Sheikah

14 Lugar errado, hora errada


Pouco menos de um ano antes da Calamidade

POV Impa

— EU NÃO SUPORTO ELE, IMPA — Zelda exclama, furiosa.

— Uhum — concordo, sem realmente prestar atenção em seu chilique.

Sei bem que ela não precisa de incentivo para continuar seu monólogo.

— Ele me segue o dia inteiro! Eu não tenho um segundo de paz!

— Ele é seu gua…

— MEU GUARDA-COSTAS, EU SEI. Mas você também foi minha guardiã e não ficava na minha sombra em todos os instantes de todos os dias, Impa! NEM DENTRO DOS MUROS DO CASTELO ELE ME DEIXA SOZINHA. Eu só tenho espaço quando estou em meus aposentos, ou quando você está comigo!

Quatro meses. Quatro meses dessa ladainha.

Dezenas de Guardiões foram encontrados ao redor do Castelo nos últimos anos; depois de muita pesquisa — e de tentativas e erros —, a equipe de Robbie e Purah finalmente conseguiu fazer com que eles funcionassem novamente.

Até que um deles entrou em curto-circuito e quase atingiu Zelda.

Não fossem os reflexos absurdos de Link e o acaso de que ele estava por perto na hora do incidente, a teríamos perdido naquele dia.

O rei não pensou duas vezes antes de nomeá-lo como guarda-costas da princesa.

Zelda não ficou nem um pouco feliz.

Mesmo antes, ela já sentia antipatia pelo garoto. Enquanto portador da Master Sword, ele é a segunda metade da profecia. E, ao contrário de Zelda, que ainda não conseguiu despertar seus poderes, ele está praticamente pronto para o ataque de Ganon.

Com Link assumindo a função de garantir a segurança de Zelda, nossos encontros se tornaram mais raros. Depois de anos sem avanço, o rei pareceu entender que eu não conseguiria auxiliá-la a acessar suas habilidades. Portanto, fui reapontada como sua “conselheira” — seja lá o que isso signifique — e passamos a nos encontrar apenas uma ou duas vezes por semana.

— Você estava dentro dos muros do Castelo quando quase morreu naquele dia, Zelda — relembro-a pela milésima vez.

Ela bufa, irritada.

— Sinto falta de quando ficávamos mais tempo juntas — resmunga, triste, e se aproxima para me abraçar; então, descansa a cabeça em meu ombro.

— Eu também, querida… mas tenho responsabilidades com o exército. Eu sei que você não aprecia a companhia de Link, mas fico tranquila em saber que ele está por perto para protegê-la. Você não pode fazer um esforço para ao menos aturá-lo? Por mim?

Zelda suspira.

— Só porque foi você quem pediu.

Afasto-a um pouco e seguro seu rosto.

— Obrigada, Zelda. E outra… não deve ser difícil ignorá-lo: ele nem fala! — digo, rindo.

Ela franze o cenho e, por um milésimo de segundo, seus olhos parecem… tristes?

— É — ela dá de ombros. — Você tem razão.

— ELES ENCONTRARAM!!!! — Purah entra berrando na biblioteca e Link a segue, silencioso.

— ONDE? QUAL? — a energia de Zelda muda instantaneamente para a mais pura agitação, e ela se desvencilha dos meus braços.

— EM GERUDO! JÁ INICIARAM AS ESCAVAÇÕES! ELA REALMENTE É GIGANTE!

— Quem…? — pergunto, mas não sou ouvida em meio aos gritos.

— QUANDO PODEMOS PARTIR PARA LÁ? — Zelda grita de volta, animada.

Link para ao meu lado, assistindo à cena completamente estoico.

— Do que elas estão falando? — sussurro para ele.

— As Bestas Divinas — ele responde, baixinho. — Encontraram Vah Naboris.

Apesar de não falar com quase ninguém, por algum motivo Link não hesita em interagir comigo; Deen e eu especulamos que deve ser por conta de alguma memória afetiva do dia em que o escoltamos para reivindicar a Master Sword.

