Shikashi!!
3 Hello... From the other side?
Notas iniciais
Pois é. Versão curta da história: aparentemente, o Gakupo e a Luka terminaram. Ou melhor, ela terminou com ele.
Era pra eu ficar feliz, certo? Ter esperanças. Mas esperança é pros fracos. Pessoas como eu preferem a incerteza, a dor de não ser correspondida, a angústia de estar na imoutozone¹.
(1- Porque pro Gakupo eu não sou nem amiga, mas sim uma outra irmã mais nova.)
Tá, talvez eu goste de sofrer... Mas prefiro sofrer sozinha a ver pessoas de quem eu gosto sofrerem, e pelo jeito o Gakupo está arrasado com o término do namoro. O que faz com que eu nem conheça a tal da Luka, mas já a odeie do fundo da alma. Porque pra ela não basta namorar o cara que eu gosto, ainda tem que dispensar ele como se não fosse ninguém! Ótimo, eu aqui dando um braço pra trocar de lugar com ela, e a vaca esmigalha o coração do Gakupo.
Na boa, sorte dela que eu não sei onde ela mora.
Do jeito que o Gakupo ficou, tá mais que óbvio que ele ainda gosta dela. Então, de que adianta comemorar? Quando a Gumi me contou, tudo o que pude fazer foi lamentar e demonstrar solidariedade. Os gêmeos me perturbaram dizendo que aquela já era uma vitória, mas eu não via como. Se o tempo passasse e ele esquecesse a Luka, quem sabe. Mas aí já é alimentar esperanças, e como eu disse, não trabalhamos com esperança por aqui.
Então um mês se passou. Ele mergulhou no trabalho, na universidade e no serviço de assistente da Gumi, e pelo jeito estava conseguindo se distrair. Eu fiz o mesmo, ajudando a Gumi, estudando e me divertindo com os amigos. Vivendo minha vida. A gente tem que seguir em frente de algum jeito, né?
Naquela noite eu tinha acabado o dever de casa e me estiquei na cama pra descansar. Ainda era cedo, então coloquei KARA no mp3 e resolvi por as leituras em dia. O Gakupo tinha mandado pela Gumi uma antologia shoujo semanal, onde recentemente um jovem prodígio tinha começado a publicar dois mangás. Dei uma olhada nas histórias e não achei grande coisa, só romances escolares genéricos com um traço bonito e nada mais. Então vi a bio do mangaká e não contive um riso de desprezo.
Eu já tinha ouvido falar daquele carinha, um filho de gente rica que desenhava por hobby. Prodígio? Por favor. A Gumi rala feito uma condenada pra deixar um capítulo decente na revista toda semana. Não pode contratar assistentes, a casa é uma bagunça de papeis de desenho, tintas e livros de referência e, se não fosse o trabalho do Gakupo, ela teria que passar fome pra comprar uma mísera borracha! Tão fácil ser um “prodígio” quando se pode pagar por um estúdio, assistentes e qualquer outra despesa... Pelo jeito, estar no colegial e saber desenhar já era o bastante pra ser aclamado.
Droga de mundo injusto. A Gumi ainda tem que publicar usando pseudônimo, eu tenho que ver o Gakupo sofrer sem poder fazer nada. Que droga de vida. Maldita Luka. Maldita gente rica.
Fiquei lendo e divagando em meus pensamentos por um tempo, enquanto pontos pretos começavam a dançar no canto da minha vista. Sono, já? Tava tão cedo ainda. Esfreguei o olho e fixei a visão na parede ao lado da escrivaninha, de onde afluíam diversas manchas pretas.
Mas o que era aquilo? Tirei os fones e levantei da cama, me aproximando devagar. Então um grito de terror foi se formando em minha garganta, enquanto eu ia identificando aquelas coisinhas asquerosas que invadiam meu quarto às dezenas. Até a Luka era menos odiável perto delas.
