Shiver

13 Capítulo 13


“Quer tentar mais uma vez?” Morzan perguntou, traçando uma das sobrancelhas de Selena com o indicador.

Ela estava deitada em uma manta que estendera sobre a grama – Morzan eliminara o pouco de neve que encontraram por lá com um feitiço, mas o chão ainda estava frio – com a cabeça apoiada em seu colo. Morzan tinha as costas apoiadas na barriga de seu dragão, mas Selena já quase não ficava nervosa por isso. Desde que deixaram Bullridge, tivera tempo suficiente para se acostumar com o dragão, com magia, com as encenações que faziam nas tavernas de todas os vilarejos por que passavam – por mais que esses vilarejos fossem pequenos demais para sequer aparecer no mapa, por mais que ainda não houvessem encontrado ninguém com qualquer intenção de se erguer contra o Império. Morzan insistia que aquilo se devia somente ao fato de não terem passado ainda por nenhuma cidade grande.

Selena franziu um pouco o nariz. “Sou péssima nisso.”

Ele riu. “Você só precisa disciplinar sua mente,” respondeu, sem parecer preocupado. “Pode ser difícil no começo, mas você consegue me reconhecer sem problemas. Isso é um bom sinal.”

Selena havia perguntado a ele sobre o que Jaime havia lhe falado sobre se comunicar com a mente logo que ele subira para o quarto naquela noite em Bullridge, e Morzan lhe explicara, lhe mostrara, e finalmente se decidira que ela deveria aprender a defender sua mente. Selena concordara sem hesitar, porque obviamente gostaria de aprender – mas por mais que adorasse a sensação da mente de Morzan tocando a sua, acabara por descobrir que tentar impedi-lo de tocar seus pensamentos era terrivelmente frustrante.

Deixou escapar um suspiro resignado. “Só preciso me concentrar em um pensamento?”

Morzan assentiu. “Ou um sentimento, ou uma imagem. Qualquer coisa, na verdade. Uma técnica comum é ficar repetindo uma rima ou poema. Ajuda.”

Selena estreitou os olhos. “Porque não me disse isso antes?”

“Seria melhor, acho, que você não precisasse depender desse tipo de truque. Mas já que está começando, tudo bem.”

Ela percebeu que ele tomara a decisão por ela, e franziu um pouco a testa. “Se eu optasse por usar apenas esse método, no entanto, seria um problema?”

Selena observou como os lábios de Morzan se entreabriram minimamente, como se ele acabasse de perceber o que dissera, e se perguntou se o deslize dele fora decidir por ela ou apenas admitir o que fizera. “Não,” Morzan respondeu. “É claro que não.”

Ela assentiu. “Todos os seus guardas sabem defender suas mentes?” perguntou, mais para ganhar tempo do que por curiosidade.

“Todos,” ele confirmou. “Sabendo tudo o que sabem, eles precisam. Não permito que qualquer um faça parte da minha guarda. Ou que façam qualquer coisa para mim, na verdade. Todos os meus criados são escolhidos a dedo.”

Selena considerou. “Como escolheu Jaime?”

Morzan hesitou. “Meu capitão da guarda da época reparou nele. Ele tinha dezesseis anos na época, e já estava servindo na guarda do palácio–”

“Você o roubou do rei, então?”

Ele riu alto, inclinando a cabeça para trás, seus cabelos escuros tocando as escamas vermelhas de seu dragão. “Ele não fazia parte da guarda pessoal de Galbatorix, não, embora tenho certeza que teria conseguido chegar lá mais cedo ou mais tarde. Jaime precisava de certo incentivo naquela época, precisava de alguém que o ajudasse a se tornar o que é hoje.” Morzan sorriu. “Não tão diferente você, embora você tenha confiança e ambições com que ele nem ao menos sonhava quando o conheci.”

Selena sorriu de volta para ele. “Você acha que eu poderia me tornar alguém? Com o incentivo necessário?”

“Eu certamente espero que sim.” Ele bateu muito levemente na testa de Selena com o indicador. “Mas só se se esforçar para aprender o que precisa.”

Ela suspirou. “Certo. Devo usar algum poema específico?”

Morzan sacudiu a cabeça. “Não necessariamente, embora existam alguns ideais para esse tipo de coisa.” Ele lhe ensinou um, e a fez repeti-lo algumas vezes para ter certeza que Selena o decorara. “Agora, tais truques são ideais para quando você precisar defender sua mente de alguém muito mais poderoso que você, mas na maior parte das vezes não são necessários, então o ideal é que você só dependa deles agora que está aprendendo.”

Você é alguém muito mais poderoso que eu.”

“Sim, mas não estou usando toda a minha força contra você.” Morzan estudou o rosto de Selena por um instante antes de perguntar. “Está pronta?”

Ela hesitou. Fechou os olhos, respirou fundo, e começou a repetir o poema, de novo e de novo.

Em El-harím vivia um homem de olhos amarelos

Ele disse para mim: "Cuidado com os sussurros, pois eles mentem

Não lute com os demônios da escuridão

Senão uma marca em sua mente eles porão

Não ouça as sombras das profundezas

Senão elas a assombrarão quando você dormir."

Sentiu a mente de Morzan roçar contra a sua, inicialmente quase imperceptível, e tentou ignorá-lo. Se focou nos versos do poema, pensando neles sem refletir sobre eles.

Em El-harím vivia um homem de olhos amarelos

Ele disse para mim: “Cuidado com os sussurros, pois eles mentem.”

A pressão da mente de Morzan contra a dela aumentou um pouco, mas Selena achava mais fácil resistir a ela do que resistir ao impulso de prestar atenção nele. Começou a repetir o poema mais e mais rápido, movendo um pouco os lábios, e se surpreendeu ao perceber que a estratégia estava de fato funcionando.

Foi seu triunfo que permitiu que Morzan derrubasse suas defesas, no entanto. Ele lhe dissera que não era preciso mais do que um instante de distração para que alguém mais experiente invadisse sua mente, e ele tivera um século para praticar o que Selena tentava fazer apenas há dias; uma vez que ele tocara seus pensamentos, os esforços que ela fez para resistir foram em vão.

Ela sentiu todo seu corpo enrijecer, já não apenas seu. O controle de Morzan era gentil, mas firme, e ele o manteve por um mero instante antes de a soltar. Selena deixou escapar a respiração em um suspiro, abrindo os olhos para ele. Sou péssima nisso, repetiu.

Morzan sorriu, sacudindo um pouco a cabeça. Não é, respondeu, sua voz alta e clara apenas dentro dela. Selena sentiu sua mente começar a se afastar e ergueu uma mão para tocar seu rosto, quase hesitante.

Fique, pediu, e ele ficou.

Notas finais
Sendo bem justa com o autor, esse poema é bem (bem!!) melhor em inglês. Sorry 'bout that. Desculpem pela demora, também (notebook quebrado, computador de casa de difícil acesso, vocês já sabem), e espero que tenham gostado! Vejo vocês nos reviews ♥