Shin! - Livro um, O Garoto Esquecido.

6 Capítulo 6 - Noite harmônica


"Já fazem alguns dias desde que partimos do castelo de Alagon em busca de um caminho até Kato, não lembro direito como cheguei até lá, lembro de pouquíssimas coisas como uivos e a chuva que caia, também me lembro da Lua que mesmo em meio a tempestade brilhava de forma inexplicável. Estamos na companhia de Argorn, um velho mercenário, que nos disse saber como chegar até Kato. Ele está falando sobre a Lua e suas mudanças e sobre ventos, não entendo o porquê o pessoal tem prestado tanta atenção nesse velhote, sendo que ele só está falando besteiras, sigo olhando minuciosamente para ele em busca de alguma pista de onde ele guardou os mantimentos que pegou em sua cabana, lembro que ele disse ter pego carne e estou procurando o lugar onde ele à colocou, e nossa, estou faminto. — Shin, o garoto sem memorias."
O grupo seguia pelas ruas da pequena aldeia enquanto ouviam os relatos e façanhas de Argorn.
Shin seguia olhando a aldeia e se perguntando se algo de errado havia acontecido ali, enquanto Emanuelle e Viktor olhavam atentamente para Argorn e para cada palavra e sinal que ele fazia com os braços apontando para casas velhas e lugares vazios dizendo que ali ou aqui haviam tais lugares e viviam tais pessoas.
Flux seguia de perto o grupo, porém sem dar muita atenção as aventuras de Argorn, mas sim desempenhando o papel para o qual foi treinada durante toda sua vida.
Flux olhava atentamente para cada sinal de vida possível de se detectar no local de forma magistral, detectou pássaros passando sobre eles, a água correndo no rio por detrás das casas, o vento cruzando o céu e as nuvens correndo por ele, as folhas nas árvores voando com a corrente de ar e as pessoas que ali viviam de forma pacata e triste.
Tudo isso era visto por ela de forma única e igual, da mesma forma que avistava algo em singular, ela percebia o todo ao mesmo tempo, e desta forma pôde avistar antes que o resto do grupo um pequeno estábulo ao longe.
— Cavalos? — Perguntou ela.
— Exatamente! Vamos pegar alguns bons e fiéis cavalos para nos guiarem pela nossa viagem. — Respondeu Argorn de forma animada.
O grupo andou por mais alguns poucos metros e então chegaram ao estábulo que Flux havia visto a minutos antes dos demais. Era um lugar pequeno, porém cumpria de forma satisfatória seu papel, estando quase despercebido em baixo de uma grande árvore e passando por dentro do enorme tronco dela, tendo uma porta de um lado do tronco e uma pequena chaminé saindo pelo outro, em volta da árvore havia um cercado onde ficavam os animais que ali eram criados, podia-se notar que mesmo que fossem poucos eles eram bem cuidados, tinham o pelo lustroso pois quando o sol que já estava se pondo pousava sobre eles era subitamente refletido, quase como se caísse sobre um espelho. Podia-se ver ao todo, 3 cavalos que ali viviam, junto deles alguns animais menores como insetos diversos, galinhas e pintinhos e também uma grande e vigorosa vaca completavam o pequeno grupo de animais.
— Ohhhhh, uma vaca! — exclamou Shin admirado correndo em direção a cerca.
— Vamos também Emanuelle quero dar uma olhada mais de perto. — Disse Viktor.
Argorn seguia o grupo indo em direção a porta do estábulo, Viktor e Emanuelle olhavam atentamente os animais pela cerca enquanto Shin corria de um lado para o outro atrás deles imitando todo tipo de som que ele reconhecia como sendo o de vacas, Flux seguia de perto Argorn até a entrada
— E aqui estamos, chegamos no nosso estábulo, vamos pessoal não temos tempo a perder, vamos entrando. — Disse Argorn.
O grupo então seguiu Argorn assim como ele disse, Shin foi o último a entrar no lugar, estava com algumas folhas de grama entre os fios de cabelo e um pouco de lama nas botas que usava. Com um pouco mais de calma ele pode ver que o lugar era bem maior sendo visto por dentro do que por fora, a pequena cabana que se via do lado externo se estendia por mais que metade da enorme árvore não se sabendo quem tinha vindo primeiro ao mundo, a árvore ou a cabana, pois uma sustentava a outra de tal forma que pareciam ter sido erguidas no mesmo tempo, ela possua nas paredes internas da árvore todo o tipo de coisas penduradas, desde louças em prateleiras até livros, passando por todo tipo de bugiganga estranha e não identificável.
