Sheikah

17 A última vez


20 anos mais tarde

POV Impa

O corpo de Link flutua nas águas salgadas da câmara de ressuscitação, em um sono profundo. Seu peito sobe e desce lentamente, a respiração tranquila sendo o único indício de que ele não está morto. As marcas de sua batalha final contra a Calamidade ainda estão abertas e profundas em sua carne, cicatrizando pouco a pouco ao longo dos anos.

Olho para as costas das minhas mãos, já castigadas pelo tempo. A pele, já não tão lisa e firme quanto fora outrora, está salpicada de manchas de sol; meus dedos parecem mais finos e enrugados. Levanto o olhar e observo Link, cujo rosto se paralisou no tempo, ostentando a mesma feição de quando ele caiu duas décadas atrás, antes mesmo de completar 20 anos de idade.

Como é possível?

Passo os dedos sobre a superfície do recipiente onde ele está, fascinada com a tecnologia ancestral. Meus ombros caem, frustrados com tanto conhecimento Sheikah que fora perdido ao longo dos milênios. Mas, ainda assim, agradeço a Hylia por ao menos termos encontrado este lugar naquele último ano, durante expedições ao Grande Planalto. Sem essa câmara, Link teria sucumbido logo no primeiro dia do ataque. E, com ele, qualquer esperança de que a Calamidade fosse parada algum dia.

Depois que Deen me salvou de ser usada como sacrifício para ressuscitar Ganon, eu fugi daquela caverna maldita sem olhar para trás. A Calamidade tinha começado, e tremores e tempestades intensas tomavam conta da região de Hyrule Central.

Eu não sabia se Zelda tinha acessado seus poderes, onde ela, Link e os pilotos das Bestas Divinas estavam. Se o massacre já havia começado, se havia alguma esperança ou estávamos todos condenados.

Mas eu sabia que Purah estava na Cidade do Castelo e, contrariando qualquer instinto de sobrevivência, foi para lá que eu corri. Eu provavelmente torcera meu pé em algum momento mais cedo, pois estava mancando. A chuva limpou o sangue que havia secado em meu rosto e nas minhas mãos. Eu esperava encontrar pânico, caos, desespero.

No entanto, ao chegar lá algumas horas mais tarde… lembrei-me de que a Cidade do Castelo era habitada majoritariamente por soldados e pessoas que trabalharam incansavelmente nos últimos anos justamente para essa ocasião.

Os batalhões já estavam posicionados nas praças, aguardando ordens. Fileiras de dezenas de Guardiões estavam estacionadas em pontos estratégicos da cidade, preparados para contra-atacar Ganon.

Encontrei Purah em meio aos outros líderes, próximos à fonte central. Estavam todos estranhamente em silêncio. Ao notar minha aproximação, ela soltou a respiração, inundada de alívio.

— Você está bem — disse ela, levando a mão ao rosto.

— Qual o plano? — perguntei, pulando as amenidades.

— O rei fez um pronunciamento agora há pouco. O Castelo foi evacuado, pois a energia de Ganon ali dentro tornou impossível respirar. Não houve nenhum ataque ainda, mas não acho que essa situação vai se sustentar por muito tempo. Vamos aguardar Zelda e o restante dos Campeões voltarem de Lanayru antes de prosseguir. Onde você estava?

— Eu…

— Isso aí na sua roupa é sangue?

— Sim.

— De quem?!

— Do Yiga que eu matei agora há pouco — respondi, impaciente.

Purah arregalou os olhos, assustada.

— Do que você está falando?!

— A gente pode falar sobre isso mais tarde, Purah?

— Não, a gente vai falar sobre isso ago…

— ZELDA! — gritei ao vê-la chegando, trotando ao lado de Link.

Eles desmontaram dos cavalos rapidamente e se encaminharam para nós. Qualquer esperança que houvesse em mim se esvaiu assim que observei seu rosto.

Antes mesmo que ela acenasse em negativa para mim, eu entendi: ela não conseguira.

— Daruk, Mipha, Revali e Urbosa já se encaminharam para as Bestas — disse, resignada. — Link já está preparado para lutar contra Ganon. Eu… eu quero ajudar de algum jeito, Impa. Me dê alguma arma, alguma coisa para fazer, qualquer coisa.

