Sheikah

11 Sombras crescentes


POV Impa

— Onde você encontrou esse livro, Impa?

Deen está deitado na cama, folheando o compêndio de Maz Koshia que acabei de lhe entregar. Sua feição oscila entre encanto, incredulidade e indignação. Me abaixo para pegar sua camiseta do chão, e a visto enquanto respondo:

— No Castelo; estava em uma prateleira baixa, na seção restrita da biblioteca leste. Existe muito material Sheikah por lá — apesar de a grande maioria estar em alfabeto Hylian.

Me encaminho para a cozinha e coloco a chaleira sobre as chamas do pequeno fogão, preparando um chá para bebermos. Deen me segue, o lençol preso ao redor de sua cintura, e se senta à mesa ainda compenetrado no livro.

— Aqueles provavelmente são da época de colaboração entre os Sheikah e os Hylians. Mas esse… não estava exatamente escondido, mas não estava visível também. Peguei-o por acaso, inclusive… senti uma energia aguda quando toquei em sua lombada. E quando vi que era de Maz Koshia… bem, imaginei que fosse algo importante — dou de ombros. — Então o coloquei em minha mochila quando Purah e Zelda não estavam olhando — já que supostamente não deveríamos retirar os volumes da seção restrita.

— Roubo, Impa? — Deen gargalha, surpreso. — Você está tão determinada assim em ser presa antes de completar um ano aqui?

— De que outra maneira eu conseguiria mostrá-lo a você? — resmungo, cruzando os braços. — E como se Purah não roubasse as bibliotecas a torto e a direito! Você já viu a casa dela? Tem mais livros ali do que nas livrarias da cidade! Você acha mesmo que ela comprou tudo aquilo?

Deen me encara, fascinado.

— Você fica linda vestindo minha camiseta — ele se distrai; sua voz fica pesada e eu sinto o calor subindo pelo meu pescoço, enrubescendo minhas bochechas.

— Foco, Deen — balanço a cabeça, rindo, e me viro para pegar as xícaras, quebrando o encanto. — E eu preciso de pelo menos alguns minutos de descanso, por Hylia — completo, indignada.

Escuto o folhear das páginas enquanto ele examina os capítulos superficialmente.

— Todas essas técnicas… algumas eu reconheço, pois as aprendi durante meu tempo entre os nômades. Eram passadas através das gerações no boca a boca. Éramos instruídos a nunca anotá-las, apenas aprender e repassar aos mais jovens. Inclusive, não as ensinamos aqui no exército — Deen pondera.

— Sim, eu também reconheci algumas coisas. A magia de levitação, por exemplo… usávamos muito para auxiliar as colheitas no vilarejo. Também aprendi a partir dos moradores mais velhos de Kakariko.

Ambos franzimos o cenho, intrigados com o que isso pode significar.

Adiciono a água quente nas canecas e algumas ervas nos infusores. Puxo a outra cadeira da mesa para me sentar ao lado de Deen enquanto examinamos o livro juntos.

— Maz Koshia… será que foi ele quem desenvolveu todas essas técnicas? — Deen murmura, voltando para a folha de rosto.

— Talvez — viro a página e aponto para a inscrição no rodapé. — Olha aqui: está especificado que esse conhecimento não deve ser compartilhado fora dos Sheikah. Será que algum Hylian sequer conseguiria usar as magias? — me pergunto baixinho, distraída.

— Impa — Deen congela. Ele me encara, o rosto contorcido em uma expressão intensa, enquanto ele parece estar à beira de uma grande descoberta. — Esse livro estava no Castelo.

— Sim, eu já te falei isso. O sangue só voltou pro seu cérebro agora? Bebe o chá, a camomila vai te acalmar — provoco-o, rindo

Deen revira os olhos e solta uma risadinha perplexa.

— Foco, Impa — ele repete minhas palavras, me cutucando. — O livro estava no Castelo.

— Eu já entendi essa parte, Deen.

— O conhecimento não deve ser compartilhado fora dos Sheikah. Mesmo sem saber da existência do compêndio, nós seguimos essa regra até hoje, milênios depois, como falamos agora a pouco. O que o livro estava fazendo dentro do Castelo?

