Shiver
2 Capítulo 2
Notas iniciais

O ar que entrava pela porta aberta era mais frio do que deveria ser, e o pouco do céu que era visível de onde Selena estava sentada era de um tom escuro de cinza. Havia uma tempestade se formando – uma tempestade forte, – mas ela não estava preocupada com aquilo no momento. O homem que entrara examinou a taverna com um olhar um tanto desinteressado que, no entanto, não parecia deixar escapar um único detalhe, passando pelos mercadores subitamente silenciosos e pelos aldeões que só lhe derem atenção enquanto ele manteve a porta aberta para o frio.
“Morzan,” Selena murmurou.
Sua voz saíra bem baixa, e ainda assim Eron lhe lançou um olhar incrédulo. Do outro lado da taverna, os olhos desiguais de Morzan encontraram os dela por um breve instante, e o modo como ele balançou a cabeça foi tão imperceptível que Selena se perguntou se o teria imaginado.
Os dedos de Eron se fecharam sobre seu pulso. “Vamos embora.”
“Embora?” Selena puxou a mão de volta para si. “Por quê?”
Ele fechou o livro com um baque forte e o empurrou na direção dela, e insistiu em voz baixa, “Você sabe quem ele é, Selena.”
Selena mordeu a parte interna da bochecha. “Não acha que está sendo um tanto precipitado?”
Eron parecia estar lutando para se manter calmo. “Selena–”
“Achei que fossemos passar o dia aqui,” ela protestou. “Juntos,” adicionou, quando ele não se convenceu.
A expressão de Eron se suavizou um pouco. “Isso foi antes dele chegar,” ele explicou; sua voz era urgente, mas gentil. “Antes de ficar aqui ser perigoso.”
“Não tenho certeza que seja,” Selena argumentou. “Ele não está anunciando sua presença, está? Se ele quer passar despercebido, então não sei qual é o perigo.”
“Não vale a pena arriscar.”
Selena fechou os olhos, respirou fundo, e encarou Eron. “Você pode ir se quiser. Eu vou ficar.”
“Selena, não posso te deixar–”
“Mas não pode não me deixar também, não é?” Selena ignorou o choque nos olhos verdes de Eron, e disse, no tom mais decidido que pôde, “Vou ficar.”
“Selena–”
“Não sou uma criança, e sei cuidar de mim mesma. Você não precisa se preocupar.” Ela lhe lançou um meio sorriso, agora um pouco desconfortável. “E obrigada pelo livro.”
“Não me agradeça.” Havia uma emoção na voz de Eron que Selena não conseguia reconhecer. “Você faria bem em lê-lo. Mesmo que o livro tenha sido feito para agradar Galbatorix e o Império, um leitor capaz não acharia difícil ler nas entrelinhas e ver como os Renegados não passam de monstros.”
Selena precisou se controlar para não revirar os olhos. “Obrigada, Eron.”
Ela observou em silêncio ele se levantar, inclinar a cabeça para ela em um cumprimento seco, e traçar seu caminho pela taverna, os cabelos loiros refletindo a luz das velas. Quando a porta se fechou atrás, Selena suspirou e correu as mãos sobre o rosto. Papai vai me matar. Aquilo era, no entanto, apenas mais um motivo para ficar mais tempo na taverna.
Ela cruzou os braços e olhou em volta. Os mercadores haviam voltado a conversar, embora sempre em voz baixa. Morzan havia se sentado em um canto vazio, parcialmente escondido nas sombras. Ele estava bebendo e conversando com outro homem, e Selena reconheceu o brilho de um anel em sua mão esquerda. Os aldeões não davam atenção a ele além de um ou outro olhar curioso.
Selena tamborilou os dedos sobre a capa do livro, mordendo o lábio, e se levantou. Escolheu um banco a frente do balcão, onde apoiou sua caneca de chá e o livro. Morn estava servindo cerveja a dois mercadores, mas logo veio falar com ela.
