Capítulo 30 – Destiny

O que o acordou naquela manhã não foi o despertador ou o Sol em seu rosto e sim uma súbita sensação de que algo estava errado. Rumple se sentou em sua cama, não havia luz o suficiente para que iluminasse seu quarto, de modo que ele esperou alguns minutos para que seus olhos se adaptassem a escuridão. Ele passou as mãos pelos cabelos, percebendo o quanto eles estavam suados e enfim se levantou, caminhando em direção ao único espelho que havia em seu quarto.

Ele encarou seu reflexo, seu rosto ainda marcado pelo sono e seus olhos fundos e distantes, resultado de uma noite mal dormida. Como um clique no fundo da sua mente, ele se lembrou de algo, que até então pensava que jamais lembraria.

Ele se lembrou de Selene, na floresta encantada, do primeiro encontro que os dois tiveram anos atrás. Ele se lembrou do livro, que havia lhe dado todas as instruções para encontrar o seu filho. Ele se lembrou de Marōn, se lembrou de como o havia criado e de como havia manipulado a todos para que o seu plano desse certo.

Seu coração acelerou, quando ele se deu conta de todas essas informações. Ele respirou com dificuldade, olhou ao redor, atônito, procurando por uma forma de esquecer tudo o que agora ele sabia. Era tarde demais. Ele se lembrava de tudo e isso significava que o fim estava próximo. Não tardaria o momento em que ele precisaria do coração de Selene e, então, ela deixaria esse mundo.

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Selene havia acordado mais cedo que todos naquela manhã. Na verdade, ela mal havia dormido e agora se encontrava descendo as escadas em direção a cozinha. Ela encontrou Emma e Henry, abrindo as portas do armário da cozinha, procurando por algo. Sobre o balcão da cozinha havia uma cesta de piquenique. Henry foi o primeiro a se virar e notar a presença de Selene, que sorriu para o garoto.

“Vocês madrugaram hoje.” Ela respondeu, se aproximando dos dois e observando os lanches que eles haviam preparado.

“Nós vamos sair hoje.” Respondeu Henry. “Nós três. Emma pensou em fazer algo especial pra minha mãe.” O garoto continuou e apontou para cesta sobre o balcão.

“Parece ser algo especial.” Selene disse, encarando Emma, que corou com a observação. “Talvez você devesse deixar elas irem sozinhas, o que acha, Henry? Nós poderíamos fazer algo junto. Você e eu.” Ela continuou, se virando para o garoto e olhando rapidamente para Emma, que parecia feliz com a sugestão.

“Mas eu já ajudei a preparar tudo.” Disse o garoto, em um tom frustrado e pensou pensar a respeito, antes de continuar a falar. “Bem, tá certo, acho que eu posso ir na próxima vez.” Ele completou, colocando dois sanduiches dentro da cesta e ficando com um para ele. “Mas eu quero planejar o que faremos hoje, pode ser?” Ele continuou, Selene assentiu e o observou sair da cozinha, deixando Selene a sós com sua mãe.

“Obrigada.” Emma respondeu, terminando de preencher a cesta com outros lanches. “Eu amo meu filho, mas desde que passamos a morar aqui com Regina, eu quase não tenho um tempo sozinha com ela. Tirando a noite, mas essa semana foi tão agitada e nós estávamos tão exaustas, que tudo o que fizemos foi cair na cama e pegar no sono.”

“Eu entendo.” Selene respondeu. “Bem, hoje você a tem só para você, aproveite seu final de semana.” A garota continuou e roubou um sorriso da loira que continuou o que estava fazendo, permitindo que Selene tomasse seu café da manhã.

Depois disso, Selene se dirigiu até o seu quarto, encontrando Regina, que descia as escadas e a parou, a fim de perguntar como ela estava.

“Eu estou bem.” Selene respondeu, não parecendo muito confiante. Regina deu um meio sorriso e olhou ao redor, como se quisesse ter certeza de que ninguém estava ouvindo a conversa das duas.

“É que hoje será Lua Cheia, eu me pergunto como está seu emocional.” Regina disse, Selene respirou fundo e desviou o olhar, pois desde que levantara, ela estava tentando não pensar nisso, mas era inevitável. De modo que ela enfim respondeu o que passava em sua mente.

“Eu não posso dizer que estou 100% tranquila.” Respondeu Selene. “Eu não sei, uma parte de mim confia que Marōn não me fara mal algum, mas outra parte, não consegue parar de pensar no que ele poderá fazer comigo, se ele de fato conseguir cruzar a fronteira.”

