Sheikah

4 Já dizia o rei Roberto Carlos… São tantas emoções


POV Paya

— Paya, querida, há quanto tempo! — Purah grita animada e com os braços abertos, aguardando que eu a abrace.

— Oi, tia — respondo entrelaçando meus braços ao seu redor.

Ainda é estranho vê-la tão jovem; tia Purah é décadas mais velha que eu, e por grande parte de minha vida seu corpo correspondeu à sua idade. No entanto, há alguns anos, um experimento mal-sucedido a transformou em uma criança. Após um longo período de muitos testes, ela conseguiu corrigir os erros — ajustando sua idade física para a de uma jovem adulta.

Logo, em teoria, seu corpo hoje é apenas poucos anos mais velho que o meu. E isso ainda é esquisito demais para mim. No entanto... essa jovialidade está alinhada com sua vitalidade e alegria de viver; então…

— Que cara terrível, menina — diz ela, afastando-se do abraço e me encarando intensamente. Após alguns segundos escrutinando meu rosto, ela acrescenta: — E não me parece ser só cansaço de viagem.

Desvio o olhar e me afasto um passo.

— Não é nada, tia. Estou bem. O trajeto foi longo, é só isso.

Purah estreita os olhos, sem acreditar uma única palavra. Porém, ao perceber o quanto estou exausta, simplesmente muda de assunto.

— Vamos entrar para que você possa se sentar um pouco — ela comanda, já se dirigindo para seu escritório em Lookout. — Você pretende ir ao castelo ainda hoje? Se preferir, pode pernoitar por aqui e seguir viagem pela manhã.

A ideia de passar a noite aqui me soa bastante agradável. O castelo deve estar movimentado com todos os convidados para as festividades dos próximos dias, e eu simplesmente não tenho energia para interagir com multidões hoje.

Entramos na sala, que está exatamente como eu me lembro: abarrotada de livros e papéis espalhados pelo chão. Me acomodo em um dos banquinhos à mesa, enquanto Purah pega alguns pães e frutas para comermos como ceia. Já anoiteceu há muito tempo e meu estômago contrai, reclamando por eu não ter jantado ainda. Os alimentos são depositados na mesa e eu pego uma fatia, faminta.

Purah busca uma garrafa e dois copos pequenos antes de se sentar de frente para mim. Enquanto os enche com um líquido licoroso de cor âmbar, ela recomeça a falar.

— Uns dias de pausa e boa companhia vão te fazer bem, querida. Você tem estado muito sozinha em Kakariko.

Lembro-me de Tauro e de nossos encontros diários, e penso que boa companhia não me faltou. Bom... até ele fugir após daquela última noite. Depois que Dorian interrompeu nosso quase-beijo, as circunstâncias nos afastaram. Tauro recebeu um telegrama urgente de Purah e precisou partir no dia seguinte. Isso aconteceu há algumas semanas, e desde então não tive notícias dele.

No entanto, apenas aquiesço, concordando com sua afirmação. Talvez as comemorações sejam sim uma boa distração.

— Muito bonito seu traje, Paya — observa Purah. — É bem… Sheikah. Me lembra dos uniformes que os soldados costumavam usar na época da Calamidade.

Enrubesço levemente com o elogio, mas logo fico curiosa com seu comentário sobre aqueles dias sombrios. Frequentemente me esqueço de que ela presenciou tais eventos em primeira mão.

— Obrigada, tia. Eu estou… usando-o como uniforme oficial de líder do vilarejo — confesso, minha voz sumindo a cada palavra.

Purah ri suavemente.

— Ha! Excelente escolha. Eu avisei à Impa que aquela roupa antiquada não seria adequada para você. Como você conseguiu convencê-la a alterar o uniforme?

— Eu… bem, eu fiz a mudança durante sua ausência. Ela ainda não sabe — digo, aflita.

Purah me encara por alguns segundos antes de prosseguir:

— É por isso que você está tensa? Está preocupada com a reação dela?

