Shiver
20 Capítulo 20
Notas iniciais

Selena não ousou acreditar no que ouvira. Deixou escapar a respiração num suspiro antes de perguntar, sua voz muito baixa, “Me levaria mesmo com você?”
Morzan assentiu. “É claro que sim.” Ele ergueu uma mão para prender uma mecha dos cabelos de Selena atrás de sua orelha. “Embora não seja assim tão simples.” No que ela franziu as sobrancelhas, ele continuou, “O que viemos fazendo até agora é apropriado apenas enquanto nessa viagem, enquanto eu for capaz de estar com você e manter meus deveres para com o rei separados, enquanto houver uma parte da minha vida a que você não tem acesso. Mas na corte, as coisas funcionam de outro modo.”
Selena engoliu em seco. “Como?”
“É um lugar perigoso,” ele explicou, “onde todos têm seu interesse próprio, onde todas as suas ações têm consequências, onde não há espaço para erros ou riscos desnecessários. Lá, Selena, ou você seria minha igual – isto é, nobre por nascimento – ou estaria abaixo de mim.”
“Abaixo de você,” ela repetiu, sentindo o gosto das palavras. “Como uma serva?”
“De certo modo,” Morzan admitiu. “Serva, vassala, o termo em si não é importante. Você seria para mim o que eu sou para o rei; minha, por inteiro.”
Suas palavras pareciam ecoar algo que ela já ouvira, e Selena franziu a testa, se sentando melhor sobre seu colo. “O que quer dizer?”
“Você precisaria jurar lealdade a mim na Língua Antiga – a língua da magia – e essa seria uma promessa que você não seria capaz de quebrar. Então eu entraria em sua mente para examinar suas memórias e descobrir seu nome verdadeiro–”
“Meu nome verdadeiro?” Selena repetiu, sem entender.
Morzan suspirou. Tomou sua mão na sua, correndo o polegar por seus dedos, e, quando falou, seu tom era muito calmo. “Tudo no mundo tem um; o nome verdadeiro é uma frase ou palavra na Língua Antiga que significa, bem, você. Representa o que você é, e, por ser na Língua Antiga, tem poder sobre você, o que também quer dizer que quem conhece seu nome verdadeiro tem poder sobre você.”
Ela mordeu o interior da bochecha, refletindo sobre suas palavras, e então disse em voz baixa. “Eu estaria completamente a sua mercê.” Ergueu os olhos para Morzan. “Agora, e para sempre. Certo?”
“Sim,” e Selena não soube identificar exatamente a emoção em seu tom tão suave.
Ela assentiu lentamente. “E, estando em seu serviço, eu teria deveres?” Sorriu um pouco, sem graça. “Além de dormir com você, é claro.”
Morzan riu baixinho. “Não que eu nunca tenha dormido com um servo, mas esse nunca foi um dever de nenhum deles, e não seria seu também, Sel.” Ele entrelaçou seus dedos nos dela. “Isso que vem acontecendo entre nós continuaria, é claro, mas apenas enquanto nós dois quisermos. Agora, sobre suas responsabilidades... Quando mais complexas não seriam tão diferentes do que o que estamos fazendo nessa viagem.”
Na parte da viagem sobre a qual ela não gostava de pensar. “Procurar por seus inimigos?” se forçou a perguntar.
“E lidar com eles.”
Lidar com eles.
Selena engoliu em seco. “Morzan, eu não sei... Não sei se conseguiria.”
“E por que não?” Ele traçava círculos sobre sua mão com o polegar. “Você tem o potencial de ser verdadeiramente grandiosa, Selena, e acho que conseguiria fazer mais do que jamais imaginou, se apenas ousar tentar. Não se sabote.”
Ela entreabriu os lábios. “Acha mesmo?”
Morzan sorriu um pouco. “É claro. E, se isso for demais para você, acho que consigo pensar em outras coisas. Mas não faria mal experimentar, não é?” Ele hesitou, estudando seu rosto. “Sel, sei que é uma mudança grande, sei que é muito para processar. Mas, eu e você? Não iríamos mudar em nada. Você seria minha serva, sim, e teria deveres e responsabilidades, mas não estaria abaixo de mim. Se vier para Urû’baen comigo, será para estar a meu lado.”
Selena desviou os olhos, mordendo o lábio. Levou uma mão ao pingente em forma de rosa em seu pescoço, tentando entender o turbilhão de emoções dentro de si. Seria mesmo uma escolha que ele a oferecia, quando ela sentia que seu coração só suportaria uma das opções? Respirou fundo uma vez. “Preciso pensar,” disse, e viu o menor dos vincos aparecer entre as sobrancelhas de Morzan. “Não é que eu não queira, é só... Preciso pensar.”
Se levantou, se afastando alguns passos.
“Selena...” Morzan começou, mas ela o parou com um sacudir da cabeça.
“Volto em um instante,” disse, e o deixou o estúdio.
Precisava pensar, e precisava fazê-lo longe dele. Vestiu sua capa cinzenta antes de sair também do quarto, cruzando o corredor em passos largos, desesperada por ar fresco. Escancarou as portas de madeira que davam para o pequeno terraço na lateral do palácio, fechando os olhos e pendendo a cabeça para trás ao aproveitar o alívio do ar frio.
