Shiver

24 Capítulo 24


Notas iniciais
(de novo, correndo o risco de dar spoilers, TW para tortura e violência)

O modo como o dia havia começado parecera mágico, e, agora, muito, muito distante. Eles haviam saído para almoçar em uma taverna rica próxima ao centro da cidade, e passado a tarde explorando os mercados de Belatona. Selena já ouvira falar que os artesões da cidade eram incríveis, mas nada a preparara para os mercados em si – para as barracas coloridas montadas na grande praça da cidade, para como você poderia examinar as armas que um mercador vendia só para encontrar o próximo exibindo pães e doces elaborados.

Ela se maravilhara ao ver a explosão de cores no que até então parecera ser uma cidade de tons de cinza e bege, e fora quase inconscientemente que entrelaçara seus dedos nos de Morzan. E então percebeu o que fizera, e sentiu uma onda enorme de alívio ao constatar que ele não tinha intenção alguma de se afastar. Em algo que parecia saído direto de uma história, Morzan a puxara pela mão para lhe mostrar o mercado, o tempo todo falando baixo com Jaime sobre uma ou outra coisa com que teriam que lidar uma vez que voltassem para Urû’baen.

E agora Selena se recostava contra a parede de uma cela muito quente, observando Morzan invadir a mente de um prisioneiro loiro e ditar uma lista de pessoas e como encontrá-las para Jaime anotar. Os olhos claros do capitão da guarda insistiam em voltar para ela, preocupados, mas Selena já não se sentia perturbada pelo que presenciara naquela noite sem lua.

Ela não sentia absolutamente nada.

Morzan abriu os olhos, e o alívio que Selena detectou no rosto do prisioneiro foi mínimo. Ele não tentou se afastar do toque do Cavaleiro como tentara mais cedo, e só cerrou os dentes quando Morzan afastou uma mecha dos cabelos loiros de sua testa suada em um gesto quase carinhoso.

Os olhos verdes do jovem – Selena tinha julgado que ele teria por volta de trinta anos antes, mas agora sabia que não poderia ter muito mais que vinte e cinco – não tinham mais o brilho apavorado ou mesmo o ódio que o substituíra. Era como se aquela noite o tivesse esgotado, ele houvesse desistido de lutar, de viver; ele olhava para Morzan com, no máximo, receio, apenas esperando para ver o que aconteceria a seguir.

Selena achava que sabia, e desviou os olhos – voltando-os não para os carvões que ainda ardiam ou para lista de nomes cujo tamanho ela não queria saber, mas para o chão de pedra. Ouviu Morzan dizer alguma coisa na Língua Antiga, uma palavra ou uma frase curta, as sílabas melódicas de uma cadência ainda agradável.

“Selena,” ele disse então. “Vamos?”

Seu rosto era ilegível – calmo, mas havia uma emoção que ela não conseguia identificar em seus olhos díspares. Morzan lhe estendeu um braço, e apoiou a mão em suas costas ao guiá-la para fora da cela. Atrás deles, o prisioneiro já não se mexia, mas Selena não se demorou naquela constatação.

Jaime fechou a porta de ferro ao sair, seus movimentos praticados como se já houvesse feito aquilo muitas vezes, e ergueu os olhos quando Morzan o chamou e perguntou, “Consegue cuidar do resto?”

“Sim, meu senhor,” ele respondeu, passando a lista que escrevera para Adam e Neil.

Morzan assentiu. “Vou levar Selena de volta a meus aposentos,” disse, e os três guardas lançaram a ela olhares idênticos e muito rápidos que Selena se forçou a ignorar. “Precisam de mais alguma coisa?”

“Se houverem crianças, meu senhor?” Neil perguntou, a voz muito baixa.

“Podem poupá-las,” Morzan respondeu; ele não hesitara, mas também não parecera achar a pergunta digna de muita consideração. Com uma mão contra as costas de Selena, a puxou pelo corredor escuro, murmurando contra seu cabelo, “Só mais um pouco, Sel.”

O castelo se tornou arejado e agradável quando deixaram para trás os calabouços, e, nos corredores que tinham janelas, era possível ver as estrelas. Selena estava muito consciente do toque de Morzan contra seu vestido, de que ele a observava atentamente, e se perguntou se talvez ele soubesse como ela se sentia melhor do que ela mesma.

Ele parou diante das portas de madeira de seu quarto, as segurando abertas para Selena passar. Ela lhe agradeceu com um sorriso muito fraco, e examinou o cômodo como se muito distante. Cruzou o elaborado tapete vermelho e se sentou sobre a cama, sentindo o cobertor de pele com as pontas dos dedos.

Morzan se sentou de frente a ela, lhe oferecendo um cálice de prata. “Aqui, beba,” disse. Quando Selena provou apenas um gole do vinho, insistiu, “Tudo, Sel.”

Ela obedeceu, e talvez a bebida realmente ajudasse um pouco. Ele tirou a taça de suas mãos e a colocou no chão antes de continuar, “Agora, como está se sentindo?”

Tão, tão cansada. “Eu...” ela hesitou. “Eu não tenho certeza.”

Morzan assentiu, pegando uma das mãos dela entre as suas. “Eu sei que é difícil,” ele disse, “mas você conseguiu. Selena, você foi maravilhosa.”

Aquelas palavras deveriam aquecer seu coração, mas só serviram para quebrar algo dentro dela. Selena abaixou os olhos e tentou dizer, “Mas eu não... Eu não...” Sua voz quebrava tanto. “Não me sinto maravilhosa.”

Morzan suspirou, e talvez ele não soubesse bem o que fazer. “Eu sei.”

Selena levou uma mão à boca, sufocando um soluço. “Morzan...” pediu, e então ele a envolvia nos braços e a puxava contra seu peito.

Ela sentia todo o seu corpo tremer com a força de seus soluços, suas lágrimas quentes contra suas bochechas antes de caírem sobre a camisa vermelha de Morzan. “Eu sei,” ele disse mais uma vez, e nem mesmo tentou insistir no mérito do que fizeram, ou lembrá-la que o homem fora um espião dos Varden e um traidor. “Você vai ficar bem, Sel.”

“Eu não...” Ela ergueu os olhos para ele, incapaz de acreditar. “Você não pode ter certeza.”

“Eu tenho,” Morzan insistiu. “Eu prometo.”

Selena tentou assentir e se pressionou contra ele, desesperada pelo conforto que seu abraço trazia. Morzan apoiou o queixo sobre sua cabeça, a mantendo protegida junto a ele, e esperou, tão pacientemente, que ela se acalmasse. Selena adormeceu com a cabeça em seu colo e seus dedos acariciando seu cabelo, com os cílios ainda úmidos e o coração batendo forte.

Notas finais
Amo vocês.