— Será que Maz Koshia não o entregou como oferta de paz naquela fatídica negociação? — sugiro.

— Ou foi coagido a — completa Deen, sombrio.

Arregalo os olhos conforme meu raciocínio, provavelmente, chega à mesma conclusão que ele.

— Deen… será que foi esse livro… essas técnicas… a desculpa que a realeza da época usou para condenar Maz Koshia e banir os Sheikah? — minha voz falha conforme minha garganta seca.

Ambos ficamos em silêncio, bebericando o chá, processando a descoberta e suas implicações.

— Ninguém te viu pegando-o, certo, Impa? — Deen me pergunta depois de alguns minutos, preocupado.

— Acredito que não.

— Ótimo… mantenha-o escondido. Ele pode vir a ser útil em algum momento; mas não poderemos compartilhar isso com qualquer um.

Assinto, apesar de não compreender tão bem o porquê de não incluirmos isso em nossos treinamentos. Afinal, quanto mais fortes e poderosos estivermos, mais fácil será derrubar a Calamidade, não?

— Como foi seu dia hoje? — pergunto, me virando para Deen e levando minha mão até seu rosto para prender uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

Deen vira o rosto e dá um beijo casto em meus dedos antes de responder.

Seus ombros caem e ele suspira; fecha os olhos e aperta a base do nariz entre o polegar e o indicador, frustrado. Como ele instrui somente as turmas iniciantes, eu não participo mais de suas aulas — apesar de nos encontrarmos, às vezes, nos treinos mistos.

— Sooga? — questiono, já conhecendo a causa frequente de seus dias difíceis.

— Sooga — Deen aquiesce, cansado.

Sooga tem demonstrado insatisfação em precisar participar das aulas iniciantes, já possuindo conhecimento prévio em combate. Ele é habilidoso; mas tendo desenvolvido sua técnica praticamente sozinho, existe muito espaço para melhoria. Então os superiores no exército negaram todos os seus muitos pedidos para se juntar às turmas avançadas.

Além disso… por ser da mesma idade de Deen, Sooga despreza a ideia de ser subordinado a ele. Com uma recorrência cada vez maior, Sooga tenta diminuir a autoridade de Deen, desafiando suas lições e questionando sua competência em alto e bom tom.

— Já se passaram quatro meses, Deen — tento acalentá-lo. — Só mais dois e ele vai ser escalado para outras turmas.

— É — ele concorda, mas hesita um pouco.

— O quê? Tem mais?

— Ele anda com uns discursos meio… inflamatórios, ultimamente.

— Sobre…?

— Nossa situação… nossa história. É difícil repreendê-lo quando eu entendo tão bem de onde vem sua revolta… quando eu compartilho dela.

Compartilhamos — eu completo, frustrada.

— Sim — Deen sorri e segura minha mão sobre a mesa, brincando com meus dedos enquanto fala, sem olhar para mim. — Eu também desejo justiça para os nossos… melhores condições para as tribos nômades. Também gostaria que tivéssemos as mesmas oportunidades dos Hylians, que participássemos da economia do reino como iguais. E eu concordo que precisamos fazer alguma coisa… mas… Sooga é meio… radical demais.

— Ele quer sangue?

Deen aquiesce.

— Vingança — ele diz, soturno.

Um calafrio percorre meu corpo.

— Mas já houve derramamento de sangue demais nessa história, Impa. E o rei Rhoam… apesar de todos os muitos defeitos que já sabemos que ele tem… nunca foi um carrasco. Não acho que seria uma negociação fácil com ele, mas não correríamos o mesmo risco que Maz Koshia correu 10 mil anos atrás. Eu não acredito nisso. No entanto… alguns jovens estão começando a entrar na onda de Sooga. Ainda são poucos: os três que chegaram com ele e mais uns quatro, até agora. Mas o simples fato de que seu séquito está ganhando volume me preocupa.

Um breve silêncio se faz entre nós.

— Talvez… — começo, mas me interrompo.

Deen me encara, curioso.

— O que, Impa?

