Sheikah
10 Além do ponto de retorno
POV Impa
Deen e eu não trocamos nenhuma palavra enquanto percorremos os corredores para sair do Castelo. Lentamente, minha sensação de pouca segurança por aqui começa a deixar de ser abstrata para ganhar rostos e motivações. Observo as feições dos soldados Hylians por quem passamos, escrutinando suas expressões e, chocada, percebo alguns deles nos lançando olhares de desgosto.
Definitivamente não são todos — sequer são maioria. Mas é um número grande o suficiente para que meu estômago se contorça e a adrenalina seja injetada em minhas veias. Aperto meu passo à medida que as paredes de pedra do Castelo se fecham sobre mim, me impedindo de respirar corretamente. Deen não diz nada; apenas ajusta suas passadas para acompanhar minha velocidade.
Sair na noite gelada, no entanto, não abranda em nada a sensação de pânico ou minha dificuldade em conseguir oxigênio o suficiente. Na minha cabeça, apenas um pensamento ressoa — martelando em minhas têmporas no mesmo ritmo que meus passos:
"Você não pertence aqui."
"Você não pertence aqui."
"Você. Não. Pertence. Aqui."
Só consigo reduzir a velocidade quando nos aproximamos do pub dos Sheikah. Paramos em frente à porta; Deen aguarda até que eu me recomponha, me dando espaço para processar as emoções.
— Como você está? — seu semblante e sua voz transbordam preocupação.
— Vou ficar bem — declaro.
Afinal, aparentemente, não tenho outra opção.
Todavia, assim que abro a porta do bar e adentro o ambiente, sou atingida pela visão dos quatro jovens Sheikah sentados em uma mesa no fundo, dividindo entre eles dois pratos de comida. Mike está parado a seu lado, concentrado em um pedaço de papel amarelado. Ele levanta o rosto quando ouve o sino da porta de entrada e dá um sorriso cansado ao nos ver. Percebo que ele e Deen trocam um olhar, como se estivessem conversando à distância.
Ao observar os garotos atacando o alimento com sofreguidão, todo o pânico e preocupação que me guiaram nos últimos minutos são subitamente substituídos por fúria. Eu literalmente consigo sentir meu sangue correndo nas veias conforme meu coração dispara, ameaçando quebrar minhas costelas. Minhas mãos se fecham em punhos e tremem levemente.
— Ei, ei, ei — diz Deen, tenso. — Calma, Impa.
Calma?! Como eu posso ficar calma? Encaro-o com ira, mas ele apenas me observa e diz em uma voz baixa e firme:
— O pub não está lotado, mas ainda tem muitas pessoas por aqui. Venha, vamos para um dos bancos mais reservados.
Pela primeira vez em semanas, Deen toca em mim, segurando meu pulso para me guiar até a parte anterior do pub. Porém, minha raiva é tão intensa que não consigo registrar nenhuma reação ao contato inesperado. Apenas o sigo, fumegando.
Nos sentamos na última mesa de um dos cantos do salão. Ela possui dois bancos compridos que acomodariam facilmente três pessoas cada, um diante do outro, cujos espaldares são tão altos que trazem a sensação de estarmos em uma cabine isolada. Eu me sento em um deles e Deen no outro, frente à mim.
— Como eles ousam?! — digo, minha voz distorcida entre um sussurro e um brado furioso.
— Quem, Impa? — Deen questiona em voz baixa.
— Eles — cuspo o pronome, sem querer dar nome aos bois, esperando que Deen entenda do que estou falando. — Eles nos usam e nos descartam a bel prazer. E então estalam os dedos e nós voltamos feito cachorrinhos treinados?! Apenas para continuarmos sendo tratados feito lixo? Como se fôssemos escória?
Deen dá de ombros, parecendo compartilhar da minha frustração.
— Temos outra escolha, Impa? Você viu o estado daqueles garotos? Eles deveriam recusar a oportunidade e morrer de fome apenas em forma de protesto?
Minhas costas se curvam, conforme o peso de simplesmente existir aumenta mais e mais, me sufocando.
