Sheikah

8 Encrencada


POV Impa

Zelda segura uma grande engrenagem em suas mãos, girando-a para observar de todos os ângulos.

— Que material é esse, Purah? — ela questiona, curiosa.

— Não conseguimos identificar, princesa. É resistente como aço, mas muito mais leve — Purah responde, distraída com suas anotações. — Sua aparência e textura, no entanto, parece mais similar à de rochas porosas.

A gigantesca "cabeça" do Guardião que foi encontrado — em partes — está sobre a mesa. Me aproximo, também consumida pela curiosidade. Parece um grande balde de ponta cabeça, ornamentado com detalhes dourados. No centro, existe um cristal redondo e azulado — uma safira, talvez? —, como se fosse um olho; e no topo, algumas decorações que me lembram orelhas, parecidas com as de um urso. Apesar de ser uma máquina de destruição em massa, ela é estranhamente… fofinha.

— Onde vocês encontraram essas peças? — Zelda continua seu inquérito.

— Em escavações no perímetro do Castelo.

— Será que todos estão por aqui, então? — sua voz fica cada vez mais animada.

— É nossa esperança. Os registros parecem indicar que existe algum tipo de armazenamento subterrâneo, mas não conseguimos encontrá-lo ainda.

— Eu posso ir à próxima expedição?

— Não acho que o rei concordaria com isso, Zelda — resolvo interromper a conversa.

— Ele não concorda com nada, Impa. Se pudesse, ele me trancaria em um calabouço, sem comida ou água, até eu acessar os poderes — Zelda bufa, magoada. — Papai só se interessa nisso; você sabe bem.

Não encontro palavras para refutar seus argumentos.

Link reivindicou a Master Sword há alguns meses, o que apaziguou o rei durante poucas… horas. Então, sua pressão — que já era intensa — sobre Zelda triplicou. A cada dois ou três dias, ele solicita relatórios das evoluções da menina — ou seja, nenhuma — e não perde nenhuma oportunidade de demonstrar seu desgosto com a situação.

Agora, além de todas as tardes, eu também tenho passado dois dias inteiros por semana com ela — em uma tentativa desesperada do rei de que eu consiga auxiliá-la a cumprir seu destino.

E quanto mais ele a pressiona, mais ela se retrai. Seus sorrisos são cada vez mais raros; seu interesse em fugir para as bibliotecas se reduziu a pó. Hoje ela passou a manhã inteira apática, testando diferentes maneiras de acessar seus poderes. Quando chegou a hora do almoço, ela ainda não tinha me dirigido nenhuma palavra — fora o cumprimento pela manhã, quando cheguei. Preocupada, arrastei-a para o laboratório de Purah na esperança de que ela se distraísse um pouco.

— Eu poderia ajudar tanto aqui, Impa — ela me olha, suplicante. — Eu sei que sou só uma criança. Mas eu sou inteligente! Você sabe disso!

Aquiesço, mais uma vez incapaz de rebater seu raciocínio. Ela realmente tem o cérebro mais afiado do que muitos dos pesquisadores adultos da equipe de desenvolvimento.

— Eu nem preciso ir a campo — suspira, frustrada, claramente querendo ir a campo. — Posso ajudar a averiguar os textos antigos: eu já estou fluente no alfabeto Sheikah. Posso ajudar nos cálculos. Posso ajudar a formular teorias e hipóteses. Tem tanta coisa que eu posso fazer e…

— O que está acontecendo aqui?

Zelda se cala imediatamente ao ouvir a voz de seu pai ecoando pelo laboratório. Seu tom é baixo, frio, incisivo — mil vezes pior do que se estivesse gritando em fúria.

— Majestade, eu posso explicar… — tento intervir, em pânico.

— Pro quarto, Zelda. — ele ordena, me cortando. — Se você não perdesse tanto tempo distraída com assuntos que não dizem respeito a você, já teria despertado seus poderes há muito tempo. Quantos anos mais vamos ter que esperar? Vai ser necessário uma tragédia para te acordar? Você quer mesmo o sangue do reino inteiro nas suas mãos? Vá. Agora.