Claro, ele nunca se estende em nenhum assunto. Mas pelo menos me responde. Já é mais do que ele se digna a fazer para qualquer outra pessoa.

— VAMOS PRECISAR DE ALGUÉM PARA PILOTÁ-LA — Purah continua gritando.

— EU QUERO VÊ-LA — Zelda insiste.

— PAREM DE GRITAR — berro ainda mais alto. Elas ficam em silêncio imediatamente. — Ah, sim, muito melhor. Vamos conversar como pessoas agora, por gentileza?

— Desculpe, Impa — Zelda dá um sorriso envergonhado. — Mas isso é muito grande! Talvez agora… talvez agora nós tenhamos alguma chance… mesmo que eu… que eu… — seus olhos brilham com lágrimas e sua voz falha. Ela vira o rosto, irritada.

— Acredito que levará algumas semanas até conseguirem desenterrá-la, Princesa — Purah intervém. — Você já ia visitar a Chefe Urbosa de qualquer maneira no próximo mês. Pode aproveitar a oportunidade.

Zelda aquiesce, o rosto ainda virado.

A luz que se infiltra pelas janelas lentamente se torna alaranjada, indicando que o sol está se pondo. Levanto-me, ansiosa para voltar para casa — para Deen.

— Realmente são ótimas notícias, querida — abraço Zelda, me despedindo. — Quem sabe não é o prenúncio de mais coisas boas por vir?

Ela balança a cabeça, incerta.

Saio do cômodo, com Purah na minha cola.

— Nos vemos mais tarde? — pergunto a ela.

Ela hesita, receosa.

— Sobre isso, Impa… eu não sei se quero me envolver nessa história.

Paro imediatamente e me viro para encará-la.

— Nós precisamos de números, Purah — digo com a voz mais baixa possível.

— Eu sei disso. Mas… eu não gosto da energia desse grupo… desses encontros.

Suspiro, frustrada. É impossível discordar: Sooga e seu círculo realmente fazem com que cada uma das reuniões da resistência sejam densas e sombrias. Mas…

— É o único grupo que temos — friso. — Não existem tantos Sheikah assim, Purah; e principalmente que estejam dispostos a se alinhar à causa.

— Esse realmente é o melhor momento para querer bater de frente com… a realeza? — sua voz se torna um sussurro na última palavra. — Não podemos esperar passar a Calamidade?

— Você sabe tão bem quanto eu que isso pode demorar seis meses ou seis anos, Purah. Os nossos estão morrendo todos os dias por conta dos arranjos atuais.

Já se passaram anos, Impa! E vocês ainda não fizeram nada além dessas reuniões reclamando e falando absurdos.

Cerro os punhos, irritada.

— Deen, Sooga e Mike estão quase conseguindo fechar uma proposta. Acredito que poderemos tentar agendar uma audiência com o rei nas próximas semanas.

— Sooga… cedeu? — Purah franze o cenho. — Ele desistiu das ideias de vingança?

Dou de ombros, sem entender sua confusão.

— Sim, finalmente. Nas últimas reuniões nós conseguimos começar a formatar as ideias sem tanta resistência dele e de seu séquito.

Purah inclina a cabeça, seu olhar desfocado enquanto se perde em ponderações.

— Me pergunto por que agora… — ela murmura para si mesma. Depois, volta a olhar para mim. — Não sei se irei comparecer, Impa. E não sei se você deveria também.

— Você não me ouviu? Estamos fazendo progresso, Purah!

Ela balança a cabeça, preocupada.

— Só… só toma cuidado, Impa. Por favor.

Reviro os olhos e decido mudar de assunto.

— Você já vai voltar para casa?

Geralmente, nós retornamos juntas, uma vez que não moramos muito longe uma da outra.

Purah suspira.

