Shiver
52 Capítulo 52
Notas iniciais

A lua fazia seu caminho pelo céu escuro, e Selena assistia Morzan dormir. Ele estivera acordado por um longo tempo, os olhos díspares brilhando na penumbra do quarto, provavelmente pensando nos acontecimentos da noite enquanto Selena se encolhia sob os cobertores ao seu lado, mas agora tinha os lábios cheios entreabertos, as pálpebras fechadas, o peito subindo e descendo na cadência tranquila do sono.
Ela não se lembrava de tê-lo visto dormir antes. Haviam estado juntos há meses e meses, e, embora Selena tivesse a razoável certeza de que já havia acordado apenas para encontrá-lo dormindo e se enroscar nele antes de adormecer novamente ela mesma, estava acostumada a um Morzan que despertava muito antes dela, a um outro lado da cama que amanhecia frio e vazio. Acabara por chegar a conclusão de que, por ser um Cavaleiro e tão cercado por uma magia que ela nunca seria capaz de entender, ele precisava de menos sono, de pouco descanso.
O Morzan ao seu lado não era um que ela reconhecesse. Não havia pretensão alguma em seu rosto, nenhum sinal da máscara, e ele parecia estranhamente jovem. Sem seus olhos estranhos brilhando com mil segredos, sem o sorriso de quem tinha um passado imenso e sangrento às suas costas, só restava a aparência que sugeria que ele não poderia ter muito mais do que trinta anos, e, dormindo, ele parecia quase vulnerável, ainda mais novo. E muito, muito humano.
Parte sua queria afastar seu cabelo do rosto em uma carícia macia, mas ele talvez acordasse, e Selena não conseguia se cansar de vê-lo assim. Os olhos de Morzan se moviam por sob as pálpebras, seguindo as formas de um sonho distante, os lábios num quase curvar que poderia ser o começo de um sorriso. Ela se perguntou quais seriam os acontecimentos passando por sua mente, e teria tocado seus pensamentos se não fosse algo tão invasivo, uma invasão de sua privacidade em um momento tão vulnerável — além do mais, era possível, provável que ele tivesse proteções mesmo dormindo.
E então, sob os olhos de Selena, algo em seu rosto mudou, devagar e depois completamente. Começou com aquela sombra de sorriso desaparecendo, com o menor dos vincos surgindo entre suas sobrancelhas escuras. Seus lábios se moveram sem fazer som algum, traçando o contorno de uma palavra há muito esquecida e que Selena não foi capaz de identificar, um nome ou talvez um pedido.
Morzan se mexeu, sacudindo a cabeça como se para afastar um pensamento desagradável, gotinhas de suor brotando em sua testa. As linhas de seu corpo, antes tão calmas, se tencionavam todas, dedos se fechando sobre os lençóis como se buscando por algo fora de seu alcance, o maxilar mais e mais apertado. Sua respiração se tornava mais rápida, quase desesperada, o ar escapando por seus lábios em suspiros rasos.
Ele murmurou algo novamente, a palavra estrangeira baixa o suficiente para que Selena não fosse capaz de entendê-la, o som passando por sua mente em branco, sem deixar recordação alguma para trás. Ela se sentou na cama, hesitando ainda um instante, sem saber o que fazer, mas então os lábios de Morzan formaram uma palavra que ela reconhecia — Não — e Selena ergueu uma mão para tocar seu ombro.
Morzan se sentou em um único movimento brusco, seus dedos se fechando sobre o pulso de Selena com força, algo muito próximo de desespero em seus olhos díspares. Ela deixou escapar um suspiro baixo de surpresa e dor, e era como se Morzan não a reconhecesse. E então entendimento cruzou seu olhar e ele a soltou, a respiração ainda rápida e os efeitos do pesadelo escritos em todas as linhas de seu rosto.
Ele lhe deu as costas, já pendendo as pernas pela lateral da cama, abaixando a cabeça. Seus cabelos caíam como uma cortina negra, impedindo que Selena visse seu rosto, mas ela percebia a tensão em suas costas, reparava em como seus dedos apertavam o colchão. Ela encarou suas costas, massageando o próprio pulso, tentando acalmar sua respiração.
“Morzan—”
Ele não permitiu que ela terminasse de falar. “Volte a dormir, Sel,” disse, a voz dura como se ele tentasse esconder a emoção que sentia, como se ela não estivesse aparente em todas as linhas do seu corpo.
Ele ainda respirava rápido.
