Shiver

18 Capítulo 18


Notas iniciais
Ciça, esse é pra você ♥ Espero que sua vida fique mais fácil, mon amour !!

Selena mal ouviu Adam entrar no quarto. Estava sentada com as contas contra a parede, abraçando suas pernas e apoiando o queixo sobre um joelho, e olhava sem realmente ver o cobertor marrom que protegia suas pernas.

“Aqui,” Adam disse, se sentando ao pé da cama e lhe oferecendo um odre de vinho.

Ela aceitou com um sorriso mínimo, mas não levou a bebida aos lábios. “Ele ficou feliz,” disse baixinho.

“Quem?” Adam perguntou, as sobrancelhas franzidas.

“Aquele homem,” Selena respondeu. “O agente dos Varden, ou o que quer que fosse. Ficou feliz por me encontrar; ele ficou feliz, e então... Não mais.” Ela bebeu um gole do vinho, desejando que fosse uma bebida mais forte, e olhou para Adam. “Você realmente acredita no que disse na taverna, quando defendeu o Império?”

Ele hesitou. “Acho que essa é uma conversa que precisa ter com Lorde Morzan.”

Selena mordeu o lábio. “Talvez, mas...” Encolheu os ombros. “Não sei se minhas perguntas são do tipo que ele apreciaria.”

Adam pendeu a cabeça para o lado, e, quando falou, seu tom foi muito gentil. “E por que não?”

“O que eu acabei de te perguntar, por exemplo. Me parece quase traição.”

Para sua surpresa, Adam sorriu. “Parece, não é mesmo? Mas há sempre um momento, para nós a serviço do Império, em que nos deparamos com uma missão que é... mais difícil do que o que fizemos antes.”

“Eu não estou a serviço do Império,” Selena protestou.

“Não, mas está nos ajudando, não está?” Adam apoiou as costas contra a parede. “Para mim, foi pouco depois de me juntar a guarda de Lorde Morzan. Não posso te contar exatamente o que aconteceu, mas eu tinha certo receio sobre o que via, sobre o que precisava fazer.” Ele lhe lançou um sorriso torto. “Naquela época eu nem poderia falar com Lorde Morzan sobre isso, não tinha uma posição próxima a ele, mas conversei com Jaime.

“Eu me lembro de ter ficado muito nervoso na época.” Adam riu baixo. “Eu era ainda mais novo que você, e não sabia quanto eu podia dizer. Como você disse, parece quase traição, e eu tinha certeza que estava arriscando no mínimo meu posto na guarda; talvez mais.”

Selena sorriu um pouco. “Você ainda está aqui.”

Os olhos âmbar de Adam brilhavam na luz das velas. “Estou.” Ele hesitou. “Falar com Jaime foi a escolha certa, no fim. Ele me tranquilizou, e então me deu um conselho que vou repetir para você agora. Lealdade raramente é incondicional, e aqueles no poder precisam ter cuidado ao escolher em quem confiar, mas isso não significa que todo problema que seus servos tenham com suas ordens sejam, realmente, um problema.

“O que Jaime me disse foi que era exatamente porque eu lhe contei sobre meus receios que ele sabia que poderia confiar em mim. Quem tem a intenção de trair, ele disse, não expressa sua inquietação. É algo que pode ser usado para medirmos nossas próprias ações; nem sempre temos noção de que nossa lealdade já não é a de antes, mas o momento em que começamos a guardar segredos é o momento em que devemos parar e analisar nossa situação com maior cuidado.” Ele encolheu os ombros. “Tomar nossa decisão, seja qual for.”

Selena tomou um gole do vinho, a testa franzida. “Mas acha mesmo que devo ter essa conversa com Morzan? Mesmo que ele não vá... desconfiar de mim, não acha que ele pode se decepcionar só por eu ter os receios que tenho?”

“Se decepcionar?” Adam hesitou. “Ele já teve acesso a sua mente, não teve?”

Selena assentiu. “Sim, mas... Mesmo que ele houvesse prestado atenção redobrada a meus pensamentos, não saberia sobre o que estou pensando agora, não é? Porque nunca passei por algo assim antes?”

“Há mais em nossas mentes do que nós mesmos temos consciência,” Adam replicou. “Você sabia o que estávamos fazendo.”

Ela encolheu os ombros. “Eu não... Quero dizer, eu sabia, acho, mas nunca realmente refleti sobre isso.”