“Você está bem, Selena?” perguntou ele; seu tom indicava que percebera o que acontecera entre ela e Eron momentos antes.
“Nunca estive melhor.” Ela sorriu. “E você?”
“Bem.” Morn hesitou. “Mas meu pai está mal de novo.”
Isso explicava por que ele estava cuidando da taverna sozinho na época em que havia mais movimento. “Tenho certeza que ele vai melhorar logo,” Selena garantiu. “E avise se precisar de qualquer coisa.”
Morn assentiu com um sorriso fraco. “Eu agradeço.” Ele ergueu o queixo na direção do balcão. “Isso é um livro?”
“Eron me deu de presente,” Selena respondeu, dando de ombros.
“E você agradeceu brigando com ele?”
“Não foi como você está pensando!”
Morn riu baixinho. “Não estou pensando nada.”
Selena sorriu a contragosto. “Sei.”
Ele só sacudiu a cabeça e se afastou para atender dois mercadores que se aproximavam do balcão. Selena se preocupou em folhear seu livro, pulando a parte que falava sobre Galbatorix e os Renegados, e começou a ler sobre as histórias das mais importantes famílias da corte. Quase nenhuma era como as famílias nobres das histórias e lendas com que ela estava acostumada, se gabando de séculos de honra e tradição; a maior parte conquistara proeminência durante os primeiros anos do reino de Galbatorix, e tinham relevância no último século apenas.
Selena estava lendo sobre uma família com terras perto de Gil’ead cujos homens costumavam ocupar cargos altos no exército quando a discussão começou. A primeira coisa em que ela ouviu foi a voz de Morn, mais alta que o normal e um tanto indignada, dizer, “É claro que reclamam!” Ele estava de frente aos dois mercadores que servira após falar com Selena, mas um grupo maior de aldeões já se amontoava em volta. “Os cobradores de impostos do Império não estão preocupados se tiram mais dinheiro das pessoas do que elas podem pagar, e Galbatorix nunca fez nada por nós!”
Um dos mercadores suspirou como se Morn fosse tão esperto quanto uma criança. “Os impostos que vocês pagam são postos a bom uso,” ele insistiu em tom alto e claro. “É apenas por causa da proteção do rei que essa vila é um lugar seguro.”
Selena franziu a testa; o rei nunca dera sinal de se importar com a segurança de pequenos vilarejos. Ela estudou os dois mercadores com maior atenção, curiosa. O que falava tinha cabelos ruivos que formavam cachos atrás das orelhas e olhos castanhos muito espertos. Seu companheiro tinha um rosto bonito, embora um tanto entediado, e cabelos escuros que chegavam aos ombros. Ambos eram altos, e Selena reparou nos músculos definidos por baixo das roupas simples. Há algo errado.
Um dos aldeões que os cercava riu debochadamente. “Nós sempre protegemos a nós mesmos, seja de bandidos ou da seca e do frio. Do que exatamente Galbatorix nos mantém a salvo?”
“De coisas piores que bandidos ou o frio,” o mercador ruivo afirmou enquanto seu amigo concordava veementemente com cabeça. “O rei protege a todos nós de urgals, dos elfos e dos Varden.”
Selena olhou para o canto da taverna onde Morzan estava sentado. O homem com que ele estivera conversando não estava em nenhum lugar à vista, e Morzan observava o desenrolar da discussão sem sequer se preocupar em esconder seu interesse. Ele encontrou o olhar de Selena e arqueou uma sobrancelha. Ela desviou os olhos. Eron pode ter acertado ao partir.
“Galbatorix não poderia estar menos preocupado conosco!” alguém retrucou. “Ele só se importa consigo mesmo.”
“Não acho que é o rei quem tem esse problema,” o mercador ruivo disse friamente. “Não acha um pouco egoísta reclamar da condição da sua vida particular quando o rei tem o Império inteiro como preocupação? Se ele ainda não pôde resolver os problemas menores de cada vila de fazendeiros, é porque está ocupado defendendo a todos nós de ameaças maiores.”