— Ainda não. A equipe de busca também encontrou um dispositivo novo durante a escavação de Vah Naboris. Um tipo de… tela? Quero analisá-la melhor para entender do que se trata. E Robbie vai trabalhar até mais tarde hoje também… está treinando a estagiária nova — sua voz soa amarga.

— À noite?

— Ele vai ensiná-la a operar as máquinas usadas para refinar as Pedras Luminosas. Elas só brilham depois que escurece, então…

— Entendi — digo entredentes.

Eu odeio Robbie. Apesar de nunca ter traído Purah — que saibamos —, os olhares e palavras que ele lança para as outras mulheres da equipe — principalmente as estagiárias — são carregados de indecência. Ele nunca a respeitou — nem no início do relacionamento, nem depois que se casaram.

Não consigo entender como ela ainda está com ele. Não faz o menor sentido.

Mas ela se recusa a falar sobre o assunto.

Então, engulo minhas palavras e apenas aceno, me despedindo.

Ainda que eu saiba que a presença de Purah não é extremamente necessária para prosseguirmos com os planos, me sinto abandonada por ela. Mas sua atenção e interesse sempre foram voltados para as tecnologias e pesquisas Sheikah. Apesar de ter participado de duas ou três reuniões da resistência — depois de muita insistência minha —, ela nunca se sensibilizou muito com nossa luta.

Balanço a cabeça, dispersando os pensamentos.

O movimento cresceu consideravelmente nos últimos anos. Atualmente, o bar de Mike lota nas noites em que nos encontramos, com dezenas de Sheikah ávidos por mudança. Enquanto alguns poucos são intensos e sedentos por sangue, a maioria é pacífica e deseja negociar com a realeza sem grandes comoções.

Abro a porta de casa e encontro Deen sentado à mesa, lendo algumas folhas. Ele sorri ao me ver entrando.

— Oi, luz — ele me cumprimenta, feliz.

Anos. Fazem anos que estamos juntos. E, ainda assim, eu ruborizo todas as vezes que ele me chama por esse apelido.

— Oi — respondo, me sentando em seu colo e dando um beijo suave em sua boca.

Recosto minha cabeça em seu ombro, olhando os papéis espalhados pela mesa. Deen faz carinho em meus cabelos.

— Tudo bem? Como foi seu dia? — ele pergunta.

Dou de ombros, cansada.

— Purah não vem hoje? — Deen adivinha imediatamente minha frustração.

— Não. Ela não quer se envolver mesmo.

— Não tem problema, Impa. Temos gente o suficiente agora… e um plano de ação — ele gesticula para os papéis.

— Vocês conseguiram terminar? — pergunto, surpresa.

— Sim, finalmente — ele ri. — Temos propostas palpáveis e coerentes para melhorar nossa participação na economia e na sociedade… Se a realeza aceitar, isso vai mudar a vida de todos os Sheikah de Hyrule.

— E se eles… não aceitarem, Deen?

Deen respira fundo, não querendo pensar nesse cenário.

— Nós nos retiraremos dos exércitos e não auxiliaremos na batalha contra a Calamidade.

Congelo em seu colo, ponderando sobre as implicações dessa atitude.

— Mas… eles não terão chances sem nós… sem nossa tecnologia.

— E é precisamente por isso que eles vão aceitar, Impa. Eles não têm opção. E não estamos pedindo nada absurdo — apenas melhores oportunidades. E abdicar da luta contra a Calamidade é melhor do que a sugestão de Sooga.

— Declarar guerra contra Hyrule?

— Exatamente.

Pauso por alguns segundos.

— Purah achou estranho… Sooga ceder agora.

Deen acena.

— Sim. Não acredito que ele realmente tenha cedido. Mike também não. Mas vamos aproveitar a abertura… sem deixar de observar seus movimentos.

— Você acha… que ele tentaria fazer algo por conta própria?

— Eu não duvidaria — ele conclui, soturno.