“O que por si só já diz muito.” Adam deixou escapar um suspiro. “Lorde Morzan já lhe disse algo sobre quão confortável você deve ser ao contar a ele seus receios?”

“Em Teirm,” Selena respondeu, e Teirm era a última coisa sobre a qual ela queria pensar no momento. “Ele preferiria que eu lhe contasse tudo, acho; me disse que meus problemas nunca seriam um incômodo.”

“Essa é sua resposta, então.” Adam se sentou melhor contra a parede. “E para responder sua primeira pergunta: não importa.”

Selena não entendeu. “Não importa?”

“Se eu realmente acredito que o Império luta pelos melhores interesses do povo, se os rebeldes têm boas intenções ou não. A verdade é os Varden não tem como destronar Galbatorix; o Império é poderoso demais, o rei é poderoso demais. No fim, cada vida perdida para essa rebelião é uma vida perdida em vão, e, independente do que os Varden lutem por, a vida da maior parte da população só pode melhorar uma vez que o conflito acabe.

“No fundo, os Varden lutam por um princípio. Eles acreditam que o rei e o Império sejam por natureza maus, e que é dever deles lutar pelo seu fim. Dão sua vida por isso, e talvez tenham alguma esperança de que, um dia, sejam bem sucedidos, mas isso não vai acontecer. Todo o sofrimento em busca desse objetivo é um desperdício, e, quanto antes pormos um fim aos Varden, melhor.” Adam encontrou o olhar de Selena, e ela achou que ele parecia quase apreensivo ao perguntar, “Faz sentido?”

Selena hesitou, mordendo o lábio inferior. “Acho que sim,” assentiu.

Adam sorriu. “Espero que tenha ajudado. Quer tentar descansar, ou prefere conversar até Lorde Morzan voltar? Ele ainda deve demorar.”

Selena levou o odre de vinho à boca mais uma vez, pensando. “Estou cansada,” admitiu, “mas não acho que vou conseguir dormir agora.”

“Eu posso ficar,” Adam respondeu, tranquilo. “Sobre o que quer conversar?”

Lentamente, Selena abriu um sorriso travesso. “Jaime disse uma vez que você gosta de jogos constrangedores.”

Ele riu alto, sacudindo a cabeça. “Ah, mas eu não poderia conversar com você sobre isso.”

“Eu não vejo problema algum,” Selena insistiu. “Falar não faz mal, faz?”

“Realmente não faz, mas não é com o que você pensa que me preocupo.”

Selena riu um pouco, cedendo com um erguer de sobrancelhas. Pensou um pouco e perguntou, “O que você gostaria de fazer, se não fizesse parte da guarda de Morzan?”

Adam lhe contou sobre como talvez tentasse conseguir emprego defendendo navios de piratas, sobre como se estabeleceria em Teirm e viajaria por todo o litoral. “É claro que não deixaria meu posto na guarda de Lorde Morzan por nada,” ele explicou, “e estaria satisfeito com qualquer emprego, desde que não precisasse voltar a morar em Dras-Leona.”

Eles conversaram por horas, Adam sempre a uma distância respeitosa, sentado ao pé da cama, e Selena acabou por se aninhar nos travesseiros, escondida até os ombros pelos cobertores. Percebeu que Adam tinha o talento de falar muito sem realmente lhe dar informação alguma, e por mais que depois da conversa Selena fosse capaz de dizer quais eram seus jogos e bebidas favoritas, não aprendera nada novo sobre sua infância, sobre sua vida no serviço de Morzan, ou sobre como ele sentia a respeito de tudo isso.

Mas ela não demorara a perceber a preferência de Adam por tópicos de pouca consequência, e julgava ter sido bem sucedida em imitar sua postura. Falara sobre como costumava correr por entre as tendas dos mercadores em Carvahall quando criança, sobre os doces que os aldeões não sabiam preparar e que ela só comia naquela época específica, sobre a primeira vez que se debruçara sobre o desenho de um mapa do Império. Era mais fácil para ela, Selena supunha, já que Adam com certeza tinha acesso a informações com as quais ela nem mesmo sonhava.