Balanço a cabeça, em dúvida. É essa a causa da minha ansiedade?

Talvez. Mas em meu coração eu sinto que existe mais alguma coisa… ou coisas.

— Um pouco, sim. Mas… — me interrompo para tomar um gole da bebida que Purah serviu.

Ao aproximar o copo de meu rosto, minhas narinas queimam com o cheiro forte do álcool. O gosto é levemente doce em minha boca, e o líquido cobre minha língua deixando-a dormente por alguns instantes. Ao engolir, ele desce como fogo, esquentando minha garganta e meu coração, como um abraço de dentro para fora. Suspiro, satisfeita com as sensações.

— Que delícia — digo, distraída.

— Whiskey… envelhecido por mais de um século. Essa garrafa é de antes da Calamidade. Eu a abro somente quando me parece muito necessário.

Franzo a testa, preocupada. Estou aparentando estar tão mal assim, invocando a necessidade de desenterrar tal relíquia apenas para apaziguar minha paz de espírito?

Por outro lado… o sabor é maravilhoso — então não irei discutir contra seus argumentos.

Conforme o álcool entra lentamente em minha corrente sanguínea, uma deliciosa leveza se instaura em minha cabeça. Logo, percebo minha língua ficando solta e confessando os pensamentos que têm me assombrado há semanas.

— Eu não sei o que estou fazendo, tia — falo, minha voz soando embargada. Sinto como se houvesse uma mão apertando meu pescoço, me impedindo de respirar corretamente. — Como líder do vilarejo. Eu invento tarefas para me sentir útil, mas no fundo eu sei que sou uma fraude. Se eu não existisse... não faria diferença alguma no dia-a-dia de todas aquelas pessoas. E eu sou uma desonra aos Sheikah.

A essa altura, lágrimas já começaram a se formar em meus olhos e ameaçam escapar a qualquer momento. Purah me encara com preocupação e estende o braço sobre a mesa para segurar minha mão.

— De onde está vindo tudo isso, querida?

— Eu… eu… — respiro fundo antes de continuar falando. — Eu ouvi algumas… pessoas… no vilarejo, comentando como nós, os Sheikah de hoje, somos apenas uma sombra do que já fomos no passado. E comentaram que… que eu não tenho o que é preciso para nos trazer de volta à glória. EU NEM SEI O QUE ISSO SIGNIFICA!

Lágrimas quentes e grossas escorrem pelo meu rosto, se encontrando sob meu queixo. Antes que Purah possa falar qualquer coisa, eu continuo:

— Eu nem ao menos conheço nossa história direito! O que é essa tal glória? O que fazíamos que nos transformava em algo tão importante assim? Eu tenho 28 anos de idade e NENHUMA experiência de vida, COMO eu posso ser a “sábia líder” da tribo?! E QUAL O PROBLEMA em cuidar de galinhas e cultivar abóboras? — Minha voz fica cada vez mais alta com as dúvidas e indignações.

Purah aguarda para garantir que eu terminei de falar. Quando pego o copo para bebericar mais do delicioso whiskey, ela diz:

— Eu avisei à Impa que ela deveria ter te contado a história completa antes de te colocar como líder. E te questionado primeiro se você sequer queria tal responsabilidade… ela deveria saber melhor, dado o histórico dela — suspira Purah, enchendo nossos copos mais uma vez.

Inclino a cabeça enquanto a confusão invade meu corpo.

— História inteira? Histórico dela? O que isso significa, tia?

Purah tira os óculos e limpa as lentes no tecido da roupa, distraída. Sem olhar para mim, prossegue:

— Não cabe a mim te contar os detalhes, Paya. Mas acredito que já passou da hora de você saber tudo… afinal, é sua história também. Vou conversar com Impa amanhã… chega de segredos e mentiras — ela soa exausta.

Apenas permaneço ali; sentada, sem reação, bebendo o whiskey.

