Sheikah

18 Às claras


POV Paya

Estou de olhos fechados, em uma tentativa frustrada de processar toda a dor descrita nessas passagens do diário da vovó Impa. Sinto uma necessidade insana de encontrá-la imediatamente, abraçá-la e não soltá-la mais.

Ouço Tauro virar a página, mas ele permanece em silêncio.

— Tauro? — abro os olhos, sem entender sua hesitação, procurando seu rosto.

— Essa foi a última entrada — ele diz, intrigado.

O QUÊ?

— Como assim essa foi a última entrada?!

— Não tem mais nada, olha — ele aponta para a última página escrita. — “Depois, nos despedimos e ele partiu sem olhar para trás”. É a última frase.

— E o que aconteceu depois?

— Eu não sei, Paya — Tauro parece desesperado.

— Não, eu preciso saber o que aconteceu — digo, levantando da cama no mesmo instante.

— Paya, estamos no meio da madrugada! Sua avó deve estar dormindo e…

— NÃO ME IMPORTA, EU PRECISO SABER!

Tauro hesita.

— Eu vou ter que vestir aquela maldita camisa de novo, né? — ele pergunta, resignado, levantando-se também.

. . .

Bato na porta do quarto da vovó, segurando o diário, mas não recebo resposta.

— Eu avisei, Paya — Tauro diz baixinho. — São três horas da manhã, ela deve estar dormindo.

Bufo, irritada.

— Ela não tem o direito de dormir sabendo que o diário termina assim e me deixar aqui, curiosa e...

Marin vem caminhando pelo corredor, rindo baixinho, acompanhada de outro convidado da festa. Ela sorri ao nos ver e se desvencilha das mãos bobas de seu amigo.

— Se acalme, já vou te dar atenção — ela ralha com o colega excessivamente afetivo. Então, se dirige a mim: — Procurando sua avó?

Aceno, envergonhada, tentando ignorar os beijos que o jovem deposita em seu pescoço, alheio à nossa presença.

— Ela está na sala de visitas perto do salão onde foi a recepção da festa — Marin responde. — Agora, se me dão licença, estarei ocupada pelas próximas horas — ela ri maliciosamente e segue seu caminho.

Tauro e eu ficamos ali, aturdidos. Um minuto inteiro se passa antes que um de nós consiga se pronunciar.

— Constrangedor — digo, com a garganta seca.

— Como se você não tivesse me atacado poucas horas atrás — Tauro diz, com falsa indignação.

Dou risada baixinho.

— Pelo menos eu esperei estarmos sozinhos, ao contrário de você, que me emboscou na sacada a poucos metros de distância de uma multidão — rebato, me virando de frente para ele.

Tauro fica vermelho imediatamente.

— Você sabe que me distraio com facilidade — ele diz, tímido. — Eu não fui até a sacada com segundas intenções, mas aí você fez aquele discurso inflamado me chamando de “Senhor Tauro” e terminou com aquele biquinho lindo e... — seus olhos ficam turvos enquanto ele se perde na lembrança, e ele suspira.

— Você acabou de se distrair pensando em mim, mesmo eu estando na sua frente? — rio, abismada.

Ele balança a cabeça, tentando voltar ao presente.

— É, acho que sim. Acontece muito, acostume-se — ele dá de ombros, rindo também.

Meu coração fica quentinho com a implicação em suas palavras de um futuro extenso para nós.

— Vamos? — ele me oferece a mão, e eu entrelaço meus dedos com os dele.

Caminhamos em silêncio por alguns metros, através dos corredores mal iluminados.

— Por que será que ela parou de escrever? — questiono, intrigada.

— Não sei... eu me pergunto... — Tauro hesita.

— Se pergunta...?

— Não sei. Achei... estranho.

— O quê?

Estamos quase na porta da sala onde Marin disse que encontraríamos a vovó. Então, paro, me virando para observar Tauro. As luzes das velas nos castiçais do corredor dançam sobre seu rosto.

Ele é tão... lindo. Todos aqueles músculos enormes e seu rosto másculo e firme contrastam com suas expressões e gestos tão gentis. A pele de seu rosto é macia — assim como a do torso onde passei as últimas horas deitada —, ao contrário de suas mãos grandes e calejadas. Seu cabelo preto cacheado, com algumas mechas descoloridas, cai revolto sobre seus olhos — bagunçado após meu ataque mais cedo.