— Você deveria falar com seu pai, Zelda — a instruí, mas ela apenas negou, irritada.

— Vem, Zelda — Purah interveio. — Vamos terminar de configurar os Guardiões.

Elas se afastaram, com Link em sua cola. Eu fiquei por ali, aguardando mais instruções junto com os outros soldados.

O ataque de Ganon aconteceu em ondas.

A primeira: sua manifestação, após o ritual dos Yiga.

A segunda: à meia-noite, o céu ficou em um tom macabro de carmim e a lua se tornou vermelha. Hordas de monstros se materializaram a partir do nada na cidade. Nós os derrubamos com facilidade, e logo fomos encarregados de nos espalhar pelo reino para verificar se essas entidades também tinham surgido nas outras cidades e vilarejos.

Eu parti para o forte de Hateno junto com meu batalhão, deixando todos para trás. Mas não conseguimos chegar até lá.

A terceira e última onda do ataque pegou todos de surpresa.

Quando estávamos quase chegando, pouco depois de passar por Dueling Peaks, ouvi um barulho forte, pesado e ritmado se juntando ao trotar de nossos cavalos. Quando olhei para trás… um número absurdo de Guardiões avançava em nossa direção — muito maior do que a quantidade que tínhamos encontrado até então.

Não houve tempo para esperança, confusão ou susto. No segundo seguinte, eles nos atacaram com seus braços mecânicos gigantescos e lasers de longo alcance.

Só então houve caos.

Ninguém esperava por isso, ninguém previra isso.

Não havia plano de contingência para isso.

O pensamento em comum na cabeça de todos nós naquele instante foi: estamos mortos.

E, portanto, nessa hora o instinto de sobrevivência venceu. Abandonamos todos os planos e estratégias e fugimos, exigindo de nossos cavalos uma velocidade impossível para eles.

Não me lembro muito da batalha em si.

Lembro-me do cheiro de fogo e fumaça, contrastante com o petricor da grama molhada. Dos estrondos de demolição conforme as casas eram destruídas e incendiadas.

Lembro-me dos gritos de agonia dos soldados que caíam, dilacerados pelas garras dos Guardiões ou explodidos por seus lasers.

Lembro-me do medo que corria pelas minhas veias, misturado à adrenalina e a uma determinação que nunca havia sentido antes — e nunca senti desde então.

Lembro-me do silêncio ensurdecedor que se fez depois que toda a atmosfera foi iluminada em dourado, como se o sol tivesse nascido a partir do centro do campo de batalha. A escuridão que se fez na sequência, quando todos os Guardiões deixaram de funcionar subitamente, apagando suas luzes.

Olhei ao redor, completamente atônita. E vi Zelda, parada a algumas dezenas de metros de mim; seu braço direito esticado, seu rosto distorcido na mais genuína confusão. E, poucos passos atrás dela, Link, tombando no chão e parando de se mover.

Trinquei os dentes, incapaz de sair do lugar, lutando contra o nó em minha garganta enquanto eu a assistia correndo em pânico em sua direção, segurando-o em seu colo e pranteando sua morte.

A Master Sword brilhou em azul, distraindo-a. Sua postura mudou, ficando mais confiante, cheia de… esperança?

Dois dos soldados Sheikah surgiram de trás de alguns destroços e correram em sua direção, quebrando meu estupor. Forcei-me a correr em sua direção e cheguei a tempo de ouvi-la dizer:

— Leve Link para o Templo de Ressuscitação. Se vocês não o levarem para lá imediatamente, nós iremos perdê-lo para sempre. Ficou claro? Então se apressem e vão. A vida dele está em suas mãos agora.

Os soldados acenaram e se adiantaram para pegar o corpo caído no chão, removendo-o do colo de Zelda.

Mas ela não soltou, contrariando suas próprias palavras.

Observou seu rosto, lágrimas escorrendo por seu rosto. Suas mãos fechadas contra os braços dele, em garras de desespero.

— Você precisa soltar, Zelda — eu falei, me agachando ao seu lado.