— Mudando de assunto, agora… — começa Purah, sua voz com uma entonação estranha que não consigo interpretar. — Ouvi dizer que Tauro tem passado muito tempo em Kakariko, mesmo depois que as ruínas terminaram de ser removidas da vila — ela completa, com as sobrancelhas erguidas.

Meu rosto queima e eu não consigo encontrar palavras. Qualquer coisa que eu disser agora será uma confissão: de que eu encontrei livros secretos, de que eu estou treinando magias e lutas esquecidas, de que eu tenho passado minhas noites com ele, de que nós quase nos envolvemos em algo mais… intenso.

— Ele é muito dedicado ao ofício — digo, engasgando. — Acompanhou as remoções até o último dia e depois continuou… estudando… as inscrições das pedras?

Purah inclina a cabeça, cerrando os olhos, sem se deixar levar pelas mentiras que cobrem minhas falas.

— Sim, claro — ela diz, sarcástica.

As entrelinhas de suas suposições trazem lentamente uma compreensão à tona:

— Ele te falou algo? — questiono, irritada com sua ousadia em compartilhar nossos momentos com outras pessoas.

Purah franze a testa, confusa.

— Tauro? Eu não o vejo há meses. As fofocas chegaram até mim da mesma maneira que qualquer boato viaja: de boca a boca, conforme pessoas curiosas e entediadas com as próprias vidas discutiram os motivos do belo historiador de Hyrule passar diversas noites na casa da líder dos Sheikah. Não tenho problema algum com isso, caso esteja preocupada. Ele é um partidão, você fez uma ótima escolha — ela diz, dando de ombros.

— Calma — digo, confusa. — Você não o vê há meses?

— Sim. Não nos falamos desde que ele partiu para Kakariko pela última vez. Não houve necessidade e, depois que tudo se acalmou aqui no reino, eu decidi tirar umas férias. Estive planejando entrar em contato com ele depois das celebrações reais, para discutir sobre alguns projetos novos… mas nada concreto ainda.

— Você não o solicitou há algumas semanas?

— Duas semanas atrás eu estava partindo de Lurelin, após um longo e maravilhoso período de descanso em suas belíssimas praias, Paya.

Meu corpo congela conforme eu entendo que Tauro mentiu para mim, fugindo de Kakariko. Os meus avanços eram tão indesejados que o fizeram correr para longe na primeira oportunidade, com a primeira desculpa que passou por sua cabeça?

A humilhação de ser rejeitada dessa maneira me corta como uma navalha e meu coração se contrai dolorosamente. Ao invés de tristeza, no entanto… eu sinto ira. Meu sangue corre furiosamente por minhas veias e meu maxilar está tão tensionado que parece que meus dentes irão se trincar a qualquer momento.

— Paya? — Purah me olha, intrigada. — O que houve, querida?

Fecho os olhos, sem conseguir impedir meu rosto de se distorcer em uma careta de nojo.

— Nada, tia — digo entredentes, respirando fundo. — Não foi absolutamente nada.

. . .

O castelo está, definitivamente, abarrotado. Pessoas de todos os cantos do reino viajaram até aqui, ansiosas para testemunharem a união de Zelda e Link e sua coroação como rainha e rei de Hyrule. E, claro, por toda a comida e bebida grátis.

Passo o dia em um torpor estranho, conversando com inúmeros desconhecidos sem realmente ouvir o que dizem. Em minha mão sempre está uma Caçada Nobre, o drink assinatura das Gerudo — que estão cuidando do open-bar da celebração. Vagueio pelo salão a esmo, pulando de grupo em grupo, me apresentando como a nova líder Sheikah — tentando, ao menos, estabelecer novas conexões e possíveis parceiros comerciais.

Nem todos os convidados são moradores de Hyrule. Alguns vieram de ainda mais longe, pessoas que Link conheceu durante os anos que passou viajando em terras distantes. De todas as conversas, estas são as que mais cativam minha atenção. Assim como acontece quando Tauro compartilha suas histórias, frequentemente me pego fascinada com suas experiências e as diferentes maneiras como elas vivem.