Zelda aparece em minha cabeça imediatamente. Ela seria um alvo fácil, muito mais eficiente do que tentar um ataque direto ao rei. Será que devemos aumentar a segurança ao seu redor?

— Não acredito que Zelda esteja correndo perigo — Deen diz, lendo meus pensamentos. — Sooga é sagaz, ele nunca conseguiria nada se raptasse ou matasse a princesa.

— Ele conseguiria vingança. Não é suficiente para ele?

— Não — Deen parece confiante. — Apesar de tudo, ele ainda se preocupa com os nossos.

— E seus seguidores? Vingança não seria suficiente para eles?

Deen coça a nuca, pensativo.

— Talvez — ele admite, preocupado.

— Vou reorganizar minha agenda para ficar mais próxima dela — decido.

— Provavelmente vai ser melhor.

Ele estreita o abraço, descansando a cabeça em meu ombro também. Afundo meu nariz em seu pescoço, sentindo seu cheiro, e me sinto confortada, em casa. Fecho os olhos, me entregando à sensação de segurança que me invade sempre que estou em sua presença.

Suas mãos passeiam por minhas costas, e mesmo seu toque mais suave é suficiente para relaxar meus músculos. Deixo escapar um suspiro satisfeito. Sua boca alcança meu ouvido para sussurrar:

— Temos algumas horas antes da reunião.

Levanto minha cabeça para encará-lo, meus lábios erguidos em um sorriso travesso. Rindo, dou de ombros em um “claro, por que não?” e me abaixo para beijá-lo.

. . .

O bar está lotado. Todas as cadeiras estão ocupadas, e dezenas de Sheikah estão em pé, ocupando cada centímetro disponível. Apesar do motivo pelo qual estamos reunidos, a atmosfera aqui dentro é leve, carregada de expectativa e animação. Muitos estão bebendo algo, conversando entusiasmados. Risadas ecoam pelo salão esporadicamente.

Deen está recostado em uma viga larga, e eu, nele. Seus braços ao meu redor, sua cabeça descansando sobre a minha. Ficamos em silêncio, observando o ambiente e aguardando até que a reunião tenha início.

Há alguns anos, quando o número de Sheikah frequentando as reuniões começou a crescer, uma pequena plataforma elevada foi construída no canto do espaço. Dessa maneira, quem estivesse se pronunciando conseguiria ser visto e ouvido melhor.

Alguns minutos mais tarde, Mike sai de trás do balcão e sobe até a plataforma. Imediatamente, o salão fica em silêncio. Ele começa a falar, sua voz se projetando para todos os cantos do ambiente; seu tom e seu semblante são sérios.

— Boa noite. Agradeço sua presença na noite de hoje, e seu interesse na causa. Seu apoio é imprescindível para que tenhamos peso suficiente para exigir uma negociação com nossos governantes.

— Depois de anos de organização, fico feliz em anunciar que finalmente temos uma proposta definida para apresentar ao rei Rhoam. Como sua opinião é de suma importância para nós, leremos todas as demandas nesta madrugada; assim como o que estamos dispostos a ceder na negociação e qual nosso posicionamento será no pior cenário.

Deen entrega as folhas para Mike, que começa a ler todas as reivindicações, uma por uma. Existem propostas para incentivos fiscais, financiamento de novos vilarejos Sheikah, renegociação dos acordos do exército, construção de orfanatos para as crianças nômades, propaganda para retificação de nossa imagem, entre dezenas de outras requisições.

Cada um dos tópicos é recebido com excitação pelos ouvintes, que batem palmas e gritam a cada sentença finalizada por Mike.

Os únicos que não parecem envolvidos são Sooga e seus seguidores — cerca de 25 ou 30 pessoas. Eles assistem à cena do fundo do salão, sentados próximos da porta de saída lateral, parecendo nada impressionados. Mas também não se opõem — o que me alivia e preocupa em igual medida.

Eventualmente, Mike termina de ler o documento.