— Isso não é uma oportunidade, Deen. É uma falsa benevolência. Eles agem como se estivessem nos fazendo um grande favor ao abrirem as portas do Castelo para nós, mas só o fizeram porque sabem que, se Ganon atacar, sem nós nem haverá Castelo para começo de conversa. E por que nós só podemos nos alistar com 18 anos enquanto os Hylians podem fazê-lo com 15?
— Eu… — Deen tenta responder mas eu o interrompo, incapaz de parar de falar.
— Eu te respondo o porquê: para garantir que apenas os mais fortes de nós — os que conseguirem sobreviver até essa idade — terão alguma chance. Até quando nós vamos continuar aceitando isso, Deen?
Deen me encara em silêncio, seus olhos brilhando com… admiração?
Um calor sobe pelo meu pescoço e esquenta meu rosto; minha racionalidade repreende meu coração, que parece incapaz de processar tantas emoções simultâneas. A ira diante das injustiças que me cercam se funde com os sentimentos desconhecidos que abalam minha alma quando Deen me observa dessa maneira, e tudo se funde em mim de um modo bizarro e novo.
Minha respiração volta a acelerar e eu me vejo sem forças para quebrar o contato visual, presa em seus olhos castanho-avermelhados.
— Impa, eu…
— Opa, boa noite, senhores! Desculpe a demora; estava resolvendo algumas coisas. Já decidiram o que vão querer? — Me sobressalto ao ouvir Mike, parado próximo à nossa mesa, segurando um bloco de notas para anotar nossos pedidos.
Deen aquiesce lentamente sem desviar o olhar de mim, perfurando minha alma.
Não existe imoralidade em sua feição. Não existe luxúria ou lascívia.
Há apenas admiração e respeito.
E isso, de alguma maneira, me abala muito mais do que se seus gestos estivessem carregados de cobiça ou concupiscência.
São apenas três segundos.
Mas são três segundos que me esvaziam de tudo que eu um dia pensei ser e me inundam de tudo o que eu quero ser. São três segundos que mais me parecem três anos completos. Três míseros segundos que forjam uma conexão intensa entre nós, nos unindo com muito mais do que apenas desejo carnal.
Eu me enxergo nos olhos de Deen, e ele parece se reconhecer em minhas palavras.
É avassalador demais, e eu me forço a quebrar o contato para responder ao bartender.
— Duas stouts, por favor, Mike — digo, minha voz falhando devido à secura em minha garganta. — O de sempre — adiciono, com uma risada sem jeito.
Deen demora um instante a mais, mas também consegue se recompor.
— Obrigado por cuidar dos garotos, Mike — a voz de Deen transborda gratidão.
— Nós por nós — ele responde, apenas.
— Eles… contaram a história deles? — pergunto, incapaz de me conter, me aproveitando da abertura.
Mike dá de ombros.
— Eram nômades também, como esperado. Apenas os de Kakariko chegam aqui em condições não-deploráveis. Vieram da região de Gerudo — Mike pausa, trocando mais um olhar significativo com Deen.
Antes que eu possa perguntar qual a relevância de serem de Gerudo, Deen prossegue:
— Eram todos da mesma tribo?
— Disseram que sempre foram somente os quatro, desde que se lembram. Aguardaram até que todos fizessem 18 anos antes de virem para cá; o mais velho deles, Sooga, já tem 22 anos. Mas sabia que, se deixasse os outros antes, estaria sentenciando-os à morte. No fim, por pouco não morreram todos. Vão ficar bem agora. Conseguiram se alistar mais cedo; daqui a dois dias já receberão o alojamento e as refeições oferecidas pelo Castelo.
— Daqui a dois dias? — pergunto, confusa. — Quando eu cheguei, recebi meu abrigo no mesmo dia…
— Os de Kakariko têm privilégios, Impa — Deen esclarece. — Por terem causado menos problemas antes.
Trinco os dentes e bufo, exasperada. Até isso?
— Já trago suas bebidas — Mike se afasta, sem ter mais o que adicionar.
— O que a gente pode fazer, Deen? — pergunto, sedenta por justiça.
Deen observa Mike por alguns instantes antes de voltar seu rosto em minha direção, me prendendo em seus olhos mais uma vez.