Regina estava parada em um dos degraus, com os braços cruzados em frente ao corpo, prestando muita atenção ao que Selene falava. Assim como a garota, Regina também estava preocupada e queria poder fazer mais do que havia feito até agora.

“Talvez você não devesse sair hoje. Devíamos ficar aqui em casa essa noite e nas próximas. Eu posso lançar um feitiço de proteção na mansão, ficaremos bem.” Regina disse, fazendo Selene sorrir e buscar pela mão da prefeita, como se estivesse tentando acalma-la.

“Eu agradeço a preocupação e não vou dispensa-la, mas temos o dia inteiro antes da Lua Cheia e Emma preparou algo especial para vocês, não vou te privar disso.” Selene respondeu, fazendo Regina franzir o cenho.

“Emma preparou algo especial, foi? Aposto que tem a ver com fritas ou donuts.” Regina respondeu

“Não faça pouco caso da criatividade da sua namorada ou da vontade dela de te agradar, Regina.” Observou Selene e se despediu dela, a observando descer as escadas, enquanto ela voltava para seu quarto. Henry apareceu minutos depois, com uma mochila nas costas e um papel nas mãos.

“Eu já sei o que faremos hoje.” Henry respondeu, entregando a ela o papel. Ela olhou para o desenho que ele havia feito e o encarou, visivelmente confusa. “É só um esboço, precisa de algum aperfeiçoamento.” Ele explicou.

“Para onde isso leva?” Ela perguntou.

“Agora? Para lugar nenhum, mas a ideia é que ele te leve para um tesouro.”

“Um tesouro meu?” Perguntou a garota.

“Sim.” Ele respondeu. “Eu estava pesando, eu entendi que sua estadia aqui é provisória, não precisa ser nenhum gênio para entender que depois que o bebê nascer, você irá embora. Então eu estive pensando.” Continuou o garoto. “Que talvez você devesse deixar algo para Dorothy, para quando ela estiver maior, o que acha?”

Selene sorriu com a ideia, enquanto analisava o desenho e pensava no que poderia deixar para Dorothy.

“Podemos ir até a floresta, eu já preparei nossos lanches e tenho água, lanternas, bussolas e mapas.” Ele disse, rapidamente, como se Selene precisasse de algo a mais para ser convencida.

“Eu gostei da ideia.” Ela respondeu, devolvendo o mapa para o garoto. “Eu vou me arrumar e vou ligar para Rumple, para ele levar nós dois. Não vou me meter dentro de uma floresta sozinha com você.” Ela respondeu e antes que o garoto pudesse protestar, ela continuou. “Eu sei que temos bussolas e mapas e eu confio na sua qualidade como explorador, mas vamos prezar a segurança, pode ser?” Ela continuou; bagunçando os cabelos do garoto, que concordou, mesmo não estando feliz com a ideia e saiu do quarto para que Selene pudesse se arrumar.

Ela não demorou muito para se aprontar e poucos minutos depois do seu encontro com Henry, ela estava prestes a descer as escadas, quando um barulho alto, como um assobio, vindo do quarto de Regina chamou sua atenção. Ela parou onde estava, com a mão ainda no corrimão, a atenção voltada para o fim do corredor que dava acesso ao quarto de Regina.

Ela sabia que Regina e Emma já haviam saído, pois tinha escutado o som do carro de Regina minutos antes, de modo que não podia ser nenhuma delas. Ela hesitou um pouco, pensou em descer as escadas, ignorando então o assobio, mas havia algo que a instigava a querer desvendar tal mistério.

De modo que, lá estava ela, diante da porta do quarto de Regina, girando a maçaneta e percebendo que o assobio agora era mais alto e mais irritante. Ela olhou ao redor do quarto vazio, procurando descobrir de onde vinha tal som. Ela não soube explicar o que sentiu, quando enfim seu olhar foi em direção a cômoda de Regina.

Ela se aproximou, ignorando o quão alto era o assobio e abriu a primeira gaveta, encontrando então o livro que ela tão bem conhecia. Suas mãos foram rapidamente até ele, o tirando da gaveta, enquanto o assobio agora cessava de súbito, dando lugar ao silencio. Ela o abriu, mal conseguindo controlar a ansiedade e as próprias batidas do seu coração, que agora eram acelerados demais, a fazendo arfar, enquanto ela folheava o livro completamente vazio. Ela o fechou, frustrada, colocando-o sobre a cômoda e perguntando o que diabos havia acontecido, quando então notou seu próprio reflexo no espelho da cômoda e atrás dela a figura de uma mulher.