— Bom. A gente é muito passivo, Deen — digo, cautelosa. — E Sooga é radical mas… está se movimentando.

— O que você está sugerindo?

— Eles são jovens — nós somos jovens. Talvez a gente só precise… de equilíbrio. Nós podemos ensinar um pouco de parcimônia para eles… e eles nos dão o impulso para fazer algo.

— Impa, ele não aceita nem correções nas técnicas de combate. Por que ele nos ouviria em algo tão delicado?

— Ele não precisa ouvir a gente.

Deen fica em silêncio quando entende minha implicação.

— Mike — dizemos em uníssono.

— Ele é mais velho que nós, compartilha dos nossos valores, parece ser bem sensato e tem um ambiente seguro — digo. — Pode ser que se nos reunirmos para conversar sobre isso com calma… nós possamos desenhar alguma estratégia melhor de como conseguir e conduzir a negociação com a realeza.

— Faz sentido — Deen responde, circunspecto. — Ainda me preocupa. Mas acho que é a melhor opção… a única, na verdade. Vou falar com o Mike amanhã.

Assinto, e meu coração acelera levemente com a ideia de que talvez o “futuro melhor” para nós não esteja tão longe assim. O pensamento me deixa animada, ansiosa para começar essa jornada, completamente cheia de energia.

— Deen — o chamo e ele levanta o olhar para me observar, curioso.

Repetindo o que aprendi com ele, abro um sorriso indecente e digo:

— Já se passaram alguns minutos — levanto as sobrancelhas para enfatizar o convite.

— Você não precisa acordar cedo para aquela reunião com a tal Urbosa, Impa? — ele provoca, mas seus olhos já me fitam com mais intensidade e sua mão desce lentamente pelo meu braço, causando arrepios na minha pele.

Dou de ombros.

— Eu bebo uma xícara a mais de café quando acordar.

Ele não precisa de argumentos adicionais e no segundo seguinte seus lábios já estão sobre os meus mais uma vez.

. . .


Quando chego ao Castelo o sol não está visível ainda, apesar de o céu já estar em tons avermelhados e laranjas. Zelda acorda cedo e, sabendo que ela ficará colada em Urbosa 100% do tempo em que estiver desperta, a líder dos Gerudo e eu combinamos — através de telegramas — de nos encontrar antes que a princesa se levantasse.

Parto diretamente para a sala de visitas onde se dará nossa reunião. A lareira está acesa, deixando o ambiente com uma temperatura agradável. Em uma mesa lateral foram disponibilizados biscoitinhos finos e uma pequena seleção de diferentes ervas para chá. Diversos sofás de veludo e outros tecidos densos estão espalhados pela sala, sobre tapetes grossos. As grandes janelas são adornadas por pesadas cortinas azuis, e do teto alto pende um rebuscado lustre de cristal. Muitos dos detalhes nas paredes e decorações parecem ser de ouro.

Me sinto incomodada com tanta… opulência. Pelos céus, é só uma sala de visitas — realmente é necessário tudo isso?

Meus olhos estão pesados por conta do sono que ainda não se dissipou, apesar da alta dose de cafeína que já corre por minhas veias. Decido, portanto, não me sentar enquanto aguardo Urbosa — evitando o risco de ser pega cochilando em um desses sofás que, sejamos justos, parecem ser muito confortáveis.

Caminho na direção da lareira para observar a pintura que está acima dela. É um retrato do rei, sua esposa e uma Zelda que não deve ter mais do que quatro anos de idade. Percebo que nunca havia visto nenhuma imagem da falecida rainha Zelda.

Muito similar à sua filha, com os mesmos olhos verdes e cabelos dourados.

De forma muito diferente de sua filha, ela parece genuinamente feliz.

Apesar de essas pinturas e imagens geralmente contarem com sujeitos sorrindo de forma recatada e discreta, a rainha Zelda foi representada com um grande sorriso aberto, exibindo seus dentes em uma expressão genuína de contentamento. Ao contrário das poses firmes e rígidas costumeiras de tais quadros, os três estão relaxados: sentados na grama, em algum jardim do Castelo, com a pequena princesa no colo de sua mãe e o rei com o braço ao redor das duas.

