Sheikah

12 Pesquisador como profissão, antiansiolítico nas horas vagas


POV Paya

Minha cabeça dói, sofrendo com a quantidade de informações que eu recebi e com a noite de sono que foi negligenciada.

— A próxima entrada parece se passar alguns anos mais tarde, Paya — Tauro informa ao notar meu bocejo. — Já amanheceu. Você deveria tentar descansar um pouco, senão vai acabar cochilando no meio da cerimônia.

Aquiesço, sem forças para discordar.

Tauro fecha o diário, se levanta, caminha até minha poltrona e se abaixa para ficar na altura dos meus olhos. Enquanto deposita o caderno em minhas mãos, ele pergunta:

— Como você está se sentindo? — ele leva uma mão até meu rosto, passando as costas de seus dedos em minha bochecha.

Bom, agora eu estou distraída com seu toque. Mas imagino que ele esteja se referindo ao diário.

— Confusa, na verdade — admito. — Vovó tinha me contado que o “amor de sua vida” era um Yiga que ela conheceu muito mais velha. Esse Deen… ele era um Sheikah.

— Provavelmente ela não queria que você soubesse do envolvimento dela na ascensão dos Yiga — Tauro conclui, soturno.

— O envolvimento dela onde?!

— Na… ascensão dos Yiga, Paya — ele me encara, surpreso. — Até agora, a história parece indicar que essas reuniões foram os primeiros encontros do grupo. Você não percebeu?

— FOI MINHA AVÓ QUEM FUNDOU OS YIGA?

— Eu não disse isso! — Tauro se defende, assustado. — Mas… parece que ela esteve sim presente em sua… concepção.

Meus olhos se arregalam e permanecem arregalados. A expressão de choque se solidifica em meu rosto e eu me vejo catatônica. O quarto gira ao meu redor enquanto minhas memórias são transmutadas sob a luz destas novas informações, manchando minhas percepções sobre a mulher que me criou, deixando claro que eu realmente não a conheço.

— Paya? — ouço a voz de Tauro a distância, como se eu estivesse sob água.

O choque somado ao cansaço e à quantidade de emoções que meu corpo foi forçado a processar em tão poucas horas é demais. Manchas pretas surgem em minha visão e, no segundo seguinte, eu perco a consciência.


. . .

Estou deitada sobre algo macio. Abro os olhos, desorientada, e percebo que estou na cama do quarto. A luz do sol se infiltra pelas frestas das cortinas, indicando que ainda é dia.

Será que eu perdi o casamento?

Me sento, assustada, e minha cabeça gira com a tontura súbita. Coloco a mão sobre meus olhos, tentando me recuperar.

— Você pode dormir mais um pouco se quiser. A cerimônia vai ser só daqui a algumas horas — ouço a voz de vovó Impa.

Abaixo o braço para desobstruir minha visão e viro o rosto na direção do som. Ela está sentada em uma poltrona não muito distante da cama, me observando.

Quando nos vimos pela última vez durante a discussão, eu a tinha visto como uma pessoa… pequena, incoerente, até mesmo insegura — dada sua reação à minha explosão.

Agora, no entanto… ela parece já ter se recuperado. Sua postura firme enquanto me analisa friamente deixa transparecer as cores da guerreira que ela foi um dia.

— Como você pôde? — questiono, horrorizada.

Vovó franze o cenho, sem saber ao que exatamente eu estou me referindo.

Nem eu sei exatamente ao que estou me referindo.

São tantas coisas, tantas mentiras, tantas traições… eu sequer sei por onde começar.

— Zelda sabe? — continuo meu interrogatório. — Das suas… inclinações políticas?

Ainda não. E espero que você tenha a decência de não causar uma comoção no dia do casamento dela, Paya. Haverá tempo para discutirmos isso mais tarde.

— Então você admite?

Vovó suspira, cansada.

— Não me orgulho do meu papel em tudo isso, Paya. Eu já paguei por todos os meus erros… e continuo pagando.

— Como sequer te colocaram como líder Sheikah depois disso?!

— Claramente você não avançou muito na história ainda. As respostas estão todas no diário, Paya. Tauro vai te ajudar a entender.

— Você está aqui agora. Por que só não me conta?

— Eu não consigo, Paya — ela repete, frustrada.

Meu coração se aperta quando a compreensão chega.

— Você não consegue falar porque não quer se lembrar… dele? — não consigo evitar a empatia que começa a forçar sua presença em meu ser.