— Alguém deseja sugerir mais alguma coisa?

Ele aguarda alguns segundos, mas ninguém se pronuncia.

— Perfeito, então. Gostaria de agradecer especialmente a Deen e Sooga, por seu esforço em compilar todas as ideias e as organizarem em um plano coeso e direto — Mike gesticula para eles enquanto fala.

Deen acena, Sooga apenas dá de ombros.

— E, claro, por fim: esperamos que não chegará a isto; mas no caso de a realeza negar todas as propostas e não se abrir para negociação, nosso ultimato será abdicar da batalha contra Ganon.

Uma energia estranha fervilha entre todos os presentes, que se encaram incertos. Burburinhos começam a correr pelo salão, as vozes indistintas.

— Eles precisam de nós…

— Mas precisam tanto assim?

— Os soldados Hylian são menos eficientes, mas ainda assim são bons.

— Ainda mais depois de terem sido treinados por nós durante tantos anos.

As vozes vão ficando cada vez mais altas, enquanto as pessoas são consumidas pelas dúvidas que surgem.

— Nossa tecnologia pode ser vital no resultado da guerra; nós somos necessários para auxiliar ao menos com isso.

— Você está vendo um pesquisador que seja aqui hoje? Eles não se juntaram a nós. E com aqueles salários… não me surpreendo nem um pouco.

Cerro os punhos, novamente frustrada com a ausência de Purah.

— E se lançarmos o ultimato e ainda assim o rei não ceder?

— Voltaremos para o exílio?

— Que grande vitória, essa.

— Não temos nenhum poder maior de barganha?

— Isso aqui é uma grande perda de tempo!

Sinto Deen tenso ao meu redor e levanto minha cabeça para observá-lo, preocupada. Ele tenta se pronunciar, mas os garotos de Sooga falam mais alto.

— E se ameaçarmos usar violência? Eles não vão querer uma guerra civil agora! Eles sequer teriam chance!

— Deveríamos atacar primeiro e conversar depois! Fazer os Hylians de reféns, saquear os cofres e aí eles que irão querer negociar com a gente.

Durante as últimas colocações, a porta do bar se abre. Um silêncio mortal cai sobre todos — com exceção dos dois garotos que proclamam suas ideias revolucionárias com voracidade. Ao sentir a mudança na atmosfera, eles se calam.

Mas é tarde demais.

A pessoa que abriu a porta não tem cabelos brancos.

Um Hylian.

Todos os olhos no salão se fixam sobre o intruso, ameaçadores. Meu coração dispara, as palmas das minhas mãos começam a suar intensamente, mas eu me mantenho firme. Meu cérebro corre, tentando entender as consequências dessa exposição e quais passos devemos tomar agora.

O jovem recua lentamente, suas mãos erguidas em súplica. Conforme ele anda para trás, um vento faz com que a porta se feche com um baque.

O som do impacto quebra o silêncio e os presentes explodem em discussões sobre o que acabou de acontecer.

— Quanto ele ouviu?

— Estamos mortos!

— Antes ele do que nós!

— Isso! Ele precisa ser silenciado!

— CHEGA — Deen grita, chamando a atenção para si. Todos o encaram, desconfiados. — Ninguém vai matar ninguém. Eu não reconheci esse rosto. Provavelmente é apenas um turista desavisado. Algum de nós deve ir atrás dele e explicar a situação.

— Por que ele nos ouviria? — Sooga finalmente se pronuncia.

Deen respira fundo antes de responder.

— Ele claramente estava com medo de nós. Não vai lutar se o encurralarmos sozinho — para explicar somente.

— E vamos explicar o quê, Deen? No final das contas, nós ainda somos uma resistência.

— Talvez ele se compadeça de nós — mas a voz de Deen soa incerta. Ele não acredita nisso.

Sooga ri, o som carregado de escárnio.

— Você já pensou em parar de ser burro? Nós não temos outra opção.