Ela se sobressaltou ao notar minha presença.

— Solta — insisti. — Nós vamos cuidar dele. Ele vai ficar bem.

Era de se esperar que a essa altura do campeonato eu já tivesse aprendido a não fazer promessas aos outros que não pudesse cumprir.

Mas que outra opção eu tinha?

Coloquei minhas mãos sobre as suas, instigando que ela o soltasse. Assim que ele foi removido de seu colo, ela se jogou em mim, escondendo seu rosto em meu pescoço, incapaz de assistir a ele sendo levado embora.

— A culpa é minha, Impa — ela soluçava. — Eu falhei. Eu perdi todos… até ele.

— Você conseguiu despertar os poderes, Zelda.

— Depois que todos já estavam mortos!

— Zelda — digo, com firmeza, a afastando para que possa encarar seus olhos. — Chega.

Ela se sobressaltou com o tom em minha voz.

— Impa?

— Agora não é hora para autocomiseração. Sentir pena de si própria não vai ajudar ninguém nesse momento. Você vai ter tempo para isso no futuro.

— Eu… eu não estou…

— Está sim. Já está feito, Zelda. Quem morreu, morreu. Prantear por não termos conseguido salvá-los não irá trazê-los de volta. Mas ainda existem sobreviventes, ainda estamos no meio da batalha e você finalmente conseguiu acessar seus poderes. Existe esperança. Eu te amo, querida, mas não posso passar a mão na sua cabeça agora. Você vai precisar engolir seus sentimentos e agir. Você não disse que queria ajudar? Agora é a hora.

Zelda aquiesceu, aturdida.

— Eu… me desculpe… eu vou…

— Nós precisamos guardar a Master Sword. Vou com você até a floresta perdida. Link já está recebendo os devidos cuidados. Durante o trajeto, nós definiremos quais serão nossos próximos passos.

E assim o fizemos. Zelda decidiu retornar ao Castelo para tentar conter Ganon durante o período em que Link estiver se recuperando; eu iria retornar para a Cidade do Castelo para avaliar os estragos e ajudar nas buscas por sobreviventes.

Quando estávamos nos aproximando de Central Hyrule, já retornando da floresta perdida, ela disse, triste:

— Quanto tempo será que ele vai demorar pra acordar?

— Não faço ideia. Ele estava bem ferido.

— Provavelmente alguns meses então, né… — Zelda resmungou. — Será que eu vou conseguir conter Ganon por tanto tempo assim?

— Acho que você não tem muita escolha — provoquei-a.

Ela riu; aquela risada típica e resignada dos que sabem que estão ferrados e sem saída, e que não existe opção fora abraçar a própria desgraça com todas as forças.

— É, acho que você tem razão. Impa… — ela hesitou.

— Diga, querida.

— Você… você pode ir verificá-lo de vez em quando? Para garantir que… que ele ainda está vivo — ela engasgou.

— É claro — aceitei sem pensar duas vezes.

E então eu, que sempre odiei esperar, passei os anos seguintes suspensa em uma eterna expectativa. Mais de vinte anos se passaram.

No início, eu visitava Link em seu pseudo-túmulo a cada poucas semanas. Lentamente, as visitas se tornaram mais espaçadas, demorando meses entre cada uma… eventualmente, anos.

Mas hoje é aniversário de Zelda. E ela apareceu para mim em sonho há alguns dias. Entrar em contato comigo foi uma habilidade que ela conseguiu desenvolver depois de alguns meses selada dentro de Ganon. Ela não entra em contato com frequência, pois deve exigir muita energia dela; apenas quando tem algo importante a dizer.

Saber que ela ainda está lutando é a única coisa que também me mantém em pé.

— Você não o vê há anos — ela me acusou, magoada.

— Não. Me desculpe.

— Vai completar duas décadas desde a Calamidade daqui a alguns dias. Você pode ir visitá-lo, por favor? Ele ainda está vivo… eu consigo sentir. Mas não sei como ele está… e isso está afetando minha concentração aqui.

— Partirei amanhã — declarei, me sentindo culpada.

