Shiver

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Dessa vez atualizei rápido, congrats me! Esse capítulo é importante, peoples, espero que gostem. E, Bea, my love, babe, it is all yours.

O sol começava seu declínio na direção do mar, e Selena deixou a taverna satisfeita. Morzan lhe dera algumas moedas a mais naquela manhã, a assegurando de que eram “Não para o que quer que você queira comprar – e iremos conversar sobre isso mais tarde –, mas em caso de você preferir almoçar na cidade ao invés de no castelo.” Ela passara horas explorando a cidade, e em um momento de vaidade comprara de um pequeno vendedor um colar de corda com pingente de concha que sabia ser simples de mais para ser usado com as roupas elegantes que Morzan lhe dera. Nem mesmo o vestira; se limitara a prendê-lo no cinto, decidida a guardá-lo como lembrança.

Fechou os dedos sobre o colar de prata em forma de rosa que ainda usava no pescoço, mordendo o lábio, e se dirigiu para a parte oeste da cidade como fora instruída. Teirm era extremamente bonita, e Selena se pegou andando devagar, entrando em lojas, sempre atenta a cada detalhe. Gil’ead fora maior, mas aqui havia tanto para se ver e uma quantidade muito menor de soldados entre os moradores. Era um lugar onde gostaria de viver, se conseguisse se desapegar da neve e invernos gelados.

Talvez voltasse, quando sua viagem com Morzan chegasse ao fim – porque ela chegaria ao fim, um dia, por mais que Selena quisesse que não. Olhou de soslaio para o castelo, imaginando se ele já voltara, mas imaginava que não; ainda não comprara o que precisava comprar, de qualquer maneira.

As lojas diminuíam em quantidade conforme ela seguia para oeste, dando lugar a grandes casas, ricas e bem trabalhadas, e as pessoas com quem Selena cruzava caminho vestiam roupas elegantes e andavam com a cabeça erguida. De repente feliz por estar usando um dos vestidos que ganhara de Morzan, Selena refletiu que aquele era um local estranho para uma loja. Talvez a maior parte dos clientes fosse rica, e ela supunha que isso oferecia certa garantia da qualidade dos produtos, mas se preocupava com o preço. Talvez devesse pedir a Morzan que a ajudasse a pagar; era do interesse dele assim como do dela.

Achou a loja que procurava com certa facilidade, mas o sol já estava próximo horizonte. Espiou por uma janela, tentando ver atrás de uma cortina de plantas, sem sucesso. Bateu na porta antes de entrar, se surpreendendo com a escuridão do lado de dentro. Um candelabro pendia do teto, fornecendo luz o suficiente apenas para que fosse possível perceber plantas cobrindo as paredes e até mesmo o teto, um comprido balcão no fundo da loja, e diversos objetos estranhos empilhados pelo chão. Não era o que ela esperara, e Selena franziu um pouco o nariz.

“Olá?” chamou, desviando de uma pilha de pergaminhos para se aproximar do balcão, mas não obteve resposta.

Olhou em volta mais uma vez, certa de que as ervas que precisava estavam entre as plantas ali. Não se sentia segura para explorar, no entanto, não se a herbolária não estivesse ali. Estudou as gavetas atrás do balcão, intrigada pelos tamanhos diferentes.

“Olá?” chamou mais uma vez, erguendo mais a voz.

Ninguém respondeu. Com um suspiro impaciente, Selena andou até uma das paredes, tocando as ervas penduradas com as pontas dos dedos. Achava que reconhecia as que precisava, e se debruçou para sentir o cheiro de uma.

Ouviu um barulho atrás de si, baixo, como algo raspando por uma superfície áspera, e se virou, seu coração batendo rápido contra o peito. Um gato estava sentado sobre o balcão, os olhos amarelados intensos fixos nela. Selena respirou fundo. É só um gato, disse para si mesma, mas não se convenceu.

Não parecia com nenhum gato que ela já houvesse visto. Esse era grande, com patas fortes e tufos em suas orelhas pontudas. Ela deu um passo à frente, franzindo um pouco as sobrancelhas, e murmurou, “O que é você?”

Sentiu algo tocar sua mente, leve e quase imperceptível, mas Morzan a viera treinando para perceber exatamente isso. Impossível.

O gato piscou. Dificilmente. Poucas coisas são impossíveis. Ele lambeu a pata, desinteressado. “Improvável” é uma palavra melhor.

Selena se aproximou devagar. O que é você?, perguntou novamente.