Zelda acena, olhando pro chão, e se retira em silêncio. O rei, então, se vira para mim, os olhos levemente cerrados. Tento disfarçar o tremor em minhas mãos, sobrepujada por tantas emoções — fúria, medo, tristeza, indignação — que não consigo focar em nenhuma.

— Foi ideia sua? Trazê-la aqui?

É, medo. Agora é a hora do medo.

Vou ser demitida aqui e agora.

Ou, pior, condenada por traição.

O rei aguarda uma resposta; então eu aquiesço, admitindo a responsabilidade.

— Esteja em meu escritório daqui quinze minutos — ele ordena e se retira sem mais palavras.

Purah me encara com os olhos arregalados, aturdida... mas apenas por meio segundo.

— Estranho — diz, simplesmente.

— Foi bom te conhecer, mana — exclamo, minha voz tingida de pânico e sarcasmo.

— Não seja dramática, Impa, ele não vai te matar por causa disso.

— Não, ele vai me expulsar de Hyrule, o que dá no mesmo.

Purah revira os olhos.

— Se ele fosse te expulsar de algum lugar, teria feito isso agora. Por que esperar?

— Diminuir minha humilhação, talvez?

— Você viu como ele trata a própria filha? — sua voz fica distorcida com o desprezo. — Não acho que ele se incomode muito com demonstrações públicas de humilhação.

É um bom ponto.

— O que ele quer, então?

— Descubra e mate minha curiosidade mais tarde — Purah ri e volta a seus afazeres.

Sem querer me atrasar e arriscar irritar ainda mais o rei, parto em direção a seu escritório. Ando um pouco rápido demais pelos corredores do castelo, com a cabeça baixa.

Minha mente não consegue se fixar em um único assunto. O olhar desolado de Zelda ao sair do laboratório faz meu coração se apertar; afinal, foi minha culpa estarmos ali. Depois, ele dispara em fúria, incapaz de aceitar o tratamento que o rei dispensa à ela: como se a menina já não estivesse se esforçando o máximo possível para cumprir seu destino.

Sem enxergar o que está à minha frente, sinto apenas o impacto quando trombo com alguém a poucos metros da sala do rei — a última no final de um dos corredores.

— Estou começando a achar que você está fazendo de propósito, querida — levanto a cabeça, irritada, ao ouvir a voz de Deen. — Se você quer tanto assim encostar em mim, é só pedir. Eu não vou recusar.

— Pode me dar licença? Está no meio do caminho — minha voz é ríspida. Tento desviar, evitando o olhar que faz minhas entranhas se revirarem. Não preciso de mais uma emoção agora.

— Claro que desculpo, não foi nada — sua voz está carregada de sarcasmo. — O que você aprontou dessa vez, dona Calamidade? Chamada na sala do rei? Agrediu a princesa, foi?

— Como se ele fosse se importar com isso — deixo escapar em um resmungo... e me arrependo imediatamente.

Levanto o olhar e noto Deen me assistindo com cautela. Fico presa em seus olhos enquanto ele examina meu rosto como se estivesse me vendo pela primeira vez. Consigo sentir meu coração batendo na minha garganta, completamente confusa com a intensidade em sua feição.

Balanço a cabeça, exasperada. Não tenho tempo pra isso.

— Com licença — desvio dele e bato na porta da sala.

— Entre — a voz do rei ressoa.

Deen continua me observando em silêncio quando abro a porta, entro na sala e a fecho atrás de mim.

Me concentro em focar no problema à minha frente. O rei está em pé, em frente às portas duplas no fundo da sala — que levam à sacada. Ele sai para a área aberta e olha por cima do ombro.

— Venha aqui, Impa.

Caminho até seu lado, hesitante. Ele permanece sem palavras por alguns instantes, observando as pessoas abaixo de nós em seus afazeres diários. Seu olhar vai até um dos jardins na orla do Castelo, onde um pequeno grupo está mexendo na terra.

— Todos nós temos uma função para manter a roda girando, Impa. Uns mantém a segurança. Outros, cuidam do progresso e desenvolvimento. Alguns poucos são responsáveis por decisões e estratégias — ele começa, ainda olhando para seus súditos e funcionários.

É, é isso: vou ser demitida.

