Shiver
14 Capítulo 14
Notas iniciais

Do quarto onde estavam, alto no castelo, era possível ver toda Teirm. Selena se recostou contra o batente da porta que se abria para a sacada, as cortinas brancas balançando na brisa suave, e se contentou em observar o mar. A vista era bela ao ponto de compensar a altura (ela ainda não reunira a coragem para se aproximar do guarda-peito), e Selena sentia que finalmente compreendia o motivo pelo qual Adam insistira que as cidades litorâneas eram as melhores. Não havia compreendido quando atravessaram Espinha e trocaram neve pelo verde das plantas, pelo marrom do solo enlameado, pelo branco da névoa, mas mudara de ideia ao ver o mar.
Teirm também era diferente de tudo o que ela vira antes. As casas aumentavam de altura conforme se afastavam das muralhas (uma estratégia para proteger a cidade em caso de ataque, Morzan dissera), e ela não pôde evitar se maravilhar com a beleza dos edifícios. Não chegaram a visitar o cais, mas vendo de longe como estava no momento, Selena sorria ao pensar nas viagens que os navios fariam (e ao se lembrar das histórias de piratas que os trovadores contavam em Carvahall, algumas de suas preferidas).
Deu as costas ao pôr-do-sol quando ouviu Morzan chamar seu nome. “Selena,” e ele lhe estendeu uma mão. “Venha aqui.”
Ele estava sentado em uma poltrona vermelha, um cálice de prata nas mãos, e estivera conversando em voz baixa com Jaime e Adam há ao menos uma hora. Selena se afastara para lhes dar privacidade, mas agora os guardas estavam sentados no sofá de frente a Morzan, e Adam abria uma caixinha de madeira. Ele ergueu os olhos para Morzan.
“Cartas ou dados, meu senhor?”
Morzan puxou Selena para o seu colo. “O que você joga?” perguntou.
Ela franziu a testa. “Não jogo, na verdade. Dados parecem mais fáceis.”
“Não necessariamente,” Jaime interrompeu. “E Adam gosta de jogos constrangedores. Não seria apropriado.”
Selena ergueu uma sobrancelha para o sorriso de Adam. “Constrangedores como?”
“Jogos de perguntas,” ele explicou. “Ou desafios.”
Qual a idade da pessoa mais velha com quem você já dormiu?, a voz de Morzan soou alta em sua mente, e ele beijou o pescoço de Selena, apenas um roçar dos lábios contra sua pele.
Ela sorriu um pouco. Eu não saberia responder. Quantos anos você tem?
Em vez de responder, Morzan a beijou mais uma vez, uma mão firme em sua cintura.
“Eu não me importaria,” Selena disse. “Se for o que quiserem jogar. E não preciso participar, de qualquer modo.”
“Eu me importaria,” Jaime afirmou. “E não é a sua presença que torna o jogo inapropriado.”
Morzan riu baixinho. “Cartas,” disse a Adam, e voltou sua atenção a Selena. “Vou precisar deixá-la sozinha amanhã.”
Ela mordeu o interior da bochecha, pensando, e disse em voz baixa, “Não tem problema.” Hesitou. “Eu... Eu preciso comprar algo, na verdade. Posso aproveitar que estamos na cidade e ver se consigo.”
Morzan estudou seu rosto por um instante. “Posso mandar alguém fazer isso por você, se quiser.”
Selena sacudiu a cabeça, arriscando um olhar rápido para Adam e Jaime. “Não, é algo... pessoal.” Não teve coragem de lhe dizer a verdade. “E você já me deu tanto. Preciso gastar meu próprio dinheiro com alguma coisa.”
Ele assentiu. “Como queira. Mas não posso poupar um de meus guardas para ir com você.”
Jaime os observava com olhos verdes ilegíveis, e disse em voz baixa, “Lorde Risthart não se importaria de lhe ceder mais um homem, meu senhor.”
“Não, mas não pedirei desta vez. Selena consegue sobreviver a um dia sozinha em Teirm, acredito.”
