She is Only 18
3 Capítulo 3 - Music is my aeroplane
Diana’s POV.
Saí do campus ainda em dúvida sobre como me sentia a respeito da amizade entre Josh e Ben. Não, eu não estava com ciúme, eu só não sabia como agir perto dele. Eu não era fã dele, nunca o tinha escutado tocar guitarra e só o conhecia pelas colaborações em alguns trabalhos do John. Achei genial, mas na minha opinião suspeita, qualquer músico ficava ofuscado perto do John, então nunca prestei verdadeira atenção ao trabalho do Josh. Mas ainda assim ele era o guitarrista da minha banda favorita. Eu nunca imaginei estar tão próxima assim dos meus ídolos, embora não considerasse nem de longe a possibilidade conhecer o restante da banda. Já parecia uma espécie de milagre eu ter encontrado o Josh em circunstâncias jamais imaginadas.
Estava pensando nisso quando cheguei em casa e resolvi, mais uma vez, deixar os meus freelas em segundo plano. Fui direto para o quarto com a intenção de praticar guitarra, estava ficando muito boa. Tinha John Frusciante como mentor principal, mas John foi inspirado por Jimi Hendrix, então também estudava as técnicas dele. Também era muito fã de Hillel Slovak, primeiro guitarrista dos Peppers, e do David Gilmour, guitarrista e vocalista do Pink Floyd. Foi com a intenção de tocar alguma música psicodélica que entrei no quarto. E mordi o lábio sentindo uma profunda irritação.
A minha guitarra não estava lá. E, é claro, eu não a havia simplesmente esquecido em algum lugar. Tinha cem por cento de certeza de que Benjamin tinha entrado em meu apartamento e pegado a guitarra, uma vez que ele tem as chaves e entra sempre que quer. Só não sabia como não havia notado a ausência dela antes. Então me ocorreu que talvez Benjamin tenha mandado alguém vir buscar a guitarra enquanto eu estava na universidade. O meu amigo era especialista em planos de sabotagem e eu era a sua vítima favorita. Geralmente eu não me importava com isso, mas naquele dia eu estava particularmente irritada, então decidi ligar para ele e reclamar a minha guitarra de volta.
O telefone chamou várias vezes, me deixando ainda mais furiosa. Eu tinha certeza absoluta de que naquele momento, Ben estava olhando para o visor do celular e rindo de mim. No oitavo toque, ele atendeu.
— Minha preciosa Diana, a que devo a honra da sua atenção?
— Quero a minha guitarra de volta. – fui bastante direta. Ele estalou a língua do outro lado da linha.
— Ah, isso. Sabe o que é, Di, é que o Josh só trouxe roupas na bagagem, e ele estava morrendo para tocar guitarra, então peguei a sua emprestada. – a voz dele era carregada de cinismo.
— Você tem pelo menos umas cinco guitarras diferentes na casa da Barra, Benjamin, e eu aposto a minha cabeça de que é exatamente onde você está agora. Se queria que eu fosse até aí, por que não me chamou simplesmente?
Ele deu uma risadinha.
— Você não teria vindo. Josh está aqui, Daniel também, que tal um ensaio?
Eu deveria saber. Mordi a língua para não falar besteira e fiquei assim até ele me chamar atenção.
— Diana? Foi se enforcar com o chuveirinho do banheiro?
— Vamos fazer de conta que eu achei isso engraçado e que estou morrendo de rir. Venha me buscar, nem morta eu pegarei ônibus até aí. – não esperei ele responder e desliguei o telefone.
Se eu bem conhecia o Benjamin, ele ia demorar um tempo considerável para chegar na minha casa devido a dois fatores: 1) o trânsito caótico do Rio de Janeiro, uma vez que morávamos no bairro de Laranjeiras, que ficava a uma distância considerável da Barra, 2) o maior prazer de Ben consistia em ser completamente irritante, então ele ia fazer questão de me deixar esperando por um bom tempo. Mas dessa vez ele se decepcionaria, eu ia usar esse tempo para tomar um banho demorado e preparar um lanche. Não havia comido nada desde às cinco da manhã e estava faminta.
Benjamin chegou exatamente duas horas depois do telefonema e estava parado na porta do meu apartamento em uma pose extremamente charmosa. Para todos os efeitos, ele era o cara mais lindo que eu já havia conhecido, e nem mesmo Daniel o vencia nesse quesito, mesmo sendo mais alto, mais forte, mais velho e mais suportável.
Ele tinha aqueles cabelos maravilhosamente lisos e quase brancos de tão loiros e olhos azul-escuro, da cor do céu depois do pôr do sol. Quando nos conhecemos eu passava tempo demais me perdendo naqueles olhos, o que me fez pensar, durante muito tempo, que era apaixonada por ele. Mas descobri que era somente admiração, e nada além de amizade jamais existiu entre nós.
Ele me fitava com cinismo no olhar e eu retribuí com um olhar desafiador. Depois a pose dele se desmanchou e ele sorriu. Sorriu de verdade, sem cinismo. Abriu os braços e para lá eu fui, me xingando mentalmente. Era impossível odiá-lo. Abracei-o com carinho.
— Não fique muito satisfeito, ainda temos muitas contas a acertar. – eu disse. – Quando ia me dizer que seu melhor amigo é o guitarrista da minha banda favorita?
— Você nunca perguntou. – ele respondeu, rindo.
— Previsível. – eu disse, dando um beliscão no braço dele.
— Então, pronta para o nosso ensaio? Você devia levar roupas, vamos passar o fim de semana na casa da Barra.
Gemi. Como eu ia conseguir passar um fim de semana inteiro perto de Josh? Por alguma razão estranha, aquele cara me deixava nervosa, e não era só pelo fato de ele ser famoso. Por sorte, Daniel estaria lá. Eu não ia ficar sozinha.