O casal de honra está no fundo do salão, cercado por um pequeno grupo de pessoas. Zelda gesticula animadamente —
provavelmente contando alguma anedota, pois logo todos desatam a rir. Link está com o braço ao seu redor a todo o momento, parecendo incapaz de ficar um único segundo sem tocar nela. Seus olhos a procuram constantemente, admirando cada movimento seu. Ela descansa a cabeça em seu ombro, aparentemente de forma inconsciente, enquanto continua falando.

Apesar de estar feliz por vê-los finalmente juntos e celebrando sua união, a cena não deixa de me lembrar da minha própria solidão. Dou um grande gole em minha bebida, incapaz de parar de observá-los a distância.

— Eles fazem um casalzão, não? — diz uma jovem ao meu lado, ao notar que os estou encarando. Viro-me para ela; mais um rosto desconhecido.

Suspiro, cansada, e me preparo para mais uma introdução

— Fazem sim. Sou Paya, líder da tribo Sheikah — digo estendendo minha mão livre. — E a senhorita é…?

— Marin, prazer em conhecê-la.

— Marin…? — digo, tentando me lembrar onde ouvi este nome antes. — Você é a garota de Koholint?

— Ha, isso significa que sou conhecida por estes lados? — ela ri, divertindo-se. — Sim, conheci Link durante o período que ele esteve na ilha. Antes de ele partir, eu o prometi, brincando, que cantaria em seu casamento com Zelda algum dia. E, bem, as deusas conspiraram para que isso acontecesse. Saí de Koholint há alguns meses apenas com a pretensão de conhecer novas terras e fui agraciada com a oportunidade de chegar em Hyrule bem nesta época de celebração.

A curiosidade me invade mais uma vez, misturada com uma leve inveja. Mais uma pessoa livre, com a possibilidade de sair por aí, peregrinando e explorando, sem dever satisfação a ninguém. Balanço a cabeça, sem saber o que dizer, e dou mais um gole na bebida, esvaziando o copo.

— Tem um bonitão te encarando — diz Marin discretamente; seu tom de voz, conspiratório.

Levanto o rosto, procurando na direção que ela me indica e meu coração pula uma batida quando meu olhar cruza com o de Tauro.

É claro que ele está aqui. Sendo um grande amigo de Zelda, com certeza ele não perderia seu casamento. Eu passei o dia inteiro tentando não pensar nele e em suas mentiras; ao mesmo tempo, em vários momentos me peguei procurando por seu corpo alto e forte no salão.

E agora ele está aqui, me encarando intensamente. Depois de alguns instantes de hesitação, ele dá o primeiro passo em nossa direção. Meu estômago se contorce com a iminência do confronto e meu coração bate furiosamente ao lembrar de sua fuga. Meus braços e mãos, no entanto, pinicam com vontade de tocá-lo; e meu ventre se contrai ao vê-lo trajando uma camisa branca e calças compridas — cobrindo muito mais de seu corpo do que o normal. De forma incoerente, fico ainda mais tímida com seu excesso de roupas — pois meu cérebro não para de imaginar o que está por baixo dos tecidos.

— Com licença — afasto-me de Marin, incapaz de ficar mais um segundo ali. Não tenho condições de lidar com isso agora, então decido sair do salão.

Fujo a passos largos, me dirigindo para uma saída lateral que leva a uma pequena sacada que — obrigada, Hylia — está deserta. Encosto uma das portas discretamente, mantendo a outra entreaberta, aumentando um pouco o senso de privacidade.

Descanso meus braços no muro de pedra, tentando acalmar minha respiração. Estou furiosa. Furiosa com meu corpo, que me traiu com seus desejos desenfreados. Furiosa com Tauro, que fugiu de mim com mentiras esfarrapadas e agora parece tentar alguma reconciliação — provavelmente por pura dó. Furiosa com minha vida, forçada a cumprir um papel para o qual eu não sou apta e que me vai prender até o dia da minha morte. E, foda-se, furiosa com aquelas vacas da Claree e da Nanna por me encherem de dúvidas.