Eu mesma não me vi incoerente e nocauteada por uma dúzia de emoções diferentes depois de um pequeno mal-entendido com Tauro? E nós estamos há poucas semanas nessa dança. Não consigo nem mesmo começar a mensurar sua dor.

Vovó desvia o rosto e se levanta. Não é rápida o suficiente, no entanto; chocada, vejo que seus olhos brilham com as lágrimas que surgem. Ela caminha até a janela e abre uma das cortinas. Então, pigarreia e fala em voz baixa:

— Deen foi a melhor e a pior coisa que aconteceu em minha vida. Ele foi a causa dos meus anos mais felizes, e a razão da minha depressão mais profunda.

Tento, em vão, me agarrar à fúria que me consumiu frente às descobertas recentes. Mas é impossível. Quão intenso foi esse amor para que mesmo tantos anos depois ela se recuse até mesmo a se lembrar, para evitar o sofrimento?

— Vovó, eu…

— Purah está certa, Paya — ele me interrompe.

— Sobre? — questiono, desnorteada com a alteração brusca de assunto.

— A liderança da tribo. Eu jamais deveria tê-la imposto a você. Não sem antes ter conversado com você sobre o assunto.

Fico congelada por alguns instantes antes de conseguir responder.

— Você está me… “demitindo”? Isso sequer é possível?! — não sei se sinto raiva, tristeza, indignação ou… alívio.

Vovó me encara profundamente antes de responder:

— Estou te oferecendo uma escolha, Paya. Você não precisa me responder agora. Falaremos sobre isso quando voltarmos a Kakariko.

Assinto, sem saber o que dizer.

Noto que vovó seca suas mãos na roupa enquanto se encaminha para a porta. Ela segura a maçaneta mas, antes de abri-la, vira o rosto na minha direção e um sorriso divertido — completamente incongruente com a situação — se abre em seu rosto. Pela primeira vez em minha vida, escuto um tom malicioso em suas palavras:

— Tauro pediu para perguntar se você quer que ele te acompanhe até a cerimônia hoje.

Aturdida, hesito alguns segundos. Então… aquiesço.

Vovó deixa escapar uma risadinha baixa.

— Imaginei. Vou avisá-lo para vir buscá-la em duas horas, então — diz simplesmente, e se retira.

Ainda exausta, me recosto nos travesseiros novamente. Meu cérebro, no entanto, está formigando com o excesso de informações, me deixando completamente confusa.

Repasso mentalmente o que aprendi até o momento, em uma tentativa de organizar minhas impressões. Tudo indica que Deen realmente é meu avô; mas ele não parece… alinhado com os ideais dos Yiga. A própria vovó parecia ter mais sede de vingança do que ele. Franzo o cenho, sentindo que estão faltando muitas peças nesse quebra-cabeça.

Sou tomada por uma ansiedade intensa em continuar a leitura do diário, mas é impossível sem Tauro.

Ao pensar em Tauro, um sorriso bobo irrompe em meus lábios antes que eu me dê conta. Tanta coisa aconteceu nas últimas 16 horas que eu não tive tempo de processar o que houve entre nós.

Meus lábios formigam à lembrança de seu beijo; meu coração dispara às imagens daqueles minutos que compartilhamos ontem, seus braços ao meu redor, sua barba por fazer arranhando meu pescoço, seus olhos me encarando como se ele estivesse com… fome.

Percebo que estou ofegante.

Um banho. Eu preciso de um banho frio.


. . .


Passo as mãos sobre minhas coxas, alisando o tecido da calça pela duodécima vez. Meu pé bate no chão repetidas vezes, o salto do sapato contra a madeira criando um ritmo acelerado, na mesma velocidade dos pensamentos que correm em meu cérebro.

Tauro deve chegar a qualquer momento, e eu não tenho nada para preencher estes minutos fora ansiedade.

Ansiedade de continuar lendo o diário.

Ansiedade com a escolha que vovó deixou em minhas mãos.

Ansiedade de vê-lo.

Meus dedos batucam o braço do sofá, minha perna treme com a agitação de meus pés e eu mal consigo passar dez segundos no mesmo pensamento.

Ele está demorando.

Será que desistiu de vir?

O diário de vovó está sobre a mesa de centro; mesmo sabendo que não entenderei nada de seu conteúdo, decido folheá-lo mais uma vez… apenas para passar o tempo.