Arrumei uma mochila com as minhas coisas e entrei no carro com um bico gigante. Para a minha surpresa (e um pouco de desagrado), Josh estava sentado no banco de trás..
— Oi, Diana. – ele me cumprimentou.
— Ah, oi, Josh. Imaginei que estaria na Barra. Sabe, usufruindo da minha guitarra, uma vez que não havia nenhuma outra que o Benjamin pudesse emprestar a você. – eu disse entredentes, lançando um olhar acusador para Ben, que riu.
— Se eu soubesse que o Benjamin ia fazer isso, não teria deixado. Me desculpe.
— Não se preocupe com isso, o alvo da minha fúria está sentado ao volante.
— Bom, querida, então sugiro que você guarde a sua fúria para quando eu não estiver mais sentado ao volante, certo?
Rimos. Foi menos desconfortável dessa vez, eu já sabia o que esperar. E Josh de alguma maneira parecia se sentir culpado, tentando me fazer sentir à vontade, mesmo que Benjamin fosse o real culpado das situações constrangedoras. Conversamos sobre o que íamos tocar durante o caminho até a casa/estúdio e sugeri que tocássemos algumas das músicas que ele compôs com John.
Chegando lá, Daniel estava montando a bateria e sorriu ao me ver. Fui abraçá-lo, fazia algumas semanas que não o via. Ele era empresário e viajava bastante. Eu ficava muito alegre quando ele estava em casa, isso significava mais ensaios. Às vezes ele nos ajudava a compor alguma coisa. Me sentia extremamente culpada por não querer comercializar a nossa música, uma vez que estava negligenciando minha real profissão e só tinha um emprego graças ao Daniel, que por pura caridade me contratou para o setor de marketing da empresa dele.
Daniel terminou de montar a bateria, eu afinei a minha guitarra, Josh afinou a que Benjamin emprestou a ele e Ben testava o baixo e os microfones. Rabiscamos um setlist básico eu praticamente implorei para que tirássemos “The Sides”, do Ataxia, para o ensaio. Josh ajudou Daniel com a bateria da música, enquanto eu relembrava os solos da guitarra. Ben fazia bico, ele sempre foi preguiçoso para pegar músicas, mas em compensação tocava com mais empolgação do que todos juntos quando o fazia.
Tocamos a noite inteira, e revezávamos garrafas de Heineken entre uma música e outra. Sob efeito do álcool eu me sentia menos desconfortável perto de Josh e me comunicava mais facilmente com ele. Mas ele bebia pouco. Eu não estava bêbada, mas estava mais solta. E Josh parecia observar cada gesto meu, prestava atenção desnecessária a cada palavra que eu dizia.
Daniel se recolheu cedo, ele tinha acabado de voltar ao Rio e estava cansado. Benjamin bebeu mais do que todos e saiu resmungando palavras ininteligíveis e não retornou. Perguntei-me se ele fez isso de propósito para me deixar sozinha com Josh, mas apesar das armações, ele nunca tinha dado uma de cupido antes. As sabotagens de hoje só consistiam em me ver irritada por ele nunca ter mencionado Josh.
— Acho melhor eu ir ver se ele está bem. – Josh saiu da sala, um pouco nervoso, e foi até o quarto de Ben, mas não demorou a voltar. – É, ele apagou na cama.
— Você quer ir dormir agora? – perguntei, me arrependendo imediatamente. Geralmente qualquer pessoa acharia que eu estava sugerindo alguma coisa, mas eu só ia chamá-lo para tocar mais música.
— Não. – ele respondeu tranquilamente, sem parecer ter pensado o que eu pensei. – Não durmo cedo.
Levantei-me e busquei a minha guitarra. Eu nunca, jamais a tinha emprestado a ninguém. Nem mesmo a Benjamin, afinal ele nunca precisou dela. Entreguei-a a Josh.
— Bom, geralmente ninguém além de mim toca essa guitarra. Ela não é nenhuma Fender Stratocaster 1962, – ele deu uma risadinha à menção da guitarra do John. – mas eu sinto um ciúme imenso dela. Então... Considere esse um gesto de amizade e confiança.
Ele sorriu e parecia maravilhado com o gesto. Pegou a guitarra com delicadeza, como se pegasse um filhote nos braços, o que me comoveu. Ele levou a sério o que eu disse.
— Por que está fazendo isso?
Suspirei.
— Você é o melhor amigo do meu melhor amigo. E os meus ídolos, eles confiam em você.
Eu jamais teria dito isso se estivesse sóbria. Mas fiquei feliz de tê-lo feito. Josh pareceu muito tocado com aquelas palavras, e seus olhos brilhavam.
— É bom saber que uma fã tão dedicada do John confia que eu vá fazer um bom trabalho no lugar dele. – ele fez uma careta que me fez rir. – É um pouco assustador.
— Você vai ficar bem. Vi você tocar hoje. Você vai ficar bem. – repeti, pois não tinha palavras adequadas para dizer o que eu queria sem que parecesse que eu o estava tietando.
— Tem uma música – ele se levantou para pegar uma palheta em cima do amplificador. – que eu queria que você cantasse.
— Qual? – eu perguntei, indo até o microfone, sentindo-me insegura de repente.
— If. Para mim, é uma das músicas mais simples e mais geniais do Stadium Arcadium. John fez um trabalho lindo nela.
Sorri. Eu concordava inteiramente com ele, essa música sempre me levou para lugares em que só uma boa música conseguia me levar.
— Sou bastante insegura com a minha voz. Não vou conseguir cantar. Nunca consigo atingir o tom dessa música.
— Não tem problema, Diana. – ele sorriu. – Vou cantar com você.
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