She Falls Asleep

16 Capítulo 16


Notas iniciais
A dedicação desse capítulo vai inteiramente para minha amiga Anne, de user "LOLITA" aqui no Nyah. Sem o incentivo dela, não teria feito um capítulo nem com a metade da qualidade desse aqui. Ah, e além de tudo, Anne tb é uma grande escritora! Vão ler as fics dela! (Também Percabeths, hehe).

Annabeth caminhou lentamente até os fundos do majestoso quintal do Palácio de Buckingham, na direção dos estábulos, encolhendo-se contra seu casaco de lã bege. Suas mãos tremiam de frio e ansiedade, mas prosseguiu determinada. Como a maioria dos dias londrinos, o céu estava nublado e ameaçava chover, e a moça perguntou-se se o clima em Nova York era mais ensolarado. Sempre havia adorado a chuva londrina, e como o céu estava quase sempre nublado. Nunca havia saído do país, aliás, nunca havia saído da cidade, e o pensamento de viver sozinha em um continente completamente diferente e distante a assustava mais do que gostava de admitir, até mesmo para si mesma.

- Ei, Annie. — Nico estampou um sorriso quando a avistou, e Annabeth sentiu o coração cair em seu peito. Ia sentir tanta falta dele...

- Você parece cansado. — Annabeth fez o seu melhor para parecer ao menos contente, mesmo sabendo que logo, não haveria mais como esconder sua tristeza dele e teria que falar a verdade. — Provavelmente trabalhando mais do que o necessário, não é? — Levantou uma sobrancelha loira e riu quando Nico deu de ombros em concordância, sentando-se em um monte de feno e afofando o espaço ao seu lado para que ela também se sentasse, e assim o fez.

Desde que ambos se mudaram para o palácio, Annabeth e Nico continuaram conversando normalmente; ela iria até os estábulos no seu tempo livre, e algumas vezes, os dois passavam horas conversando, mas o pedido de casamento de Nico nunca mais fora mencionado. Depois de muitas discussões internas, Annabeth decidiu que não seria justo que ele soubesse por meio de terceiros que ela havia partido, depois de tudo que ele havia feito por ela. Não sabia quais eram os planos de Percy — ainda — mas se já havia se despedido de seu amado, era apenas justo que dissesse adeus ao seu querido amigo. Nico não fazia ideia do que havia acontecido na festa com Luke Castellan, e Annabeth queria protegê-lo da verdade: Percy havia quase ficado louco quando soube o que acontecera com ela, e ela não queria causar mais sofrimento a ninguém; já havia feito tantos chorarem por ela, sofrerem com ela, e sentirem pena dela...

- Escute, Nico... — Annabeth respirou fundo, colocando sua mão pequena sobre a dele. — Sei que já abusei muito da sua paciência e de sua gentileza, mesmo que negue, sabe que é verdade. — Ela sorriu. — Já faz quase quatro quinzenas desde que me pediu em casamento, e eu prometi lhe dar uma resposta honesta assim que tivesse uma. De qualquer forma, peço desculpas por demorar tanto tempo.

- Não se preocupe com isso. — Nico balançou a cabeça, mas Annabeth conseguia perceber os sinais de ansiedade em seus olhos escuros.

- Você tem que aceitar minhas desculpas, Nico. — Annabeth insistiu, apertando um pouco a mão do moço debaixo da sua. — Tem de aceitá-las porque fiz você acreditar que eu não tinha uma resposta e que estava pensando em uma durante todo esse tempo. — Justificou-se, mas Nico apenas balançou a cabeça novamente, fazendo com que Annabeth soltasse um pequeno suspiro. Para ele, ela sempre havia representado a perfeição, um ser incapaz de cometer erros ou de magoá-lo. De forma ou outra, ela estava prestes a partir seu coração, pouco o pobre Nico saberia. — Na verdade, eu sempre soube o que lhe responder. — Annabeth murmurou tristemente. — Desculpe, Nico. Não posso me casar com você. Seria injusto... Sei que quer cuidar de mim, mesmo que eu esteja apaixonada por outra pessoa, mas... Você é um bom homem. Também sei que um dia, encontrará alguém que o ama, e você a amará também, como me ama agora. — Lambeu os lábios antes de continuar a falar, vendo que Nico absorvia a sua resposta lentamente. — Por isso, Nico, por favor, me perdoe. Perdoe-me por ter feito você acreditar que havia uma possibilidade de que eu fosse me casar com você... Perdoe-me.