Baratas.
Quando uma delas subiu em meu pé descalço e começou a escalar minha perna, finalmente gritei.
— Cara, que horror! De onde saiu tanta barata?
— Os caras da dedetização disseram que é comum aparecer nessa época do ano, em regiões próximas de onde fica minha casa. – Eu suspirei exausta e deitei a cabeça no apoio da carteira. – Devem ter resolvido fazer uma visitinha à minha casa esse ano.
Gumi olhava pra mim com expressão de pena. Não era pra menos, minha cara era de acabada mesmo. Olheiras, cabelo embaraçado, sem forças nem pra passar um brilho labial. Parecia que eu tinha acabado de voltar de uma guerra.
— Mas vocês ainda estão em casa?
— Não, os dedetizadores vão passar o dia expulsando aquelas nojentinhas de lá. Mais uns três dias e podemos voltar pra casa sem o risco de, sei lá, morrermos envenenados.
— E onde estão ficando?
— Na casa do irmão do meu pai.
— Sério? – Ela franziu a testa. –Aquele que mora num cubículo e tem um monte de filhos?
— Esse mesmo– suspirei outra vez.
Me cansava só de lembrar a noite de cão que passei. Depois de dar de cara com um exército de baratas invasoras, ainda esqueci o celular na pressa de abandonar a casa possuída, e agora tinha que dividir um futon com uma priminha de 5 anos que achava que meu cabelo era playground.
— Olha – ela disse pensativa. – Você sabe a bagunça que é lá em casa, além de não ter muito espaço. Mas se não se importar pode dividir o quarto comigo por esses dias...
— Sério? –olhei pra ela esperançosa. Uma noite sem bebê chorando ou crianças puxando meu cabelo? –Poxa, eu ia adorar! E sua casa não tem nada de pequena. Na do meu tio até respirar é complicado.
— Heh, imagino... Além do mais, vai ser difícil desenhar com um monte de crianças por perto.
A ideia era perfeita. A Gumi fez questão que eu fosse mesmo, já que era o mínimo que ela podia fazer por sua assistente. Meus pais ficaram literalmente aliviados de ter uma pessoa a menos na casa dos meus tios. E eu, bem... Algumas noites de paz era tudo o que eu queria naquele momento.
E se essas noites incluíssem dormir na mesma casa que o Gakupo, melhor ainda.
Exceto que, pra minha tristeza eterna, ele praticamente não parava em casa.
Ok, ele tinha a universidade e o trabalho durante o dia, então quando chegava a Gumi e eu já estávamos dormindo. Não dava pra esperar que ele estivesse lá o dia todo, apenas esperando que eu chegasse da escola. Seria um sonho, mas a realidade adora dar na minha cara.
Então no dia seguinte, levantei revigorada depois de uma noite tranquila, sem baratas nem crianças. A Gumi foi preparar o café e me mandou ir tomando banho na frente. Peguei uma toalha e rumei para o banheiro, ainda meio sonolenta.
Mas eis que dou de cara com o Gakupo, que acabava de sair do banheiro, enxugando o cabelo com uma toalha.
Minha cabeça entrou em curto-circuito. De manhã cedo, esse homem na minha frente, usando o perfume mais gostoso do mundo ou algo parecido... Eu ainda tava sonhando ou não? Percebi que era realidade, porque ele estava com os cabelos longos úmidos, mas usava uma polo branca e jeans. Em meus sonhos ele talvez estivesse de toalha e ainda todo molhado do banho.
Pisquei devagar, sem reação.
— Oh, Miku-chan? –Ele sorriu simpático como sempre. – Ohayo. Espero que tenha tido uma boa noite! A imouto me contou da invasão de baratas, não deve ter sido muito agradável.
— Pois é... –Balancei a cabeça devagar, tentando fazer os pensamentos destravarem.