Achou que o gato pareceu insatisfeito. Pensei que talvez soubesse. Nunca ouviu falar de um menino-gato?

Ah. Claro que já. Selena o estudou novamente, inclinando a cabeça para o lado, seu interesse renovado. Jamais imaginara que eles realmente existissem. Era besteira, refletiu, uma vez que conhecia magia e dragões e telepatia.

O menino-gato balançou a calda, desdenhoso, e pulou para o chão. Selena o observou fazer seu caminho por entre os objetos até uma almofada velha. Ele se deitou, preguiçoso, e olhou para ela uma última vez. Não tente roubar nada.

Selena quis protestar, mas não seria verdade dizer que a ideia não lhe ocorrera. Suspirou, irritada, e chamou mais uma vez, alto.

Dessa vez, ouviu passos no fundo da loja. Uma mulher baixinha saiu de uma porta atrás do balcão, seus cachos escuros balançando e agulhas de tricô na mão. Ela parou, sobrancelhas erguidas em surpresa, e olhou de Selena para o menino-gato.

Selena mudou o peso de uma perna para a outra. “Desculpe,” começou, incerta. “A porta não estava trancada, e eu pensei...”

A herbolária sorriu. Angela, haviam dito a Selena que ela se chamava. “Ainda não fechei a loja, não se preocupe.” Ela olhou para o menino-gato mais uma vez. “Solembum disse que falou com ele.”

Selena seguiu seu olhar. “É assim que ele se chama? Ele quem falou comigo.”

“É um de seus nomes,” Angela respondeu, distraída. “Ele não costuma falar com clientes.”

“Devo ser especial,” Selena comentou, a voz seca.

“De fato. É a primeira, na verdade.” Angela disse, pensativa, e então sorriu. “Mas não veio aqui para isso. O que posso fazer por você?”

Ela olhou para as paredes da loja mais uma vez. “Eu gostaria de comprar,” e então hesitou, corando um pouco, “ervas.”

Era tão mais fácil lidar com aquilo sem precisar contar a ninguém.

Angela riu. “Sim, é o que vendo.”

“Mais nada? Há bastante coisas por aqui.”

“Ah, faço todo o tipo de coisas. Poções do amor, por exemplo, caso esteja rica e desesperada–”

“E funcionam?” Selena perguntou, sorrindo um pouco.

“Nunca faço promessas, mas os senhores que as compram sempre acabam voltando.” Angela pendeu a cabeça para o lado. “De quais ervas precisa?”

Selena encolheu os ombros, e as citou rapidamente, a voz cuidadosamente sem emoção. Angela assentia devagar, e disse baixinho, “Para evitar gravidez.”

Selena corou. “Sim,” admitiu.

“Besteira tentar te vender poções do amor, então.” Não necessariamente. “Quem te ensinou essa receita?”

“Minha mãe.”

“Não é uma receita ruim,” Angela disse calmamente. “Mas conheço melhores, se quiser.”

Selena aceitou, se aproximando do balcão enquanto a herbolária explicava. Angela embrulhou as ervas em um tecido grosso, cuidadosa, e ergueu os olhos brilhantes.“É claro que o modo mais seguro de evitar gravidez é com magia, mas entendo que não seja possível para você.”

Selena congelou. “Magia,” repetiu baixinho, franzindo a testa. É claro.

“Consegue fazer feitiços?” Eu não. No que Selena sacudiu a cabeça, Angela encolheu os ombros, resignada. “Mais alguma coisa?”

Selena sacudiu a cabeça, puxando a bolsinha de moedas de seu cinto. “Não, obrigada.”

Mas Angela tinha os olhos no menino-gato novamente. “Solembum falou com você,” disse, pensativa. “Isso te faz especial.”

“Como?”

Ela pareceu tomar uma decisão. “Gostaria que eu lesse seu destino? Posso fazer isso também, mas aviso que saber seu futuro pode ser algo terrível. Não é possível voltar atrás.”

Selena estava definitivamente interessada, mas hesitou. “Não posso pagar por mais que as ervas.”

“Não cobraria por isso.” Angela se levantou, procurando nas gavetas até achar uma bolsa de couro. Esticou um pano sobre o balcão, abrindo a bolsa e deixando cair um punhado de ossos lisos. “Esses são ossos dos dedos de um dragão–”

“Mesmo?” Selena interrompeu, e então corou. “Desculpe.”