Franzo o cenho, sem conseguir entender o porquê desta imagem gerar um nó em minha garganta.

— Ela era realmente assim — ouço uma voz feminina forte declarando.

Ao me virar, vejo uma mulher muito alta, com cabelos ruivos muito longos e fartos, e sua pele caramelo parece reluzir. Sua postura ereta transmite confiança e seus trajes exalam sofisticação, ornamentados com belíssimas jóias e pedras. Seu corpo forte, no entanto, deixa óbvio que ela também é uma guerreira.

— Perdão? — digo, ligeiramente aturdida.

— A rainha Zelda — explica a mulher. — Ela sempre estava assim… sorrindo. Nunca conheci outra pessoa que encarasse a vida de maneira tão leve quanto ela. Provavelmente foi por isso que as deusas a tiraram deste plano tão cedo… ela era boa demais para continuar por aqui.

Aquiesço, sem saber o que dizer.

— Sou Urbosa, a atual líder das Gerudo. E você deve ser Impa, correto?

— Sim, senhora — faço uma pequena reverência. — É um prazer conhecê-la.

Fico em silêncio enquanto ela me escrutina com o olhar, parecendo julgar o que vê.

— Estive muito curiosa para encontrá-la, senhorita Impa.

Inclino a cabeça um pouco, confusa.

— Afinal, é você quem está responsável pela pequena Zelda, certo? Aquela criança é uma jóia e merece o mundo. Gostaria de me certificar de que você está apta a cuidar dela.

Uma dor aguda desponta em minhas têmporas quando trinco os dentes em resposta às insinuações de Urbosa.

— Pois não? — questiono, mal conseguindo disfarçar a irritação em minha voz.

Ela me olha dos pés a cabeça naquela avaliação maldita.

— Ela é uma criança sozinha, com o peso do mundo sobre suas costas. Seu pai exige muito mais dela do que algum ser humano jamais deveria exigir de outro. A última coisa que ela precisa é de uma companhia que termine de afundá-la. Eu devo à rainha garantir que a guardiã de sua filha tem o que é necessário para auxiliá-la em cada etapa de seu caminho. Confesso que apesar de saber que historicamente é recorrente uma guerreira Sheikah cumprir esse papel… dado o histórico do seu povo nos anos recentes, você deve entender minhas reticências… Não, Impa? — Urbosa dá um sorrisinho zombeteiro quando diz meu nome.

— Se você se preocupa tanto assim com ela, onde esteve todos estes anos, Urbosa? — disparo entredentes, quase cuspindo seu nome, meus punhos cerrados e tremendo levemente.

A líder das Gerudo sorri com minha reação; ela tenta responder, mas eu — a essa altura, já furiosa — a interrompo:

— Se eu não tivesse chegado a tempo, sua preciosa Zelda já estaria morta.

Isso arranca a expressão jocosa de seu rosto.

— Como assim, morta? Ela passou anos sem nem poder sair do Castelo; aqui é extremamente seguro. Quem tentaria matar a princesa?

Ela mesma, Urbosa — meu tom é ameaçador.

— Ela… o quê? Não, ela é só uma criança, ela não faria… faria? — Urbosa gagueja, incoerente.

— Você mesma acabou de elencar uma miríade de motivos que a levariam a isso. E eu não estou supondo, Urbosa. A própria Zelda me confessou isso.

Minhas próprias palavras me calam. Zelda me confessou isso — não cabia a mim expor isso à Urbosa. Franzo o cenho, preocupada com minha traição à sua confiança em mim.

Urbosa nota e se aproxima para colocar uma mão em meu ombro.

— Sei que suas intenções foram boas, Impa. Não vou contar à Zelda o que me disse.

Assinto, ainda me sentindo culpada.

— Quando a rainha morreu… eu pedi ao rei que permitisse que ela viesse morar comigo em Gerudo — Urbosa começa enquanto se encaminha para o sofá e me convida a sentar também. — A princípio ele concordou. Os arranjos estavam em andamento quando a profecia da Calamidade chegou… então ele cancelou tudo e decidiu que seria ideal Zelda ficar aqui para treinar e despertar seus poderes.