Meus punhos se fecham com tanta força que as unhas machucam as palmas, as juntas ficam brancas e um tremor intenso sobe pelo meu braço.

— Senhorita Paya? — ouço a voz de Tauro atrás de mim, hesitante.

— O que você quer? — respondo rispidamente, sem conseguir disfarçar o rancor em minha voz.

— Podemos… conversar?

Me viro para encará-lo, e a proximidade de seu corpo me faz vacilar.

— Claro, senhor Tauro — digo, carregando o título com sarcasmo. — Sobre o que você quer falar primeiro? Sua fuga ou seus falsos pretextos e mentiras?

Tauro franze o cenho, parecendo levemente ofendido. No entanto, o álcool em meu sangue me impede de parar de falar, e eu continuo, sem dar chance para que ele se defenda.

— Sabe, senhor Tauro, eu esperava mais decência da sua parte, principalmente conhecendo sua história com Zelda. Quando o relacionamento com ela não fez mais sentido para o senhor, você foi direto e honesto com ela. Não que você me deva alguma explicação, mas eu COM CERTEZA não mereço ser rejeitada através de mentiras. Eu posso ser inocente e inexperiente, senhor Tauro, mas eu não sou burra, e definitivamente teria sido capaz de lidar com uma rejeição sincera.

Teria? Não tenho certeza, mas dane-se.

Tarde demais, percebo que meu pequeno discurso, ainda que explosivo, basicamente confessou meu interesse nele. Balanço a cabeça, irritada, espantando o pensamento. Provavelmente todos os meus rubores já tinham entregado as minhas intenções meses atrás. Mas saber disso não evita que eu fique tímida com a exposição.

Tauro me encara, sua expressão dividida entre dúvida e divertimento. Sua respiração está um pouco pesada, e meu estômago se contorce ao notar isso.

— Terminou, senhorita Paya? — responde ele, também usando o termo de forma sarcástica. A entonação é atípica em sua voz, e minhas entranhas se reviram quando ele dá mais um passo em minha direção.

Aquiesço, incapaz de falar mais nada. Ele é muito mais alto que eu e conforme se aproxima eu preciso inclinar minha cabeça para continuar encarando seus olhos.

— Eu não saí de Kakariko sob falsos pretextos. Eurealmente recebi um telegrama me solicitando em Hateno — ele começa, parando a dois passos de mim.

Franzo o cenho, confusa.

— Mas… eu falei com Purah. Ela disse que não te chamou.

Tauro inclina a cabeça, intrigado.

— Quando cheguei em Hateno, seu laboratório estava vazio — ele responde, pensativo. — Mas a porta está sempre aberta, e confesso que acabei me distraindo lá ao encontrar alguns projetos novos que ela deixou sobre a mesa. Muito interessantes, inclusive; ela está planejando produzir os Purah Pads em grande escala e está bolando uma maneira de conectá-los entre si, para que as pessoas consigam se comunicar a distância. A tecnologia por trás é bem complexa e talvez vamos precisar usar as torres para transmitir a informação de alguma maneira e… — Tauro continua, se distraindo com suas próprias ideias, como de costume.

— Tauro — o interrompo, irritada. — Podemos retomar esse tópico depois?

— Ah, sim, me desculpe — seu olhar volta a me focar e ele endireita sua postura. — Eu não te rejeitei, Paya. Eu fui embora naquela noite pois não queria te deixar desconfortável com a vigilância de Dorian. E parti na manhã seguinte pois o telegrama de Purah era urgente.

São informações demais e eu não consigo digerir tudo de uma vez. Milhões de perguntas se formam em minha cabeça, mas a única que escapa de meus lábios, inconscientemente, é:

— Você não me rejeitou? — minha voz falha, com a esperança estúpida que me invade.