— A gente espera, Impa — ele declara, parecendo exausto. — Agora, a gente espera.
Sua resposta me parece estranhamente insatisfatória. Mas Deen se recusa a continuar nesse assunto; ao invés, me bombardeia com perguntas sobre meu passado e os caminhos que me levaram até ali, naquela mesa de bar com a mais improvável das companhias — dadas as minhas ressalvas quando nos conhecemos.
Movida por uma ânsia para que ele me conheça melhor, lhe conto tudo o que consigo me lembrar. Falo sobre minha infância crescendo junto à Purah; das experiências que ela fazia com base em meia dúzia de livros desatualizados e suas ideias bizarras, e de como ela quase ateou fogo em nosso quarto em mais de uma ocasião. Sobre meu gosto em me exercitar e como eu devorei toda e qualquer instrução de treino que encontrasse ao longo dos anos. Admiti minha paixão secreta por música, e como eu, às vezes, me permitia escutar — escondida — às práticas de uma moradora do vilarejo, que estava aprendendo a tocar flauta.
— Ela era boa? — Deen pergunta, fascinado.
— Nos primeiros meses, não — sussurro conspiratoriamente. — As galinhas produziram bem menos ovos naquela primavera.
Deen gargalha ao ouvir isso, e sua risada parece deixar meu coração leve como uma brisa.
— Mas, depois de algum tempo, ela ficou excelente sim — declaro, me perdendo em lembranças daquele tempo.
Em muitos dias, eram suas melodias que me motivavam a sair da cama para trabalhar nos campos de abóbora; afinal, sua casa ficava próxima às plantações — e o volume de suas práticas não era exatamente discreto.
Entrando nesse tópico — agricultura —, também me permito confessar meu desgosto pela prática.
— Amo comer os vegetais fresquinhos. Mas odeio cavucar na terra. E a espera, por Hylia — reviro os olhos, irritada. — Meses até que as abóboras estejam aptas para consumo. Quem tem tempo pra isso?!
As horas voam e nossas bebidas mal são tocadas, tão perdidos estamos um no outro. Deen ri e ri, parecendo fascinado com cada palavra que sai da minha boca.
Quando um bocejo irrompe por minha boca, incontrolável, nossos copos ainda estão meio-cheios.
— Estou abusando da sua habilidade em contar histórias — ele enrubesce. — Já devemos estar no meio da madrugada, somos os últimos aqui.
Olho ao redor e percebo que ele está certo; fora Mike, que está distraído lavando a louça, estamos sós.
— Ainda bem que amanhã é sábado — brinco. — Mas é melhor irmos embora sim… coitado do Mike.
Deixamos alguns rupees na mesa e saímos para a madrugada gelada.
— Está muito tarde. Posso acompanhá-la até sua casa? — Deen oferece.
Aquiesço, meu corpo invadido por um sabor diferente de nervosismo.
Como rapidamente está se tornando hábito entre nós, permanecemos em silêncio durante todo o percurso. Mas, ao contrário das tantas outras vezes que caminhamos lado a lado, dessa vez a atmosfera está diferente, faiscando em expectativa. É confortável e familiar, e ao mesmo tempo inquietante e novo.
Me sobressalto ao sentir sua mão procurando pela minha na penumbra. Permito que ele a segure, entrelaçando meus dedos nos seus. O calor de sua palma contra a minha, a pressão entre nossos dedos, a eletricidade que sobe pelo meu braço — tudo me parece certo, como deve ser.
Paramos em frente à minha casa. Ficamos ali por alguns minutos, sem palavras, apenas nos observando à meia luz — iluminados apenas pela lua cheia. Deen não solta a minha mão, e eu também não estou com a menor pressa de soltar a sua.
Inconscientemente, me vejo dando um passo em sua direção e recostando minha testa contra seu torso. Nossas mãos se separam apenas para que eu possa abraçá-lo, meus braços ao redor de sua cintura, apertando com firmeza. Deen sobe suas mãos por eles lentamente, deixando um rastro de calor por onde passa, e me envolve em seu aperto também.
