Sheikah
13 Como?
POV Paya
— O Link foi um tonto de ficar longe daqui por mais de meia década — declara Marin, com aquela sinceridade bruta à qual estou rapidamente me acostumando. — Este lugar é maravilhoso! Não me entenda mal, Koholint era um pequeno paraíso… mas a diversidade que tem aqui! De tudo! De lugares, paisagens, comidas, habitantes…
Balanço a cabeça, incapaz de discordar.
— É verdade. Não que Link seja tonto! — Tauro concorda, mas logo se corrige, assustado. — Refiro-me à questão da riqueza cultural em Hyrule. Estou aqui há anos e ainda há muito para explorar.
Tento focar na conversa. No entanto, me vejo incapaz de manter a atenção em qualquer coisa que não seja seu braço ao redor da minha cintura — descansando ali com uma familiaridade e um conforto que me fazem questionar se realmente passaram-se apenas 24 horas desde que tudo aconteceu.
Vinte e quatro horas. Como as coisas podem mudar tanto em um espaço tão curto de tempo?
Tauro e Marin continuam conversando animadamente sobre as vantagens de Hyrule e suas experiências como viajantes. Inconscientemente, ele me puxa um pouco mais para perto de si, a lateral do meu corpo pressionada contra o seu; seu calor radiando através do tecido da minha roupa, me aquecendo.
Como?
Quando?
Em que momento deixamos de ser “senhor Tauro” e “senhorita Paya” para nos permitirmos tal proximidade — em público, por Hylia — sem nem ao menos termos discutido antes o que realmente somos?
Como pode ser tão natural? Tão fácil?
De onde veio?
Tauro continua falando, mas o braço que estava em minha cintura sobe até que sua mão alcance meu cabelo; seus dedos fazem um carinho agradável em minha nuca antes de descerem pelo meu ombro e braço, até procurarem minha mão, segurando-a.
— Eu nunca vi neve — a voz de Marin soa indistinta, mas tento me concentrar no assunto. — Mas a banda disse que toca em todos os estábulos do reino, e que eventualmente passaríamos por Hebra.
— Me parece legal — me forço a responder, em um esforço descomunal de me manter sociável.
— Você já viu neve, Paya? — Marin questiona.
— Não. Nunca conheci outros lugares além de Kakariko, Hateno e aqui, na região do Castelo.
— Não acredito! — Marin exclama, chocada.
Dou de ombros, sem saber o que responder.
— Tauro vai resolver isso, tenho certeza — ela completa, o rosto distorcido em uma expressão maliciosa. Em seguida, ri, divertindo-se.
Meu rosto queima com suas implicações, mas Tauro apenas ri também.
— Claro, eu já ofereci meus serviços de guia turístico para ela.
— Ela não seria louca de recusar, tenho certeza — escuto outra voz vindo de algum ponto atrás de mim.
Ao me virar, dou de cara com Zelda. Link está a seu lado — obviamente. Ele a encara com reverência enquanto ela interage conosco — que devemos ser o vigésimo grupo de convidados em sua rota como anfitriões.
Zelda está reluzindo de tanta felicidade; não existe outra descrição para ela. Seus cabelos dourados estão arrumados em um penteado complexo de tranças, deixando seus ombros à mostra. Seu vestido é maravilhoso; completamente rendado, acinturado na altura das costelas, com a longa saia se abrindo em um corte suave e romântico. Seus olhos, sua pele, tudo nela parece brilhar.
— Obrigada por virem — ela abraça cada um de nós, transbordando alegria.
— Não perderíamos essa união por nada — Tauro constata. — Todos somos testemunhas de como foi difícil vocês chegarem até aqui. Vocês merecem toda a felicidade do mundo.
Zelda sorri. Ou melhor… o sorriso que não deixa seu rosto em momento algum aumenta.
— Definitivamente — Marin completa. — Eu não fazia ideia de que você sequer sabia sorrir, Link — ela o provoca.
— Eu não tinha muitos motivos naquela época — ele diz baixinho e dá de ombros.
Zelda observa a proximidade entre mim e Tauro com curiosidade. Então, volta-se para Marin:
— Ouvi dizer que você vai se juntar à nossa banda local.
— Ainda não está decidido! Mas… sim, estou considerando — ela diz, se fingindo de difícil.
— Me parece uma boa oportunidade! Acho que vocês terão bastante serviço: estou prevendo muitos casamentos aqui no reino nos próximos anos — ela olha para mim e Tauro ao declarar sua suposição e ri descaradamente, nos provocando.
Sério, Zelda?!
Por quê?!
Meus olhos se arregalam enquanto congelo, em pânico. Antes que eu possa me afundar na ansiedade, no entanto… Tauro fala:
— Não tenho dúvidas. Tempos de paz, a população crescendo com imigrantes… É certo que centenas de relacionamentos florescerão nos próximos anos.
