Shikashi!!

2 Até que a paixonite as separe


Notas iniciais
Onde conhecemos os gêmeos kawaii diabólicos, metemos o bedelho na vida amorosa da Miku e alimentamos esperanças inúteis.

Eles eram gêmeos, louros de olhos azuis. Uma gracinha de lindos e simpáticos. Kagamine Len e Rin, um casal de adolescentes bastante incomum.

O vento soprava no rosto da garota, balançando os cabelos curtos e o laço branco sobre a cabeça. Estava vermelha, a expressão torcida num adorável biquinho de raiva.

– Como assim, ‘esqueceu’? Eu deixei o sei almoço em cima da mesa, como todas as manhãs!

– Eu sei– ele sorria sem graça. – É que eu tinha um monte de coisas na cabeça hoje.

– Aff... Já vi que vou ter que deixar a marmita dentro da sua mochila de agora em diante.

– Vai mesmo? Obrigada por sempre se preocupar comigo, Rin...

Ela agora parecia um pimentão.

– N-Não é que eu me preocupe com você... Idiota! – E saiu correndo.

Perto dali, um grupo de garotas assistia, derretida. Elas eram o mais próximo que uma pessoa normal podia ter de um fã-clube.

– Len-kun, aqui! –Uma delas chamou. – Pode dividir o almoço comigo se quiser, eu trouxe bastante!

– Eu também, Len-senpai!

– Não, divide comigo!

O rapaz foi arrastado pelas fãs e acabou tendo que almoçar com elas, mas não de má vontade.

Elas não eram exatamente fãs “dele”, mas sim dos Kagamine. Adoravam imaginar que os irmãos tinham um romance secreto, e eles, como os capitalistas visionários que eram, não perdiam a chance de lucrar em cima do fanservice.

– Parece que vocês foram bem-sucedidos hoje– Gumi comentou para a Rin, que tinha vindo se sentar perto da gente para almoçar.

– Sim –ela sorriu, tomando um gole de refrigerante. – A missão “almoço de graça” foi um sucesso!

Os Kagamine estudavam na mesma turma que a Gumi e eu. Graças ao QI elevado eles tinham pulado de série e eram um ano mais novos que os outros. Também eram os únicos além de mim que sabiam que a Gumi era uma mangaká. Ou melhor. Os únicos que acreditavam. O resto da escola não imaginava que “Cannonball”, um dos mangás shonen recentes mais lidos do momento, fosse escrito por uma simples garota do ensino médio. Nem tanto por sua idade, mas por ser uma garota mesmo.

Não que Gumi fosse a garota toda menininha que não se esperava que desenhasse uma história de ação com carros e explosivos. Gumi tinha os cabelos curtinhos e verdes e gostava de camisetas de banda e jogar videogame. Ela sempre gostou de histórias shonen, até onde eu sabia. Enquanto o irmão preferia shoujo, como recentemente fiquei sabendo.

E falando nele...

– O nii-san teve que viajar pra ver a namorada– Gumi contou. –Liguei pra ele, e ele disse que houve um problema... Acho que ele não volta até a semana acabar. Miku-chan...

Eu sabia o que ela queria pedir com a maior cara de arrependimento, e resolvi tranquilizá-la.

– Eu posso segurar as pontas até ele voltar. Mas tem certeza de que está tudo bem com eles?

– Acho que sim– ela pensou um pouco. – O nii-san parecia meio preocupado quando falou comigo. Mas bem, eles são adultos. Vão resolver o que tiverem de resolver entre eles. Mas Miku-chan, o serviço vai ficar muito pesado pra você.

– Tudo bem– eu assegurei. –Até que tudo se acerte, eu posso cuidar da minha parte.

Rin, que apenas observava o movimento dos alunos no corredor, voltou-se para nós duas. – E então, vai ter karaokê depois da aula?

– Rin-chan– Gumi sorriu paciente. –Nós estávamos justamente falando de como vamos ter trabalho dobrado essa semana, sem o meu irmão pra ajudar e tudo mais...

– Oh, eu não ouvi, foi mal. –Ela nos olhou animada. –Então, karaokê na saída da escola?