“Ameaças maiores?” Morn repetiu, sem se convencer.
“Os Varden.”
“Não duvido que os Varden sejam melhores que Galbatorix,” alguém que fora do campo de visão de Selena insistiu.
Os dois mercadores trocaram um olhar.
“Por que não se juntam a eles, então?” o moreno perguntou, desafiador.
Aquilo estava indo longe demais. Selena se inclinou sobre o balcão para ter uma visão clara dos mercadores. “Ninguém aqui pretende se juntar aos Varden,” afirmou. “Nem fazer nada contra o rei, aliás. Tudo o que ouvi foi uma reclamação sobre impostos, e embora possa bem ser verdade que Galbatorix tenha preocupações maiores que as nossas, vocês não podem culpar alguém que reclama porque não sabe se terá comida o suficiente para sobreviver ao inverno.”
O mercador ruivo abriu a boca para responder, e então pareceu desistir. Ele trocou mais um olhar com o companheiro, e deu de ombros. “Obviamente não conseguiremos convencer ninguém de nada. Se todos têm tanta certeza de que estão certos, essa discussão não tem propósito.”
Ele puxou um saquinho de veludo da cintura e contou algumas moedas para pagar Morn, e então, lançando um último olhar estranho na direção de Selena, e ele e o amigo deixaram a taverna. Ela franziu a testa, sem ter certeza de o quê pensar sobre tudo aquilo, e se contentou em folhear seu livro. De volta às primeiras páginas, Selena examinou os retratos dos Renegados. As páginas sobre alguns deles contavam com datas de morte, embora nem a idade nem o nascimento de nenhum deles fosse informado.
Selena estava estudando a imagem de uma mulher ruiva – Formora, o livro dizia – quando a voz dele interrompeu seus pensamentos.
“Formora não é nem de perto tão bonita quanto parece ser nessa iluminura, você sabe.”
Morzan apoiou um copo de metal vazio no balcão. Selena olhou para ele, um tanto surpresa e sem saber como responder. De perto, ele era ainda mais impressionante; seus olhos eram desconcertantes, não só pelas cores diferentes, mas também por terem um brilho inteligente que sugeria que ele soubesse algo que todos a sua volta não pudessem nem mesmo imaginar, e seus cabelos escuros pareciam ser tão macios à luz das velas que Selena sentiu vontade de correr os dedos por eles.
“Ou talvez até seja.” Ele deu de ombros. “Mas ela é muito desagradável para a beleza contar para alguma coisa.”
Ela não sabia como responder isso também. “É?”
Morzan riu. “Posso me sentar?” perguntou, indicando o banco ao lado dela com o queixo.
Selena só concordou com a cabeça.
“Você me reconheceu,” ele disse. “Não estava esperando por isso. Não aqui. Mas considerando o que você está lendo, faz sentido.”
“Achei que estaria acostumado a ser reconhecido,” Selena comentou.
“E estou.” Ele sorriu. “Mas isso me põe em certa desvantagem, não acha? Você sabe quem eu sou, e eu não sei nem mesmo se você tem um nome.”
“Todos têm, não?”
“Não todos,” Morzan respondeu, e Selena ficou tentando decidir se imaginara a nota amarga em sua voz.
“Selena,” ela supriu, e hesitou. “Estou fazendo isso errado? Não preciso te chamar de ‘meu senhor’ ou algo assim?”
Morzan riu outra vez. “Você deveria, na verdade. Mas como estou tentando não chamar atenção, podemos dispensar as formalidades dessa vez.”
Selena franziu a testa. Estava achando cada vez mais difícil sustentar seu olhar. “O que está fazendo em Carvahall?” perguntou.
“O que te faz pensar que eu posso te contar?”
“Eu...” ela hesitou. “Nada, na verdade.”
Morzan só sorriu. “É verdade que normalmente não frequento vilarejos pequenos como esse.”
“Carvahall não é tão pequena assim.”
