Shiver
50 Capítulo 50
Notas iniciais

Selena examinou seu reflexo no espelho quase maravilhada, absorvendo devagar cada um dos detalhes de sua aparência; seu vestido era de um vermelho profundo que puxava apenas um pouco para o marrom, vinhas, folhagens e flores bordadas em fio de ouro por uma mão muito delicada. Metade de seu cabelo castanho estava presa em uma rede de granadas que refletia a luz das lanternas, e metade caía solta sobre seus ombros, se curvando em cachos macios. Seus lábios eram muito rosados, suas bochechas um tanto coradas, e o colar de rubi e diamante que Morzan lhe dera pendia de seu pescoço, trazendo consigo encantamentos de proteção e uma reserva considerável de energia.
E então Morzan se aproximou, apoiando uma mão na base de sua coluna, e ela perdeu de leve o ar ao observar o par que faziam. Ele estava inteiramente de preto, seu gibão impossivelmente escuro decorado com bordados de vinhas e folhagens que combinavam os do corpete e mangas do vestido de Selena. Apenas a capa curta sobre um de seus ombros era diferente, o tecido vermelho do tom exato das vestes dela. Ele havia aparado o cabelo, também, mas os fios negros ainda eram compridos, ainda perfeitos.
Selena desviou os olhos do reflexo para olhar para ele. "Você fica maravilhoso nessas roupas," disse, lhe oferecendo também o menor dos sorrisos. "Me faz querer que não estivesse usando absolutamente nada."
Ele riu, sacudindo a cabeça, os olhos díspares brilhando, e abaixou o rosto para beijar sua têmpora. "Talvez mais tarde," respondeu, não inteiramente uma promessa, sua respiração um sopro morno contra a pele de Selena; ela gostaria de puxá-lo ainda mais para perto.
Voltou a olhar para seu reflexo, no entanto, encarando os próprios olhos castanhos. Parecia uma princesa, e era em momentos como aquele — se olhando no espelho, vestida assim — que não conseguia evitar se lembrar de suas origens, de quão longe chegara (por mais que, honestamente, aquilo não fosse o mais impressionante dentre tudo o que vivera). Pendeu a cabeça para o lado, e era contra o primeiro dos Renegados que estava se apoiando.
Morzan se afastou um passo, e a máscara que ele lhe ofereceu era preta e muito delicada, decorada com renda e granadas muito pequenas. Selena a vestiu com cuidado, permitindo que ele a ajudasse a prendê-la, e quase não conseguia reconhecer em si mesma a garota que deixara o Vale Palancar tantos meses antes. "Não tínhamos nada assim em Carvahall," disse, se referindo ao baile do começo do outono, às máscaras e também ao vestido tão rico.
O Cavaleiro ao seu lado não a respondeu de imediato. Se ocupou em cobrir o próprio rosto com uma máscara de metal escuro, decorada também com os desenhos de vinhas, a diferença de cor de seus olhos de alguma forma muito mais nítida. Morzan sustentou o olhar de Selena, sem saber como em sua mente ela o comparava com um príncipe sombrio das histórias, e respondeu, "É claro que não."
Você é minha agora, seus olhos pareciam lhe dizer. Suas palavras soavam quase como um elogio.
"Vamos?" Ele perguntou, lhe oferecendo um braço, e ela apoiou uma mão sobre ele, aproveitando o contato. Desceram as escadas da torre juntos, sem dar atenção aos guardas a postos em dupla em cada andar — havia um festival acontecendo lá embaixo na cidade, também, e Selena sabia que Jaime, em uma exibição rara de cuidado consigo mesmo, se permitira a noite livre para passá-lo com sua família. Alguns outros guardas também haviam sido liberados, mas, por mais que parecesse vazia, a torre continuasse tão bem protegida quanto sempre.
Os corredores do castelo estavam tão desertos quanto, e Selena mal podia conter a antecipação de saber que quase todos no palácio estavam no salão, que o baile era realmente naquela noite. Depois de semanas ouvindo o burburinho de expectativa, esperava que a noite fosse no mínimo inesquecível; ela nunca deixaria de se encantar pelas festas na corte.
Confessou aquilo para Morzan, e ele lhe sorriu de volta, apenas um erguer mínimo de um canto dos lábios. Não lhe disse mais nada, porém, a guiando até o salão com a mesma calma daquela primeira noite de Selena em Urû'baen. Os nobres amontoados no corredor principal vestiam roupas dos mais diversos tons de marrom, laranja e amarelo, ela percebeu, mas nenhum se aproximava do vermelho de seu vestido, e não havia mais ninguém usando preto, tampouco — além, talvez, do próprio Galbatorix. Ela e Morzan se destacavam de uma forma bastante óbvia, e com certeza intencional.