Tauro também me encara em silêncio, seus olhos escrutinando meu rosto e corpo. Meu coração acelera e minha respiração fica curta.

— Se distraiu de novo? — provoco, lutando contra a vergonha.

Ele aquiesce e leva a mão até meu rosto, fazendo carinho em minha bochecha. Então, desce os dedos lentamente pelo meu pescoço, provocando arrepios pelo meu corpo.

A porta da sala de visitas está entreaberta, e gargalhadas explodem lá de dentro, quebrando nosso encanto. Também dou risada baixinho.

— No quarto não pode, mas no corredor tudo bem? Devo me preocupar, senhor Tauro? — cutuco-o, carregando o título com malícia.

Tauro ia rir comigo, mas no segundo em que ouve seu nome, ele fica sério novamente, suas pupilas dilatadas.

— Sério? — gargalho com sua reação. — Você realmente gosta de ser chamado de “senhor Tauro”? — Me dobro para frente, sem conseguir parar de rir. Lágrimas se formam em meus olhos no meio da histeria.

Ele fica desconcertado.

— Eu nunca liguei para títulos, Paya... é a maneira como você fala... sua entonação — ele admite, ficando vermelho. — Acho que eu reagiria assim independente do termo... desde que você falasse desse jeito.

Pela primeira vez na vida... eu não sinto timidez. Nenhuma. Mesmo sem a menor pretensão, Tauro acolhe todas as minhas facetas... e eu me sinto pertencente. Então, me permito continuar na brincadeira, avançando um passo em sua direção.

— Deveras interessante — brinco, excessivamente formal, levando minhas mãos até sua camisa e deslizando as palmas por seu torso. — Então imagino que você também gostaria se eu te chamasse de “Doutor Gostosã...”

— Paya, Tauro? Eu pensei ter ouvido vocês aqui fo... — escuto a voz de Zelda e me viro imediatamente, meu rosto escarlate. — Estou interrompendo algo? — ela dá um sorrisinho travesso.

— Não, não! — falo, um pouco alto demais, minha voz fina e esganiçada. — Nada, estávamos procurando minha avó.

Tauro dá uma risadinha baixa, se divertindo com a situação. Dou uma cotovelada nele, irritada, mas de nada adianta.

— Ela está aqui — Zelda informa, e pela maneira como seus olhos brilham, eu sei que ela vai falar algum absurdo em seguida. Enquanto nos dirigimos para a sala, ela segura a porta aberta para nós. Passamos primeiro e então ela diz, alto demais: — Olha quem eu achei lá fora... a Paya e o doutor Gostosão.

— Oi? — Link parece confuso.

Zelda não se importa e precisa se apoiar no batente de tanto que ri.

— Eu falei — ouço vovó rindo também. — Gostosão.

Se Tauro estava se divertindo com a situação antes, agora ele só está constrangido de novo.

Fico irritada.

— E a senhora? Se passasse mais tempo escrevendo e menos tempo me azucrinando... — o quê? Ela teria o quê?

Me perco nas palavras, então decido atacar Zelda e Link.

— Vocês não casaram hoje? Estão fazendo o quê aqui? Não deveriam...? — por Hylia, eu realmente estou falando isso?

Os dois trocam um olhar estranhamente conspiratório por alguns segundos antes que Zelda me responda, me provocando de volta, sem o menor pudor:

— A gente passou três meses em lua de mel comemorando. E já comemoramos esta manhã também. Fazia tempo que não nos reuníamos para jogar conversa fora, então resolvemos estender a festa para cá depois que todos se recolheram. Mais alguma dúvida? — ela diz, com as sobrancelhas erguidas, enquanto nos oferece uma taça de vinho.

Meu rosto queima, e eu aceito a bebida sem pensar duas vezes. Olho ao redor e vejo que Purah também está na sala... e Dorian.

Dorian?

— Imagino que vocês dois tenham terminado de ler meu diário — vovó Impa intervém.

Imensamente grata por sua interrupção, caminho em sua direção. Ela está sentada em uma poltrona perto da lareira, e eu me abaixo para abraçá-la. Tauro me segue e se senta no sofá mais próximo.

— Diário? — ouço Link perguntar para alguém em voz baixa.

Se controla — Zelda ralha com ele.