— O papel de Zelda é selar Ganon. É imprescindível que ela desperte seus poderes e aprenda a controlá-los antes que a Calamidade ataque. Não existe alternativa — do contrário, estaremos todos mortos.

Aquiesço, sem saber o que dizer.

— E o seu papel, Impa, é ser a guardiã da princesa e ajudá-la a cumprir seu destino. Então eu me pergunto… — ele vira o rosto para me encarar com olhos acusatórios — o porquê de você estar distraindo-a.

Porque ela é uma criança e claramente seus métodos não são eficazes, seu velho maluco, penso.

Mas não posso dizer isso... a menos que realmente queira morrer.

O rei continua me observando, esperando uma resposta.

Por que ele está se dando ao trabalho de conversar sobre isso?

"Seu papel é ser a guardiã da princesa e ajudá-la a cumprir seu destino".

Ele realmente acredita nisso.

Pela primeira vez, eu entendo o poder de persuasão que sua crença me confere. Ele está dividido e desconfiado… mas, ao mesmo tempo, curioso. As Impas das lendas são sábias e conselheiras reais. E ele quer muito que eu seja como elas.

Talvez eu não consiga salvar a princesa de suas expectativas. Mas eu posso, ao menos, tentar deixar sua vida mais leve — e salvar meu emprego no processo.

— Ninguém consegue treinar 24 horas por dia, Majestade. Assim como os músculos precisam de descanso depois de uma prática intensa, o cérebro também precisa de distrações para se recuperar.

O rei me encara em silêncio, desconfiado.

— Zelda ama ciência e tecnologia. Talvez... se ela passar algumas horas por semana com essas outras responsabilidades, seu inconsciente consiga processar melhor o acesso aos poderes. Vossa Majestade nunca teve uma epifania em momentos aleatórios da vida?

Ele assente, ainda cauteloso.

— Sim, algumas de minhas melhores ideias surgiram do nada durante conversas com… com a rainha — sua voz se embarga um pouco e ele desvia o olhar.

— Então — fico mais confiante com sua vulnerabilidade. — Deixe que ela ajude um pouco nas pesquisas, vai fazer bem à ela. E outra… daqui a alguns meses ela completará 13 anos e poderá começar a peregrinação às fontes em Faron e Eldin. Provavelmente ela despertará os poderes ali, de qualquer maneira.

O rei respira fundo, pesando a decisão. Os segundos se arrastam enquanto espero seu veredito.

— Tudo bem — concorda, por fim. Depois completa, voltando a olhar na minha direção. Seus olhos brilham com suspeita, fazendo meu sangue gelar: — Espero muito que você esteja certa, Impa.

. . .

— Você fez bem, Impa — Purah me tranquiliza enquanto se levanta e veste a jaqueta. — Vai ser muito bom que Zelda diversifique os assuntos.

— Tomara que sim. O rei deixou bem claro que minha cabeça está na linha se não der certo.

Purah ri, despreocupada.

— Tenho certeza de que você entendeu errado, foi só seu nervosismo falando. Preciso ir, tenho reuniões logo cedo; você vai ficar bem sozinha?

Encaro a borda do meu copo, a bebida já pela metade, resignada. Mais um dia estressante, mais uma noite no pub. A atmosfera daqui é confortável e acolhedora. Seu interior, completamente em madeira, é aconchegante — com suas luzes indiretas e teto baixo.

Além disso, aqui dentro me parece… seguro. Não sei explicar, pois a cidade ou Castelo não são perigosos. Mas o público do pub é composto principalmente por moradores Sheikah — dificilmente vemos um Hylian por aqui; eles costumam frequentar outros estabelecimentos na cidade. Então eu me sinto… em casa. É o mais próximo de um lar que tenho fora de Kakariko.

— Vou sim — suspiro. — Vou só terminar este copo e ir para casa também.

Nos despedimos e eu a assisto partir.

Não foi meu momento mais brilhante fazer promessas para o rei com base em suposições. Mas o sorriso de Zelda quando contei as boas novas… ele fez valer qualquer risco que eu possa estar correndo agora.

Assim que saí do escritório do rei, fui direto para seus aposentos. Bati na porta, mas não obtive resposta.

— Zelda, sou eu — anunciei, preocupada.