Aghhh! Difícil dizer não àqueles olhos azuis enormes e carentes. Ela fazia de propósito, com certeza. Os Kagamine eram gênios da manipulação emocional.

Ficamos algumas horas no karaokê, onde a pontuação mais baixa costumava ser a minha (ei, eu nunca disse que cantava bem), mas sempre nos divertíamos bastante. O Len também estava lá, inventando umas dancinhas malucas quando cantava e vaiando a Rin quando era a vez dela. Enfim, tudo ficava animado com os dois por perto. No comecinho da noite deixamos a Gumi no ponto dela na estação e seguimos juntos no metrô, já que eu descia no mesmo ponto que eles.

Assim que ficamos sozinhos, a Rin e o Len me rodearam.

– E aí? O que você fez pra eles finalmente brigarem?

– Já sabe quando o Gakupo volta pra casa?

– Já se declarou pra ele?

– Ou tá esperando ele chegar em você?

– Aghh, fiquem quietos! –eu exclamei bem alto, irritada, fazendo uns tiozinhos ali perto olharem feio pra gente. – Não é nada disso, tá bom? Eu não sei o que aconteceu com o Gakupo e a namorada dele. Nem a Gumi que é mais próxima deles, sabe de alguma coisa... Vocês tem uma senhora imaginação, hein...

– Bom– Len cruzou os braços, com um arzinho irritante de sabe-tudo no rosto. –Até onde sabemos, ele sempre contou tudo do relacionamento dele pra irmã. Se ele preferiu deixar a Gumi no escuro, alguma coisa pesada aconteceu...

– Uma gravidez indesejada– Rin opinou.

– Ou uma traição.

– Dele ou dela?

– Dos dois, será?

– Gente– eu quase gritei, e os tiozinhos bufaram de ódio pra mim. Resolvi tomar cuidado com meu tom de voz, mas estava difícil. –Dá pra parar com as suposições ridículas? Não sabemos nada sobre aqueles dois. O que custa esperar pra ver no que a história vai dar e pronto?

– Pra nós, nada– a Rin respondeu. –Mas pra você, que é caída pelo cara desde que bateu o olho nee, pode custar algumas noites mal dormidas.

Eu baixei a cabeça, vencida. Eles tinham razão.

Por mais que eu tentasse me distrair, me divertir com os amigos ou meter a cara nos desenhos... Minha mente não estava ali. Eu não parava de pensar no que podia ter acontecido entre o Gakupo e a namorada dele. O que podia fazer ele ficar fora da cidade a semana quase inteira. Eu já tinha queimado todos os neurônios e tentado não criar expectativas... Mas é de mim que estou falando, então meu coração nunca vai seguir minha cabeça. E eu sempre vou me dar mal por causa disso.

– Você podia, pelo menos, contar pra Gumi– Len comentou. –Com toda a bandeira que você dá, não sei como ela ainda não percebeu...

– Tá louco? Nunca que eu ia contar pra ela e estragar nossa amizade. E se ela achar que eu só quis ser amiga dela pra ficar perto do Gakupo?

– Né, já pensou você ter que desmentir isso? –A Rin me olhou zombeteira.

Eu gostava muito dos Kagamine. Mas às vezes, tudo o que eu queria era assassiná-los bem lentamente.

– Isso não é verdade e vocês sabem– limitei-me a responder. –Gumi é uma amiga querida demais pra mim. Eu nunca ia arriscar nossa relação por uma coisa tão sem esperança como... Ficar com o irmão dela.

Era realmente como eu me sentia. Minha paixão por Gakupo era totalmente de mão única. Não tinha sentido revelar aquilo e preocupar a Gumi, como se ela não tivesse a própria vida pra cuidar. Eu dava conta de meus próprios assuntos, muito obrigada.

Os Kagamine se entreolharam, trocando um sorrisinho perverso.

– O que foi agora? –indaguei aborrecida.

– Nada– Len voltou-se para mim. – Mas ia ser interessante essa conversa de amizade, caso o Gakupo realmente desse bola pra você...

Tive que segurar o impulso pra não chutar aquelas pestes vagão afora.

