Shiver

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Hello my darlings ♥ Estou de volta!

“Por que não se junta a eles, então?”

A pergunta – ou uma variação dela – era feita sempre por Adam, e já não a perturbava mais. Selena encarou os olhos âmbar desafiadores e ergueu o próprio queixo em resposta em uma provocação calculada. “Se soubesse onde encontrar os Varden, eu talvez me juntasse.”

Deu as costas aos guardas e à discussão como se não importassem mais do que sua bebida, mas ouvia o próprio coração bater com força e precisava se esforçar para manter a aparência de calma. Se inclinou contra o balcão e sinalizou para mais um caneco de cerveja, muito ciente dos olhos que insistiam em se voltar em sua direção.

Se permitiu respirar fundo uma vez, tão discretamente quanto podia, e tomou um gole da bebida amarga. O homem que lhe servira já deveria ter quase sessenta anos e tinha uma cicatriz impressionante correndo das têmporas ao maxilar, mas ainda assim lhe lançou um olhar que era em parte desaprovador e em parte receoso – não como se intimidado, mas como se temesse por ela. Selena o estudou quando ele lhe deu as costas, se perguntando mais uma vez onde teria conseguido a cicatriz.

Talvez fosse um veterano de guerra, talvez um sobrevivente de um ataque pirata, talvez houvesse simplesmente escolhido a briga errada na rua – ou talvez algo inteiramente diferente. Pelo que ela vira até então, Kuasta era uma cidade peculiar, e Selena não tinha certeza se podia tirar conclusões sobre seus habitantes com tanta facilidade.

Sorriu para si mesma quando sentiu a mente de Morzan roçar contra a sua, e abaixou as barreiras que protegiam sua consciência para abrir caminho para ele. Nunca conseguia entender perfeitamente seus sentimentos, mas dessa vez sentiu uma satisfação tão evidente que chegava a ser contagiante.

Antes que ele tivesse a chance de lhe dizer qualquer coisa, Selena perguntou, Como me saí?

Perfeita, Morzan respondeu. Ela fez menção de se voltar para onde ele estava sentado, no fundo da taverna, mas ele impediu. Não olhe.

Selena franziu um pouco a testa e assentiu minimamente. Estamos sendo observados? Adivinhou.

Você está, Morzan respondeu, e não quero ser percebido. Não agora. Preciso que siga minhas instruções com muito cuidado agora, Sel.

Ela engoliu em seco. Sim?

Termine sua bebida com calma – é importante que não pareça estar com pressa, ou que haja algo errado – e saia da taverna.

Consigo fazer isso, Selena disse, mais para assegurar a si mesma do que a ele.

Tenho certeza que sim, Morzan respondeu, mas não se demorou nisso. Quando sair, quero que ande com calma e com propósito. Não precisa ter um destino em mente, mas precisar parecer estar indo a algum lugar.

Como se estivesse voltando para casa?

Exatamente. E vai estar sendo seguida.

Morzan–

Será seguida, sim, mas prometo que não vai correr perigo algum, Sel. Você confia em mim, não?

Ela tomou um gole da cerveja, hesitante, e concordou. Sempre.

Ele talvez tenha a chance de falar com você antes de o alcançarmos, e, se tiver, você precisa manter o papel que teve até aqui.

De defender os Varden?

Veementemente, ele confirmou. Vamos estar logo atrás de vocês, Selena, e sei que não vai me decepcionar.

Morzan se afastou sem dizer mais nada, e Selena se ocupou tamborilando os dedos contra o balcão enquanto terminava sua bebida. Pagou o balconista com um sorriso e algumas moedas, e precisou se controlar para não examinar cada canto da taverna ao sair. O ar do lado de fora estava frio, e Selena precisou puxar sua capa contra si e abaixar a cabeça para se proteger do vento.

Pensava que ouvia passos atrás de si, mesclados ao barulho abafado vindo de dentro da taverna, mas era difícil ter certeza. Kuasta ficava progressivamente mais silenciosa enquanto ela fazia seu caminho pelas ruas sinuosas, as casas à sua volta aparentemente adormecidas, e não demorou a ter certeza que estava, sim, sendo seguida.

Respirou fundo antes de se virar, e o homem alguns metros atrás dela não era o que Selena esperara. Não parecia perigoso e desleixado como quem uma mulher andando sozinha de noite temeria, ou perigoso e atraente como os criminosos das histórias. Tampouco se parecia com os rebeldes heroicos que ela já imaginara; não, sua aparência não era de modo algum memorável.