Vim até aqui sozinha. É uma longa jornada a partir de Kakariko, onde tenho residido depois que tudo se acalmou. Restaram pouquíssimos Sheikah depois do ataque; todos nós nos reunimos no vilarejo desde então. Não existem mais Sheikah nômades: apenas nós e os Yiga.

Com o massacre no reino, também morreu nossa má-reputação. Ser um Sheikah deixou de ser associado a ser um guerreiro frio, ardiloso e cruel; tal fama passou a recair apenas nos Yiga. Em um primeiro momento, nós nos tornamos heróis aos olhos dos Hylians, pois auxiliamos incansavelmente na busca por sobreviventes e auxiliamos no reassentamento das pessoas em Hateno. E, eventualmente, passamos a ser lembrados apenas por nossa vida pacata enquanto agricultores autossustentáveis em nossa pequena vila.

Fui colocada como chefe do vilarejo apesar de todos os meus protestos. Ninguém queria liderar, como é de costume entre os nossos. Mas todos queriam alguma liderança, alguém a quem procurar quando houvesse problemas ou necessidade de aconselhamento. Não me foi oferecida escolha. Minha posição no exército, minha proximidade com a — agora, falecida — família real, minhas decisões nos fatídicos dias do pós-Calamidade… tudo isso consolidou na cabeça do povo que eu era a única opção possível.

E eu não tive energia nem para discutir.

Aceitei o cargo, mas me enfurnei em casa. Recebia os que me procuravam em busca de apoio e saía apenas nas ocasiões em que ia visitar Link.

Olho para ele novamente. Ainda tão jovem, congelado no tempo, se recuperando muito mais devagar do que imaginávamos. Apenas para acordar e ser jogado mais uma vez nessa loucura, em um mundo novo e desconhecido, onde todos que ele conhecia e amava estão mortos. E quanto mais tempo passar, pior será.

Será que ainda estarei viva quando ele finalmente se recuperar?

Minha garganta se fecha ao pensamento.

Zelda vai ter que me perdoar… mas eu não consigo mais voltar aqui.

Largo a Tela Sheikah, a única chave para esta câmara, de volta no pedestal que fica próximo à porta de saída. Quando saio da sala, ela se fecha automaticamente atrás de mim. E só se abrirá novamente quando — e se — Link acordar.

Monto em meu cavalo e cavalgo para fora do Grande Planalto, querendo o máximo de distância daquele túmulo.

Assim que passo por seus portões, diminuo o ritmo. Olho para a esquerda e vejo a floresta onde Deen e eu conversamos tantos anos antes sobre a história dos Sheikah… onde tudo isso começou.

É, eu realmente não consigo mais voltar para essa região.

Pisco, refreando as lágrimas.

Eu quase não penso mais nele — ainda dói demais, mesmo tantos anos depois. Tentei me envolver com outras pessoas ao longo dos anos, mas nunca passava de uma noite. Nosso término tão brusco, tão cruel, tão… inexplicado, quebrou algo dentro de mim de forma irreparável.

Forço-me a pensar em outra coisa, qualquer outra coisa.

Meu estômago ronca, furioso que eu esqueci de me alimentar hoje. O céu já está em tons rosados, prenunciando o pôr-do-sol. Decido montar acampamento nas ruínas do Posto Avançado.

Dou risada com a ironia, me lembrando de como eu tinha sentido medo e ansiedade na primeira vez que estive ali. E como eu me sinto segura agora que tudo o que restou foram escombros e uma cidade fantasma.

Salto de meu cavalo, parando próxima da fonte central. Procuro por meus suprimentos dentro das bolsas que estão presas nele. Abro meu colchonete sobre o chão de pedra. Está quente e o céu está limpo, sem nuvens; então decido não armar a barraca — dá trabalho demais.

Pego algumas frutas e busco pela garrafa de whiskey que eu enfiei na mala em um impulso antes de sair de Kakariko. Alguns anos após a Calamidade, Purah estava aprendendo a produzir diferentes bebidas destiladas, fascinada com o processo em si. E, surpreendentemente, o resultado tinha sido excelente mesmo antes do envelhecimento. Poucas garrafas sobreviveram ao ataque de Ganon, então as dividimos entre nós duas e guardamos para ocasiões necessárias.