— Eu não sabia que a Impa tinha um diário — ele resmunga.

— Então pelo menos um em toda Hyrule escapou dessa sua mania estranha — Purah ri.

— Eu estava apenas pesquisando por informações para ajudar a derrotar a Calamidade e, depois, Ganondorf!

— Claro — Purah soa irônica.

Calma.

Solto vovó e me viro para ele.

— Como assim você leu todos os diários de Hyrule? — questiono, horrorizada.

Link apenas dá de ombros, sem parecer sentir nem um grama de culpa ou remorso.

— ATÉ O MEU? — meu rosto queima ao me lembrar o que eu escrevi ali, na época em que tinha uma leve queda por ele.

Ele aquiesce... se divertindo.

Maldito.

— Meu cabelo ainda está penteado perfeitamente para o lado? — ele ri, em uma raríssima demonstração de travessura.

Me arrependo amargamente de ter chegado em um momento onde todos já parecem estar indo para a terceira garrafa de vinho.

— Se controla, Link — Zelda repete, mas também está rindo.

— Você gosta de cabelo penteado para o lado? — Tauro se inclina para me perguntar, também me provocando.

— ISSO FOI QUASE UMA DÉCADA ATRÁS — explodo, furiosa e envergonhada.

Tauro segura minha mão e me puxa para sentar ao lado dele. Ele passa um braço ao meu redor, e eu me permito recostar em seu corpo.

— Exatamente, Paya, foi uma década atrás — ele diz baixinho, conciliador, sorrindo. — Eles só estão te provocando porque você está reagindo.

Olho ao redor e noto que eles já se distraíram entre si, conversando sobre outros tópicos. Então entendo que... ninguém realmente se importa tanto assim; e a compreensão diminui minha vergonha.

— Imagino que vocês queiram saber o final da história — vovó volta a falar, e todos se calam. — Mas, se não for pedir muito... vocês poderiam contar o que já descobriram até agora, por gentileza?

— Perdão? — franzo o cenho, completamente atônita.

— Eu não consigo falar sobre essa parte da história, como já te disse, Paya. Mas Zelda e Link serão coroados como Rainha e Rei de Hyrule amanhã. Conversei com Purah... e nós concordamos que é imprescindível que eles também saibam de tudo... dado o teor do que houve.

Purah acena, concordando.

Link parece mais animado do que deveria para a situação.

— Você não nos deve satisfações da sua vida, Impa — Zelda parece preocupada. Link aquiesce — sem tanta convicção assim.

— Eu me apeguei a isso a vida inteira, Zelda, justificando que era a história da minha vida. Mas, na verdade... é muito maior do que eu. É a história da Paya, de vocês dois, da Calamidade, de Hyrule. Vocês precisam saber. Paya, Tauro?

Tauro abre o diário na primeira página e começa a contar a história. Não linha a linha, mas resumindo as entradas — senão jamais conseguiríamos terminar tudo em uma única noite. Eu ajudo, completando com pontos que achei importantes sobre cada passagem.

Todos escutam fascinados, fazendo comentários conforme se lembram de suas próprias histórias.

— Muita coisa aconteceu naquele bar — Purah suspira. — Vivi muitos romances naquela rua lateral.

— Antes de Robbie, você viveu muitos romances em todos os cantos da Cidade do Castelo, Purah — vovó Impa brinca.

— É verdade — ela concorda, sonhadora.

Quando Deen aparece na história, vovó fecha os olhos e respira fundo, sua expressão distorcida em dor.

— Quer que a gente pare? — Tauro questiona, antes de prosseguir.

— Não. Eu nunca reli essas entradas... depois que tudo aconteceu. É importante que eu ouça também.

Então continuamos.

E algo curioso acontece: nos primeiros minutos, vovó parece estar sofrendo absurdamente. Mas, quando chegamos na primeira vez que ela participou de um treino de Deen... ela sorri.

É um sorriso pequeno, misturado com tristeza.

Mas um sorriso, ainda assim.

“Mas se a senhorita desejar, eu posso começar a segui-la também.” — Tauro cita uma das falas de Deen, durante a leitura.

— Eu adorava esse lado dele — ela admite, e ficamos todos em silêncio.

— A... a... safadeza? — pergunto de olhos arregalados.

Vovó gargalha com a minha constatação.