No hall do lugar um balcão velho de madeira podia ser visto acompanhando o formato do local, atrás dele uma senhora esperava os visitantes.
— Boa Tarde Argorn, o que vai levar hoje? — Disse a senhora assim que viu ele entrando no lugar.
— Boa Tarde Senhora Nora, como a senhora está no dia de hoje? — Perguntou ele.
— Ah, tudo na mesmice de sempre querido, estou esperando uma encomenda que está vindo de Zao, você sabe que é difícil manter os animais desde que a lua azul apareceu, nada mais cresceu no solo, só posso mantê-los com a ajuda de outras aldeias. — Explicou Nora.
— Pois é Nora, eu sei muito bem disso, e falando nos seus animais, preciso que me alugue alguns deles pois estamos de viagem até Zao. Preciso dos cavalos que você cria aqui. — Disse Argorn.
— Pois bem querido, de quantos precisa? Você sabe que tenho poucos, mas os poucos que tenho são bem cuidados.
— Preciso de todos, são 3 certo? Vou levá-los conosco.
Shin havia saído do interior do lugar e voltado a inspecionar os animais tendo um interesse grande pela vaca que ali era criada. Vagarosamente ela se alimentava enquanto Shin tentava fazer com ela tivesse algum tipo de reação à presença dele, enquanto o mesmo emitia todo tipo de sons tentando chamar a atenção do animal e falhando miseravelmente.
Enquanto isso, Viktor e Emanuelle brincavam com tudo que achavam engraçado dentro do hall do local, encontrando máscaras e chapéus dos mais variados formatos e tipos. Nada disso chamava atenção de Flux que acompanhava de perto a negociação de Argorn com a velha Nora na expectativa de iniciar em algum momento um combate contra a senhorinha, Flux estava apenas em busca de confusão.
Até o momento em que um raio de luz entrou por uma portinhola que era localizada quase na copa da árvore. Lá no mais extremo alto do local, em um canto que qualquer outro que não fosse Flux não perceberia, repousando em um apoio na parede havia uma lança.
A lança tinha o cabo em um tom de cor claro, próximo ao do barro porém com entalhes em vermelho, no fim do cabo encontrava uma lâmina que era curiosa pra Flux, de forma que ela parecia não ter visto um material daquele em qualquer outro lugar que fosse pois parecia ser feito do mais frio metal, e mesmo assim refletia o sol que estava se pondo sobre de forma que parecia uma tocha e não um pedaço de metal, próximo da lâmina uma pena também vermelha estava presa.
— Que arma é aquela? — Disse Flux de forma súbita assim interrompendo a longa conversa que Argorn e a Senhora levavam.
— Ah, a Lança lá em cima? Lhe chamou a atenção eim? Argorn procurava nas paredes tentando encontrar o artefato sobre o que as 2 mulheres conversavam, enquanto Flux continuava olhando fixamente para a lança que somente ela e a dona do local sabiam da existência até o momento.
— Aquela arma minha jovem, infelizmente não está à venda, pois nem eu mesmo sei do que ela é capaz, me foi vendida com a promessa de que é capaz de fazer coisas incríveis, porém até hoje ela permaneceu ali sem dar sinal de diferença alguma. Estranho, não é? — Explicou a senhora.
Flux permaneceu em silêncio, porém demonstrando que havia entendido a explicação da senhora de forma que ficará clara que a arma não sairia dali e assim decidiu não levar a discussão adiante.
Nora, também notou que a discussão havia se dado por concluída e então tornou a negociar com Argorn , que permanecia procurando a lança até então, e notavelmente não encontrando.
Para surpresa de todos e espanto de alguns ali reunidos, Shin entra no hall completamente sujo de lama, com pasto e cocô de vaca e sabe-se lá mais qual animal nas botas.
— Ah! Foi muito divertido brincar com os animaizinhos, eles são realmente legais, mas já podemos seguir? Estou cansado já e com fome também. Ei povo, tão olhando pra onde?
Shin focou sua atenção onde o trio olhava e lá no topo encontrou a lança, ela brilhava aos olhos de Shin, como se fosse um cometa dentro da velha árvore.
"Avancem tropas! Sigam marchando!
Eu, Barland os guiarei rumo a Vitória!
Akito, mantenha-se próximo a
mim garoto,
E lembre-se, mire a Duscan no coração
Desses desgraçados. "

Shin ficou lá, parado olhando para a lança, "Barland? Akito? E Duscan?" Seriam suas memórias retornando? A cabeça de Shin rodava por dentro e confusa e bagunçada
— Querido? Está tudo bem? Bom, acho que sim. Podemos voltar a negociar- Disse Nora.