Alguns segundos se passaram antes que ela respondesse com a voz baixinha e falhando:

— Pode entrar.

Encontrei-a sentada na pontinha da cama, seu rosto inchado e os olhos vermelhos, encarando o chão. Trinquei os dentes ao vê-la assim, mas engoli minha frustração e, após fechar a porta, me sentei ao seu lado e a puxei para um abraço. Ela descansou sua cabeça em meu peito e se entregou ao choro mais uma vez, seu corpo diminuto chacoalhando com os soluços. Me permiti levar uma mão ao seu cabelo em um cafuné reconfortante.

Quando ela conseguiu se recompor depois de alguns minutos, sua primeira pergunta foi:

— Você tá muito encrencada? — seus olhos estavam arregalados, as escleras vermelhas por conta do choro deixando suas íris ainda mais verdes.

Fiquei surpresa com sua preocupação com meu bem estar. Ri, então, tentando deixar o ambiente mais leve.

— Eu nunca me encrenco — confidenciei, brincando.

Ela franziu a testa, sem acreditar.

— Impossível. Papai estava furioso.

Fiz um gesto, minimizando a reação dele.

— Não só eu não estou encrencada… como também consegui convencer ele a te deixar entrar na equipe de pesquisa da Purah.

Zelda congelou por meio segundo antes de se afastar um pouco para conseguir me encarar melhor, completamente aturdida.

— Você o quê? — seus olhinhos brilhavam com uma esperança que ela não queria se permitir sentir.

— São só algumas horas por semana. E você tem que prometer que vai continuar se dedicando aos treinos dos poderes. Mas… sim, você vai oficialmente ser uma pesquisadora. Vai ser uma ajuda super bem-vinda, inclusive... com esse seu cérebro de titânio — falo, provocando-a.

Seu sorriso.

Seu sorriso me quebrou de uma maneira que eu não estava preparada e jamais poderia ter previsto. Algo queimou bem fundo no meu peito e eu tive certeza de que eu faria qualquer coisa por aquela criança.

Naquele segundo eu percebi que estava errada.

Eu estou sim encrencada.

— Bebendo sozinha no meio da semana? — uma voz conhecida me remove de meus devaneios.

Suspiro, irritada. Retiro o que eu disse, esse pub não é nem um pouco confortável. Levanto o olhar e encontro Deen parado em frente à mesa, me observando com divertimento.

Por Hylia, por que ele precisa ser tão… bom de olhar? A luz das velas dos candelabros dança em sua silhueta, lançando sombras em seus músculos enormes e deixando seu maxilar ainda mais definido. A barba por fazer deixa seu sorriso indecente dez vezes mais imoral.

— Você pode parar com isso, Deen? Por favor? — peço, frustrada.

— Com o quê? — sua voz está carregada com falsa inocência. — Estou apenas puxando papo com uma colega.

— Estou falando sério, Deen. Hoje não.

Sua expressão se transforma no mesmo segundo, em uma seriedade que eu nunca vi ele demonstrar antes.

— O que houve? — ele pergunta… preocupado?

Purah provavelmente tem razão, eu não devo saber ler as entonações das pessoas corretamente.

— Nada, Deen, não houve nada.

— Claramente houve alguma coisa. Posso? — ele aponta pro outro banquinho da mesa, diante de mim.

Talvez seja meu cansaço, talvez seja a frustração, talvez sejam as quase duas canecas que já bebi… mas eu aquiesço, sem forças para discutir. Ouço Deen chamando Mike, o bartender, e fazendo seu pedido.

— Ouvi sobre o que aconteceu no laboratório hoje — ele começa. — E também soube sobre o novo arranjo com a princesa.

— Fofocas correm rápido pelo castelo — resmungo, tomando mais um gole.

Deen ri, concordando.

— Me pareceu um desfecho feliz. Por que você está se embebedando, então?

— Você mesmo disse, foi um desfecho feliz. Estou comemorando. Viva — digo, sem emoção alguma, erguendo o copo em um falso brinde.

Ele ergue seu copo, que Mike acabou de entregar, e bate no meu levemente.

— Um brinde à comemoração mais depressiva que eu já presenciei, então.