Imediatamente, para deixar claro que sua resposta evasiva não foi uma rejeição e sim um resgate de uma situação constrangedora, ele volta a colocar sua mão na minha cintura e me puxa para mais perto. E, simples assim, meu coração se acalma antes mesmo de começar a se preocupar.
Como?
Depois de mais algumas amenidades, Link e Zelda se despedem de nós e seguem para o próximo grupo de convidados. Marin nota alguém a chamando e também se afasta.
— Desculpe por isso — peço, levemente constrangida.
— Por quê? — Tauro parece chocado.
— Porque… Zelda… só fazem 24 horas desde… a gente nem conversou sobre… — murmuro, incoerente.
— Paya, Zelda só estava brincando. E, claro, isso — ele gesticula para nós — ainda é novo. Não precisamos de pressa. Mas também não é ofensivo conjecturar sobre passos futuros. Não existe motivo para você se desculpar — ele leva os dedos ao meu rosto, fazendo carinho. Me permito descansar o rosto em sua palma.
— Como você consegue? — pergunto, indignada e aturdida.
— Consigo o quê? — ele parece igualmente surpreso.
— Prever minha ansiedade. Fazer eu me sentir segura… amparada.
Tauro encolhe os ombros, desconcertado.
— Não sei — ele ri, confuso. — Eu só estou falando a verdade, Paya.
Suspiro, incapaz de compreender.
Noto vovó Impa acenando para que eu me aproxime dela e de Purah. Tauro entende a deixa e diz, apertando minha mão:
— Vou pegar algo para bebermos no bar. Encontro você daqui a pouco.
O vácuo deixado por sua partida faz o ar ao meu redor parecer frio demais. Mas me encaminho para o local aonde fui convocada, na direção oposta.
— Se isso é “não está acontecendo nada”, me pergunto o que é “alguma coisa” pra você — Purah ri, me provocando.
Me preparo para responder, mas as palavras que saem da boca de vovó Impa me chocam absurdamente:
— Eu saio de Kakariko por algumas semanas e você arranja um gostosão, Paya? — ela ri alto, divertindo-se.
— VÓ! — exclamo, completamente sem chão.
— Ah, por favor — ela revira os olhos. — Você está lendo meu diário, descobrindo meus segredos mais sórdidos. Sabe bem que eu já fui jovem um dia.
— Faz tempo — Purah revira os olhos.
— Você é mais velha que eu, Purah.
— Isso a gente deixa pro júri decidir, mana.
Purah toma um gole da taça em sua mão antes de prosseguir, com um tom malicioso:
— E aí, Paya? — ela ergue as sobrancelhas. — Ele é tudo isso mesmo?
Hylia, você me odeia?
Por que tantas situações constrangedoras em tão poucos minutos?
— Ele é muito inteligente — respondo, evasiva.
— Eu trabalho com ele, Paya — Purah bufa. — Disso eu sei. Você sabe do que estou falando.
— Eu acho que ele é gentil demais — vovó resmunga, e noto que ela também está com uma taça na mão. — Não sei se sabe usar todos aqueles músculos, não.
Eu não vou sobreviver a essa conversa sem uma taça na mão também. Desesperada, olho para trás, procurando por Tauro na direção do bar das Gerudo. Encontro sua silhueta alta no salão, mas ele parece… tenso. Franzo o cenho, confusa.
— As senhoras não estão idosas demais para serem tão indecorosas? — reclamo, me voltando para elas.
— Nós estamos com a idade perfeita para sermos indecorosas — Purah rebate.
— Não que eu tivesse muito decoro quando era jovem — vovó completa, dando um sorrisinho travesso.
Eu não consigo.
Desculpa, Hylia, eu queria ter maturidade suficiente para atravessar essa situação — sóbria — sem querer me enfiar em um buraco. Mas eu não consigo.
— Vou ver se Tauro precisa de ajuda — declaro, em pânico, me afastando das duas.
— Tenho certeza de que ele precisa de ajuda — Purah grita, se divertindo muito mais do que deveria com meu constrangimento.
Abro caminho entre as pessoas, chacoalhando a cabeça freneticamente, tentando apagar os últimos minutos. Mas, ao mesmo tempo… não consigo evitar o riso que ameaça surgir por baixo da vergonha. Essas duas…
Meus pés congelam no chão quando uma voz aguda chama meu nome e alguém toca meu braço para chamar minha atenção.
— Linda sua roupa, Paya — diz Claree. — Muito… moderna.
Abaixo o olhar para encarar a garota; meus dentes estão trincados, e minha respiração, irregular.