Meu nariz contra seu tórax registra seu cheiro, cítrico e frutado, de limão e maçã-verde, e ligeiramente apimentado, como canela. Levanto o rosto para conseguir fitar o seu, e me pego hipnotizada pelo seu olhar novamente. Minha respiração fica mais pesada e consigo sentir seu coração batendo contra o meu. Ele leva sua mão até meu rosto, seus dedos traçando um rastro de fogo da minha orelha até meu queixo, que ele segura enquanto se curva, se aproximando mais e mais e mais.
Seus lábios colidem contra os meus, mas eu os sinto no meu corpo inteiro. A timidez cai por terra em meio segundo, e eu abro a boca, angustiada para sentir mais dele. Minhas mãos se enroscam em seus cabelos, mantendo sua cabeça perto, e o beijo, profundo. As dele, descem até descansarem na base da minha coluna, me puxando contra seu corpo.
Não noto que estamos nos movendo até sentir a parede contra as minha costas. Ele é muito maior que eu — em altura e músculos —, então, estando presa ali, entre ele e a casa, eu me sinto esmagada. E, por Hylia, como é delicioso. Eu poderia morrer ali, agora, e morreria agradecendo com um sorriso no rosto.
E quando sua boca alcança meu pescoço, sua barba por fazer arranha minha pele e seus dentes mordiscam o lóbulo da minha orelha levemente, eu tenho certeza de que vou entrar em combustão a qualquer segundo.
— Deen — digo, ofegante, enquanto sua língua ataca a pele sensível e suas mãos apertam meu corpo como se estivessem marcando território.
— Hm? — ele questiona, sem reduzir a intensidade.
Preciso reunir todas as minhas forças para conseguir formar uma frase coerente e fazer o convite:
— Você quer… entrar?
Isso o paralisa. Suas mãos repousam em minha cintura, ainda fechadas como garras, seus dedos afundados na minha carne. Ele afasta a cabeça um pouco, o suficiente apenas para que seus olhos encontrem os meus.
— Você tem certeza, Impa? — ele pergunta com cautela, seus olhos transbordando lascívia, espelhando o desejo nos meus.
Aquiesço intensamente, afastando-me apenas para abrir a porta da casa; então o puxo para dentro sem pensar duas vezes.
Nem as deusas conseguiriam me parar agora.
Durante aquela madrugada, nós nos entregamos um para o outro sem ressalvas, sem timidez, sem medo. Deen é cuidadoso comigo e meu bem estar em todos os momentos, priorizando minha satisfação e me deixando no controle da situação. Ele fornece uma ou outra instrução que facilitam a experiência, mas deixa todas as decisões em minhas mãos.
É transcendental e inexplicável. Quando tudo termina, estou deitada sobre ele; ambos suados, ofegantes, tremendo. Ficamos ali, abraçados, nos recuperando da avalanche que nos carregou. Depois de alguns minutos em silêncio, Deen fala baixinho, como uma confissão:
— Obrigado por confiar em mim.
Levanto a cabeça para encontrar seu olhar, confusa.
— Eu… — ele parece procurar por palavras, sem sua comum desenvoltura. — Eu sei que você tinha reticências em ficar comigo… dado meu histórico. E meu comportamento descarado com você — ele ri, sem graça.
— Nunca foram suas palavras a origem do meu incômodo, Deen; na verdade, elas sempre me… convidaram. Você sabe disso — admito, tímida, desviando o olhar. — Eu só… não queria ser só mais uma na sua cama.
— Você é única, Impa — ele declara, e ri ao ver meu cenho franzido com essas palavras tão clichês nas bocas de mulherengos. — Estou falando sério. Eu não achava possível… encontrar alguém como você. Como povo, nós, Sheikah, já somos poucos. E, entre nós, os poucos que não são alienados, são completamente alucinados — salvo raras exceções. E os Hylians jamais entenderiam… a nossa dor. Então eu já tinha desistido e me entregado a casos de uma noite só. E aí você apareceu… me provando errado e roubando minha alma antes que eu sequer tivesse a oportunidade de entregá-la a você — e eu a daria de qualquer maneira, ela já é sua. Você me devolveu… esperança. Fé em um futuro melhor. Alegria. Você chegou e iluminou meu mundo, que, por toda a minha vida, tinha sido apenas uma penumbra infinita. Você foi como uma luz… dispersando todas as minhas sombras. Você é única — ele repete, por fim.