— Bem, sim! — ela ri e ri, de uma maneira como nunca a vi fazer antes. — Mas eu estava me referindo a como ele era leve comigo... mesmo carregando tantos traumas e dores dentro dele. Claro, no início eram apenas máscaras. Mas, mesmo depois, quando já estávamos juntos há anos... ele sempre soube como me desarmar, me fazer rir — uma lágrima solitária escorre por seu rosto, mas o sorriso permanece.

— Calma... Deen? — Zelda parece confusa. — Eu... eu me lembro dele. Vocês estavam juntos?

Link parece tão aturdido quanto ela.

— Por mais de meia década, querida — Impa assente.

— COMO EU NUNCA PERCEBI?

— No início, você era só uma criança. E já tinha coisa demais acontecendo na sua vida e na de Link naquela época; vocês estavam focados nos próprios problemas.

Eles balançam a cabeça, sem palavras.

— Eu me lembro do dia em que peguei a Master Sword — Link confessa. — Foi uma das primeiras memórias que recuperei depois do coma. Eu me lembro das histórias que você me contou de Kakariko — ele sorri. — Eu estava muito nervoso naqueles dias... tinha certeza de que ia morrer. Você deixou a experiência mais... leve. Acho que nunca te agradeci. Obrigado, Impa.

Os olhos da vovó brilham com novas lágrimas.

— Ela sempre teve esse poder — Zelda diz, também olhando para vovó com gratidão.

— Acho que você e Deen tinham essa leveza em comum, Impa — Purah, sentada no chão aos pés da cadeira de vovó, segura sua mão e a aperta. — Mesmo nos dias mais escuros, vocês sempre encontravam algum motivo para sorrir.

Tauro prossegue a leitura, e os comentários continuam conforme a história avança.

— Você realmente achava o papai um velho maluco? — Zelda quase tem uma síncope de tanto rir.

— E não era? — vovó Impa rebate. — De cada 10 decisões que ele tomava, 9 eram baseadas em lendas! E a décima, em boatos.

— Ainda estou esperando os bardos escreverem a lenda da minha história — ela resmunga. — Vai dar um conto épico, de tanta desgraça.

— Eu lembro dessa rixa entre os Hylians e os Sheikah — Link franze o cenho. — Mas eu não sabia que o Maz Koshia tinha sido o líder de vocês, antigamente.

— Ele não é o monge que te deu a Master Cycle? — Zelda pergunta, animada.

— Depois de tentar me matar, sim — ele acena.

— Ainda estou esperando você me levar para dar uma volta nela — ela faz um bico.

— Acho que vai demorar um pouco — ele dá de ombros com um sorrisinho.

— Espera. Você conheceu Maz Koshia? — questiono, surpresa. — Quando?! Como?!

— Lembra dos templos Sheikah que visitei enquanto me recuperava do coma? Então, eles sempre tinham um antigo monge Sheikah, que me oferecia uma bênção para me ajudar a recuperar a vitalidade. Maz Koshia estava no desafio final, no Grande Planalto. E aí eu ganhei uma moto.

— Uma o quê?

— É tipo um cavalo, mas com rodas. E muito mais rápido.

— Interessante — Tauro se distrai. — Como funciona?

— Sei lá. Qualquer coisa que eu coloque no tanque dela funciona. Já testei comida, insetos, pedras preciosas... ela converte tudo em energia — Link responde.

— Fascinante — Tauro murmura. — Posso vê-la qualquer dia desses?

— Claro, ela deve estar em algum lugar aqui no Castelo e...

— Meninos. Vamos voltar à história? — Purah corta a discussão.

Chegamos ao momento em que Sooga chegou à cidade pela primeira vez.

— Eu não fazia ideia dessa situação dos Sheikah na época — a voz de Zelda está pesada com culpa, e Link faz um carinho na mão dela.

— Tauro resume bastante a ocasião em que vovó e Deen ficaram juntos pela primeira vez, mas, ainda assim, ele fica vermelho enquanto lê a passagem.

— Você editou a história — Link acusa, as sobrancelhas franzidas.

— Obviamente — respondo, sem graça. — Você precisava ter sido tão descritiva assim? — dirijo-me à vovó.

— Coisas boas merecem ser lembradas — ela dá de ombros com um sorriso malicioso. — Mudei de ideia, acho que vou querer reler o diário na íntegra quando estiver sozinha.