– Tudo bem, não é como se fosse uma possibilidade – ele deu de ombros. –Também não é como se a gente ligasse...

– Como não ligam? –resmunguei. –Vocês só falam disso desde que a Gumi foi embora!

– É que é divertido ver sua cara vermelha– Rin respondeu alegremente.

Dava até pra ver chifrinhos saindo daquelas cabecinhas louras.

Quando terminei os efeitos e a aplicação de retículas das páginas, estava tão acabada que não tinha forças pra segurar um lápis. Larguei os deveres de casa e tirei um cochilo, merecido depois de virar a noite trabalhando. Horas depois mamãe me chamou para almoçar, e então peguei a bicicleta e fui até a casa da Gumi para deixar as últimas folhas prontas.

Bati na porta do apartamento onde eles moravam. Lembrei que não tinha ligado pra avisar a Gumi que eu estava chegando, mas ainda era dia, ela não podia estar dormindo.

– Miku-chan.

Gakupo atendeu a porta. Foi tão repentino que perdi o fôlego. Ele sorriu bem de leve ao me ver, e tive que segurar minha costumeira cara de boba perto dele.

– K-Kamui–senpai... Não sabia que já estava de volta –murmurei num fio de voz.

– É, eu cheguei essa manhã. – Ele olhou o envelope em minhas mãos com um ar culpado. –São as folhas que faltam? Deve ter dado muito trabalho terminá-las. A Gumi virou a noite desenhando, está dormindo agora.

Bom, claro que ela podia estar dormindo em pleno dia. Eu também estava, oras.

– Não foi nada de mais– torci pras minhas olheiras não estarem muito aparentes. –Bom, aqui está.

Entreguei o envelope nas mãos dele, cumprimentei com um aceno de cabeça, me preparando pra ir embora. O que mais eu podia fazer? Gumi estava dormindo, eu não queria perturbá-la. E por mais que a curiosidade me roesse por dentro, eu não tinha intimidade bastante pra perguntar ao Gakupo se estava tudo bem.

Até porque, algo no jeito cansado que ele tinha naquele dia me dizia que não, que havia algo errado.

– Até a próxima semana– murmurei hesitante.

Como ele não respondeu, respirei fundo e comecei a descer as escadas. Talvez ele realmente não estivesse bem... Talvez eu tivesse que dar o fora dali logo e deixá-lo em paz.

– Miku-chan– ouvi ele me chamar e parei, tensa.

– S... Sim?

– Obrigado por ajudar a Gumi em meu lugar... Prometo que não vou deixá-la passar por isso outra vez.

Engoli em seco. Queria dizer que não foi nada de mais, que eu podia fazer aquilo quantas vezes fosse preciso, que estava tudo bem...

Mas as palavras e perderam a meio caminho da garganta quando ele me sorriu. Em seu olhar eu vi reconhecimento e gratidão sincera. E aquilo era tão mais do que eu jamais havia conseguido dele, que mal lembrei de que precisava respirar. Só consegui acenar outra vez e descer as escadas correndo, o coração aos pulos.

E enquanto voltava pra casa, eu pensava no que os gêmeos infernais tinham dito. Sobre como seria, se o Gakupo realmente me desse alguma chance. Eu sabia que era extremamente irreal, mas... Se acontecesse... Talvez a coisa fosse ficar complicada pro meu lado.

Mas enfim. Ele me via como uma segunda irmã, certo? E acima de tudo, ele já tinha uma namorada.

Mais tarde naquela noite, a Gumi me ligou para agradecer pelo trabalho duro. E também, para fazer meu mundo virar de ponta cabeça.

– Então, sabe a Luka-san? Ela e o meu irmão terminaram o namoro.

Notas finais
Longe de mim achar que a Miku não canta bem, mas eu prefiro a Gumi. Não me julguem TT A você que leu, meu muito obrigada! Se puder comentar, dizer o que tá achando, se tá curtindo, se tá uma droga, por favor me deixe saber! Sua opinião é muito importante :3 Té maisinho e feliz ano novo! Nos vemos em 2016 :*******