Assim que o abro, noto que Tauro deixou um pedaço de papel dentro para marcar a página onde paramos. É uma folha velha, com alguns cálculos e anotações quaisquer. Dou um sorriso com seu cuidado; meu primeiro instinto seria apenas o de dobrar uma orelha na página em questão.

Passo para as folhas seguintes, observando-as superficialmente. Por um bom trecho, a caligrafia se mantém consistente. No entanto, começam a surgir algumas páginas onde as letras estão fundas, como se a pena tivesse sido pressionada contra o papel com uma força muito maior do que a necessária. Outras, parecem ter sido molhadas, pois a tinta em alguns trechos está ligeiramente borrada e espalhada. Olhando com atenção, vejo que algumas estão com pequenas marcas de algo marrom, o padrão e formato das manchas estranhamente… agourento.

Me sobressalto ao ouvir uma batida discreta na porta.

Minhas mãos se fecham, meu dedos se esfregando em um no outro, incapazes de ficarem quietos. Me levanto; minha respiração é curta, e eu consigo sentir meu coração batendo na garganta.

Por Hylia, de onde vem tanto nervosismo?

Nós já até nos beijamos, precisa mesmo desse estresse todo?

E se ele não gostou?

Ele não se daria ao trabalho de me acompanhar hoje se fosse o caso, certo?

Mas ele é muito gentil, talvez só esteja fazendo uma “boa-ação”.

Paro em frente à porta e respiro fundo antes de abri-la.

Sou nocauteada pela visão de Tauro vestindo um traje formal completo para a cerimônia. Ele parece desconfortável, desacostumado a usar tantas camadas de tecido.

Mas está lindo.

É impossível negar esse fato.

Nenhuma, nem uma única maldita palavra vem à minha mente.

Depois de horas com cinquenta vozes em minha cabeça disputando para ver quem gritava mais alto, agora eu não consigo pensar em nada para dizer.

No entanto, estranhamente… Tauro, tão falador, também não diz nada. Foco meu olhar em seu rosto e noto que ele está enrubescido, e seus lábios, ligeiramente entreabertos.

Uma brisa gelada entra pela janela, fazendo meus braços se arrepiarem. Franzo o cenho, um pouco irritada com o traje que Purah me arranjou para hoje. Meus braços e ombros estão nus, expondo muito mais pele do que estou acostumada. "Vai ser um dia quente, estamos no meio do verão", disse ela. "Você vai passar calor se usar as blusas de sempre. E é uma festa, Paya.", frisou ela.

Bom, eu não estou com calor. Passo as mãos pelos meus braços, tentando espantar o arrepio. Puxo meu cabelo, que está solto, para a frente — em uma tentativa frustrada de me cobrir um pouco.

— Oi, Paya… eu… — Tauro gagueja, finalmente conseguindo quebrar o silêncio por nós. — Você está linda — ele completa, e eu sinto minhas bochechas esquentarem.

Ele arregala os olhos, assustado, e completa:

— Você está sempre linda, na verdade, você é linda, mas o que eu quis dizer é que… eu… — ele leva uma mão até sua nuca, desconcertado, e respira fundo. Então, me estende um buquê de flores roxas que está segurando e eu não tinha percebido. — São para você.

Surpresa, as pego e levo ao nariz, inalando seu odor. É ligeiramente doce e aveludado, muito suave. É reconfortante, e eu abro um sorriso.

— Obrigada, Tauro.

— São violetas. Especificamente da subespécie Celeri violaceum… mas mais conhecidas por aqui como Violetas Velozes.

Inclino a cabeça, sem saber onde ele quer chegar com isso.

— A literatura indica que, se infusionadas em um chá, podem aumentar consideravelmente a velocidade de quem o beber — ele diz, parecendo ficar cada vez mais envergonhado com cada palavra que sai de sua boca. — Pensei que seria engraçado por causa…

— …do experimento falho da técnica de combate naquela noite — eu completo, rindo. Ele parece aliviado com a minha reação.

— Isso. Vamos? — ele me oferece o braço, e eu o seguro, feliz.

"Silêncio" e "Tauro" não são coisas que conseguem coexistir por muito tempo. Então, após poucos metros, ele se recupera e volta a falar. Conversamos durante todo o percurso; ele evita o assunto “diário de ascensão dos Yiga”. Talvez porque estejamos em público, talvez porque ele quer me dar espaço, talvez porque já cansou dessa história toda? Não sei suas razões, mas não reclamo: eu também gostaria de me distrair um pouco nas próximas horas.