Tauro se inclina na minha direção e eu sinto o mural de pedra da sacada contra as minhas costas ao dar um passo para trás. Ele apoia seus braços ali, um de cada lado, me cercando. O calor que emana de seu corpo contrasta com a noite fria, e em poucos segundos eu fico ofegante.

— Não, Paya, é óbvio que não. Aquelas noites… eu nunca me diverti tanto. Sua curiosidade insaciável, sua ânsia e facilidade em aprender coisas novas, sua incapacidade de perceber as inúmeras frases de duplo sentido que você diz o tempo todo — ele ri. Então, leva uma de suas mãos ao meu rosto, segurando meu queixo em um carinho suave mas firme, tornando impossível que eu desvie meu olhar do seu. — Seu sorriso ao conseguir executar uma magia nova, ou o jeito como seu nariz se franze e seu biquinho ao não conseguir. A maneira como suas bochechas ficam vermelhas quando estou muito perto… — ele diz, estando muito perto. Tauro se inclinou mais e mais durante seu pequeno discurso, e seu rosto está a centímetros de distância do meu. — A maneira como você tomou iniciativa naquela noite…

Sem mais conseguir evitar o inevitável, seus lábios descem sobre os meus, despertando todas as terminações nervosas de meu corpo. Uma de suas mãos vai até minha nuca se fecha em meus cabelos, puxando levemente, e a outra aperta minha cintura, arrancando suspiros torturados de mim. Minhas mãos vão para seu rosto, sentindo a textura áspera de seu maxilar, e descem até seu torso, desesperadas para saciar a curiosidade de senti-lo que tem me consumido há meses.

Tauro aprofunda o beijo, sua língua explorando minha boca, dançando contra a minha, gerando sensações novas e maravilhosas por todo o meu corpo. Ele me levanta com facilidade e me senta no beiral de pedra, deixando-me mais próxima de sua altura. Seus lábios descem para meu pescoço e…

— Eu já disse que não, Purah! — ouço a voz de vovó Impa vindo de algum ponto abaixo de nós, um pouco mais alta do que o normal.

Imediatamente me afasto de Tauro, tentando prestar atenção na conversa alheia. Ele também ouviu a voz e então ficamos ali, congelados naquele meio abraço em silêncio.

— Ela merece saber, Impa! Já passou da hora. Ela tem quase 30 anos e é líder da tribo, por Hylia!

— Esse conhecimento não vai acrescentar nada e é melhor que fique esquecido, Purah. Dorian já conseguiu recuperar o Compêndio e meu antigo diário, não tem mais de onde ela continuar resgatando essas informações.

A enciclopédia e o diário estavam nas minhas malas. Dorian mexeu nos meus pertences escondido?

— Não temos como saber quanto ela e Tauro descobriram, mas não acho que foi muito — continua vovó Impa. — Estamos entrando em tempos de paz, finalmente, Purah! Você sabe tão bem quanto eu o que isso significa!

O que isso significa?

— Ainda assim, Impa. É a história dela também! Não cabe a você decidir isso sozinha.

— É muito mais minha história do que dela, então cabe a mim sim.

— Ela está com dificuldades para se adaptar como líder! Você, de todas as pessoas, deveria ser a primeira a entender isso!

— Paya é inteligente, muito mais do que eu fui. Se eu consegui sozinha, ela também consegue.

— Você nem sabe se ela queria ser líder dos Sheikah!

— Na minha vez ninguém me perguntou também!

Encaro Tauro com os olhos arregalados, sem saber o que fazer ou pensar.

— Você precisa falar com elas — ele diz, baixinho. — Agora.

Aceno, dividida.

Faço os gestos para a magia de teletransporte focando em suas vozes, e torcendo para que isso seja suficiente para me levar ao lugar correto. No instante seguinte me encontro em pé entre elas, que se afastam alguns passos assustadas.

— O que exatamente está acontecendo? — exijo, colérica, me dirigindo principalmente para vovó.

— Paya! Como você veio parar aqui? — ela pergunta, confusa.

