Shiver
19 Capítulo 19

Quando Selena acordou, estava sozinha no quarto. Se virou sobre o colchão, preguiçosa e confortável, mas o espaço vazio ao seu lado já estava há muito frio. Ela conteve um suspiro ao se sentar, segurando os cobertores junto ao corpo para se manter quente, e olhou em volta, procurando por Morzan onde não o encontraria.
As pedras que formavam as paredes do castelo de Feinster eram claras como areia, mas, nos aposentos que Senhora Lorana cedera a Morzan, estavam em sua maior parte escondidas por grandiosas tapeçarias. Eram de tons de azul e cinza, agora escurecidos pela noite, com detalhes dourados abundantes, e mostravam cenas de navios no mar durante tempestades, ataques piratas, e os mais belos pores do sol. Selena mal lhes deu atenção, seus olhos passando pelas imagens sem realmente as ver antes de pararem na porta do estúdio.
Não era incomum que Selena acordasse sozinha; percebera logo no início que Morzan precisava de menos tempo de sono que ela, e ele frequentemente aproveitava as horas da noite para cuidar de quaisquer deveres aos quais não pudera dar atenção durante o dia. Por vezes ela não o encontrava por perto, no entanto, e entendia que ele estava fora, voando com seu dragão. Era essa a possibilidade que a assustava mais: que ele estivesse, mesmo que momentaneamente, fora de seu alcance.
Selena esticou uma mão para pegar sua camisola, abandonada ao pé da cama, e a vestiu antes de se levantar. O tecido macio era confortável contra sua pele, mas fazia pouco para protegê-la do frio, e ela se cobriu também com um pesado robe vermelho antes de calçar seus sapatos e sair à procura de Morzan.
Bateu na porta do estúdio uma, duas vezes, antes de arriscar a abrir e esgueirar a cabeça para dentro. O encontrou sentado de frente à escrivaninha, conversando com – e Selena entreabriu os lábios ao entender – a imagem de dois homens conjurada em um espelho. Ele se voltou para ela com um meio sorriso, sem se perturbar pela interrupção, e perguntou, “Você está bem, Sel?”
Ela olhou de relance para o espelho, cruzando os braços na frente do corpo; não conseguia ver os estranhos muito bem, e acreditava que nem mesmo entrasse no campo de visão dos dois, mas ainda assim se sentia exposta. “Eu acordei e você não estava lá,” disse baixinho. “Então...”
“Veio me procurar,” ele completou.
Selena encolheu os ombros. “Não quis interromper.”
Ele sorriu, sacudindo a cabeça. “Já terminamos de discutir os assuntos importantes, e não posso culpá-la por não querer ficar sozinha no quarto, não é?” Morzan lhe estendeu uma mão. “Venha aqui.”
Ela se aproximou devagar, e ele a puxou para perto de si assim que Selena entrou em seu alcance, passando um braço ao redor de sua cintura. “Se tivesse vindo há meia-hora, poderia ter conhecido Alexis,” Morzan disse, e ela precisou controlar seu rosto para esconder que a informação a perturbava, “mas já que está aqui agora, posso te apresentar a Allan e Owen.”
Selena não reconheceu os nomes, e ergueu os olhos para o espelho a contragosto. Os homens eram uma lembrança muito nítida da vida de Morzan a qual ela não tinha acesso; a magia podia possibilitar que Morzan se comunicasse com seus servos em Urû’baen, mas não seria suficiente para levá-la até lá. Ela lhes ofereceu um sorriso mínimo. “É um prazer.”
Morzan riu baixinho, brincando com o fio dourado que prendia as vestes de Selena. “Allan,” e ele indicou com o queixo o homem a direita, de cabelos grisalhos e talvez cinquenta anos, “é quem administra minha criadagem e posses em Urû’baen.”
Allan a cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso educado, e ela precisou admitir que ele lhe parecia bastante gentil.
“E Owen,” Morzan continuou, “está no comando de minha guarda enquanto Jaime viaja comigo.”
Owen tinha por volta de trinta e cinco anos, Selena julgou, com olhos inteligentes e parecendo já ter quebrado o nariz ao menos uma vez. Seu cumprimento foi mais sóbrio, mas não menos educado.
“E Selena, é claro,” Morzan sorriu para ela, e Selena afastou o receio sobre como ele a nomearia, “tem sido minha companheira e imprescindível durante essa jornada.”
Ela sorriu um pouco. “Imprescindível?” repetiu.
“E muito prestativa,” ele confirmou, e se voltou novamente para o espelho. “Terminamos por hoje. Estão dispensados.”