Ela se apressou a assentir. “Consigo. Sem problemas.” Não queria um desconhecido a seguindo, e não exigiria de Morzan algo que ele não gostaria de lhe dar. Não tinha esse direito.
Incapaz de sustentar o olhar de Morzan – tinha a impressão que ele via muito mais em seu rosto do que ela pretendia mostrar –, se virou apenas para encontrar os olhos âmbar de Adam fixos nela. “Vai jogar?” ele lhe perguntou, calmo como sempre.
Morzan ajeitou seu braço em volta da cintura de Selena, a puxando mais para perto de si, e ela sentiu a mente dele roçar a sua. Você está bem?, e o que ela sentia em seus pensamentos era mais curiosidade do que preocupação.
Ela assentiu, correndo as pontas dos dedos por seu peito, sentindo o tecido suave. Como em Gil’ead, Morzan vestira roupas mais elegantes quando se aproximaram de Teirm. O gibão era negro com detalhes prateados, as mangas compridas vermelhas como vinho. Estou bem, Selena o assegurou. Você tem o costume de jogar com seus guardas?
Aquela já seria uma tentativa óbvia de mudar de assunto em circunstâncias normais, e com Morzan em contato com seus pensamentos, Selena não se preocupou em tentar disfarçar. Ele não insistiu, no entanto. De fato não, Morzan admitiu, mas não queria passar mais tempo do que o necessário com outros nobres. Eles me pediriam informações que não posso dar, e já terei de aguentar a companhia de Lorde Risthart amanhã.
Selena sorriu um pouco. E já jogou um desses jogos de perguntas de que Adam gosta?
Não com eles, Morzan respondeu. Eles não se sentiriam à vontade para me perguntar certas coisas, como realmente não devem.
Ela se perguntou se talvez pudesse fazer alguma dessas perguntas, mordendo o lábio inferior, e não se surpreendeu totalmente quando Morzan riu.
Não espera que eu te conte os segredos mais profundos do meu coração, não é?, e havia uma nota sutil de zombaria em seu tom bem-humorado.
Selena se permitiu um sopro de riso. Não de verdade. Hesitou. Mas te contaria os meus.
Mesmo? E quais são seus segredos mais profundos, Selena?
Ela olhou em seus olhos díspares brilhantes, e entreabriu os lábios. Se afastou de sua mente antes de sussurrar, “Não sei.”
“Não?” Morzan ainda sorria. “Faça um esforço.”
Ela pensou por um instante antes de lhe devolver um sorriso torto. “Desde que chegamos em Teirm, não consegui parar de pensar nas histórias de piratas que ouvia quando era criança.”
Dessa vez, ele riu alto. “Está bem, Sel,” e estendeu uma mão para pegar as cartas que Adam depositara na mesa a sua frente. As mostrou para ela, e Selena tocou as iluminuras incríveis pintadas nelas. Não fazia ideia se a mão que ele recebera era boa ou ruim.
Se ajeitou no colo de Morzan e encostou sua cabeça em seu ombro, muito confortável. “Não sei o que isso significa,” admitiu em voz baixa. “Pode me ensinar?”
“Com prazer,” ele respondeu, como se não quisesse nada mais do que ensiná-la diversas coisas. “Mas precisa abrir sua mente para mim. Não posso arriscar ser ouvido.”
Selena olhou para os guardas pelo canto dos olhos. Adam tinha a atenção voltada para as próprias cartas, mas Jaime estava reclinado contra o sofá, os olhos muito claros os observando. O sorriso que ele ofereceu a Selena não continha humor algum, e ela desviou o rosto.
Assentiu minimamente para Morzan, deixando escapar um suspiro ao toque de sua consciência. Relaxou contra ele, se deixando levar pela cadência de suas palavras, e não pensou mais no que aconteceria no dia seguinte. Não no que era que os guardas fariam para que nenhum dos três pudesse ficar com ela, não em porque Morzan estaria ocupado durante todo o dia, e não no que esperava por ela nas ruas de Teirm.
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