— Você sabe muito bem como, vó. O que vocês estão escondendo de mim? Por que Dorian mexeu nas minhas coisas? — Franzo a testa quando a intuição me atinge: — Foi ele quem falsificou o telegrama em nome de Purah?!

O silêncio que se segue confirma minhas suspeitas.

— Por que você me encurralou em Kakariko por meio de todos esses subterfúgios? Até aquela maldita roupa era uma prisão! E eu não tenho sequer o direito de entender a história de nosso povo?!

— Você não entende, Paya… — diz vovó, parecendo aflita.

— Me explique, então! — exijo, furiosa.

— Eu… eu não posso.

Encaro seus olhos sem conseguir evitar o desprezo nos meus. Solto uma risada de escárnio, frustrada.

— Claro que não pode — respondo, minha voz distorcida pela ira. — Esclarecer tudo seria honrado. E você claramente não é a mulher que eu pensei que fosse.

Percebo que meus olhos estão começando a arder e em poucos momentos eu não conseguirei evitar o choro. Sem querer demonstrar fraqueza, apenas me viro e saio do cômodo sem dizer mais nenhuma palavra, batendo a porta com força atrás de mim.

. . .

O quarto que me foi designado é maravilhoso, muito maior que minha casa em Kakariko.

Assim que o Castelo retornou à sua posição normal seguindo a derrota de Ganondorf, a empreiteira do reino e muitos voluntários iniciaram as obras de reforma na construção. Desde a época da Calamidade ele esteve em ruínas. Mas, agora, com o retorno de Zelda e sua iminente coroação como rainha, o povo achou adequado restaurar seu lar original. Então, em pouquíssimo tempo e com muito esforço, grande parte de seus aposentos foram reconstruídos e redecorados, tornando o grande prédio novamente apto para habitação. Ainda existem alguns locais em reforma, mas somente na extremidades menos úteis ou pouco frequentadas.

Após a discussão com vovó Impa, me dirigi direto para cá. Estou enfurnada dentro do cômodo há horas, oscilando entre uma tristeza profunda — acompanhada de crises de choro — e uma ira colérica — me fazendo prender o travesseiro contra o rosto para gritar.

Eventualmente, as emoções se dissipam e eu fico simplesmente apática, olhando para o teto sem pensar em nada. Estou assim quando ouço uma batida tímida na porta.

Levanto, irritada novamente. Se for vovó, por mim ela pode ir passear onde Ganon perdeu as botas.

Abro a porta de uma vez, e me deparo com Tauro. Ele parece levemente desconcertado, e eu noto que o diário da vovó está em suas mãos.

— Tauro? O que houve? — questiono, a fúria desaparecendo instantaneamente ao vê-lo.

— Sua avó… me procurou depois que você… conversou com ela. Ela disse que você tem razão… mas que não consegue te contar a história. Então pediu… implorou na verdade… que eu traduzisse seu diário.

Honestamente, a essa altura eu não tenho o menor interesse em suas explicações.

Mas isso implicaria em mais tempo passado com o Tauro.

E, bem, eu sou uma pessoa curiosa.

Então permito que ele entre e nos acomodamos nas poltronas em frente à lareira acesa. Sento-me sobre minhas pernas, abraçando uma almofada. Tauro se acomoda, procurando uma posição confortável para a longa leitura. Então, abre a primeira página e começa a ler:

— "Hoje partiremos para a Cidade do Castelo…"

Notas finais
Opa, obrigada por ter lido até aqui! No próximo capítulo nós entraremos no túnel do tempo, diretamente para a época pré-Calamidade, quando Impa ainda era uma jovem adulta ingressando no exército real Sheikah. Essa seção da história é o puro suco do caos, com um romance intenso permeado de crises existenciais, sociais e políticas. Também teremos muitas aparições especiais da pequena Zelda e do jovem Link; tudo contado a partir do ponto de vista de Impa. Espero que você volte por aqui :) Os próximos capítulos estão imperdíveis, eu garanto! Novamente, obrigadaaaaa!