Ao invés disso, ele volta a falar sobre o próximo grande projeto de Purah. Dessa vez, consigo prestar atenção enquanto ele se atropela em suas próprias palavras, tentando me explicar do que a ideia consiste ao mesmo tempo em que se distrai com os desafios que elenca, em uma tentativa de solucioná-los ali mesmo.

— Vai ser como uma rede de comunicações — ele diz.

— Mas nós já conseguimos mandar telegramas através do serviço de correio dos estábulos — questiono, confusa.

— Sim, sim, mas vai ser muito mais rápido!

— …as mensagens já chegam no mesmo dia, Tauro. Não faço ideia de como eles conseguem, inclusive.

— Paya, elas vão chegar no mesmo instante.

— Como? — isso não faz o menor sentido.

— Bom, primeiro as duas pontas envolvidas precisarão de um dispositivo para transmitir e receber as informações. Então ela está estudando como otimizar o Purah Pad para facilitar e baratear sua produção.

— Todo mundo vai precisar de um desse? Me parece trabalho demais.

— Eles são bem úteis, na verdade… Imagino que a população vai se interessar; ele consegue capturar imagens, se conectar às torres para geolocalização e permite que o usuário faça anotações. Provavelmente vamos remover a função de teletransporte, no entanto — consome energia demais.

— Certo… e como a mensagem sai de um e chega em outro?

— Usando as torres! — Tauro não está conseguindo se conter de tanta animação. — Como eu disse, elas conseguem se comunicar entre si… como se fossem nós em uma rede. As anotações que achei no laboratório estavam chamando a tecnologia de “Purah Net”.

Fico em silêncio por alguns segundos, indecisa entre admiração e indignação.

— Ela vai colocar o nome dela em todas as invenções? — a indignação vence.

Tauro dá de ombros, rindo.

— Antes o dela do que o meu.

Chegamos ao salão onde será celebrado o casamento. Algumas pessoas já estão acomodadas nos bancos e cadeiras, aguardando o início da cerimônia. Um Link muito nervoso está no fundo da sala, ao final do corredor. Para desconhecidos, ele aparentaria estar calmo; mas nós que o conhecemos melhor, sabemos que ele não tem o hábito de bater o pé no chão ritmadamente. E suas mãos passeando pelos cabelos a cada poucos instantes são o maior indicador de que ele está fora de si.

Tauro e eu nos entreolhamos e, sem trocar uma única palavra, concordamos em ir até ele para tentar acalmá-lo.

— Grande dia, hein, Link — Tauro diz, abraçando os ombros de Link em um cumprimento carinhoso.

Ele apenas acena, sem palavras.

— Ah, não, Link, sem tratamento de silêncio de novo, por favor — reclamo.

— Desculpe — ele diz, tentando disfarçar o tremor em sua voz.

— E você está nervoso por quê?! — pergunto, indignada. — Vocês já estão casados.

Link dá de ombros.

— Mas foi um casamento secreto, não foi anunciado para a população. Ela ainda pode fingir que nunca aconteceu e desistir — ele diz, incoerente.

— Link. Vocês acabaram de passar três meses fora em lua-de-mel. Você acha mesmo que a população não sabe?

Ele passa as mãos pelo rosto, respirando fundo.

— Eu sei que não faz sentido, Paya. Eu só… não consigo evitar.

Franzo o cenho, tentando entender o real motivo de seu nervosismo. Link fica ainda mais desconfortável sob meu escrutínio.

— Tá bom, Paya, eu admito! Não estou preocupado de que Zelda vá fugir — ele exclama, frustrado. — Eu… eu não gosto de ficar tanto tempo longe dela. Zelda tem uma certa tendência a sequestros, quedas em abismos, transes milenares, afogamentos em lagoas…

Tauro ri, pois ele estava presente para esse último evento.

— Ela vai ficar bem, Link — ele diz, conciliador. — Vocês dois já estouraram sua cota de azar para essa existência.

Link acena, incerto. Seus olhos pareciam dizer que não existe uma cota de azar por existência: ela é infinita.

Uma comoção atrás de nós indica que todos estão terminando de se acomodar, indicando que a cerimônia está prestes a começar. É literalmente visível o alívio que invade Link ao perceber que Zelda está logo atrás das portas do salão.