Seus olhos me encaram, vulneráveis. E, pela primeira vez em minha vida, eu não me sinto nem um pouco sozinha. Me abaixo para beijá-lo novamente, e me vejo incapaz de segurar a confissão que nasce em meu coração e abre caminho garganta acima, o instinto movendo meus lábios para formar as palavras antes que eu consiga ao menos refletir sobre as suas consequências:
— Eu te amo, Deen — sussurro contra a sua boca. Sinto seu sorriso enquanto me beija.
— Eu também te amo, Impa — ele responde, seus olhos fixos nos meus.
E naquele segundo eu entendo que, se eu roubei sua alma, ele já devolveu o favor — reivindicando a minha.
. . .
— Não sei muito bem o que pensar sobre isso, Impa — Purah diz em voz baixa, parecendo preocupada. — Tanta gente aqui na Cidade do Castelo… por que ele?
Reviro os olhos, de costas para ela, enquanto continuo olhando os livros na prateleira sem focar em nada em particular. Zelda está distraída, afundada em uma pequena montanha de textos antigos. Estamos na área restrita de uma das bibliotecas do Castelo, procurando por livros que nos ajudem com as tecnologias Sheikah que estão sendo descobertas.
— Tudo bem que já faz muito tempo desde a última vez que ele foi visto acompanhado por uma pequena horda de mulheres mas… não sei, ainda fico receosa.
— Eu sei o que estou fazendo, Purah — minha voz é seca, indicando que não quero me estender no assunto.
Já se passaram alguns meses desde que Deen e eu nos aproximamos. Optamos por não fazer nenhum alarde sobre isso, e tentamos ser o mais discretos o possível — evitando contato físico ou trocas de olhares em ambientes públicos e principalmente durante o horário de trabalho. Costumamos nos encontrar somente pela madrugada, depois que todos já se recolheram.
Nossos esforços não foram suficientes frente aos poderes de observação aguçados de minha irmã. Demorou um bom tempo até ela desconfiar de algo — ou, pelo menos, para expressar suas suspeitas para mim. Mas hoje pela manhã ela o flagrou deixando minha casa nas primeiras horas do dia; não houve argumento que a convencesse de que não estamos juntos.
Franzo o cenho, intrigada.
— O que você estava fazendo perto da minha casa hoje cedo? Você detesta ter que caminhar até ali; sempre reclama que é distante demais do restante da cidade.
— Eu imaginava que algo assim estava acontecendo — Purah esfrega as mãos uma na outra, tensa. — Há semanas você não reclama dele. Até o defendeu em uma ou duas ocasiões. Quando ouve o nome dele sendo mencionado, para o que está fazendo para prestar atenção nas conversas alheias. Eu queria conversar com você sobre isso antes do expediente, em algum lugar privado; então fui até sua casa e…
— Você estava me espionando? — me viro de frente para ela e pergunto entredentes, me sentindo invadida.
— Não, Impa, eu só queria falar com você… — Purah tenta se defender.
— Como se você estivesse com moral para alguma coisa, Purah — minha voz é ácida e cortante. — Você está se envolvendo com Robbie, por Hylia!
Purah arregala os olhos, estupefata; mas não nega minha acusação.
— Como…
— Por favor! Os funcionários do Castelo só tem falado sobre isso nos últimos dias! Ele é seu chefe, Purah! É mais de dez anos mais velho que você! Saia do seu pedestal, você não está em uma situação muito melhor do que eu.
Purah fica vermelha no mesmo segundo, o brilho no seu olhar indicando que ela está lutando contra lágrimas. A ira me abandona instantaneamente e eu me adianto para abraçá-la.
— Desculpe. Eu não precisava ter falado desse jeito — descanso minha cabeça em seu ombro.
— Não, você tem razão — sua voz falha, triste. — Eu… eu não sei por que…
Me afasto um pouco para conseguir fitar seus olhos, mantendo minhas mãos em seus braços de forma reconfortante.