Um riso baixo escapa de meus lábios e Deen sorri, satisfeito.

— Não vai dizer? — ele insiste.

— E você me conta alguma coisa, por acaso? Por que eu confiaria meus pensamentos a você?

— Se eu te falar alguma coisa pessoal, você conta?

Reviro os olhos, irritada.

— Eu não quero saber sobre suas indecências, Deen.

Sua mão congela no meio do caminho de mais um gole e ele dá aquele meio-sorriso com olhos cerrados que me deixa tonta — ou talvez seja o álcool.

— Eu estava pensando em histórias sobre o exército ou algo do gênero. Mas podemos falar sobre minhas indecências se você preferir — ele ri, mas, estranhamente, seu tom não é provocativo; apenas zombeteiro.

Eu apenas o encaro, apática, tentando — provavelmente, em vão — disfarçar que minhas bochechas estão pegando fogo.

— Me conta como você entrou no exército real com 16 anos — decido.

Deen volta a ficar sério; ele ajeita seu peso na cadeira, parecendo desconfortável. Ele não rejeita meu pedido, mas também não o atende. Claramente é um assunto sensível para ele; me sinto mal por cutucar neste ponto novamente.

— Perdão, isso foi invasivo. Não precisa falar sobre.

Ele respira fundo, como se estivesse procurando por coragem no oxigênio.

— Não, eu… eu quero falar — seu tom é grave, intenso, sério; completamente diferente de sua postura cínica usual.

Deen não me olha quando prossegue, permanecendo focado em suas unhas.

— Eu não entrei pro exército real com 16 anos.

Franzo o cenho, confusa.

— Você mentiu?

— Eu não entrei pro exército com 16 anos — ele repete. — Eu treino com o exército desde os 16 anos.

— Qual a diferença?

Deen hesita um pouco, procurando por palavras.

— Você já deve ter deduzido isso, tendo vivido em Kakariko a vida inteira. Mas, antes dos novos acordos entre os Sheikah e a realeza… antes do fim do nosso exílio… eu fazia parte das tribos nômades.

— Exílio?

Agora é Deen quem franze o cenho, confuso.

— Sim, exílio. Você não conhece a história dos Sheikah, Impa?

Coço a cabeça, desconcertada.

— Não — admito. — Não era algo falado em Kakariko e eu confesso que nunca tive curiosidade em aprender sobre.

Deen acena, compreendendo.

— Tudo bem. Não é importante para hoje… explico em alguma outra ocasião, se você quiser — ele oferece.

E, por algum motivo desconhecido... eu concordo. Ele sorri.

— A vida como nômade não era exatamente… tranquila. Os recursos eram escassos. Os vilarejos de Hylians não aceitavam bem a presença dos Sheikah; então vivíamos em meio à natureza. As selvas não são muito gentis. Eu sou órfão desde que me lembro. Fui criado por algumas senhoras, mas a maioria das pessoas na caravana me via como… um peso morto. Uma boca a mais para alimentar.

"Entendi muito cedo que teria que lutar para conquistar o que é meu. As brigas entre as pessoas dentro da tribo eram comuns; havia muita raiva, medo, fome. Eu tinha me separado da caravana há alguns meses quando ouvi sobre o novo acordo com a realeza. Estava na região de Hebra, perto de Hyrule Ridge — a caminho do vilarejo Rito, para tentar a sorte. Era a mesma distância para o Castelo. Ouvi sobre como os portões da Cidade do Castelo estavam abertos para os Sheikah novamente. Não pensei duas vezes.

"A jornada levou algumas semanas a pé. Eu sou resistente... mas a falta de alimento — ainda mais difícil de conseguir estando sozinho — tinha me debilitado muito. Não sei como consegui alcançar a Cidade. No entanto, cheguei. Fui direto para a área onde são feitos os alistamentos. Os Hylians riram da minha cara quando eu disse o que queria. Me fizeram ‘demonstrar minhas habilidades’. Eu não fazia uma refeição decente há dias. Não durei 3 minutos antes de cair."

Sem pensar, levo minha mão até sua, que está repousando sobre a mesa.

— Sinto muito — digo.