Tinha cabelos já mesclados de cinza, uma postura relaxada, e rugas no canto dos olhos. Suas roupas eram velhas, mas bem cuidadas, e ele se parecia mais com alguém que se sentava perto do fogo para contar histórias para crianças do que com um espião dos Varden – se é que fosse realmente um. Ele ergueu as mãos na frente de si para que ela as visse.

“Não tive a atenção de te assustar,” disse, sua voz traquila. “Mas não pude evitar ouvir o que disse na taverna.”

Selena engoliu um seco, sentido o coração bater com força contra seu peito. Defender os Varden, lembrou a si mesma. Em vez disso, insistiu em vão, “Não me assustou.”

Ele sorriu. “Não, tenho certeza que não.” Seu tom era calmo, e talvez surtisse algum efeito sobre ela se Selena não estivesse começando a entender por inteiro a situação. “Falava a verdade quando disse que apoiaria os Varden se tivesse a chance?”

Ele está feliz por ter me encontrado, percebeu.

E então, Ele não vai sobreviver a essa noite.

“Eu...” ela começou, a voz fraca. Engoliu em seco. “Sim.”

Ele sorriu, e os vincos ao redor de seus olhos castanhos se acentuaram. “Mesmo?”

Era como se ele a pressionasse para realmente considerar a pergunta. Selena deu um passo mínimo para trás, e das sombras da estreita passagem entre as casas mais próximas saiu alguém cujo movimento ela mais percebeu do que viu. As mãos que tocaram seus ombros não eram familiares, mas também não lhe pareciam estranhas.

“Ele está te incomodando?” Jaime.

O homem estudou as feições do capitão da guarda de Morzan com alarme, se não reconhecimento, sua mão sumindo para dentro da capa. Selena nunca reparara no punhal que ele agora erguia a sua frente, a lamina prateada parecendo tão fria quanto afiada. “Quem é você?”

Selena deu mais um passo involuntário para trás, suas costas batendo contra o peito de Jaime, e ele apertou um pouco seu ombro, seu toque reconfortante. Ela arriscou olhar para trás, mas Jaime tinha a atenção voltada por inteiro ao homem com o punhal – ele parecia calmo, no entanto, e Selena podia sentir a espada em sua cintura. Eles não corriam perigo algum.

“Isso não vai te ajudar,” Jaime disse, sem erguer a voz.

O agente dos Varden não abaixou o punhal. “Quem é você?”

Jaime suspirou, e, quando falou, seu tom era de um pedido cansado, “Meu senhor...”

Selena não o via, mas reconheceria a voz de Morzan em meio a quaisquer outras. Já o que ele disse foram palavras desconhecidas e uma frase com uma cadência quase ritmada, palavras que ela sabia possuírem poderes que ela jamais entenderia. O homem deixou escapar a respiração em um suspiro, seus olhos se fecharam, e ele caiu ao chão em um movimento suave que não provocou som algum.

Selena não conseguiu desviar a atenção até Jaime tocar seu rosto muito gentilmente, preocupação real em seus olhos verdes claros.

“Você está bem?” ele perguntou.

Ela assentiu, respirando fundo uma vez. Jaime não pareceu convencido, mas se voltou para ver Morzan se aproximar a passos largos, Neil e Adam não muito atrás. O olhar que ele lançou a seu senhor foi quase repreensivo, mas Morzan não pareceu se importar. “Vocês conseguiriam lidar com isso sozinhos.”

Jaime encolheu os ombros. “Estava preocupado com o barulho, meu senhor. Mas sim.”

Morzan sorriu para a resposta, e finalmente olhou para Selena. A estudou de cima a baixo, atento, antes de cumprimentá-la com um aceno de cabeça. “Você está bem?” repetiu a pergunta de Jaime.

Selena assentiu. “Sim.”

“Bom. Adam vai levá-la de volta a estalagem. Jaime, Neil, comigo.”

Neil se abaixou para erguer em seus braços o homem desacordado, e Jaime estava ao lado de Morzan em instantes, lhe dizendo algo em voz baixa. Ao observá-los andando para longe, Selena percebeu, inquieta, que não havia ainda lugar para ela em seu meio.

Notas finais
Gostaram? ♥ Gente fazendo uma propaganda básica, comecei outra longfic de CDH, essa sobre a história da Queda dos Cavaleiros, e contada pelos povs (adivinha??) do Brom e do Morzan, alternado. A história é tanto sobre o relacionamento dos dois quanto sobre a Queda em si, é dividida em três partes, e começa logo que o Brom se torna Cavaleiro. Se tiverem interesse o link é esse aqui: https://fanfiction.com.br/historia/754099/A_Queda/ Espero ver vocês por lá e nos reviews aqui! ILY & kisses ♥