Hoje me parece um dia necessário.

Puxo a rolha e verto o líquido em minha boca diretamente do gargalo. Meus lábios pinicam e é como se eu estivesse engolindo fogo, aquecendo minha alma gelada.

O calor agradável da noite e do álcool dura pouco demais, pois logo o sangue gela em minhas veias quando uma voz conhecida demais corta o silêncio da noite como uma assombração.

— Bebendo sozinha no meio da semana? — diz ele, recriando a primeira vez que nos abrimos um com o outro.

Levanto os olhos lentamente e lá está Deen, naquele uniforme maldito dos Yiga, me observando com tristeza. Seu cabelo está curto agora, e foi pintado de preto — se por tinta ou magia, é impossível dizer. Seu corpo ainda é exatamente como em minhas memórias, e o meu corpo me trai ao desejá-lo, me inundando com lembranças de como era estar debaixo dele.

Mas é seu rosto que me destrói. Ele já era lindo quando jovem. Mas as linhas de expressão, a maturidade em sua feição, o olhar experiente, fazem minhas entranhas se contorcerem.

Uma coisa sobre mágoas antigas: elas podem até perdurar, mas nunca têm a mesma força de quando são recentes. Meu corpo se preocupa somente com o que está sentindo agora, com os desejos que me invadem pela primeira vez em décadas, ignorando completamente todos os protestos do meu cérebro.

— Algumas coisas não mudam — respondo, amarga.

E, sem entender o porquê, ofereço a garrafa a ele.

Ele a pega sem questionar e se senta ao meu lado antes de tomar um gole.

— Que situação a gente se enfiou — diz Deen em voz baixa.

— É — respondo, sem conseguir rebater. Eu tenho muita responsabilidade em tudo o que aconteceu, então não posso simplesmente culpá-lo. — Você sumiu. Achei que estava morto. Sabe… depois que você atrapalhou o ritual e tudo o mais.

— No final eles conseguiram o que queriam — ele dá de ombros. — Sooga queria a minha morte sim, mas não conseguiu convencer Mike. E Mike disse a ele que se eu aparecesse morto, ele seria o próximo, então… — ele bebe mais um grande gole do whiskey.

Ficamos em silêncio, desconfortáveis.

— Por que você se juntou a eles, Deen? — faço a pergunta que me consome há tanto tempo.

Viro o rosto em sua direção, procurando por respostas nas linhas em seu rosto. Ele me encara, hesitante, as sobrancelhas baixas e os olhos inquietos.

— Faz diferença, Impa? — questiona, mas em sua voz há um tom de súplica. Como se ele tivesse esperança de que sim, o motivo faz diferença para mim.

Mas não faz.

As razões que o levaram a cometer tantas atrocidades não mudam o fato de que atrocidades foram cometidas. Não existe nada que ele possa dizer que justifique tudo o que aconteceu.

Então, em meio segundo, a dúvida que me atormentou por quase 20 anos perde a importância. E eu apenas aceno negativamente, desistindo de saber a resposta.

Ele aquiesce tristemente, como se esperasse por isso.

— É melhor eu ir embora — ele faz menção de se levantar.

Mas algo aconteceu quando seus motivos deixaram de ter importância para mim. Junto com eles, também morreu algo que eu não sabia que ainda carregava comigo: expectativa. Expectativa de que poderíamos, de alguma forma, mudar o passado, reescrever a história. De que existia alguma esperança de nos reconectarmos, ficarmos juntos, envelhecermos lado a lado.

E, de alguma forma… abrir mão de tudo isso faz doer menos. Sem esperar nada dele ou de nós, eu me sinto leve. E ali, no meio daquela cidade fantasma em um reino reduzido a ruínas, eu me permito enxergá-lo como um antigo conhecido com quem eu posso trocar histórias e lembranças, sem pensar em algum possível futuro.

Já faz muito tempo desde que eu conversei com alguém pelo simples prazer de falar.

Então eu toco em seu pulso, segurando-o.

— Não — peço. — Fica.

Ele me olha, confuso.

— O pessoal de Kakariko só sabe falar de galinhas e abóboras — resmungo, rindo. — Eu não aguento mais.