Link hesita.

— Posso ler depois?

— Você já está descobrindo a história! — Zelda está indignada. — E nem conhece o alfabeto Sheikah!

— Primeiro: Tauro está resumindo demais, eu preciso de detalhes — Link enumera os itens nos dedos. — E segundo: eu não sei o alfabeto, mas você sabe. Você pode ler pra mim.

— EU NÃO QUERO SABER DAS INDECÊNCIAS DA IMPA, LINK!

Link encara Zelda com os olhos cerrados, sem acreditar em uma única palavra. Uma pequena batalha entre eles se segue, enquanto um espera o outro ceder.

— Tudo bem, eu também estou curiosa — ela admite, por fim. — Mas eu não quero invadir a privacidade dela! Isso aí é coisa sua!

Vovó Impa e Purah riem, entretidas com o caos.

— Eu não me importo, queridos — vovó decide. — Quem sabe vocês não aprendem alguma coisa?

— Como se eles precisassem — Purah bufa. — Eu ainda estou esperando minha enciclopédia de volta, Link.

Link e Zelda ficam vermelhos imediatamente, e eu não entendo nada. Mas ninguém se dá ao trabalho de me explicar, e Tauro prossegue antes que as discussões aumentem mais.

— Sooga parece ter sido uma pessoa difícil — diz Zelda.

— Você não tem ideia — vovó suspira.

Chegando ao final da primeira seção do diário, Tauro pausa a leitura.

— A próxima seção é mais... intensa — ele informa. — Tem certeza de que está confortável para continuarmos, Impa?

Ela acena, mas noto que está abrindo e fechando as mãos, preocupada.

— Espera — interrompo Tauro antes que ele retome a leitura. — Senta lá na poltrona, Tauro. Deixa minha avó sentar aqui comigo.

— Não precisa, querida, eu estou bem — vovó sorri, agradecida.

— Por favor — insisto.

— Ah, eu também quero! — Zelda exclama, se desvencilhando de Link.

— E eu! — Purah se levanta.

Poucos minutos depois, estamos todas aconchegadas umas nas outras no sofá, pequeno demais para todas nós. Vovó no centro, eu de um lado e Zelda do outro. Purah se senta no braço do sofá ao meu lado, recostada confortavelmente nas almofadas.

Zelda e eu seguramos as mãos de vovó, e ela descansa a cabeça em meu ombro.

— Podemos? — Tauro indaga.

— Agora sim.

Então ele adentra a parte mais obscura da história, narrando o episódio em que aquele Hylian desavisado invadiu a reunião da resistência e foi morto. Zelda fica tensa ao ouvir o envolvimento dos Yiga na situação.

Os ombros da vovó ficam rígidos conforme Tauro continua, e ele narra, cauteloso, sobre a discussão entre Purah e vovó na biblioteca e a discussão que elas ouviram entre Sooga e outro Yiga; sobre o roubo do compêndio de Maz Koshia, a descoberta de quem era Kohga e, por fim, a fuga de Deen.

— Kohga era um bartender? — Link parece aturdido.

— É isso que você concluiu dessa história? — pergunto, chocada.

— Então Deen foi um Yiga, no final das contas — Zelda diz, com a voz triste. — Foi por isso que você ficou tão triste e distante naquele último ano?

Vovó assente, sem conseguir desviar o olhar do colo.

— Não foi só o peso de perder Deen — sua voz falha. — Também teve toda a questão da culpa que senti pelo meu envolvimento na criação dos Yiga. Durante décadas, me responsabilizei pela Calamidade.

— Pela Calamidade? — Zelda exclama, surpresa.

— Prossiga, Tauro — vovó diz, simplesmente.

Então ele inicia a narração do dia anterior à Calamidade.

— Você notou meu poder um dia antes? Por que não me avisou? — Zelda soa triste.

— Eu não tinha certeza. E não queria te dar falsas esperanças. Foi meu maior erro... talvez, se eu tivesse te falado, você teria despertado os poderes naquele dia. E a Calamidade teria sido evitada.

— Você não tinha como saber — passo meu braço ao seu redor.

Tauro chega ao momento do sequestro e do ritual.

Todos ficam em silêncio, completamente chocados.

— Você... você... com uma mordida?! — Purah grita, pasma. — Como você NUNCA me contou sobre isso?

