Shiver

45 Capítulo 45


Notas iniciais
OI MEUS AMORES ♥ este capítulo ofc-como-sempre-etc vai para a miss ceci, por ser múltiplo de três e tudo. ele é bem curtinho (me lembrem de escrever os próximos bem grandes pra compensar!), mas espero que gostem mesmo assim. boa leitura!

Os olhos dos guardas a seguiram quando Selena passou pela entrada dos servos, quando subiu os corredores da torre, e finalmente quando bateu na porta do estúdio de Morzan. Ela via choque em seus rostos, via confusão e uma nota de apreensão, e fazia o que podia para ignorá-los. Neil a seguia de perto — ele havia lhe garantido que a coisa certa a fazer seria deixar os corpos onde estavam para a guarda da cidade encontrar pela manhã (Morzan assumiria responsabilidade por eles se quisesse) e voltar o mais rápido o possível para o palácio —, lhe garantindo, se não mais nada, a segurança de que ninguém tentaria pará-la por qualquer motivo que fosse.

Ela não teve a paciência para esperar mais do que um instante antes de bater de novo, o broche de metal que ainda segurava com força machucando um pouco sua mão. Estava prestes a insistir mais quando a porta se abriu, e, se conseguira até então não dar atenção aos guardas, não pôde evitar ver a reação seu capitão.

Os olhos verdes pálidos de Jaime se arregalaram perceptivelmente, e ele encarou o estado de seu vestido como se nunca antes houvesse visto sangue. Selena se irritou com o modo como seus lábios se entreabriram em horror, com o vinco entre suas sobrancelhas escuras, mas sustentou seu olhar.

“Morzan está aqui, sim?” Perguntou, muito embora já soubesse.

Jaime assentiu, mudo, e deu um passo para o lado, abrindo mais a porta para deixá-la entrar. Atrás dele, o estúdio tinha estantes que cobriam uma parede inteira, tapete vermelho sobre o chão, janelas que davam para a noite escura. Carvões ardiam no braseiro, e havia uma bandeja com pães e queijo sobre a escrivaninha ao invés de pergaminho e livros.

Morzan se sentava atrás dela, de costas para as janelas, uma taça de prata nas mãos e os pés esticados sob a mesa, o fantasma de um sorriso nos lábios. Ele ajeitou a postura ao ver Selena, no entanto, o brilho em seus olhos díspares dando lugar a uma seriedade não inteiramente preocupada ao tomar nota de seu estado.

Depositou a taça sobre a escrivaninha, o som parecendo muito alto no cômodo silencioso. “O que aconteceu?”

Selena podia sentir o coração batendo forte no peito, mas manteve o queixo erguido ao se aproximar para soltar o broche a sua frente. “Acho que desvendei seu mistério.”

A joia parecia muito frágil entre os dedos compridos de Morzan quando ele a pegou, o metal escuro detalhado o bastante para que fosse possível ver minúsculas escamas sobre o corpo do dragão, as labaredas de fogo tão finas em alguns pontos que parecia impossível que não se partissem com facilidade. O Cavaleiro a observou com cuidado, compreensão fazendo com que suas sobrancelhas negras se erguessem um quase nada, e é claro que ele entendeu mais rapidamente do que Selena.

Ela demorara a se recordar do livro que Eron lhe dera, das iluminuras com que não se preocupara tanto por saber que dificilmente seriam relevantes naquelas primeiras semanas na corte. O desenho de um dragão de escamas cinzentas e olhos tão escuros, quase sem cor, do elfo de aparência fria, distante, inteligente.

“Fäelan,” Morzan disse, transformando o nome em uma maldição. Ele ergueu os olhos para ela mais uma vez. “Conte-me tudo.”

E Selena obedeceu. O começo era simples o bastante — o caminho até a taverna, o modo como as horas pareceram se alongar e como o suspeito nunca chegou a apareceu. Mas ela tomou cuidado especial ao descrever como se dera a emboscada, recontando todos os detalhes de que se lembrava dos homens armados, se esforçando para repetir tão bem quanto podia as palavras de seu líder.

Confessou o que sentira, também, e o que pensara, porque imaginava que Morzan fosse querer saber. O breve pânico ao perceber o que acontecia, a inquietação de saber que o homem servia a alguém que se achava superior ao primeiro dos Treze Servos, o momento em que tentara usar magia e falhara, o instante em que considerou pedir por ajuda.

Quando explicou a falha nos encantamentos de proteção dos homens, pensou ter visto uma pontada de alarme nos olhos de Morzan, mas ele não a interrompeu. Prestou total atenção quando ela tentou por em palavras o feitiço que usara, o raciocínio por trás, e o que os homens se tornaram depois. Descreveu seus olhos vazios, o modo como eles pareceram apenas levemente contentes, e sua decisão de matar a todos.

“Eu pensei,” Selena disse, procurando pela explicação certa, “eu pensei que não iríamos querer testemunhas do que ocorreu, que não seria inteligente deixar um rastro que quem quer que fosse que estivesse por trás dos ataques pudesse seguir. Eles podiam não me oferecer mais perigo, mas suas mentes ainda estavam lá, acho, e tão fáceis de examinar. Eu deveria ter poupado um, deveria ter previsto, mas imaginei que não soubessem de muito, que fosse seu líder quem importava, e pedi... Eu mandei Neil o imobilizar.”

Ela mordeu o lábio, olhando em volta, um pouco perdida. Morzan a observava com os lábios cheios entreabertos, os olhos díspares muito escuros.

“Ele se matou com um feitiço,” ela continuou. “E eu deveria ter esperado por isso, e então talvez houvesse trazido alguém que pudéssemos questionar. Mas vi o broche, percebi que era uma joia fina demais para um homem como aquele — para qualquer homem —, e reconheci o dragão de meu livro. E então entendi.”

Ela devolveu o olhar de Morzan. Ele lhe dissera, antes, que Fäelan não pisava na corte há anos, e, além da carta quando voltara, não havia ouvido do elfo tampouco. Morzan poderia ser antigo como um elfo, mas ainda era humano, e sentia o tempo como um humano, Selena sabia — se algumas semanas talvez já fossem o suficiente para que algo escapasse de sua mente, anos com certeza eram.

“Fäelan,” Selena repetiu.

Procurou no rosto de Morzan por alguma reação, mas não conseguia lê-lo tão bem. Sugou a respiração quando ele arrastou para trás a cadeira, o movimento muito abrupto, para dar a volta na mesa e se aproximar dela. Morzan tomou seu rosto nas mãos, sem parecer se importar que o pescoço de Selena ainda estivesse coberto por sangue não inteiramente seco, e a beijou.

Ela suspirou contra seus lábios, surpresa, e então Morzan passou um braço ao redor de sua cintura, a puxando contra si e fazendo com que seus calcanhares deixassem o chão. Ele a beijava com uma intensidade inteiramente nova, e Selena passou os braços também ao redor de seu pescoço, os dedos dos pés se encolhendo um pouco dentro das botas.

Quando ele se afastou, o tecido vermelho de sua própria camisa se manchara também. Selena perdeu um instante observando seus lábios antes de encontrar seus olhos tão escuros, e teve a certeza de que confirmara alguma suspeita sua, de que algo entre eles mudara para sempre.

“Sel,” Morzan disse, sacudindo a cabeça, e deixou escapar um sopro de riso antes de beijá-la novamente.

Notas finais
reviews deixam uma autora feliz !! hahah amo vocês e espero que tenham gostado ♥