“Infelizmente, como líder da tribo, eu não consigo vir até aqui com a frequência que gostaria. Ainda mais com… os problemas que tem surgido na região nos anos recentes.”

— Quais problemas, Urbosa? — questiono, decidindo jogar a cautela ao vento. Ambas já nos ofendemos a esta altura, não faz mais sentido manter as formalidades.

Urbosa parece compartilhar da minha percepção. Ela respira fundo e hesita por alguns segundos, mas logo continua a falar:

— Falei dos Sheikah agora só para medir sua reação, Impa. Peço desculpas, mas achei que seria a maneira mais eficaz de testar suas… prioridades.

Cerro os olhos, incapaz de decidir se me irrito com seus jogos ou não. Afinal, ela, assim como eu, estava só procurando garantir o bem-estar de Zelda. Portanto, apenas dou de ombros.

— Mas, apesar disso… as tribos nômades da região realmente estão se tornando cada vez mais agressivas ultimamente. Ainda não houve nenhum crime grave. Porém, nos últimos meses, tanto Hylians quanto Gerudos já sofreram emboscadas, furtos e leves agressões de alguns jovens Sheikah da região.

As palmas de minhas mãos começam a suar ao receber essa informação. Precisamos falar com Mike o quanto antes.

— A jurisdição ali é minha, no entanto. Então não se preocupe; está tudo sob controle, Impa. Apenas tem tomado muito do meu tempo… então não tenho conseguido visitar Zelda.

Assinto, sem realmente conseguir deixar de me preocupar.

— Ouvi dizer que você convenceu o rei a deixar a princesa entrar para a equipe de desenvolvimento — Urbosa continua, hesitante. — Será que… você não poderia tentar persuadi-lo a permitir que ela visite Gerudo de vez em quanto?

Coço a nuca, desorientada. Se nem a líder da tribo e melhor amiga de sua falecida esposa conseguiu convencê-lo, por que eu conseguiria?

Um estrondo ecoa pela sala, fazendo meu coração saltar e eu me vejo em pé no mesmo instante. Olho ao redor, alerta, e vejo que foi a porta que foi aberta com tanta força que se chocou contra a parede mais próxima. Uma cabeleira dourada corre até nós, feliz.

— IMPA, VOCÊ CONHECEU A URBOSA! — Zelda exclama, pulando no colo da Gerudo. — VOCÊ VIU COMO A IMPA É INCRÍVEL, TIA URBOSA? É TUDO O QUE EU FALEI E MUITO MAIS, NÃO É? O QUE VAMOS FAZER HOJE?

— Oi, passarinha, bom dia — Urbosa responde, rindo e fazendo carinho no cabelo de Zelda. — Sim, ela é excepcional mesmo. O que você quer fazer?

— A gente pode ir passear nos jardins e caçar sapos?!

— O que você quiser, querida.

Assisto à cena aturdida. Nunca vi Zelda tão… feliz — nem no dia em que ela descobriu que faria parte da equipe de Purah. Então aceno para Urbosa, confirmando que sim, eu tentarei convencer o rei a deixá-la ir para Gerudo com mais frequência.

Urbosa sorri, e meu coração se aperta, transtornado.


. . .


— O Mike demorou para ceder? — questiono a Deen, segurando sua mão sobre a mesa.

— Pelo contrário… ele disse que estava há semanas pensando em sugerir algo do tipo.

Deen não parece muito entusiasmado com a situação, nem com a perspectiva de ter que lidar com Sooga fora das horas de trabalho. Movo meu polegar, fazendo carinho no dorso de sua mão.

— Eles já devem estar para chegar — Deen resmunga, tomando um gole de água. — Boa parte dos clientes já foram embora.

Dado o teor das discussões que acontecerão em breve, decidimos permanecer sóbrios apesar de estarmos no pub.

Deen conversou com Mike pela manhã e com Sooga pela tarde. Ambos concordaram em conduzir a primeira reunião ainda hoje, depois que o bar fechasse.

