Shiver

46 Capítulo 46


Notas iniciais
boa leitura, my loves ♥

Os cobertores eram muito confortáveis, erguidos até seu queixo, e apenas um raio fino de sol entrava pela fresta entre as cortinas pesadas que escondiam sua cama. Selena se sentiu tentada a mais uma vez se render ao sono, ao conforto da escuridão e do colchão macio, ao privilégio de não precisar ainda encarar a verdade, mas sabia que não estava sozinha no quarto, que a manhã se esvaia mais rapidamente que a lembrança de seus sonhos.

A noite anterior parecia muito distante em sua mente; os lábios de Morzan urgentes contra os seus, o modo como ela acabara por se afastar e insistir em voz baixa que precisava de um banho. A água muito quente da banheira, a ânsia nova e quase desesperada de tirar as manchas vermelhas de sua pele, os dedos de Morzan se fechando com carinho sobre seu pulso.

“Não esfregue tão forte, Sel,” ele havia lhe dito, tão gentil. “Sangue é fácil de lavar.”

Selena respirou fundo antes de se sentar na cama, correndo uma mão pelos cabelos e afastando dos olhos uma mecha dos fios castanhos. Adiantou-se para afastar as cortinas e espiar o quarto, e não se surpreendeu ao ver Morzan sentado à escrivaninha, um pergaminho a sua frente e uma pena na mão, mas o rosto já voltado para ela.

Ele a estudou por um instante longo, e, quando falou, não lhe perguntou como se sentia, sobre como fora seu sono. “Você parece bem,” ele comentou, e ainda havia em seus olhos díspares uma sombra da emoção da véspera.

Ela lhe ofereceu um sorriso fraco. “Só cansada.”

Morzan pendeu a cabeça para o lado, quase curioso. “Ainda?”

“Há algo...” Selena hesitou, deixando escapar um suspiro, e correu os olhos pelo próprio quarto. A penteadeira na frente da qual se sentara enquanto Emma arrumava seu cabelo era exatamente a mesma, assim como o tapete, o armário, o baú de madeira escura. “Precisamos fazer algo hoje?”

“Mais tarde,” ele respondeu, afastando sua preocupação como se não fosse nada. “Ainda não por algumas horas. Mas você eu precisamos conversar.” Morzan lançou um olhar rápido ao pergaminho onde escrevia, depositou a pena com cuidado sobre o tinteiro, e se levantou. “Está com fome?”

Selena cruzou as mãos sobre a barriga, se sentando melhor no lugar, as pernas dobradas sob si. “Um pouco.” Ela o observou atravessar o quarto e falar com o guarda do lado de fora, reparando em como ele estava completamente vestido, embora ainda descalço, e decidiu que não tinha vontade alguma de tirar a camisola macia. Esperou que Morzan voltasse a fechar a porta. “Obrigada.”

Ele sorriu. “E pelo quê?”

“Por ter esperado que eu acordasse.” Ela encolheu os ombros. “Não ter me deixado sozinha.”

“Você merecia ao menos isso, não acha?” Morzan se sentou de lado na cama, uma perna dobrada sob a outra, e tomou uma de suas mãos nas suas. “Depois do que fez ontem.”

Selena mordeu o interior da bochecha. “Eu não tenho certeza se entendi bem tudo o que isso significa. Se era Fäelan organizando os ataques, devemos esperar que ele volte para a corte mais cedo e não mais tarde? O homem que liderou a emboscada parecia ser mais importante que os outros, mas era de fato quem estava no comando do resto? Agora que eu o matei, os mercadores estão seguros? E o que Fäelan quer? O homem me chamou de seu brinquedo.” Ela franziu o nariz, incomodada e indignada ao mesmo tempo, e perguntou, “Qual o nosso próximo passo?”

Morzan riu baixo, parecendo divertido ao ouvi-la falar. “Ele pagou com sua vida por chamá-la de meu brinquedo, não foi?” Ele correu o polegar pelas costas da mão de Selena em uma carícia suave. “Acho que podemos confiar que os mercadores estejam a salvo, ao menos por enquanto, e eu diria que Fäelan logo vai retornar para a capital. O que ele quer, por outro lado, é mais complicado.”

“Se... Se ele estava atacando seus aliados, é porque quer enfraquecer o resto de vocês, não? Talvez queira um lugar seguro ao lado do rei? Mais poder e influência?”

Ele sacudiu a cabeça, desdenhoso. “Fäelan pode querer o que quiser; é em mim que Galbatorix mais confia, e isso não está prestes a mudar.”

“Bem, eu não o conheço, não sei quais são suas ambições e seus desejos,” Selena disse baixinho. “Não posso te ajudar aí.”

“Não?” Morzan sorriu mais uma vez. “Você perguntou qual será nosso próximo passo, e a resposta aqui não é se preocupar demais com Fäelan. Eu tenho outros rivais, outros inimigos, e não posso me dar ao luxo de me focar nele exclusivamente. Fäelan pode ser perigoso — e ele é perigoso, Sel, não tenha dúvidas — mas ontem você mostrou a ele que se mover contra nós não será fácil. Então o que acha que devemos fazer agora?”