Pra me salvar a Gumi chamou por ele lá da cozinha, mandando ele ajudar com o café. Ele curvou-se e se despediu, e eu entrei no banheiro sentindo fumaça sair pelos ouvidos. Me olhei no espelho da pia e só pude me lamentar. Ele tinha mesmo me visto com aquela cara? Por que, Deus?
Resolvi parar de choramingar e entrar na ducha logo. O ar estava quente e perfumado, a umidade de um banho recente. Engoli em seco. O mesmo vapor que havia tocado o corpo do Gakupo envolvia o meu agora... Não, não! Sacudi a cabeça, tentando botar as ideias em ordem. O homem está logo ali na cozinha, e por sinal a irmã dele também. Tenha um pouco de autocontrole!
Claro, porque é tão fácil. Abri o chuveiro e, assim que a água bateu em mim, soltei um grito.
A Gumi serviu a omelete do irmão com uma carinha enfezada. Já ele me olhava com um ar terrivelmente culpado.
— Sinto muito mesmo– sorriu sem graça. –A imouto não gosta de água quente, então eu sempre desligo antes de sair.
— Tudo bem – gesticulei com a mão, dando a entender que não tinha sido nada. –Eu levei um susto, mas foi só isso.
Deus sabe como eu precisava de uma ducha gelada naquele momento.
A Gumi sentou-se ao meu lado para comer, e lançou uma nova careta a Gakupo. –Vê se não esquece nas próximas vezes. Isso não é jeito de tratar uma visita, sabia?
— Não vou esquecer, prometo– ele afirmou pra ela com uma seriedade engraçada, e então pegou os hashis para comer. –Hm... Nossa imouto-chan, essa omelete tá uma delícia.
— Você sempre reclama da minha omelete – ela retrucou desconfiada.
— Mas hoje está ótima. O que você fez de diferente?
Ela torceu os lábios num biquinho e baixou o olhar. –Coloquei pouca pimenta.
— Então foi isso– ele sorriu em aprovação. – Continue assim!
— Idiota– Gumi resmungou mas não conteve um sorrisinho.
Eu adorava ver eles dois juntos. Era sempre bom ver o Gakupo como alguém além de meu príncipe inalcançável. Ali ele era apenas um irmão mais velho que adorava a irmãzinha. Eu quase tinha vontade de ser irmã dele também, mas eu não precisava ser irmã dele pra ficar na imoutozone pra sempre, certo?
Enfim, foram ótimos dias aqueles. Joguei videogame com a Gumi e desenhei todos os cenários do capítulo daquela semana. Era difícil não me concentrar num lugar que praticamente exalava Cannonball, com um monte de revistas de carros de corrida e todas as edições de Need for Speed lançadas até o momento. A Gumi contou que tinha recebido um convite pra participar de uma confraternização com a equipe da revista, e perguntou se eu não queria ir com ela.
— O Gakupo não tá muito no clima– ela respondeu, quando eu disse que eles deviam ir juntos. –E você é minha assistente também, então não tem problema!
— É que... –eu toquei as pontas dos indicadores, indecisa. –Nunca fui numa festa assim. Nem sei o que vestir! E também não conheço ninguém...
— Como você complica tudo– a Gumi riu. –Veste uma roupa confortável, ora! Não é o casamento de ninguém, só uma reunião de gente que trabalha com mangá. Eu também não conheço todo mundo na revista, mas vamos estar juntas de qualquer jeito. Podemos puxar papo com alguém aleatório lá. E o bufê é de graça! Se isso não te convence, não sei o que mais vai te convencer.
— Até parece que eu sou uma comilona– bufei pra ela.
— E até parece que você é supertímida e odeia festas – ela agarrou meu braço. – Vai ser divertido!
Como ainda era dali a duas semanas eu resolvi concordar. Dava tempo de me acostumar. No fim das contas ela tinha razão, era apenas uma festa, e contra festas eu não tinha nada.
