhar; cada um lidava com as situações de sua própria maneira, supunha. Era possível ir do quarto de Jaime a sua sala oficial, como capitão da guarda, sem passar pelo espaço aberto a que os outros homens tinham acesso, e ela achou tudo o que ele pedira com facilidade — o lugar era muito bem organizado. Teve vontade de aproveitar o momento para inspecionar melhor o local, ante a oportunidade única de estar lá sozinha, mas se sentiria culpada demais, se o fizesse de verdade.

Quando voltou, ofereceu a Jaime o pergaminho com os turnos atuais, e então encontrou uma bandeja em que ele pudesse apoiar para escrever, se quisesse. Puxou sua cadeira para o lado da cama e se sentou enquanto ele examinava o pergaminho; o silêncio já não tão desconfortável.

“Posso fazer isso para você,” se ofereceu, quando ele lhe pediu o pergaminho em branco. “Quero dizer, minha caligrafia não é tão boa quanto a sua, mas já está bem melhor, desde que cheguei aqui e comecei a praticar. Está decente, eu diria. E acho que consigo replicar sua organização, se tentar. Os turnos e os horários.”

Jaime pareceu hesitar antes de assentir devagar.

“Eu agradeceria, minha senhora. Pode escrever as tarefas, os dias, e os horários antes, então. Como estão aqui.” Ele lhe estendeu de volta o pergaminho mais antigo. “Depois preenchemos os nomes.”

“Certo,” ela respondeu, se debruçando sobre a bandeja para começar a escrever. Era um trabalho mecânico, quase confortável, e ela não precisava se preocupar com os detalhes enquanto Jaime pensava, quieto, sobre como ficaria a nova organização. “Como você decide?” Selena acabou por perguntar, curiosa. “Quem será responsável por fazer o quê?”

Jaime encolheu um pouco os ombros, e então fez uma careta muito discreta, tardiamente lembrando-se de seus ferimentos. “São vários fatores,” respondeu. “Experiência, as habilidades de cada guarda, o que cada tarefa demanda, quanto eu posso confiar em cada um.”

Selena franziu um pouco as sobrancelhas. “Não são todos leais e confiáveis? Sei que Morzan exige votos de lealdade de todos, então...”

“Os juramentos são os mesmos,” Jaime concedeu. “Mas não são infalíveis, apesar de todos os cuidados que tomamos, e a verdade é que os guardas não possuem lealdade a Lorde Morzan no mesmo nível. Não são todos que se sentem da mesma forma sobre ele, não são todos que se sentem da mesma forma sobre fazer parte da guarda. São humanos, afinal. Não podemos esperar as mesmas coisas de pessoas diferentes.” Ele percebeu algo nos olhos de Selena, e adicionou, “Não é que eu acredite que tenham a intenção de nos trair, minha senhora. É só que a garantia de que não vão não é a mesma para todos.”

Ela refletiu sobre suas palavras por um tempo, e assentiu devagar. “Acho que entendo,” disse. “Você conta a Morzan, sobre os homens em que acha que pode confiar mais e os em que não?”

O capitão da guarda hesitou um instante. “Eu não negaria responder se ele perguntasse,” respondeu. “E lhe conto se acho algo grave o suficiente para que precise de sua atenção pessoal, ou ao menos que ele tenha ciência. Mas não é exatamente o tipo de informação que voluntario espontaneamente.”

Selena precisou rir baixinho. “Mesmo?”

“Nós nem sempre concordamos sobre a melhor forma de lidar com esse tipo de situação,” Jaime disse, mas quase sorria. “Não escondo nada, é claro, mas...”

“Eu entendo,” Selena garantiu, achando um pouco de graça. Girou a pena entre os dedos, e perguntou, “Como escolhe quais os guardas para ficar à postos em minha porta?”

Dessa vez, Jaime chegou a rir. “Novamente, depende um pouco. No começo, eu tentava deixar Adam ou Neil com certa frequência, porque você já os conhecia e eu julgava que talvez se sentisse melhor com rostos familiares por perto. Mas não podia dedicá-los a isso o tempo inteiro, porque são dois dos guardas mais capazes que temos, e eu preciso deles para tarefas um pouco mais complexas. Fora isso, tento escolher homens mais jovens, porque julguei que talvez fossem mais aptos a formar um bom relacionamento com você.” Ele pareceu hesitar. “Não é que seja necessário, e Lorde Morzan por exemplo não se preocupa em conversar com os guardas ao lado da porta de seu quarto, mas pensei que você talvez fosse diferente. E então há toda a natureza do serviço.”

Ela sorriu, mordendo um pouco o lábio, e achava toda a noção divertida demais. “E qual é ela?”

“Bem,” Jaime começou, e talvez estivesse escolhendo com cuidado as palavras. “Exige ficar parado em pé por períodos longos, e não é algo tão sério quanto guardar as entradas da torre, por exemplo. Por existir a necessidade de lidar com você e potencialmente também Lorde Morzan, preciso poder confiar neles para que sejam agradáveis e adequadamente respeitosos. E é um posto que exige certa... discrição.”

Selena riu mais abertamente dessa vez, principalmente pelo modo como ele dissera a palavra, hesitante e quase tímido. “Certo,” concordou. Encontrou o olhar de Jaime, fazendo que sim com a cabeça, e acrescentou, “Acho que terminei. Podemos começar, então?”

Mudou um pouco a posição da cadeira para que Jaime pudesse ver o que ela fazia, e lhe ofereceu o pergaminho antigo e também o novo, para que ele pudesse comparar os dois. Ele os examinou com um instante curto, e então assentiu também.

“Sim,” respondeu. “Vamos começar.”

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥ No mais, gente, não sei se todos viram, mas encomendei um desenho LINDO do Morzan e da Sel: https://sandsphinx.tumblr.com/post/662082300666920960/morzan-and-sel-from-my-fic-shiver-by-the-amazing (e também do Jaime, mas nesse caso tá só no twitter:https://twitter.com/aphrodaites/status/1436867171028713475). Sinta-se livres para RT, reblogar, etc. Estava morta de saudades de vocês ♥