Tauro me oferece a mão para caminharmos até nossos assentos. Vejo Marin no meio da banda do reino, os Trotadores dos Estábulos; ela parece se entrosar bem com os integrantes, e eu imagino que as chances de que ela se junte a eles oficialmente em breve são bem altas.

O salão é inundado pelos acordes da Balada da Deusa, enquanto Marin canta a melodia principal. Todos se levantam quando as portas se abrem e Zelda entra, acompanhada pela vovó Impa.

Conhecendo a história das duas agora, a cena me emociona muito mais do que na pequena cerimônia que aconteceu no Monte Tuft. O carinho com que Zelda olha para a vovó e vice-versa… minha garganta se aperta e lágrimas se formam em meus olhos.

Sem que eu precise dizer nada, Tauro me oferece um lenço — arrancando um sorriso de mim. Estou de costas para ele, e ele me abraça, hesitante. Me permito recostar contra seu torso, me sentindo… segura. Então, ele descansa seu queixo sobre minha cabeça.

A cerimônia é curta. Vovó diz algumas palavras de introdução e pede às deusas que concedam harmonia, paz e tranquilidade para Zelda e Link. Que seus anos juntos sejam longos e transbordem felicidade e companheirismo.

Ambos dizem seus votos, que são versões ligeiramente ajustadas dos que trocaram no Monte Tuft. Zelda diz que atravessou milhares de anos apenas para encontrá-lo novamente, e que o fará novamente quantas vezes for preciso. Link diz que, depois de tantas coisas, ele entende que eles podem ser separados a qualquer momento, sem o menor aviso; e que ele, portanto, sempre fará o possível e o impossível para retornar a ela.

Não acredito que exista uma única pessoa no salão com os olhos secos quando eles finalmente são declarados casados — novamente — e ele a toma em um beijo apaixonado.

. . .

Tauro não deixa meu lado em nenhum momento. Passamos a noite inteira conversando com diferentes pessoas, pois, aparentemente, ele conhece todo mundo. Morador de Hyrule ou não, todos parecem já ter cruzado seu caminho pelo menos uma vez.

Completamente surpresa, eu me vejo interagindo bem com todas essas pessoas. Elas escutam minhas histórias com atenção, riem de minhas piadas, comparam o que digo com suas próprias experiências.
Em determinado ponto, quando estamos a sós no caminho entre um grupo e outro, a insegurança toma conta de mim.

— Eu estou sendo muito inconveniente? — pergunto a Tauro, frustrada.

Ele para imediatamente, me encarando aturdido.

— Por que estaria?

— Estou falando… muito. Não tem nada de interessante em minhas histórias de Kakariko. As pessoas só estão rindo porque sabem que eu sou líder da tribo — confesso.

— Paya, as pessoas estão rindo porque você é divertida — a voz de Tauro é intensa.

— Tauro, que graça tem uma história sobre galinhas fugitivas? E eu tenho várias dessas, fique sabendo. Metade do meu repertório de contos envolve penas e ovos nos lugares mais improváveis do vilarejo.

Tauro reprime uma risada.

— Você não está se ouvindo?

Eu o encaro, sem entender.

— Paya, qualquer experiência tem potencial para ser uma boa história. É quem a conta que tem o poder de transformar uma situação corriqueira em algo épico, hilário, dramático… interessante. Você faz Kakariko parecer o lugar mais divertido do mundo; um pequeno paraíso escondido em Hyrule.

"O lugar onde estamos não faz diferença no final das contas. Eu sei bem: antes de chegar a Hyrule, eu nunca tinha passado mais do que seis meses no mesmo lugar. É a maneira como enxergamos o mundo e a existência que define o quanto nós realmente vivemos. E sua visão é fascinante, Paya… os detalhes que você percebe, as nuances das situações e interações… Você é incrível. Não deixe que as palavras de duas pessoas maldosas apaguem seu brilho."

Quantas vezes uma pessoa pode chorar no mesmo dia antes que seja ridículo?

Honestamente… eu não me importo.

O nó em minha garganta vence a batalha e uma lágrima pesada escorre pelo meu rosto. Tauro me puxa para seus braços, sem se incomodar de que estamos no meio do salão, entre tantas pessoas. Ele deposita um beijo no alto da minha cabeça, suas mãos fazendo carinho em meu cabelo e em minhas costas.

As palavras de Claree e Nanna ainda me machucam. Mas ali, entre os braços de Tauro e recebendo seu cuidado, por alguns minutos eu me esqueço que elas sequer existem.