Shiver
48 Capítulo 48
Notas iniciais

Aquela parte do palácio parecia, de alguma forma, mais fria. Os guardas parados aos lados da porta de madeira escura usavam túnicas de um azul profundo sobre as cotas de malha, e mal olharam para Selena antes de anunciá-la. Ela entrou na sala sem ser de fato recebida, se permitindo um instante para tomar nota de todos os detalhes; nunca havia estado ali antes.
O tapete cobrindo o chão de pedras claras era do mesmo tom de azul das tapeçarias na parede do fundo — mostravam um céu noturno com impressionante detalhe, linhas finas ligando as estrelas prateadas e formando constelações —, a mobília de madeira escura combinando perfeitamente. Mas foi para as estantes que cobriam o resto das pares que Selena entreabriu os lábios, maravilhada pela coleção de livros, pergaminhos e objetos. Títulos dourados sobre lombadas de couro, rolos empilhados com exatidão, instrumentos belos e complexos cujo propósito ela não saberia dizer.
“Impressionante, não é?”
Selena se virou para o homem estirado no sofá. Ele tinha cabelos loiros que caíam em cachos sobre seus ombros, um pergaminho em uma das mãos, e os pés descalços, e, por mais que não houvessem se conhecido, ela sabia quem ele era. Já tinha ouvido falar de seus olhos cinzentos distraídos, de seus poemas por vezes ousados, por vezes etéreos, e sabia que era ele era o preferido de Enduriel dentre seus amantes, por mais que o elfo talvez não sentisse nada maior que um distante afeto por qualquer um deles. Dorian.
“Eu vejo todos os dias,” ele continuou, os olhos correndo pelas paredes antes de voltar para ela mais uma vez. Parecia ter trinta anos, ou só um pouco mais. “E ainda assim...”
“É,” Selena concordou, a voz muito pequena. “Estou procurando por Lorde Enduriel?”
Dorian olhou para cima devagar, como se considerasse o teto. “Ele está ocupado, temo. Quem tem importância tem também responsabilidades, mesmo que preferisse que não. Mas você sabe disso.”
“Sei?”
“Não sabe?” Ele sorriu. “Você se tornou um pequeno mistério entre nós, Senhora Selena, desde que apareceu nos braços de Morzan. Ninguém parece saber de onde veio, embora, olhando para você agora, eu imagine que tenha crescido entre grama alta e sob o céu estrelado, e não em meio às casas de pedra das grandes cidades.”
“Eu nasci no norte,” ela disse, fazendo uso da resposta praticada sem qualquer remorso. “E você?”
“No sul,” ele respondeu. “Na corte dos nobres de Petrøvya, às margens do lago Tüdosten.” Talvez vendo a confusão no rosto de Selena, esclareceu, “Em Surda. Parti para o norte em busca de experiências, de um pouco de magia, e, é claro, dos elfos.”
“E encontrou um.”
“O melhor. Eu esperava ter encontrado mais, mas a floresta não é um lugar para humanos.” Os olhos de Dorian pareciam muito distantes. “Todos sentimos falta de algo.” Ele avistou o pacote nos braços de Selena. “Isso é para ele?”
“Sim. De Morzan.”
Ele deixou o pergaminho que lia sobre a mesa de centro. “Eu a levarei até ele.” Se levantou, e usava calças escuras e fios prateados corriam por sua camisa, mas suas roupas ricas estavam também charmosamente desarrumadas. “Não suponho que esteja te esperando?”
“Imagino que não,” Selena respondeu, o seguindo até a escada circular e observando como ele subiu descalço os degraus de pedra. “Mas duvido que Lorde Enduriel se surpreenda em me ver.”
“Ele não costuma se surpreender.”
As lanternas nas escadas tinham brilho azulado, também, e pingentes de prata e cristais pendiam debaixo de cada uma. Era tudo muito bonito, mas Selena também suspeitava que não fosse exatamente o que encontraria em meio aos elfos de fato. “Ele é bom em prever os acontecimentos, então?”