— Eu tenho certeza de que você tem os seus motivos para tê-lo escolhido. Assim como eu tenho os meus para estar com Deen. E nossas razões já são suficientes, Purah. Você não me deve satisfações — friso, deixando claro que espero o mesmo favor em retorno.
Purah acena, ainda parecendo dividida.
Solto-a e dou uma olhada em Zelda, que parece completamente alheia à pequena discussão que aconteceu a poucos metros de distância dela. Balanço a cabeça rindo e volto a esquadrinhar as estantes, sem saber ao certo pelo o que estou procurando.
— Acho que você vai ganhar uns dias de férias. Urbosa deve chegar por esses dias — Purah decide mudar de assunto.
— Urbosa? — questiono, confusa.
— Sabe, a líder dos Gerudo. Ela costumava ser a melhor amiga da mãe da Zelda; existe uma conexão muito forte entre ela e a princesa. Imagino que a garota não vai sair da saia dela durante todo o período em que ela estiver no Castelo — te dando um merecido descanso.
Aquiesço, apesar de não ter registrado muitas de suas palavras depois de “Gerudo". Quando houve oportunidade, eu questionei a Deen o porquê de ele e Mike terem achado relevante o fato daqueles garotos Sheikah serem oriundos dessa região. Ele me explicou que, apesar de existir uma insatisfação latente contra a realeza entre os Sheikah nômades de toda Hyrule, os de Gerudo especificamente parecem ser mais ferrenhos em suas convicções.
Me pergunto se a tal Urbosa tem ciência de que algo assim está acontecendo em suas terras.
Tendo completado seis meses alistada — mais ou menos na mesma época em que Deen e eu ficamos juntos —, eu fui escalada a frequentar outros grupos de treinamento. Alguns compostos somente por Sheikah; outros, mistos com soldados Hylians.
Agora, tendo conhecimento dos acontecimentos passados, passei a observar todas as interações entre os grupos sob uma nova luz. Quando estamos apenas entre Sheikah, alguns se sentem confortáveis em expressar seus descontentamentos com a maneira como as coisas funcionam. Alguns, infelizes. Outros, indignados.
Nos momentos em que há interação com os Hylians — principalmente nos treinos de combate — ambos os lados se permitem uma intensidade maior do que a necessária nos ataques. São frequentes as ocasiões em que um ou mais soldados — tanto Sheikah quanto Hylians — saem das práticas feridos.
Em público, nada é dito. Todos se contém, mantendo as rivalidades veladas. Mas eu consigo sentir o ar ficando denso, como se estivéssemos dentro de uma panela de pressão prestes a explodir a qualquer momento.
Eu gostaria de fazer algo, resolver essa situação de alguma maneira. Algo dentro de mim brada por justiça, sedento por uma vingança sangrenta. Mas então eu me encontro com Zelda, que transborda inocência e pureza por todos os poros. Ou então, vejo a dedicação de Link pela causa, cada osso de seu corpo focado em cumprir seu destino. Até mesmo as interações entre alguns soldados, como Bo e Nik — que estão sempre rindo, contando piadas inofensivas e encarando as ameaças com uma leveza que me escapa à compreensão —, me fazem questionar se violência é o caminho ideal.
Deen e eu conversamos muito sobre isso. Ele também se questiona sobre qual a melhor estratégia; e insiste que devemos ter paciência e aguardar.
— A melhor opção se apresentará para nós quando for o momento adequado, Impa — ele repete.
Esperar.
Como eu odeio ter que esperar.
Ainda perdida em pensamentos, passo os dedos sobre as lombadas dos livros em exposição. Não tenho a intenção de pegar nenhum. No entanto, sinto um leve choque ao tocar em um volume denso, de capa avermelhada. Franzo o testa, sem entender. Toco no couro novamente, mas dessa vez não acontece nada. Ainda assim, o retiro da prateleira.
Abro sua capa; logo na folha de rosto está o símbolo Sheikah, desenhado em nanquim. Na parte inferior da página existe apenas uma inscrição no alfabeto arcaico, que rouba meu fôlego assim que a leio:
"Compêndio Sheikah — Técnicas de combate e defesa, conforme ditado pelo mestre Maz Koshia".
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