“Não?” Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha. “Fico surpreso que até mesmo tenha um nome. Mas não suponho que você já tenha ido a alguma das grandes cidades?”
“Nunca nem saí do Vale Palancar. O mais longe de casa que já fui foi Therinsford, mas nunca gostei de lá.”
“É maior que Carvahall,” Morzan apontou, embora não parecesse interessado.
“Therinsford é uma bagunça,” declarou ela, como havia declarado a seu pai na noite anterior.
Ele riu baixinho. “E quão bem você conhece a região, Selena?”
Algo no modo como ele disse seu nome a fez corar. Selena encolheu os ombros. “A vila, bem o bastante, e os arredores. Fora isso, nem tanto. Meu pai nunca me deixou sair para explorar, embora eu tenha ido sem permissão algumas vezes. Por quê?”
“Vim aqui com uma missão,” ele lhe contou em voz baixa. “Duas, na verdade. A primeira é bem simples, apenas testar a lealdade do povo ao rei.”
Selena ergueu a sobrancelha. “Aquela discussão com os mercadores foi obra sua?”
“Sim. E você lidou bem com ela, vou admitir, mesmo que tenha me atrapalhado um pouco.”
“A alternativa era deixar alguém dizer algo de que se arrependeria.” Selena hesitou. “Algo que não seria realmente verdade. As pessoas de Carvahall podem não gostar muito do rei, mas ninguém está planejando uma revolução, ou se juntar aos Varden, ou algo do tipo. Só estão incomodados com os impostos, como todo mundo.”
“Não precisa se preocupar,” Morzan disse. “Eu não estou levando a sério tudo o que dizem. Fiquei mais interessado no que aquele rapaz – Eron? – estava dizendo a você, na verdade. ‘Os Renegados não passam de monstros’?”
Selena mordeu a parte interna da bochecha. “Você ouviu isso.”
“Ouvi.”
“Ah.” Ela hesitou, sem saber o que dizer.
“Você não está envolvida com ele, está?”
“Com Eron? Não!” Selena exclamou. “Não. Ele quer se casar comigo, mas eu... Não.”
“Isso é bom,” Morzan afirmou. “E foi ele quem te deu o livro?”
Selena confirmou com a cabeça.
Ele bateu no retrato de Formora com o indicador. “Uma História Completa dos Mais Importantes Nobres e Famílias do Reino Broddring. Não é uma história completa, é claro, e essa versão está desatualizada, mas é um presente bastante caro.”
“Pensei que fosse.”
“Não é o que eu esperaria de alguém que odeie tanto o Império, também.”
“Eron não odeia o Império,” Selena se viu forçada a falar, mesmo que não fosse verdade. “Acho que ele só estava preocupado com a segurança da vila, e incomodado porque eu não o ouvi quando ele me disse que devíamos ir embora. Ele não estava falando sério.”
Morzan a estudou por um longo tempo, quase como se estivesse realmente considerando o que ela dissera, e então desviou os olhos e sinalizou para Morn por outra bebida. “A outra missão,” ele disse, esperando que Morn se afastasse novamente e olhando de lado para ela, “é um pouco mais complicada.”
Selena engoliu em seco, esperando que ele continuasse, mas Morzan só sorriu pra ela.
“Acha que pode me ajudar, Selena?”
Ela hesitou. Seus instintos pediam que ela se afastasse dele o mais rápido o possível, mas havia algo nesse exato sentimento que ela achava estranhamente excitante. “Não sei,” admitiu. “Ajudar com o quê?”
Morzan tomou um gole da sua bebida, e pressionou os lábios. “Sem querer ofender, mas vocês se beneficiariam com vinhos melhores. Tenho um bom na minha tenda, mas não achei que fosse precisar trazê-lo para uma taverna, de todos os lugares.” Ele sorriu para Selena. “Me encontre aqui amanhã de manhã.”
Aquilo soou muito como uma ordem – como tudo que ela odiava, – mas, por algum motivo, Selena não se importou.
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