— Boa noite, Claree — minha voz é fria, firme, surpreendendo a mim mesma. Decido dar um pouco de corda a ela para testar suas intenções. — Obrigada. Foi CeCe quem fez — explico, me referindo à costureira de Hateno.
— Ah, claro. Calças em um casamento… é a cara dela ser tão… disruptiva — seu tom transborda sarcasmo.
Respiro fundo, me segurando para não agredi-la. São pantalonas, pelos céus!
— Não que você seja estranha a quebrar tradições, né, Paya — ela ri, tocando meu braço.
— Chefe Paya — corrijo entredentes.
O rosto de Claree se distorce em uma expressão de escárnio, incrédula.
— Chefe? — ela segura um risinho. — Claro. Perdão, “chefe Paya”.
É o casamento da Zelda, é o casamento da Zelda, é o casamento da Zelda, repito em minha cabeça como um mantra — em uma tentativa desesperada de não causar uma comoção aqui agora.
— O que seriam de nossas galinhas sem sua constante vigilância, não é mesmo? — ela continua.
Perdão, Zelda.
— Qual é o seu problema?! — exclamo, furiosa. Cerro os punhos para me impedir de sacudi-la pelo colarinho.
— Problema nenhum, chefe Paya — ela não se abala com minha reação. Pelo contrário… parece se deleitar. — Mas pode ficar tranquila que qualquer coisa eu te aviso. Ah, olha só, seu pesquisadorzinho está chegando. Até mais, querida.
E então, tão subitamente quanto surgiu, ela se afasta e se perde rapidamente na multidão.
Meu corpo treme, incontrolável; meu coração está descompassado e não consigo parar de ranger os dentes. Meus olhos ardem conforme sou invadida pela sensação de impotência, pela humilhação — tudo isso misturado ao ódio.
— Paya? — Tauro para diante de mim. — O que Claree disse?
Não consigo abrir a boca. Tenho medo de começar a chorar se tentar falar qualquer coisa.
— Você quer sair daqui? — ele pergunta, preocupado.
Aquiesço, aliviada.
Ele larga as bebidas em uma superfície qualquer e me oferece a mão. Saímos do salão e percorremos os corredores em silêncio. Lentamente, a ira se dissipa, me deixando apenas… triste. Tauro deixa que eu decida o caminho, e acabamos parando em frente aos meus aposentos.
— Você pode me fazer companhia? — pergunto, sentindo-me fragilizada. — Eu não quero… ficar sozinha.
Tauro acena, concordando.
Entramos no quarto e olho ao redor, incerta. Estou exausta. Preciso me sentar. Mas em frente à lareira só existem duas poltronas, pequenas demais para sentarmos lado a lado. E eu também preciso da sua proximidade.
Sem pensar muito sobre o assunto, me dirijo para a cama e me sento na beirada do colchão. Tauro caminha atrás de mim, hesitante. Ele parece ponderar por alguns segundos antes de se sentar ao meu lado. Então, segura minhas mãos.
— O que ela falou?
— Nada de novo — falo baixinho, lutando contra o aperto na garganta.
— Ela falou comigo um pouco antes — Tauro resmunga, irritado. — Quando estava buscando as bebidas. Também não era nada relevante.
Me questiono se quero saber o que foi.
Decido que hoje não. Agora não.
Agora eu quero — eu preciso — me distrair das sensações de solidão e carência que tomam conta de cada célula do meu corpo.
Levanto o olhar para observar Tauro. Levo minha mão até seu rosto, passando os dedos levemente por sua bochecha, seu maxilar, seus lábios. Me aproximo, desesperada para senti-lo contra os meus novamente.
Pressiono minha boca na sua, em um beijo suave. Tauro segura minha nuca, hesitante.
— Paya… — ele diz, preocupado.
— Por favor — peço, sem me importar com dignidade em meio à solidão que me consome.
Tauro fita meus olhos intensamente, parecendo dividido. Os segundos se arrastam enquanto ele pondera; sua respiração está mais pesada, e seus dedos ficam mais rudes contra minha pele, puxando meu cabelo. Ele acena, decidindo, e cola sua boca na minha.
Ofego ao sentir sua língua em meus lábios, pedindo permissão. Abro a boca, permitindo que ele aprofunde o beijo. Suas mãos descem para minha cintura, apertando, arrancando um suspiro de mim.
Por puro instinto, desço minhas mãos até a gola de sua camisa, procurando pelos botões.
No entanto, antes que eu consiga desfazer o primeiro, Tauro segura meus pulsos, me parando.
— Não acho que é uma boa ideia, Paya — ele sussurra contra minha boca, conciliatório.
Franzo o cenho, confusa com seus sinais. Tauro está ofegante também, suas pupilas quase do tamanho de suas íris. Ele parece sentir tanta vontade quanto eu.
Por que me parou, então?