Pego de surpresa, Deen gargalha.

E conversamos como se tivéssemos nos visto pela última vez ontem. Em um acordo não-falado, não tocamos nos assuntos “Sheikah”, “Yiga”, “Ganon” ou traições. Relembramos momentos felizes dos nossos anos juntos, da nossa antiga rotina, de quando eu era uma recém-chegada em seus treinos no exército.

Rimos juntos do desespero de Ammi sempre que precisava treinar com alguma arma. Relembramos da preguiça de Purah para qualquer coisa que requeresse esforço físico, dos absurdos que ela falava quando bebia uma cerveja a mais, constrangendo a todos nós com suas histórias extremamente detalhadas de relacionamentos pré-Robbie.

— Sinto falta daquela cerveja preta — digo, sonhadora.

— Pessoas? Sociedade? Progresso e tecnologia? Não, senhoras e senhores, ela sente falta de se embriagar — ele anuncia, rindo, para o nada.

Eu estendo a garrafa de whiskey para ele novamente, rebatendo seu argumento.

— Eu não sinto falta de ficar bêbada, é do gosto da cerveja.

— Eu sinto falta do seu gosto — ele flerta por instinto, seu tom dividido entre piada e seriedade.

Meu ventre se contrai e eu mudo de assunto, voltando pro tópico dos treinos.

— Tinha necessidade mesmo de 200 abdominais para abrir o treino? — reclamo, me lembrando de sua exigência absurda na época.

— Não, eu só gostava de te ver suada e gemendo com o esforço — ele rebate, sacana.

Dou um tapa em seu braço, repreendendo-o.

— Não vai começar com isso de novo — ralho, mas minha voz falha ao sentir seus músculos sob meus dedos.

— Com o quê? — sua voz carregada de uma falsa inocência. — Estou apenas brincando com uma antiga colega.

Dou risada, me lembrando do dia em que ele me falou algo extremamente parecido em uma situação semelhante. Entendo que ele fez de propósito para aliviar a tensão que se formava entre nós.

— Você tem um caderno onde anotou todas as nossas interações, por acaso? Vai repetir tudo o que me disse naquela época?

— Eu nunca me esqueci de nada relacionado a você, Impa — ele diz com um sorriso triste, olhando para as próprias mãos. — Você se esqueceu de mim? — ele me olha, resignado. — Eu não te culparia.

— Eu tentei — admito, o whiskey falando por mim. — Pensar em você… dói. Eu tento me fechar e ignorar as lembranças para sobreviver… mas eu me lembro de tudo. E sinto sua falta. Você me entendia… você me via. Ou, pelo menos, eu pensava que sim.

— Impa, eu…

— Não, Deen. Não faz diferença, lembra? — digo, fitando seus olhos.

Ele acena, triste.

Me distraio com a visão de seu novo cabelo, tão diferente das longas madeixas brancas que ele costumava ter antes. Levo meus dedos até ele, bagunçando-o.

— Preferia antes — reclamo.

— Branco é associado aos Sheikah e…

— Não a cor. O comprimento — desço meus dedos para sua nuca, insatisfeita em não conseguir enroscá-los nos fios curtos ali, como eu costumava fazer antes.

Mas, independente disso, eu me puxo para perto, colando minha boca na sua.

Deen é pego de surpresa. Ele não esperava que eu fosse ceder às suas brincadeiras e flertes. Mas ele nem precisava de esforço — no segundo em que ele apareceu diante de mim, eu já sabia que ia acabar acontecendo.

— Impa? — ele sussurra contra meus lábios. — Você disse… eu pensei que…

— É só sexo, Deen — digo, descansando minha testa contra a sua com os olhos fechados. Minhas mãos estão em seu pescoço e eu sinto seus ombros caindo.

Mas ele parece decidir que ainda assim é melhor do que nada e me ataca, seu corpo me derrubando contra o chão, sua boca tomando a minha como se eu fosse água e ele tivesse acabado de atravessar um deserto.