A sineta da porta toca, indicando que chegaram pessoas. De onde estou sentada, não consigo ver quem é. Mas Mike, que estava secando alguns copos, sorri e acena para que os visitantes se aproximem. Deen se levanta e eu o acompanho.

Um grupo de dez jovens puxa as meses, juntando três delas e trazendo cadeiras, para que consigamos sentar todos ao redor delas. Eles parecem seguir os comandos de um homem muito alto e muito forte — ainda mais que Deen, apesar de não muito.

— Sooga — Deen acena à distância para o gigante, cumprimentando-o.

Puxo sua camiseta, chamando sua atenção.

— Sooga? Aquele é o Sooga? Como ele ficou desse tamanho em quatro meses, saindo daquele estado desnutrido? — pergunto, indignada. — Comeu um cavalo?!

Deen dá de ombros, sem conseguir rir.

— Não sei, Impa… determinação? Genética? Ele treina muito mais que os outros, mas mesmo assim… — sua voz mingua, sem conseguir concluir.

Nos aproximamos, sentando nas cadeiras; Deen em uma ponta da mesa, Sooga em outra. O rosto de Sooga está levemente distorcido em uma careta de desprezo. Deen, por outro lado, parece apenas cansado.

Mike se aproxima de nós, mas recosta em uma outra mesa, sem realmente se sentar.

— Obrigado por comparecerem — ele começa. — Acredito que não sejam necessárias introduções. Todos sabemos o porquê de estarmos reunidos aqui hoje.

— Sim, derrubar aquele merda do rei — um dos jovens de Sooga cospe.

— Não — Deen interrompe imediatamente. — Ninguém vai derrubar ninguém.

— Frouxo — rebate um dos outros jovens. — Está fazendo o que aqui se é uma cadelinha do Rhoam? Ele já te dispensou da cama dele hoje?

Deen trinca os dentes e respira fundo. Noto que ele está reunindo forças para conseguir responder sem perder a compostura, mas é Sooga quem se pronuncia primeiro.

— Chega. Vekko, Odda, se vocês não se controlarem eu vou precisar pedir que se retirem — ele diz, em voz baixa. Mas seu tom é ameaçador e faz meu sangue gelar imediatamente.

Os garotos obedecem, contrariados. Mike assiste ao desenrolar da situação com curiosidade — assim como eu.

— Estamos aqui hoje porque todos nós estamos insatisfeitos com a maneira como os Sheikah tem sido tratados nos últimos 10 mil anos — Deen diz, cortante. — Acreditamos que se tivermos um bom número de pessoas alinhadas à causa e boas propostas, poderemos renegociar o acordo com a realeza.

— E o que você quer reivindicar, Deen? — Sooga rebate. — Que possamos nos alistar mais jovens? Que a realeza espalhe novos boatos reino afora, nos pintando como santos?

— Sim, Sooga, seria um bom começo — Deen retruca, sem se abalar. — Ou, talvez, politicas de incentivo para que seja atrativo aos comerciantes Hylians negociar conosco. Verba para que consigamos construir mais assentamentos, assim como eles financiaram a construção de Kakariko no início. Existem muitas coisas que podemos demandar, nós só precisamos organizar todas as ideias.

— Você entende que tudo isso nos deixa dependentes da boa vontade dos soberanos novamente? Você quer mesmo repetir os erros dos nossos antepassados? — Sooga cospe.

— E qual a sua sugestão, Sooga? Derrubar a realeza? Decapitá-los em praça pública e tomar o poder?

— Eu não me oporia às suas mortes — seria apenas o pagamento do nosso sangue que eles já derramaram tanto.

— E quem subiria ao poder depois? Você? Por que eu, definitivamente, não quero essa responsabilidade. Você quer? Algum de vocês quer? — Deen olha ao redor da mesa e todos se retraem. Até mesmo Mike espalma as mãos em defesa, seus olhos parecendo dizer “não me meta nessa”.

Sooga hesita, incerto.

— Muitas coisas mudaram ao longo dos milênios, Sooga; mas assim como nossos antepassados nunca tiveram sede de poder, nós também não temos. Se derrubarmos o governo não vai ter um puto disposto a assumir a liderança — me sobressalto ao ouvir Deen xingando pela primeira vez. — E aí, o quê? Anarquia?