Só não entendi o porquê de ela dizer que o Gakupo não estava no clima. Pra mim ele parecia totalmente recuperado da separação. Mas então, no terceiro dia que passei na casa da Gumi, percebi que ele era apenas um bom fingidor.
Ele tinha tirado o dia de folga pra fazer os efeitos do capítulo. Quando a Gumi e eu chegamos da escola ele estava finalizando tudo na varanda, então resolvemos adiantar o jantar. Eu tinha quase esquecido que ele estava lá, enquanto perturbava a Gumi por causa da quantidade de pimenta na omelete. Então ouvimos a porta da varanda abrir, e reparei que ele estava ali de pé, olhando pra gente.
— Terra para nii-san– a Gumi gracejou.
Ele lhe deu um sorriso melancólico e saiu. Olhei pra ela sem entender.
— Deve ter lembrado “daquela pessoa”– ela explicou num sussurro. – Eles dois adoravam cozinhar juntos.
Pelo jeito a bad ainda não tinha passado, pensei. Depois do jantar, fui ajudar a Gumi a organizar as páginas agora finalizadas. Ouvimos um som bonito e triste vindo da varanda, e eu olhei pra ela atônita.
— É... É o Kamui-senpai?
Ela assentiu num sorriso. –Vá lá ver. Ele vai se sentir menos triste se tiver um público.
Cheguei na varanda de fininho, ouvindo as cordas sendo dedilhadas habilmente. Gakupo estava sentado na espreguiçadeira, tocando violão enquanto olhava para as luzes da cidade com um ar meio perdido.
Tão lindo, pensei boquiaberta. Fiquei ali por vários minutos, vendo seus dedos longos segurando a palheta, seus olhos fechando-se vez ou outra, enquanto os acordes fluíam na brisa noturna. Era uma canção de saudade. Uma canção realmente triste.
Quando terminou ele pareceu se dar conta que não estava sozinho. Pega de surpresa, comecei a gaguejar imediatamente.
— E-eu só est-tava ouvindo... Eu n-não vou atrapalhar, p-prometo...
Gakupo apenas sorriu. Não parecia incomodado com a minha presença. Ele olhou para a outra espreguiçadeira e então para mim, e ao entender o convite, sorri de volta timidamente e entrei na varanda.
A noite passou como num sonho. Consegui evitar de apenas ficar encarando o Gakupo como uma psicótica e me concentrei na música, deixando que ela fluísse e levasse meus pensamentos para longe. Acabei dormindo sem nem perceber.
Quando me senti despertar, algo estava estranho. Meu corpo estava suspenso. Então senti o perfume dele, o seu calor, e congelei.
Estava nos braços dele.
— Pena que ela vai voltar amanhã– ouvi a voz da Gumi ao meu lado, e então o som de uma porta abrindo. Estavam me levando ao quarto dela. – Não gosto de ficar sozinha até a hora que você chega.
— Ela é mesmo uma boa companhia– a voz dele murmurou sobre mim, calma e aveludada. –Entendo por que são melhores amigas.
Forcei meus olhos a não abrirem, mas podia sentir meu rosto esquentar.
— Pode deixar ela na minha cama– um som de lençóis sendo afastados, e então fui deitada sobre o colchão macio. – Vou ficar no futon essa noite.
— Me chame se precisar de alguma coisa.
— Tá, oyasumi.
— Oyasumi.
A porta foi fechada com cuidado e um lençol foi colocado sobre mim. E então ouvi a voz dela dizer baixinho, lá do futon.
— Oyasumi, Miku-chan!
Omake!
Depois que a Miku-chan foi para casa, a rotina da Gumi voltou ao normal. No domingo o Gakupo estava de folga, e passou um bom tempo na varanda tocando violão. Ela estava conferindo Cannonball na edição da semana da revista, sem se incomodar com a música.
Porém, cinco horas depois...
— Nii-san. Não acha que tá bom de Adele por hoje?
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