“Não é isso, tampouco. Você diria que Morzan o é?” Dorian pareceu perceber o instante de hesitação de Selena, e sorriu mais uma vez. “Ainda não esteve com ele tanto tempo, não é? Vai conhecê-lo melhor, mais cedo ou mais tarde, e com sorte tê-lo por mais alguns anos depois disso.”
“Você conhece Lorde Enduriel bem?” Selena perguntou, muito embora não devesse demonstrar tanta curiosidade. Nunca havia encontrado um amante humano de outro dos Treze — além de Jaime, é claro — e não podia evitar se sentir estranhamente atraída, por mais que Dorian não fosse como homem algum que ela conhecesse.
“Melhor do que outros,” ele disse, e Selena entendeu a negativa escondida na frase. Talvez ninguém conhecesse de fato o elfo, supôs, ou talvez houvesse simplesmente coisas que ele não discutia com amante algum.
Dorian parou depois de dois lances de escada e abriu a porta sem bater, casual por completo. Ela não teve escolha senão segui-lo, insegura, para dentro do estúdio. As paredes lá eram também cobertas por livros, e Enduriel falava com a imagem de um homem de pele escura, projetada em um espelho por magia.
Ele se virou ao ouvir a porta se abrir, porém, e atrás dele o homem pareceu se dissolver como fumaça. O elfo tinha os cabelos negros lisos, os olhos muito azuis, e ergueu um quase nada as sobrancelhas. “Senhora Selena.”
Dorian olhou para Enduriel por sob cílios claros antes de inclinar a cabeça na direção de Selena uma última vez. “Foi um prazer,” disse, e saiu do aposento, fechando com cuidado a porta atrás de si.
“Meu senhor,” ela cumprimentou. “Espero não estar interrompendo.”
“Era só o administrador de minha propriedade,” o elfo dispensou sua preocupação. Sua túnica lhe servia bem, em tons variados de azul, e as calças cinzentas claras sugeriam uma moda certamente influenciada pela humana, mas ainda assim outra. “O que a traz aqui?”
“Eu trago um presente,” Selena respondeu, e lhe ofereceu o pacote cuidadosamente embrulhado. “De Morzan.”
Enduriel o tomou com dedos longos, soltando o laço e desfazendo graciosamente o embrulho, e acariciou a capa de couro do livro antes de puxar para si a carta sobre ele. Seus olhos correram pelo texto por alguns instantes, sem pressa, e Selena fechou as mãos atrás das costas, resistindo ao impulso de mudar o peso de perna ao esperar.
Em vez disso, observou o estúdio. As janelas altas atrás de Enduriel mostravam o céu do começo da noite, e, apoiado em uma mesa sob uma delas, havia um belo astrolábio de ouro, os intricados círculos de metal belos o suficiente para servir até mesmo de decoração. Na escrivaninha, pergaminhos estavam espalhados com pouca organização, e ela se permitiu correr os olhos por eles discretamente, procurando por qualquer sinal de algo que não devesse estar ali. Já nas estantes era possível encontrar uma variedade de livros tão grande quanto na sala lá embaixo, e Selena sentia vontade de se aproximar para examiná-los um a um.
E então Enduriel depositou a carta com cuidado sobre a escrivaninha e lhe ergueu os olhos azuis. “Sabe qual é este livro, Senhora Selena?”
Ela não sabia, de fato. Morzan lhe contara apenas que era valioso e que tratava sobre alguns dos maiores mistérios da história — o que fazia com que ela se sentisse apenas um pouco ressentida que fosse para Enduriel que ele o estava dando —, e não entrara em detalhes. “Não tão bem, meu senhor.”