Quando o céu, visível pela janela, finalmente começava a clarear, Selena já havia desistido de tentar esconder seus bocejos. Adam se levantou de onde sentava na cama assim que ouviu passos no corredor, e Morzan abriu a porta para encontrá-lo de pé, as mãos juntas atrás das costas e a cabeça inclinada em um cumprimento respeitoso.

“Meu senhor.”

Morzan o saldou com um aceno de cabeça. “Deixe-nos,” instruiu. Adam saiu do quarto sem mais uma palavra, e Morzan voltou seus olhos díspares para Selena. Ele parecia cansando, ela julgou, mas sorriu ao vê-la aninhada nos cobertores. “Como você está?”

Ela sentia vontade de ir até ele e se perder em seu abraço, mas se convenceu a continuar onde estava. “Bem,” respondeu, e então hesitou. “Melhor, quero dizer. Conversar com Adam ajudou.”

“É?” Morzan se sentou ao seu lado e a puxou contra seu peito, e Selena relaxou contra o calor de seu corpo. Estar perto dele talvez compensasse quaisquer adversidades. “Estive preocupado com você.”

“Mesmo?” Ele não parecera na noite anterior, mas talvez porque tivesse responsabilidades mais urgentes.

“É claro,” Morzan beijou sua testa, prendendo uma mecha dos cabelos castanhos de Selena atrás de sua orelha. “Não sabia como você lidaria com tudo isso.”

Ela encolheu os ombros. “Adam ajudou,” repetiu, sem saber o que mais dizer.

Ele assentiu, os olhos díspares a observando com atenção. “O que ele te disse?”

Selena hesitou. “Que será melhor para todos que o conflito com os Varden acabe o quanto antes,” respondeu. “Que é por isso que vocês fazem o que fazem, e que quanto mais isso demorar, mais vidas serão perdidas.”

Morzan refletiu sobre aquelas palavras por um instante, seu polegar traçando círculos contra o ombro de Selena. “E o que você achou disso?” perguntou.

“Faz sentido,” ela admitiu. “Mas não... não ajuda com a culpa, exatamente.”

Morzan lhe ofereceu um sorriso pesaroso antes de puxá-la para perto de si. Selena encostou a cabeça em seu peito, e foi um alívio quando o ouviu dizer em voz baixa, “Fica mais fácil, com o tempo.”

“E aquele homem é...” Ela pausou. “Era um criminoso, não? Ele sabia o que estava fazendo. Sabia quais seriam as consequências se fosse pego.”

“Sim.” Ele se afastou para olhá-la nos olhos. “Ele não era um homem inocente, Sel; era um traidor. Não se esqueça disso.”

“Os Varden,” ela começou, tirando forças do conselho de Adam, “os Varden diriam que você é um traidor, não diriam?”

Morzan deixou escapar um suspiro cansado. “Sim. E talvez estivessem certos, um dia, mas não mais.”

Selena franziu a testa. “Não mais?”

“A diferença entre nós e os Varden, Selena, é que nós vencemos. Talvez tenhamos começado como traidores, é verdade, mas o que fizemos foi conquistar, e construir o Império que você conhece hoje. Galbatorix é o rei, e o direito que ele tem ao trono – ao trono que ele mantém há décadas – vem exatamente dessa conquista.” Ele sorriu sem qualquer humor. “Os Varden deixariam de ser traidores se conseguissem seu objetivo, suponho, mas não vão. E quando se erguem contra seu rei, contra seu reino, não são mais do que rebeldes. Consegue entender isso?”

“Sim,” ela concordou rapidamente. “Sim, e não duvido de você. Eu só...” hesitou, e acabou por admitir, “é difícil.”

Morzan acariciou seu ombro. “Eu sei.” Ele beijou sua testa mais uma vez. “Vai se sentir melhor quando estiver descansada, tenho certeza. Acha que consegue dormir?”

Selena assentiu. “Se estiver com você.”

“E vai estar, Sel,” ele respondeu. “Não vou a lugar algum.”

Ela se aninhou contra seu peito e permitiu que seu calor a confortasse, afastando de sua mente todos os pensamentos sobre dor, sangue, e morte. Aos poucos, Selena se rendeu ao sono.

Notas finais
Que linda eu postando toda semana, né? Imagina se continua assim? hahahah Espero que tenham gostado, meus amores, e quem não apareceu n'A Queda ainda, tem Brom & Morzan pequenininhos!! SO CUTE!! Passem por lá, maybe? ♥ beijinhos ♥