As grandes portas de madeira estavam abertas, e, dentro do salão, a decoração era incrível. Um tapete dourado cobria o chão no grande vão deixado entre as mesas de banquete — o espaço cuidadosamente calculado para a dança — e buquês de flores ressecadas adornavam o lugar a intervalos regulares. Os véus delicados que cobriam as paredes eram de todas as cores características do outono, bordados com os desenhos de folhas soltas muito delicadas.
Pararam na entrada, por um momento apreciando o modo como muitos dos nobres os olhavam e murmuravam entre si sem qualquer discrição, e Selena sabia, sem nem mesmo precisar vê-lo, que Morzan sorria. E então ela engoliu em seco ao perceber o homem alto, as vestes feitas inteiras de fios de ouro, que se aproximava deles de modo muito casual.
Mas Aleifar apenas lhe ofereceu uma mão, e, quando Selena a aceitou, surpresa, se abaixou educadamente para beijar a dela. “Senhora Selena,” ele cumprimentou, um sorriso discreto e não inteiramente sincero nos lábios cheios, os olhos verdes brilhando para ela por trás de uma máscara dourada. Seus cabelos loiros caíam em cachos bonitos sobre seus ombros, mas ele não devolveu sua atenção por muito tempo; voltou-se para Morzan, ainda sorrindo, e disse numa voz bastante baixa, “Sinto algo estranho vindo de Kialandí e Formora.”
Morzan sorriu também, e era como se estivessem falando de algo completamente diferente. “Estranho como?”
Ele continuou puxando Selena pelo salão, calmo como sempre. Perto da mesa principal, Alexis usava um vestido que combinava perfeitamente com o de seu irmão gêmeo, cercada pelo grupo de damas que a seguia a todos os lugares. Kialandí e Formora estavam parados juntos, mas distantes do resto das pessoas — ele com vestes verde oliva, ela de calças claras e túnica marrom — e não havia nada de diferente neles que Selena pudesse perceber.
“Um ar de expectativa,” Aleifar respondeu, “e de satisfação. Bastante sutil, mas ainda assim.”
“Nada anormal,” Morzan replicou, inclinando o rosto para retornar o cumprimento de um nobre próximo. Ele voltou os olhos díspares para o outro Cavaleiro, e não pareceu preocupado. “E especialmente não hoje.”
“Não é o sentimento mais comum que detecto em suas mentes.” O sorriso de Aleifar foi quase amargo. “Não que eu consiga perceber tanto assim. Mas, de qualquer forma, recomendo certa cautela.” O olhar dele se voltou para Selena mais uma vez, muito breve. “Mantenha seus bens mais preciosos por perto, hoje e nas próximas semanas. Não pode ser um cuidado assim tão desagradável a se tomar.” E, com aquela nota desconcertante, se afastou em direção a sua irmã.
Selena o observou ir, dividida entre o modo como o homem sempre a incomodava um pouco e um começo de alarme por seu aviso. Aproximou-se um pouco mais de Morzan, ousando abaixar um quase nada as barreias em torno de sua mente para conseguir tocar a dele, e perguntou, Devemos nos preocupar?
Não, veio a resposta. Acho que não. Ele desvencilhou o braço do dela, só para passá-lo então em volta de sua cintura, e a manteve muito perto enquanto começava a cumprimentar educadamente os nobres mais importantes. Selena sorriu para todos o sorriso doce que deveria sorrir, mas se permitiu ainda certa frieza no olhar, e era um deleite perceber, não pela primeira vez, como o modo como era tratada vinha mudando.
Via receio em olhares que antes eram carregados de superioridade, como se os nobres não soubessem bem o que pensar e esperar dela — os rumores daquela sua primeira missão contra os homens de Fäelan eram abundantes, por mais que em sua maioria exagerados e incorretos, e ela havia feito mais depois, também —, como se não soubessem se deveriam ou não temê-la. A arrogância ainda permanecia, é claro, e Selena sabia que nunca esqueceriam que ela não era uma deles, mas agora havia uma dose real de medo a acompanhando.
Era quase respeito, e ela descobria que não se importava de fato com a diferença.
Ao seu lado, Morzan parecia ainda mais satisfeito ao manobrar as conversas educadas com cuidado, e, mais tarde, ele passou o banquete inteiro traçando círculos distraídos sobre a mão de Selena, por mais que sua atenção estivesse voltada completamente para sua conversa com o rei. (Galbatorix usava apenas preto, também, e Morzan era o único cujas vestes chegavam perto da paleta de suas roupas).