Ambos os homens inclinaram a cabeça com um murmúrio de “meu senhor”, e com um aceno da mão de Morzan, a imagem no espelho desapareceu, dando lugar aos reflexos habituais. Selena franziu um pouco a testa para o emaranhado de cachos castanhos que era seu cabelo, se surpreendendo ao ouvir Morzan rir.
“Você está linda, Sel,” ele disse. “Pare de se preocupar.”
Selena mordeu o lábio para conter seu sorriso, e não foi inteiramente bem sucedida. No que Morzan pareceu continuar a achar graça, ela empinou um pouco o nariz e cruzou os braços. “Não é inconsiderado querer conferir com seus criados assim tão tarde?”
Morzan ergueu uma sobrancelha. “Já está quase amanhecendo, você sabe. É por isso que está acordada, por mais que eu acredite que deveria tentar conseguir mais algumas horas de sono.”
Ela talvez realmente devesse. “Não sei se quero,” Selena disse baixinho, abaixando um pouco os olhos. “Sem querer ofender seus servos, mas acho que prefiro estar sozinha com você.”
Ele riu alto e a puxou para seu colo. “Prefiro estar a sós com você também, é claro,” Morzan respondeu, abaixando o rosto para beijar seu pescoço.
Selena inclinou a cabeça para trás, os olhos semicerrados, e ousou perguntar, “Você disse que estava falando com Alexis?”
Ele se afastou, e ela abriu os olhos para vê-lo a estudando atentamente. “Sim.” Morzan respondeu finalmente, apertando os lábios. “Não foi a melhor das conversas, honestamente. Ela e Aleifar vêm enfrentando certas... dificuldades na corte, e são coisas que podem acabar me afetando, também; mesmo que me não me prejudiquem diretamente, podem ajudar meus adversários, e isso seria...” Ele hesitou.
“Não seria nada bom, suponho,” Selena disse em voz baixa.
“Não,” ele concordou. “Não seria.”
Morzan ergueu uma mão para afastar uma mecha dos cabelos de Selena de seus olhos, pensativo. Ela hesitou apenas um instante antes de comentar, “Eu tive a impressão que você considerava Alexis uma aliada digna.”
“Lex, sim; o problema é seu irmão. Aleifar é excelente no que é bom, mas no que não é...” Morzan sacudiu a cabeça. “Quanto mais cedo eu voltar para Urû’baen, melhor.”
Os pensamentos de Morzan pareciam passar longe de Selena, e o tom cansado de suas palavras sugeria que fossem inteiramente sinceras, mas Selena sentiu um aperto no peito ao ouvi-las. Ela desviou os olhos, deixando escapar um suspiro, e disse, “Morzan, eu...”
Ele entendeu. “Selena...” e hesitou.
Ela sacudiu a cabeça. “Está tudo bem. Eu estou bem.” Selena escondeu o rosto em seu pescoço, e perguntou em uma voz abafada, “Ainda temos tempo, não temos?”
“Sim,” Morzan respondeu, e ela se surpreendeu pela força em sua voz. “É claro que sim.”
Selena ergueu o rosto para ele, e foi algo em seus olhos díspares que a levou a perguntar, em um sussurro impulsivo, “Você já se apaixonou?”
“Selena–”
Ela o interrompeu. “Quero dizer, você sabe como... como é? O sentimento?”
Morzan estudou seu rosto por um instante, cauteloso, antes de dizer. “Não é igual para todas as pessoas, Sel.”
“Porque o que eu sinto quando estou com você é diferente de tudo o que já senti antes,” ela admitiu em um sopro nervoso, “e pensar que posso perder isso, que nossos dias estejam contados... É mais do que consigo suportar. E, Morzan, eu acho... Eu acho...”
Selena ergueu os olhos para ele, se sentido perdida e mais vulnerável do que nunca, e foi ao ver que Morzan parecia muito calmo que se sentiu mais segura. “Você acha?” ele pressionou gentilmente.
“Eu acho...” Ela franziu um pouco as sobrancelhas. “Eu amo você.”
Os olhos de Morzan pareceram se arregalar quase que imperceptivelmente, e quando ele a beijou, Selena se segurou a ele como se ele fosse tudo que a ancorava ao mundo. Quando se afastaram, foi doloroso, e tão perigoso. Ela observou seus olhos de cores diferentes com os lábios entreabertos e a respiração fraca, longe de estar pronta para o que viria a seguir.
“Fique,” Morzan disse, e aquela palavra mudava tudo. “Venha comigo para Urû’baen.”
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