Angela riu. “Mesmo. Diferente folhas de chá ou cartas de adivinhação, realmente funcionam, embora não sejam fáceis de ler. Posso jogá-los para você, se quiser, mas esteja certa de sua decisão.”

Selena hesitou.“Está me oferecendo por causa de Solembum?”

“Sim. Ele não falaria qualquer um.” Angela tocou um dos ossos com a ponta de um dedo. “O que me leva a me perguntar sobre você. Como se chama?”

“Selena,” respondeu em voz baixa. “Não sou ninguém especial, acho. Pelo menos não ainda.” Assentiu uma vez. “Acho que aceitarei sua oferta.”

“Tem certeza?” Angela perguntou, solene.

Tinha? O prospecto lhe parecia deliciosamente arriscado. “Sim.”

Angela assentiu, tomando os ossos nas mãos e os aproximando dos lábios. Sussurrou algo inaudível antes de declarar em voz alta, “Manin! Wyrda! Hugin!”

As palavras soaram desconhecidas aos ouvidos de Selena, mas havia algo de diferente sobre elas. Algo poderoso, definitivo, real. Talvez aquilo houvesse sido um erro.

Angela soltou os ossos sobre o balcão, se abaixando para examiná-los, e Selena pode ver seu rosto mudar. A herbolária deixou escapar um suspiro, e demorou a erguer os olhos.

Demorou a falar, também. “Este,” e indicou um dos ossos, “é o olmo, que indica que você viverá um número normal de anos.”

“Não é ruim,” Selena arriscou comentar. Não significava realmente nada.

Angela sacudiu a cabeça. Tateou embaixo do balcão e puxou um odre de vidro. Bebeu um longo gole, limpando a boca com as costas da mão, e o ofereceu a Selena.

Ela aceitou, mas não o levou aos lábios. Estudou os outros ossos, tentando desvendar por si só seu significado. Angela a viu observando uma rosa, e explicou, “A rosa indica um grande amor em seu futuro. Dois, talvez,” Dois?, “a não ser que eu esteja muito enganada, e importantes o suficiente para mudar o mundo. Mas aqui está o raio, e sinto que nenhum dos dois terminará bem.”

Ela apontou para outro osso, e Selena ouvia sua voz como se a uma grande distância. “Este indica um futuro conturbado. Sofrimento, sangue, e dor, de outros assim como de você.”

Ela hesitou, mas Selena não ergueu os olhos para encará-la. “Este,” e Angela apontou para um osso que Selena não via realmente, “indica uma armadilha, uma prisão. Não verdadeira, mas você se encontrará em uma situação de onde não sairá facilmente.”

“Um grande sacrifício, e uma traição vinda daquele de quem você menos espera. E este, talvez o mais importante, indica grandes consequências para suas escolhas. Seu caminho será difícil, mas tocará muitos.” A voz da herbolária estava baixa, muito baixa. Selena ergueu os olhos, e ela tinha a expressão solene, quase triste. “Vejo grandes emoções em seu futuro, girando em torno daqueles que lhe são mais preciosos. Nem todas ruins, porém...”

O modo como ela permitiu que sua voz morresse dizia mais do que suas palavras. Selena sacudiu a cabeça. “Isso é...” impossível, iria dizer, mas sabia que não era.

Fechou os olhos por um instante, as batidas de seu próprio coração altas em seus ouvidos, e levou o odre de vinho à boca.

Notas finais
Shout out to Nikolai Lantsov pelo impossível/improvável. Amo ele. Espero que tenham gostado, e tenho mais uma coisinha para vocês! Este aqui é um capítulo extra, que se passa entre esse (15) e o próximo (16), e é contado pelo ponto de vista do Jaime. Ele mostra uma visão do Morzan diferente da da Selena, e talvez mais na linha do que vocês tiram dos livros, mas é uma quebra com a ilusão que ele cria nesse começo de história. O link é esse aqui (https://drive.google.com/file/d/1FJ8tmBZVSFy-sW-_damsUArjr9Mx_U4M/view?usp=sharing), e me digam se lerem (e se gostarem!!)!! Espero que gostem, aiai. (Ciça, eu tinha essa ideia de que dedicar todos os capítulos múltiplos de 5 para você, mas não deu dessa vez, então considere o 15.5 seu.) Meus leitores fantasminhas, considerem me dar um oi pra eu saber que realmente estão aí lendo a fic (mesmo que não gostando), porque penso demais em vocês. Finalmente, feliz Natal! Beijinhos ♥ e amo vocês!