A mesa fica em silêncio, todos refletindo sobre as palavras de Deen.

— Bom, parece que temos muito o que conversas — diz Mike, por fim.

A madrugada é carregada de tensão e discussões acaloradas. Mike precisa mediar os debates, controlando principalmente os mais jovens, que se deixam levar pela ira e não conseguem manter coerência e razão.

Sooga e Deen não conseguem chegar no meio do caminho de jeito nenhum; mas, ao contrário dos jovens, ambos conseguem construir argumentos embasados, apresentando os prós e os contras que cada decisão geraria. Depois de algumas horas, Deen se levanta, frustrado.

— Não vamos conseguir avançar mais que isso hoje — ele declara. — Vamos marcar mais uma reunião em breve.

Sooga pausa, ponderando a sugestão. Ele olha ao redor, medindo seu grupo, Deen e eu, e, por fim, Mike — onde seu olhar se demora um pouco mais. Afinal, ele aquiesce e se levanta também. Toda sua comitiva se levanta em seguida e o acompanha enquanto ele sai do pub sem se despedir.

— Ufa — diz Mike, quando estamos a sós. — Não vai ser tão fácil assim.

— Não, Mike. Não vai — Deen concorda, exaurido.

— Obrigada por ceder o espaço, Mike. Vamos fazer valer a pena… tenho certeza que vamos — agradeço, embaraçada, enquanto Deen e eu nos encaminhamos para fora também.

Somos recebidos pelo tradicional ar frio da madrugada e caminhamos de volta para minha casa de mãos dadas.

— Lidar com ele todos os dias já é difícil — Deen começa com a voz torturada. — Ter que debater com ele fora das horas úteis também… eu não vou aguentar, Impa.

Aperto sua mão, confortando-o.

— Vamos espaçar os encontros nesse início então, Deen. Vamos marcar só uma vez a cada uma ou duas semanas. Daqui dois meses ele sai da sua turma e a gente aumenta a frequência das reuniões.

Deen suspira, mas assente.

— Impa… — ele hesita um pouco. — Falando em “daqui a dois meses”.

— Sim?

— Você vai completar um ano aqui. Vai ter que ceder sua casa para os novos Sheikah que chegarão para o próximo semestre. E vai precisar começar a pagar aluguel em um alojamento novo; a moradia só é gratuita no primeiro ano.

Aquiesço, ciente da minha situação.

— É. Pensei em pedir abrigo à Purah… mas agora ela está com o Robbie e… bem. Nós — constato, simplesmente, enrubescendo. — Ia mesmo pedir sua ajuda para encontrar algum quarto novo que não fosse tão caro e…

— Impa — Deen para e, como estamos de mãos dadas, acabo parando também.

— Eu? — digo, inclinando a cabeça, intrigada.

— Sei que estamos juntos só há quatro meses… mas… eu estava pensando se talvez, por algum acaso, você não aceitaria… se mudar para minha casa.

Arregalo os olhos, atônita.

Deen prossegue, desconcertado, evitando meu olhar.

— Financeiramente seria coerente… dividir o aluguel seria mais barato do que você alugar algum outro lugar sozinha… e minha casa fica perto do apartamento de Purah, você poderia visita-la com frequência e…

— Deen — o interrompo, levando minha mão até seu rosto e o forçando a me olhar. — Eu adoraria.

Ele abre um sorriso tímido, e seus olhos brilham como se ele não conseguisse conter a alegria que o invade.

— Mesmo? — ele pergunta baixinho.

— Mesmo — respondo através do meu próprio sorriso.

Deen se curva para me abraçar e me levanta, meus pés a vários centímetros do chão. Seu abraço é forte e rouba meu ar; ali, suspensa entre seus braços, envolvida pela sua felicidade, eu me sinto segura. Eu me sinto amada. Depois de alguns segundos ele me coloca de volta no chão, mas suas palavras ainda me fazem sentir como se estivesse caminhando em nuvens:

— Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida, Impa. Na verdade… não havia vida antes de você — apenas existência. Obrigado por me aceitar… minha luz.