Ela hesitou. “Descobrir o que Fäelan quer e planeja é importante,” começou com cuidado, “mas se você diz que não podemos fazer dele o único foco, o certo seria...” Mordeu o interior da bochecha, pensando. “Se voltar para as suas alianças e se certificar de que você esteja tão forte quanto possível para enfrentar a ele e todos os outros?”

Morzan inclinou a cabeça para ela em um elogio discreto. “Exatamente.”

Alguém bateu na porta, e ele desviou os olhos de cores diferentes. Selena se ergueu para vestir o robe vermelho enquanto Morzan atendia ao chamado, se permitindo um instante maior que o normal para amarrar os cordões dourados ao redor da cintura e absorver bem o que ele lhe dissera.

Voltou-se para vê-lo apoiar com cuidado uma bandeja de prata sobre a cama, e ergueu o queixo em direção à porta. “Eles todos sabem?”

“Sabem um pouco, mas ninguém lhes contou os detalhes.” Morzan pareceu interpretar corretamente sua expressão, e seu olhar se suavizou um quase nada. “Não seria inteligente tentar esconder por completo o que aconteceu, Sel. Isso ensinará as pessoas a te respeitar, até mesmo temer. Se ninguém soubesse, não ganharíamos mais nada com isso; deixar que saibam um pouco tende a fazer com que a história cresça, que os rumores se espalhem, e garante que você será conhecida.”

“Não eu, exatamente,” ela respondeu, se sentando novamente.

Ele empurrou pão e queijo em sua direção, assim como uma taça de prata. “O que também é bom.”

Selena experimentou uma mordida pequena. “O que vamos fazer, então?”

Morzan a estudou com cuidado antes de explicar, “Convidei o resto dos Treze para um jantar esta noite, e o que faremos durante a refeição é lhes contar um pouco do que aconteceu, tentar descobrir o quanto já sabiam, julgar quais deles poderemos esperar ter do nosso lado e contra Fäelan. Não espero poder tirar conclusões definitivas, mas preciso entender melhor qual é a situação que enfrentamos aqui.”

“E algum deles se juntaria a Fäelan? Todos sofreram seus ataques.”

“Alexis e Aleifar só se aliariam a ele se tivessem certeza de que ele será bem sucedido, então podemos ter razoável confiança de que os gêmeos continuaram conosco. Enduriel não costumada dar atenção aos jogos de poder da corte, e seria preciso um apelo a seus interesses pessoais para conquistar sua lealdade.” Morzan dispensou a possibilidade com um gesto da mão. “Não vai acontecer, imagino, porque no fim ele não vale o esforço. Mas Kialandí e Formora são um risco.”

“E eles já não gostam de você.”

“Não.”

“É essa nossa estratégia, então? Nos certificar de que você tem a lealdade de Alexis e Aleifar, tentar convencer Kialandí e Formora de que eles ganhariam mais se não se aliassem a Fäelan?”

Morzan riu, sacudindo a cabeça. “Não, Sel. Minha estratégia é você.”

Selena parou com a taça em meio caminho à boca, a devolveu à bandeja. “Eu?”

“O que você provou para mim ontem é que é perfeitamente capaz de improvisar em situações difíceis, de que é capaz de conjurar feitiços complexos com palavras simples na Língua Antiga, que sabe lidar com complicações inesperadas e contornar as estratégias dos outros, de perceber coisas que muitos deixariam passar.” Ele estendeu uma mão para a dela novamente. “Sel, eu sempre suspeitei que você tivesse grande potencial, e ainda assim você conseguiu me surpreender. Não é algo que aconteça com frequência.”

Ela franziu a testa, incrédula. “E você realmente acha que eu possa fazer alguma diferença real contra Fäelan? Morzan, seus criados são uma coisa, mas um elfo, um membro dos Treze em pessoa... Eu nem mesmo aprendi tudo o que deveria. Não sei se seria capaz de tanto.”

Ele só sorriu. “E você é inteligente. Eu não te mandaria enfrentá-lo diretamente, é claro, mas espiar seus servos? Frustrar seus planos e parar seus homens? Isso você pode fazer. Na corte e fora, eu sei que posso contar com você para me ajudar a conseguir o que preciso, sei que você é engenhosa o suficiente para fazer tudo o que peço e mais. E sei que posso confiar completamente em você, Selena, o que não é de forma alguma comum.”

“Você está dizendo que quer que eu faça...” Selena hesitou, perdida ao tentar achar as palavras certas. “Que eu seja...”

“Minha companheira, minha aliada mais valiosa, minha maior arma.” Morzan se abaixou para beijar sua mão, e ergueu os olhos díspares apenas para ela. “Minha Mão Negra.”

Notas finais
e aí, gostaram? nos vemos nos comentários ♥