Se apoiou contra o parapeito, puxando a capa próxima de si para se proteger do vento de inverno. O céu já começava a clarear, os primeiros raios de sol aparecendo no horizonte, uma luz pálida que mal iluminava os arredores de Feinster. Dividida como estava, Selena sentia uma calma quase melancólica. Sabia o que queria, afinal; sua indecisão era mais uma questão de aceitar a necessidade de abrir mão de certas coisas para alcançar outras.
Ouviu uma batida nas portas de madeira que deixara escancaradas atrás de si, e se virou esperando encontrar Morzan, insistindo em procurar por ela. Era Jaime, no entanto, parado no corredor. O capitão da guarda tinha uma espada presa à cintura e vestia uma túnica vermelha por cima da cota de malha, o símbolo de Morzan bordado em negro sobre seu peito.
"Você está bem?" perguntou, seus olhos verdes muito claros preocupados.
Selena deixou escapar um suspiro; Jaime vinha sendo muito mais atencioso para com ela desde que deixaram Teirm, mas ela ainda não se sentia completamente à vontade em sua presença. Concordou com um movimento mínimo da cabeça. "Estou sim."
Jaime ergueu uma sobrancelha. "E o que está fazendo sozinha aqui fora?"
Selena encolheu os ombros. "Planejando como farei para fugir e vender os segredos de Morzan aos Varden," disse, seu tom mais leve do que se sentia.
Ele riu baixinho. "Se você fosse qualquer outra pessoa, eu talvez acreditasse." Ele se aproximou e apoiou os antebraços sobre o parapeito do terraço. "O que aconteceu?"
Ela mordeu o interior da bochecha e desviou os olhos, hesitante. "Morzan..." Arriscou olhar para Jaime, avaliando sua reação, mas ele apenas a estudava de volta, sua expressão calma e talvez até um pouco curiosa. "Eu disse a ele que o amo," admitiu.
Jaime a surpreendeu ao fechar os olhos por um instante. "Ah," ele disse, a palavra saindo quase que em um suspiro. "E como ele respondeu?"
“Ele me convidou para voltar com ele à Urû’baen.” E então, “Mas estabeleceu algumas condições.”
Com os olhos voltados ao horizonte, Jaime assentiu minimamente. “Ele faria isso.”
“Morzan quer que eu jure lealdade a ele na Língua Antiga. Quer que eu me torne sua serva.”
“Não me parece um preço alto demais,” ele comentou, a voz seca, e é claro que diria isso. Jaime provavelmente era jurado a Morzan ele mesmo, com certeza completamente leal.
“Você não entenderia,” Selena protestou. “O que ele e eu temos deveria ser diferente.”
Jaime ergueu um pouco as sobrancelhas. “Eu entendo,” disse. “Mas Lorde Morzan não é como você e eu. Ele tem responsabilidades, e poder, e... Ele é mais, de certa forma.”
Mais. Sim. “É certo consolo que ele tenha dito que me quer a seu lado, não como alguém inferior, mas ainda assim...” Selena deixou que sua voz morresse, sem saber muito bem como se expressar.
“A seu lado?” Jaime repetiu, a testa ligeiramente franzida. “Lorde Morzan disse que te quer como uma igual?”
Ela encolheu os ombros. “Tão igual quanto eu posso ser estando em seu serviço, suponho.”
Ele deixou escapar uma risada quase incrédula. “Selena,” disse, e aquela talvez fosse a primeira vez que ela ouviu seu nome dos lábios de qualquer um dos guardas, “o que ele está te oferecendo é mais do que já ofereceu a qualquer outro. Se ele está disposto a ter você de braços dados na corte, onde qualquer um pode ver, abertamente...” Jaime sacudiu a cabeça, como se algo tão simples fosse mais do que ele pudesse entender. “Eu precisaria te chamar de ‘minha senhora’. Em seu lugar, eu aceitaria de bom grado.”
“Eu vou aceitar,” Selena disse, e sabia que era verdade. “Mas não tenho o direito nem mesmo de hesitar antes de abrir mão de minha liberdade? E isso sem não ter nem mesmo garantia de que o interesse dele por mim vá durar?”
Jaime respirou fundo, e, quando falou, seu tom era gentil. “Você realmente não tem,” disse, e ela se surpreendeu por quão compreensivo ele soava. “Não vou dizer que é impossível, mas é improvável que ele a queira para sempre. E quando ele não quiser – se ele não quiser – você ainda estará lá, presa a ele; perto, mas não tão perto quando gostaria. Você só precisa decidir se acha que isso valerá a pena, se os momentos que terá com ele serão compensação suficiente.”
Ele voltou os olhos verdes muito claros para o sol nascente por um instante. “É uma decisão que só você pode tomar,” concluiu.
Selena franziu a testa, mal percebendo quando ele tocou seu ombro e começou a se afastar.
“Jaime,” chamou, e o capitão da guarda de Morzan se voltou para encará-la. “Obrigada.”
Ele respondeu apenas com um aceno de cabeça, os raios pálidos do amanhecer destacando os poucos fios grisalhos em seus cabelos castanhos, e a deixou.
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