A urgência que nos invade é imensurável. Nos tocamos com uma mistura de desejo e ódio, necessidade e rancor. Eu o arranho forte o suficiente para deixar marcas, e os sons de prazer que ele solta me fazem derreter em seus braços. Ele me explora com a veneração de quem descobre algo novo, mas suas mãos me conhecem bem demais e sabem exatamente como me tocar.

Começa no pequeno colchonete que eu estendera no chão. Termina em alguma superfície qualquer, pois nos aproveitamos de todas disponíveis em nossa busca insaciável por novas maneiras e posições para saciar o desejo de vinte anos em uma única noite.

Eu senti falta do seu corpo, das suas mãos, da sua boca, de como ele me invadia me fazendo completamente sua. Mas o cerne da minha saudade eram seus olhos. O desejo com que ele sempre me encarou em nossos momentos íntimos, a admiração que os inundava por qualquer coisa que eu fazia ou dizia, o brilho de alegria neles quando eu chegava em casa ao final do dia.

E quando eu me vejo em seus olhos enquanto nos entregamos um ao outro, eu me amaldiçoo por ter entendido tudo tão errado.

Não é só sexo.

Nunca foi.

E isso vai doer demais amanhã.

Depois de horas, o céu começa a clarear com o raiar de mais um dia. Deen está deitado no chão, e eu sobre ele. Nossas roupas, meu uniforme azul e o dele, vermelho, jazem largados em algum lugar da praça.

Suas mãos passeiam pelo meu cabelo, minha cabeça descansa sobre seu peito. Ele levanta a sua para beijá-la, e o carinho é mais do que eu consigo suportar. Meu coração se aperta, meus olhos se enchem de lágrimas e eu soluço, incapaz de evitar o choro.

Ele não diz nada; não existe o quê ser dito.

Mas eu digo ainda assim:

— Por quê? Por que teve que ser assim, Deen? — indago, indignada, com a respiração entrecortada.

Deen continua em silêncio. Mas sinto seu torso tremendo, e quando levanto meu olhar noto que ele também está chorando. Ele se senta, me mantendo em seu colo, para que consigamos nos aconchegar melhor um contra o outro. Ele esconde seu rosto em meu pescoço e eu no dele.

Existe algo curativo em chorar nos braços de alguém.

Chorar sozinho é como uma morte lenta. Amplifica a solidão, sufocando, abrindo feridas na alma.

Chorar nos braços de alguém que te conforte é um expurgo. Junto com as lágrimas, saem as dores, os medos, as ansiedades.

Chorar nos braços de quem está sentindo a mesma dor que você, te restitui a quem você realmente é. Te traz clareza, compreensão, aceitação. Mesmo que apenas por um ínfimo momento. Ao dividi-la, você a integraliza, a entendendo em toda a sua dimensão.

E, por mais que eu ainda não ache justo que tenha que ser assim, eu sinto gratidão por tê-lo tido em minha vida. Foi por causa dele que eu me encontrei.

Nossa lamúria é um luto pelo passado findado, pelo futuro negado, pela crueldade do destino em fazer da nossa separação uma escolha, e não uma imposição.

Eventualmente nos acalmamos. Nos vestimos em silêncio. Ele me abraça uma última vez e se abaixa para dar um beijo casto em meus lábios. Então parte, de volta para seja lá de onde foi que ele saiu.

Não existe mais nada para nós.

Ou era isso o que eu achava, pelo menos.

Notas finais
Oie! Primeiramente, obrigada por ter lido até aqui! Espero muito que você esteja curtindo a história até agora :) Esse capítulo foi muuuito inspirado na música “Última vez” do Tim Bernardes (daí o título dele). Na verdade, esse enredo todo começou por causa dela; mais ou menos na mesma época em que eu estava cozinhando a ideia de escrever uma fanfic detalhando a história da Impa — que eu já tinha pincelado no capítulo 4 de A coragem de encontrar-me —, eu descobri essa música. E fiquei com uma coceira imensa de escrever uma história sobre esse casal da canção. No final, acabei juntando as duas ideias… e Sheikah nasceu. Deixo aqui o link dessa maravilha: https://www.youtube.com/watch?v=nz_zPrUdGVg Novamente, muito obrigada por estar aqui!! Até semana que vem! :D