“Está tudo bem?” Selena perguntou. Foi só um sonho, quis lhe dizer, mas não tinha certeza, não de verdade, e se forçou a engolir as palavras. “Morzan…”
Morzan não a respondeu. Pendeu a cabeça para trás, respirando fundo, os olhos fechados, e era como se ela nem mesmo estivesse ali. Selena pensou ter visto o rastro de uma lágrima em sua bochecha, e percebeu, pela primeira vez, que ele talvez realmente não estivesse bem.
Teria o sonho a ver com a volta de Fäelan? Morzan não lhe parecera tão perturbado; incomodado, certamente, mas não assustado. Só que nada mais acontecera de diferente naquela noite tampouco, e aquilo não tinha como ser comum — ou será que era, e Selena apenas nunca percebera? Nunca o vira acordar antes.
“O que foi?” Ela acabou por perguntar. “Converse comigo.”
“Nada,” ele respondeu, brusco, forçando a palavra para fora como se com esforço, claramente uma mentira. “Volte a dormir.”
Mas ela não estivera dormindo antes, e com certeza não seria capaz de dormir agora. Abaixou o olhar para os lençóis onde ele havia se deitado, quentes e úmidos de suor mesmo que seus sonhos não tivessem sido ruins por muito tempo. Mesmo na penumbra, ela podia ver as linhas avermelhadas onde ele segurara seu pulso.
“Você pode me contar,” Selena lhe assegurou, e como não poderia? Ergueu uma mão para tocar seu ombro. “Eu não vou—”
Morzan se afastou como se seu toque o queimasse, e a interrompeu, ríspido, suas palavras claramente uma ordem. “Eu disse para parar, Selena,” e foi algo em seu tom e na maneira como ele disse seu nome que a fez recuar.
Nunca o ouvira falar assim antes, não com ela. Selena pensou em todo o passado de Morzan, em todo o sangue e em toda a dor, e em como a parte dele que ela conhecia não era — não poderia ser — muito comparado com o que ele realmente era. Ouvia o próprio coração batendo muito alto em seus ouvidos, e não tentou tocá-lo outra vez.
Uma parte dela ressurgia, orgulhosa e indignada, e demandava saber mais; não era justo que Morzan a conhecesse tão bem, tão completamente, e compartilhasse tão pouco de volta. Mas, ao vê-lo se levantar e andar em uma linha tortuosa até a mesa, Selena se forçou a engolir a emoção e sufocar aqueles pensamentos.
Haveria um momento para exigir respostas, só não aquele. Morzan tinha as mãos trêmulas ao se servir de um cálice de vinho e o beber de um gole só. Mais um, e então ele parou, respirando fundo uma vez, correndo uma mão pelo rosto.
Ele era perfeito como uma estátua parado assim no quarto escuro, ou talvez como uma pintura. Sua pele parecia muito branca e muito pálida, os músculos de suas costas ainda tensos, suas calças apenas pontos de sombra e seus cabelos negros refletindo a luz fraca da única lanterna. Ele parecia tão tomado pela emoção — dor? Luto? Medo? Selena não saberia dizer — que se tornava feroz, perigoso, quase inumano.
Morzan apoiou uma mão na mesa de madeira como se para se firmar, e ela ousou tentar de novo. “Você não precisa me contar,” disse, percebendo como ele pareceu respirar fundo uma vez. “Não precisa dizer nada. Só… Volte para a cama. Não vá.” Me deixe ajudar.
Devagar, ele se voltou para ela. Conseguira, de alguma forma, mascarar seus sentimentos, e se aproximou da cama em passos lentos e mais firmes. Seus olhos díspares pareciam curiosamente vazios ao encontrar os de Selena, e ela estremeceu ao senti-lo tocar seu rosto e afastar uma mecha dos cabelos castanhos para trás de sua orelha.
“Isso não tem a ver com você,” ele disse, a voz tão baixa e ainda um pouco fraca; seu tom era quase gentil, mas havia algo áspero por baixo que ele não era inteiramente capaz de esconder. Ela prendeu a respiração, suspensa no momento, sem saber o que esperar. “E não é para seus olhos. Volte a dormir, Sel.”
Com os dedos em seu queixo, se abaixou para plantar um beijo muito suave em sua testa, apenas um roçar de seus lábios contra a pele de Selena. Uma carícia macia, trêmula, em sua bochecha, e então Morzan lhe dava as costas, cruzando o quarto e desaparecendo pelas escadas que levavam ao andar de seu dragão.
Selena deixou o ar escapar em um suspiro, o quarto vazio e escuro a sua volta, e se afundou no colchão, se sentindo desolada e muito, muito sozinha.
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