— Nós não somos assassinos, Sooga.

— Isso é exatamente o que nós somos, Deen! Estamos em um exército, porra! Somos treinados em dúzias de técnicas diferentes de espionagem e tortura! Agora você vem me falar de moralidade? Qual a diferença de matar em nome do rei ou em nome de nós próprios?

— Não matamos a bel prazer! Principalmente civis inocentes!

Eu preciso ir atrás do Hylian.

Deen se afastou de mim durante a discussão com Sooga, e todos estão compenetrados na situação que está se desenrolando entre eles. Me escondo atrás da viga, saindo do campo de visão de grande parte das pessoas.

Nos últimos anos, Deen e eu devoramos o livro de Maz Koshia. Somos proficientes em muitas das magias e técnicas de combate descritas ali. Fecho os olhos, repetindo os mantras para me teletransportar para a rua aos fundos do bar. Faço os selos com as mãos discretamente, e no segundo seguinte estou do lado de fora.

Preciso encontrar aquele jovem antes de qualquer outro Sheikah da resistência.

O bar de Mike fica na área leste da Cidade do Castelo. Existe uma pequena hospedaria a alguns quarteirões de distância. Caso Deen esteja certo e o rapaz seja um turista, são grandes as chances de que ele esteja retornando para a segurança de seu quarto. Talvez eu consiga interceptá-lo no meio do caminho.

O que eu vou dizer a ele, não faço ideia. Mas na hora eu invento algo.

Aperto o passo, andando o mais rápido possível sem chamar atenção. Me concentro em todos os sons que consigo captar, exigindo da minha audição muito mais do que nunca antes. Ouço um baque surdo a alguns metros de distância, e meu caminhar se torna uma leve corrida.

Estou quase no hotel quando sinto um cheiro intenso, metálico, cortando a noite. Viro minha cabeça em sua direção, e me vejo na entrada de uma viela. Grunhidos baixos ressoam por alguns instantes, e então… nada.

Entro na rua estreita lentamente, minha mão buscando uma das adagas em meu cinto. Meus pés tropeçam em algo jogado no chão, e eu caio sobre algo úmido, quente, viscoso.

Sangue fresco.

Assustada, olho ao redor.

Um grito reprimido em minha garganta corta minha respiração, meu coração batendo furiosamente em meus ouvidos.

Eu tropecei no corpo do jovem.

Em seu pescoço, um corte limpo e profundo; a origem do sangue sobre o qual estou sentada.

Sangue esse que também pinta a parede na qual o corpo está recostado, em uma mensagem que paralisa todos os meus músculos:

”Cuidado com os Yiga.”

E deixando claro quem são os tais “Yiga”… abaixo dela, o símbolo Sheikah, pintado de ponta-cabeça.

A visão do símbolo me remove do estado catatônico. Qualquer um que ler essa mensagem vai associar os Yiga imediatamente aos Sheikah — e isso será nosso fim. Olho para o sangue em minhas mãos e, sem pensar duas vezes, o passo sobre o símbolo, apagando-o.

Conforme a adrenalina sai do meu corpo, tremores tomam conta de mim, sacudindo todos os meus músculos violentamente. Gostaria de conseguir mover o corpo do Hylian, no mínimo deixá-lo em uma posição mais… digna — se é que é possível. Mas eu não encontro forças. Precisarei de Deen. Então, com muito esforço, repito os passos para o teletransporte, focando em nossa casa, que não fica muito longe daqui.

Apareço no meio da sala vazia, e desabo no chão. Deen ainda não voltou da reunião. Preciso tomar um banho, mas não consigo me levantar. Minha respiração está curta, entrecortada, e o grito aterrorizado que eu segurei finalmente abre caminho por minha garganta. Os horrores que testemunhei voltam a passar em minha mente, e o cheiro do sangue do jovem, colado em mim, invade minhas narinas, me sufocando. No instante seguinte, a consciência me abandona.