— EU TINHA OUTRA ESCOLHA, PURAH?

— Não estou questionando sua decisão! Só... COMO? Que... nojo. Mas eficiente, não posso negar. Me pergunto como você conseguiu acertar o lugar certo mesmo vendada — ela começa a falar sozinha. — Talvez pudéssemos testar se você ainda tem essa habilidade... ou se talvez seja algo Sheikah. Paya, você aceitaria passar no laboratório para fazermos alguns experimen...

Tauro continua a leitura, ignorando o monólogo de Purah.

— Deen te salvou? — Purah franze o cenho. Vovó apenas aquiesce.

— Eu também me perguntei... — Tauro começa, pensativo, mas logo se cala.

— Entendo o instinto — Link murmura baixinho.

— Justamente... — Tauro pondera e logo fica em silêncio novamente. Então prossegue a leitura.

Zelda não consegue ficar no sofá conosco quando chegamos ao momento em que Link cai em batalha. Ela se desculpa e volta para o lado dele, se aninhando em seus braços, limpando discretamente as lágrimas que se acumulam em seus olhos.

— Eu lembro da bronca que você me deu — Zelda dá um risinho. — Foi tão inesperado... eu fiquei em choque. Mas era o que eu precisava... obrigada.

— Vocês dois sempre tiveram um quê de dramaticidade — vovó ri. — E autopiedade. Em geral, é adorável... mas naquela hora não tinha como deixar passar.

— Você me visitava na Câmara de Ressurreição? — Link parece comovido.

— Por alguns anos, sim... até que ficou dolorido demais e eu não consegui mais voltar lá.

Tauro narra — resumidamente — o último encontro entre Deen e vovó, então fecha o diário.

— ACABA ASSIM? — Link fica indignado.

— Eu larguei muitos hábitos depois disso; inclusive o diário — vovó explica. — Mas posso contar o que aconteceu depois.

“Vocês já devem ter deduzido, mas eu engravidei naquela última vez. Deen desapareceu, e eu nunca mais o vi depois daquele dia. Também não queria entrar em contato — não queria que minha filha tivesse contato com os Yiga, ou que eles soubessem de sua existência.

“Mayi foi uma criança... difícil. Até mesmo... cruel. As galinhas do vilarejo sofreram bastante durante sua infância. Por Hylia, nunca houve nenhuma fatalidade. Ela falava muito bem e era muito convincente. As crianças mais jovens a seguiam feito cachorrinhos, obcecadas com o que ela dizia e ensinava. E, claro, ela não ensinava nada que prestasse.

“Na adolescência, começaram as fugas. Às vezes, ela sumia por semanas, meses. Uma das vezes, a encontrei escondida no Castelo. Ela devorou dezenas de livros sobre a história de Hyrule e encontrou os documentos sobre o banimento dos Sheikah. Mesmo que já não houvesse reino, ela se indulgenciava na revolta.

“Eventualmente, quando já tinha 16 anos, Mayi conheceu um Yiga durante uma de suas fugas. Ela voltou para Kakariko apenas para recolher seus pertences e me comunicar que não retornaria mais. Não tentei impedi-la. Àquela altura, eu já tinha entendido que nada que eu fizesse ou dissesse faria alguma diferença. E, de fato, ela não retornou nunca mais.”

— Sinto muito, Impa — Tauro foi o primeiro a se pronunciar.

— Então... eu nasci no meio dos Yiga? — indago. Eu já sabia disso... mas agora, sabendo de tudo o que houve, meu passado ganha nuances diferentes. Será... que eu cheguei a conhecer Deen? Mesmo que apenas no início da minha vida?

— Sim — vovó hesita.

— E... como eu cheguei até Kakariko?

— Eu conto essa parte, chefe Impa — uma voz soa do canto da sala, em uma poltrona mais distante.

Dorian.

Eu tinha me esquecido completamente que ele também estava presente aqui.

Por que Dorian saberia contar esse trecho da história?

Ele se levanta e se aproxima, sentando-se no mesmo sofá onde Link e Zelda estão.

— Alguns de vocês sabem, outros não. Mas eu costumava fazer parte dos Yiga. E eu conheci sua mãe, senhorita Paya. Quando ela chegou à base dos Yiga, eu tinha aproximadamente 13 anos...