— Oh, sim, podemos sim. Vamos fechar no valor sugerido pela senhora então? Acredito que 150 moedas de cobre pelo aluguel dos cavalos seja justo e pagarei a senhora de bom grado. — Respondeu Argorn preocupado com Shin, ele não parecia nada bem.
— Pois bem, preciso que você assine os papéis para que possamos firmar o trato então. Lembre-se que você deve cuidar bem dos meus animais pois são bem tratados e precisam ser alimentados regularmente, e desde que esses pré-requisitos sejam atingidos, eles levaram vocês de bom grado a todo e qualquer lugar que puderem chegar por terra.
— Tudo Nora, eu sei como são as coisas aqui, farei como você diz, obrigado por tudo. — Disse Argorn assinando uma grande pilha de papéis que haviam sido postos em cima do balcão e colocando sobre eles um pequeno saco de couro com o valor combinado.
— Feito isso e todas as cordialidades terminadas, Argorn e Flux se retiram do local passando por uma segunda porta que havia atrás do balcão que dava um caminho direto ao cercado onde os animais viviam.
Assim que chegaram ao cercado, Argorn se pôs a examinar os cavalos que estavam ali, celas e tudo que fosse necessário para deixar os animais prontos para a viagem estavam ao alcance de todos no lado externo das paredes do estábulo.
Viktor e Emanuelle partiram ao encontro de Argorn e Flux para ajudar com as bagagens que levavam e prende-las nos cavalos, Shin os seguiu.
O grupo então partiu da pequena aldeia e tendo apenas 3 cavalos à sua disposição, Argorn montou o maior cavalo dos três, sendo este um cavalo vigoroso e de cor preta pura, porém reluzente, Viktor e Emanuelle seguiam juntos em um cavalo malhado, branco e marrom, de tamanho mediano e por fim Flux e Shin, para o seu desespero, seguiram no terceiro e último cavalo, uma égua, essa era branca em tom único.
Entre resmungos e empurrões entre Shin e Flux, o grupo seguiu ao norte durante 3 horas, passaram por grandes planícies seguindo o rio que saía da aldeia direção acima, no caminho encontraram animais variados diferente do que haviam visto na aldeia que parecia estar morta. Flux se perguntava a cada nova espécie de criatura que viam pelo o caminho, o porquê de não chegarem até a aldeia e se manterem em grupos no caminho até lá, porém sem se aproximarem, nada daquilo fazia sentido para ela, que era uma grande e conhecida estrategista e prezava acima de tudo a compreensão daquilo que lhe era proposto.
Então decidiram que o melhor para o momento seria montar acampamento em uma pequena clareira encontrada alguns poucos metros seguindo o mato que beirava a estrada que o grupo seguia, por questão de segurança em direção a Kato, sendo que a visibilidade do acampamento seria reduzida pelas árvores. O grupo então amarrou os 3 cavalos nas árvores ao redor da clareira e Argorn começou a descarregar tudo que fosse necessário para passarem a noite no lugar enquanto Viktor lhe auxiliava na tarefa. Shin vasculhava o local em busca de animais que pudessem ser cozidos, fritos ou assados e em pouco tempo conseguiu encontrar um grande javali que capturou usando uma corda que havia trazido do estábulo, se mostrando um exímio caçador, embora nem ele mesmo soubesse como havia feito tal tarefa. Emanuelle limpou o local e dividiu a área em 2, Cozinha e Dormitório.
Flux por sua vez fazia uma vistoria na área e armava armadilhas em locais estratégicos para assegurar a segurança do grupo enquanto andava nos topos das árvores próximas, derrubava troncos secos e galhos para Shin, que a acompanhava de perto e armazenava todos eles em fardos para que fossem usados para criar uma fogueira.
Assim, o tempo passou e o grupo pôs o acampamento em pé, a fogueira foi criada e tochas também. Argorn amarrou o enorme javali com a ajuda de Shin e Viktor em um tronco grande e colocaram o animal em cima da fogueira que haviam criado.
Argorn então usou uma das facas que levava com ele para criar uma fagulha a raspando em uma pedra e queimar a fogueira.
Todos estavam ali reunidos ouvindo as histórias que Argorn contava, e pouco a pouco todos adormeceram, até mesmo Flux que estava de Guarda no topo de uma árvore próxima precisou repousar, e então, a primeira noite que o grupo estava reunido em harmonia passou.