Shiver
100 Capítulo 100
Faria calor mais tarde, mas, quando Selena acordou, ainda antes do amanhecer, o ar estava frio em Urû’baen. Ela se vestiu em silêncio — roupas de viagem, dessa vez, e não as vestes elegantes e suntuosas da corte, e deixaria a cidade como a Mão Negra, e não como a Senhora Selena, ao menos teoricamente. Trançou parcialmente seu cabelo, para mantê-lo longe de seus olhos, e se sentou à mesa para um desjejum de pães e frutas, sentindo-se estranhamente introspectiva mesmo quando Morzan se juntou a ela.
Ao descerem as escadas da torre, pouco tempo depois, ele apoiou uma mão na base de sua coluna, mantendo-a perto, e pararam os dois um pouco afastados do pátio do palácio, onde Jaime e Adam já os esperavam. Morzan ergueu os olhos de cores diferentes para os céus por um instante curto, como se procurasse por alguma coisa, atento às diversas torres da cidadela, mas, diferente da primeira vez em que ele trouxera Selena à cidade, não havia dragão algum à vista; nem mesmo pássaros voavam ainda, tão cedo naquela manhã de verão.
“Quero que entre em contato comigo hoje à noite,” ele acabou dizendo, a mão sobre seu braço em um toque quase distraído, “depois que terminarem de arrumar o acampamento.”
Ela levava consigo um espelho encantado para exatamente esse propósito, e fez que sim em um movimento pequeno. “É claro.”
“Não se esqueça,” Morzan pareceu precisar reforçar. “E não insista muito em ajudar Adam com todo esse trabalho mais básico, também. São tarefas dele.”
Selena sorriu um pouco para aquilo, olhando pelo canto dos olhos para o local onde Adam e Jaime conversavam em voz baixa, junto aos cavalos. “Não, eu sei. Não vou.”
Morzan estudou seu rosto pelo que pareceu ser um instante muito longo, e então devolveu seu sorriso, apenas os cantos dos lábios se curvando para cima, o gesto inteiro tão discreto. Foi ele quem se aproximou para abraçá-la, a envolvendo em seus braços para que Selena pudesse aproveitar uma última vez do calor e da proteção de tê-lo tão próximo, e plantou um beijo leve no topo de sua cabeça.
“Não se esqueça do seu treinamento e de tudo o que combinamos,” foi o que ele lhe disse, a voz muito baixa, “e você deve ficar bem. E você sabe como me chamar, se precisar de mim.”
Selena sentia que precisava dele sempre. Foi com algum esforço que se afastou, erguendo o rosto para que pudesse olhá-lo nos olhos, e fez que sim em um movimento lento. “Eu vou ficar bem. Nos falamos hoje à noite, certo?”
“Certo,” Morzan confirmou, tão suave. “Boa viagem, Sel.”
Ele permaneceu onde estava enquanto ela andava até os guardas, e foi Jaime quem inclinou a cabeça para cumprimentá-la primeiro, já dando um passo à frente. “Minha senhora,” disse, lhe oferecendo de prontidão as rédeas de seu cavalo. Entendeu uma mão para ajudá-la a montar, também, educado e prestativo como sempre, e então encontrou seu olhar para se despedir dela de verdade. “Tome cuidado.”
Selena o respondeu com um sorriso apertado, mas sincero. “Você também.”
“Sempre,” Jaime concordou, tão fácil. E então, “Boa sorte.”
Palavras mais adequadas talvez impossíveis. Selena apertou com força as rédeas que tinha entre os dedos, falando brevemente com Adam para confirmar se ele estava pronto, antes de erguer os olhos para Urû’baen uma última vez. Iluminada pelos primeiros raios do sol que apenas começava a nascer, a cidade inteira era muito bonita, quase pacífica, por mais que fosse difícil não olhar para cada uma das torres do palácio e não imaginar quem vivia em cada uma delas: Kialandí, Formora, Enduriel, Alexis — essa última ocupando agora um espaço deveria parecer muito vazio, sem a presença tão forte de seu irmão. A rocha lá em cima, e as cinzas dos dois cavaleiros mortos que o vento frio daquela manhã espalharia como neve para os quatro cantos do Império.
Impossível não pensar também na primeira vez que ela pisara na cidade, depois de chegar voando no dragão de Morzan, e, ainda antes disso, na forma como uma vez deixara Carvahall para explorar tudo o que o Império tinha a oferecer. Não fazia assim tanto tempo, Selena supunha, embora aquela versão de si já lhe parecesse muito distante, muito jovem e um pouco ingênua, mas também cheia de esperança, maravilhada com o que tinha à frente de si; os momentos inteiramente distintos, embora, depois de tudo o que acontecera, fosse difícil não sentir uma certa finalidade em deixar Urû’baen para trás agora também. Não acreditava, de verdade, que as coisas pudessem um dia voltar a serem exatamente como ela aprendera a se acostumar.
Jaime já recuava de volta para o ponto de onde Morzan os assistia, inclinando a cabeça para ouvir algo que seu senhor lhe dizia, mas Selena não teria como saber o que, àquela distância. Ela encontrou os olhos de cores diferentes de Morzan uma última vez, tirando algum conforto e segurança da forma como eles permaneciam fixos sobre ela, e então guiou seu cavalo para que ele se virasse e começasse a andar em direção aos portões do pátio.
Fez seu caminho pela cidade decidida a não olhar para trás, e talvez, naquele ponto específico, também destinada a falhar.
Cause in this city’s barren cold
I still remember the first fall of snow
And how it glistened as it fell
I remember it all too well
All Too Well (10 Minute Version) – Taylor Swift
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