Deen olha para minha mão sobre a dele e depois direto no fundo dos meus olhos. As pontas dos meus dedos parecem formigar onde encostam em sua pele e minha respiração acelera levemente. Recolho o braço rapidamente.

— O que aconteceu depois? — pergunto, embaraçada.

Um sorriso aparece em seu rosto quando ele continua; seus olhos estão turvos e distantes, perdidos na memória.

— Eu saí de lá meio cambaleante, me sentindo humilhado. A habilidade daqueles soldados era medíocre; mesmo sem treinamento, eu sabia que era muito melhor. Mas não consegui andar nem 100 metros antes de desabar mais uma vez, recostando contra a parede de um estabelecimento qualquer. Meu estômago doía, furioso com a falta de alimento. Mas eu não tinha um mísero rupee nos bolsos. Então tentei dormir — o sono espantaria a fome, eu sabia disso: já fizera isso muitas vezes antes. Nessa hora… Mike me encontrou.

— Mike? Aquele Mike? — sinalizo pro bartender, que me dá um tchauzinho feliz.

— Sim — Deen ri. — Ele me reconheceu como Sheikah; nosso cabelo branco entrega facilmente a identidade. Me ofereceu um prato de comida e um lugar para passar a noite. Não podia me oferecer um emprego, por ainda não ser dono do pub àquela altura. Mas o alimento e a noite de sono em uma cama de verdade me deram a energia para voltar no centro de alistamento no dia seguinte e derrubar três soldados Hylians de uma vez.

— E então eles deixaram você se alistar?

— Não. O acordo é bem explícito; só pude me alistar formalmente e receber o salário depois de completar 18 anos. Mas deixaram eu passar esses dois anos treinando pelas beiradas; e eu lavava os salões de treino e equipamentos em troca de alimento e alojamento.

— Por que você não mentiu que tinha 18 anos antes? Como eles iriam provar?

— Impa, eu mal me passava por 16 àquela altura — ele ri e se aproxima. Sua voz fica baixa, um sussurro, quando ele confessa: — Talvez eu não tivesse nem 16, apenas repeti o que as senhoras que me criaram disseram.

Compartilhamos uma risada baixa, como se fôssemos cúmplices de algum crime bem sucedido.

— Sua vez — ele diz, brincando.

Pauso por alguns segundos, receosa. Deen percebe minha hesitação.

— Mas só se você quiser, Impa. Você não me deve nada. Eu contei porque queria… queria que você me conhecesse melhor e…

— Eu também sou órfã — admito, interrompendo-o. — A vida em Kakariko foi muito mais tranquila que a sua, não posso reclamar; nunca passei fome. Mas Purah e eu também precisamos trabalhar desde cedo para garantir alimento e cama. E, durante a noite, estudávamos com os livros velhos que as pessoas descartavam; Purah insistia que conhecimento acadêmico era muito importante para nosso futuro.

"Assim que ela completou a idade necessária, também veio para cá em busca de uma vida mais confortável. Ela tentou me mandar parte do seu salário, mas eu recusei. Eram só três anos de diferença, e eu estava acostumada com o trabalho.

"Mas crescer assim… eu também aprendi a cuidar de mim, por mim. Apesar de Purah e eu nos apoiarmos uma na outra, sempre foi muito equilibrado — nunca foi uma dependência, sempre uma cooperação. Eu nunca precisei me preocupar com alguém mais frágil ou vulnerável.

"E então… Zelda. Eu não sei o que está acontecendo, Deen. Eu sinto como se fosse capaz de dar minha vida só para ver essa criança feliz. E com minhas promessas pro rei agora, talvez eu tenha feito exatamente isso. De onde vem esse sentimento? Eu não sei como lidar com isso… não sei o que fazer. É uma sensação esmagadora, sufocante… solitária."

Sinto uma lágrima escorrendo pela minha bochecha. Deen leva a mão até meu rosto e seu polegar a espalha pelo meu rosto.

— Impa — ele diz, me olhando profundamente como se pudesse enxergar minha alma. — Você não está mais sozinha.

Presa em seu olhar, sentindo seus dedos quentes em meu rosto e meu coração batendo desenfreadamente, eu tenho apenas uma certeza:

Eu definifivamente estou encrencada.