E ela gostava de escutar a conversa dos dois, reparando no tom suave com que falavam um com o outro e nas inúmeras referências discretas a coisas que Selena não tinha qualquer chance de conhecer. Não se intrometia, se não por mais nada por ainda não se sentir confortável ao falar com o rei, e só falava se eles se dirigissem a ela, mas desfrutava sem culpa da sensação de que ouvia algo importante, de que estava muito próxima de segredos imensos. Talvez, um dia, reunisse a coragem para perguntar a Morzan sobre eles, imaginando o quanto ele estaria disposto a lhe contar.
Prestava certa atenção, também, na conversa que Aleifar e Alexis tinham de seu outro lado, sobre uma dama cujo nome Selena não conhecia — o tom arrogante de Aleifar permanecia ao se referir às outras pessoas, ela percebeu, mas se amainava consideravelmente quando ele falava com a irmã, e a verdade talvez fosse que cada um dos Renegados possuía um ponto diferente onde seus espinhos sumiam e sua atenção se tornava mais gentil. Não era algo que ela visse com frequência por parte dos Treze — a não ser com Morzan —, mas não era como se conhecesse tanto de seus lados mais ferozes, tampouco.
Afastou aqueles pensamentos de sua mente, observando em vez disso os nobres que terminavam seus pratos e se juntavam em pares no centro do salão, dançando com graça e habilidade, além de uma precisão delicada que não era nunca vista nas festas em Carvahall. Havia momentos em que os pares nem mesmo se tocavam, as palmas das mãos a meros centímetros uma da outra, mas em todos os movimentos era necessário que o par se mexesse em perfeita sincronização.
Era um rodopiar de marrom, laranja, e amarelo, e Selena se permitiu se perder nas cores, na música, na dança. Não percebeu, então, quando Morzan ficou em silêncio ao seu lado — o rei se pusera a conversar com Kialandí — até que ele tomou sua mão na sua. A levou aos lábios para plantar um beijo muito suave em sua pele, e ergueu os olhos díspares para ela.
“Está se divertindo?”
A verdade era que Selena não precisava de muito para se divertir, não em noites como aquela. Se maravilhava muito facilmente com as luzes e as decorações, com os vestidos e as comidas, e chegava a apreciar os momentos que tinha em silêncio para absorver tudo aquilo. “Poderia estar me divertindo mais,” replicou, no entanto, só para ver sua reação.
Os olhos de Morzan faiscaram sob a luz das lanternas, e ele sustentou seu olhar por um instante antes de sorrir. “Acha que está pronta para dançar em um baile como este?”
As lições de dança de Selena haviam, admitidamente, sido menos frequentes que outras, mas isso não significava que sua dedicação houvesse sido menor. “Estive pronta há semanas.”
Ele se ergueu, lhe oferecendo um braço, e a guiou para o centro do salão conforme a nova música começava. Tomaram suas posições, e ao olhar em seus olhos díspares, ao sentir suas mãos em sua cintura e sob a sua, Selena teve a certeza de que, por mais que se saísse bem em encarar de frente os nobres, em manter a frieza no rosto, não seria nunca capaz de esconder o que sentia por ele.
E, conforme a dança começava, percebeu também que pouco importavam quaisquer falhas em suas aulas. Morzan a guiava com a mesma facilidade que demonstrara ao lhe ensinar todo o resto, os movimentos graciosos e praticados de quem tinha décadas de experiência.
E então, inesperadamente, ele tomou sua mão e a rodopiou no lugar, sem se importar com os passos corretos e os olhares dos nobres a sua volta. Selena permitiu que Morzan a puxasse contra si, rindo, inebriada pelo baile e a dança e também por ele.
Não percebeu de imediato o burburinho que correu o salão, mas viu os olhos de Morzan endurecerem por trás da máscara, e se virou para as portas quase que com alarme.
O homem parado na entrada não usava máscara alguma — como apenas o rei — e suas vestes delicadas eram de um tom profundo e escuro de cinza. Seus cabelos prateados caíam, lisos e compridos, por trás de seus ombros; ele examinava o salão com uma calma quase fria, confiante e também arrogante.
Morzan deu um passo para frente, se colocando na frente de Selena de forma muito suave, mas seu movimento não foi necessário para que ela entendesse. Não era possível não reparar nos traços delicados e tão claramente élficos de seu rosto, e ela o reconhecia de seu livro de qualquer forma.
Fäelan.
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