“Foi escrito por um Cavaleiro humano,” Enduriel contou, a voz melodiosa distante, quase como se estivesse se lembrando do ocorrido. “Há cerca de dois séculos. Ele era jovem, e havia se juntado à ordem havia poucas décadas, apenas. Se descobriu entediado em meio a seus deveres, e partiu por uma viagem por toda a Alagaësia, coletando informações sobre os maiores mistérios da terra. A série de assassinatos cujo culpado nunca conseguimos encontrar em Kuasta, a princesa que desapareceu de seu quarto no topo da torre mais alta de Ilirea. E então sobre questões maiores: tudo o que não entendemos sobre o mundo, tudo o que não ainda não conseguimos alcançar com magia. Ele era da opinião de que tudo é possível caso se tenha energia e conhecimento o suficiente, e talvez estivesse certo.”
O elfo abriu o livro para correr as pontas dos dedos sobre uma iluminura extraordinária, e continuou, “O autor está morto agora, é claro. Apenas duas cópias de seu trabalho sobreviveram à Queda, e a melhor delas está a salvo na biblioteca pessoal do rei. Morzan ficou com a outra.” Ele bateu com o indicador na página, de leve. “É inteiramente um trabalho humano, do texto às iluminuras, e um presente magnífico. Agradeça a ele por mim.”
O valor era inestimável, Selena sabia, e Morzan havia mandado que o livro fosse restaurado em preparação para ser dado a Enduriel. “Eu irei, meu senhor.” Ela hesitou um instante. “E sua resposta?”
Enduriel sorriu. “Eu não tomarei decisões precipitadas, Senhora Selena. Mas Morzan não tem por que se preocupar, não no que diz respeito a mim; não tenho intenção de me voltar contra ele.”
Ela estudou seu rosto, seus traços elegantes quase aristocráticos, os detalhes de sua aparência que certamente não eram humanos. “E Lorde Fäelan não entrou em contato com você?”
“Ele não entraria. Pode perguntar a Kialandí e Formora, se quiser, ou ao rei; ele sabe mais que nós, é claro, por mais que não tenha revelado nada a Morzan.”
Era uma afirmação desconcertante. “Morzan é o favorito do rei.”
“E por si só, isso não lhe adianta em nada. Ele ainda pode vencer esse jogo, mas não será fácil, e não sairá ileso tampouco. Estávamos em um equilíbrio muito delicado nesses últimos anos, e Morzan tem muito a perder.” Ele examinou seu rosto. “Você sabe disso, Senhora Selena.”
“Nós já frustramos os planos de Lorde Fäelan uma vez.”
“Ou parte deles. Tenho certeza de que ele se impressionou, como todos nós, com o que você fez, mas Fäelan continua sendo o mais velho e o mais experiente dentre os Treze. Morzan não pode ter cautela excessiva, não agora.”
Selena respirou fundo uma vez antes, devagar. “E você não quer manter as coisas na corte como estão, meu senhor? A vitória de Fäelan não o incomodaria?”
“Seria inconveniente, mas pior caso eu me colocasse em oposição direta a ele. Não me interesso por tais esquemas, e todas essas pequenas intrigas me parecem demasiado cansativas. Ainda assim, eu simpatizo.” Ele fechou o livro com um baque surdo, e deu a volta na escrivaninha para abrir a porta para ela. “Diga a Morzan que eu agradeço o presente, Senhora Selena, e que me posicionarei no momento oportuno.”
Enduriel se despediu dela com um inclinar leve da cabeça, e ela imaginou se sentando à mesa, examinando com cuidado cada detalhe do livro. Desceu as escadas sozinha, e Dorian não estava mais em lugar algum à vista. A resposta de Enduriel não fora pior do que esperara, e de fato quase promissora.
Morzan lhe garantira, antes naquele dia, que seria tolice esperar algo mais concreto de um elfo. No entanto, ao voltar para os corredores do palácio, Selena sentia a satisfação sutil de um trabalho bem-feito, e se permitiu o conforto de um sorriso muito pequeno.
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