Mesmo notando seu desejo, não consigo evitar me sentir rejeitada mais uma vez. Pisco, lutando contra as lágrimas, e desvio o olhar.
— Eu… mas… eu achei… me desculpe — digo, mesmo sem saber o que dizer.
— Paya — ele leva os dedos ao meu queixo, fazendo-me levantar o olhar para os seus. — Você está muito vulnerável hoje. Não seria certo.
Continuo encarando-o, confusa.
— Você acabou de descobrir um monte de coisas terríveis sobre o passado da sua avó. Está lidando com os ataques de Claree ao mesmo tempo em que batalha com suas próprias inseguranças. Eu não sei como você ainda está em pé depois de tantas emoções que precisou lidar no último dia. Eu quero você, Paya. Mas não assim. Você merece mais, muito mais. Vamos ter tempo quando tudo se acalmar.
Aquiesço, sem saber se me sinto muito sortuda ou muito azarada pelo tanto de empatia que ele consegue sentir.
— Você quer ir embora? — pergunto, aflita.
— Você quer que eu vá embora?
Balanço a cabeça em negativa.
— Então eu fico — Tauro sorri. — Mas… — sua voz vacila, hesitante.
Ele coça a nuca, desconfortável.
— Eu sei que é contraditório eu dizer isso depois desse discurso todo. Mas…
— Mas…? — incentivo, curiosa.
— Eu odeio essa camisa — ele admite, frustrado. — Você se incomodaria se eu… tirá-la?
A surpresa me atropela, e não consigo evitar a gargalhada que nasce em meu âmago, sacudindo meu corpo.
— Ah, eu não posso tirar sua roupa, mas você pode? — reclamo, entre risadas.
— Você estava com outras intenções — ele responde, desconcertado. — Eu só quero conseguir respirar direito.
— Bom, no dia em que eu me opor a você sem camisa, pode me declarar insana — brinco, sem conseguir parar de rir.
Tauro enrubesce imediatamente.
— Se você vai ficar confortável, eu também vou — resmungo. — Já volto.
Deixo Tauro ali e me dirijo para a suíte do quarto. Tiro as desconfortáveis roupas de festa e troco para meu pijama. Faço minhas higienes noturnas, sem entender como é que eu não estou nervosa com esse arranjo; como me parece natural nós simplesmente compartilharmos a cama… mesmo sem fazer nada.
Quando volto para o quarto, encontro Tauro acomodado no colchão — agora, sem camisa. Bufo, irritada. Para quem diz se preocupar tanto comigo, ele não parece muito reticente em me torturar.
Subo na cama e me deito ao seu lado. Ele me envolve com um braço e eu me aconchego contra seu corpo, minha cabeça descansando em seu torso. Percebo que ele está com o diário de vovó novamente.
— Você quer continuar a leitura? — ele pergunta.
— Querer, eu não quero — admito. — O relacionamento entre vovó e Deen está tão bem… não quero saber como foi que toda a desgraça aconteceu. Mas… eu preciso. Deve ser importante, senão ela não teria se dado ao trabalho de te pedir para traduzir tudo para mim.
Tauro concorda e beija o topo de minha cabeça.
— Ela veio falar comigo mais cedo. Depois que eu acordei do desmaio.
— Eu sei. Fui eu quem a chamou depois que você desmaiou — ele ri.
— Ela me ofereceu a opção de abdicar da liderança dos Sheikah.
Ele não esperava por essa informação e fica em silêncio por alguns instantes.
— E como você se sente com isso?
— Não sei — suspiro. — Antes de Claree e Nanna, eu gostava da posição. Mas… ao mesmo tempo… eu queria poder viajar. Não tenho como continuar na liderança se for passar meses, anos, longe de Kakariko. Mas eu também amo a cultura Sheikah. Não sei, Tauro, eu não faço ideia do que eu quero. O que você acha?
Tauro dá de ombros.
— Essa escolha é muito pessoal, Paya. Você tem que decidir sozinha. O que eu sei, no entanto… é que vou te apoiar independente do que escolher. E, se você permitir, vou estar do seu lado.
Um sorriso brinca em meus lábios.
Retiro o que eu disse, Hylia, você claramente não me odeia.
— Eu gostaria disso — admito.
Tauro estreita o abraço, e eu me permito deitar de lado e passar uma perna por cima das suas, me aconchegando melhor.
— Só para eu conseguir ler o diário também — explico.
Eu nem entendo esse alfabeto.
— Uhum — Tauro ri, sarcástico. — Claro.
Ele abre o diário na página marcada e o segura com uma mão. A outra vai até minha cabeça e ele volta a fazer carinho nos meus cabelos enquanto prossegue a leitura.
— “Hoje Zelda estava particularmente insuportável…”
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