“Ester.” Disse Selene, para a mulher ali no quarto, parada próxima a cama de Regina, que levantou uma mão em direção a Selene, impedindo que ela se aproximasse.

“Você está prestes a cumprir o seu destino, Selene.” Disse Ester, Selene negou com a cabeça, mas não teve a chance de discutir, pois Ester voltara a falar. “Eu sei que você não escolheu a sua vida agora, ela foi consequências das suas escolhas no passado. Assim como eu também sei que se você pudesse, você mudaria cada linha da sua vida, não é mesmo?” Ester perguntou, um sorriso surgindo em seus lábios, esperando então a resposta de sua pergunta.

“Eu não sei.” Respondeu Selene e as duas se encararam, uma tentando entender o que passava na mente da outra. “Uma parte de mim se arrepende de todos os meus erros e a outra parte é grata por todas as pessoas que cruzaram meu caminho. É como se elas dessem um sentido para tudo o que eu sou hoje. Quando eu era Selene, a deusa, eu não era nada. Eu era apenas essa figura adorada por muitos e temida por poucos. Aqui, sem essa identidade, eu sou mais do que isso. Eu sou uma mãe que teve a chance de ver sua filha se tornar uma mulher. Eu sou uma estrela cadente, que trouxe esperança para muitas pessoas. Acima de tudo isso, eu sou eu mesma. Alguém que nada tem de divino. Com milhares de erros nas costas, que de alguma forma me torna humana. Algo que um dia eu desejei ser e, hoje, eu entendo o preço desse desejo.”

Ester sorriu, um daqueles sorrisos enigmáticos, que conseguiam deixar Selene desconfortável. Seu olhar, tão enigmático quanto seu sorriso, fazia com que Selene quisesse desviar seu próprio olhar, mas não o fez. Ela apenas esperou que Ester dissesse algo.

“Eu observei os humanos durante anos.” Disse Ester, depois de alguns segundos em silêncio. “Eles estão constantemente preocupados com o futuro, sempre presos ao passado e nunca aproveitando o presente. Tão inteligentes e complexos, mas incapazes de perceber que tudo no mundo é passageiro. Suas existências não se limitam a tudo o que eles querem ter ou ser, mas em tudo o que eles poderiam se tornar. As pessoas tentem a se prender dentro de si mesmas, a ponto de se perderem e nunca descobrir quem de fato elas poderiam ser. Entende o que eu quero dizer, Selene?” Perguntou Ester, se aproximando da garota, a fim de não deixar nenhuma distância entre as duas.

“Você está dizendo que eu não me conhecia antes.” Ela respondeu a Ester, que sorriu para ela satisfeita.

“Exatamente. Para se encontrar as vezes nós temos que nós perder, usando outras pessoas como estradas. Se permitindo perder a si mesma, até chegar a um ponto onde o outro te deixa em um caminho qualquer, que você nunca poderia chegar sem a ajuda de outra pessoa. Você se perdeu muito, Selene, mas também levou muita gente até onde eles deveriam estar. Você foi uma estrela guia, há muitas pessoas assim no mundo. Assim como existem pessoas que são como estrelas cadentes, que cruzam os céus de nossas vidas e que precisam de apenas alguns segundos para se tornarem importantes. Como também existem pessoas meteoros, que chegam e deixam um enorme desastre dentro de nós. Também existem as pessoas estrelas, que estão sempre ali, mesmo quando não podemos vê-las. Elas estão sempre conosco, nos vigiando de alguma forma. Às vezes, nós esquecemos do quanto elas são importantes, mas quando chega a escuridão e nós estamos sozinhos, nos sentindo perdidos. Bem ali, na escuridão, elas se fazem presentes. Raríssimas são as pessoas que conseguem ser estrelas para os outros. Mais raríssimo ainda, são aquelas pessoas que possuem estrelas em suas vidas.”

Selene tinha seus olhos fixos na mulher a sua frente, enquanto absorvia cada palavra que ela falava. Ela respirou fundo, pensou em dizer algo, mas nunca teve a chance. Ester desapareceu em sua frente, como se nunca tivesse estado ali, deixando Selene sozinha, refletindo sobre tudo o que ela agora sabia. Sua história nada tinha a ver com o que ela era ou sobre quem ela conhecia e amava, tudo era grande demais, maior que tudo o que seus olhos podiam ver. Sua história se cruzava com a de muitas outras. Provando que a vida nada tem a ver com aqueles que amamos e deixamos para trás, mas sim sobre aqueles que ainda não conhecemos e que passamos a vida inteira esperando para que nossos caminhos sejam enfim cruzados.