Annabeth enfim pôs-se em silêncio. Se queria uma resposta de seu amigo, deveria deixar que ele ao menos pensasse sobre o que ela havia lhe dito. Desde que ele havia feito o pedido de casamento, ela soube que seria extremamente difícil recusá-lo, mas agora esta parecia uma tarefa fácil comparada ao que ela teria que contar-lhe em seguida.

Depois do que pareceram séculos, Nico respondeu com um sorriso tímido.

- Você tem o meu perdão, Annie. Não se preocupe. — Ele garantiu. — Nunca imaginei que fosse aceitar... E por mais que eu queira cuidar de você, me contento em continuar apenas seu amigo. No seu encalço, é claro, mas seu amigo.

Annabeth soltou uma pequena risada quando ele ameaçou estar sempre no encalço dela, no entanto, não tardou para que os poucos segundos de felicidade acabassem. Ele não poderá ficar mais perto de mim quando eu for embora, pensou, a angústia sufocando-a como um grande aperto em seu peito mais uma vez. Já havia debatido com si mesma o suficiente sobre o assunto para chegar a conclusão que a coisa certa a fazer era contá-lo sobre sua partida para Nova York; ela se importava muito com Nico para deixar que Afrodite lhe contasse postumamente que ela nunca mais voltaria a Londres, e que eles não poderiam se ver novamente, mas... Por um segundo, reconsiderou. Annabeth era forte, sempre teve a determinação de fazer o que era certo não importasse quão forte a maré, mas dessa vez, não sabia se seria capaz de enfrentar a dor. Já havia passado fome, sido abandonada pela família, violada por um homem, e nada doía tanto quanto abandonar uma das pessoas que mais amava.

- Annie? Está tudo bem? — Nico tirou-a de seus pensamentos e ela fez que sim com o esboço de um sorriso.

- Está sim, Nico. Não se preocupe comigo. — Annabeth se aproximou dele para pressionar sua boca contra a bochecha dele. Sentiu a pele do moço esquentar-se sobre o seus lábios rosados, e demorou o máximo que pode antes de levantar-se. — Se cuide, está bem? — Sentiu seus olhos cinza se encherem de lágrimas; sabia que, futuramente, todas as vezes que pensasse nele, se arrependeria em não informá-lo sobre a partida, mas ela simplesmente não conseguia forçar as palavras fora da boca dela.

Nico lhe ofereceu um de seus grandes sorrisos, e ela olhou para ele até que as lágrimas não pudessem mais ser evitadas. Virou o rosto rapidamente, caminhando de volta para o palácio, a imagem do amigo fresca em sua mente e em seu coração.

XXX

- Lady Thalia? — Nico murmurou, pouco acreditando na visão a sua frente. Lembrava-se da moça bonita de olhos azuis brilhantes e longos cabelos negros; ela havia frequentado a mansão dos Jackson algumas vezes enquanto ele trabalhava lá, e já havia escutado o nome da moça Grace ser proclamado pelos criados diversas vezes.

O vestido de seda da moça tivera suas mangas rasgadas, e o seu cabelo estava levemente arrepiado. A maquiagem grotescamente escorrida do rosto mostrava que ela não estivera em casa havia pelo menos dois dias, e Nico se perguntava o que poderia ter acontecido. Ela certamente não parecia assustada, apenas surpresa em vê-lo. Havia trocado duas palavras de respeito com ela, ele se lembrava, na última visita que fizera à mansão. O que uma garota milionária e nobre estaria fazendo escondida entre as caixas de madeira vazias no fundo de um bar? Thalia trazia um cobertor verde e velho até os seus joelhos, e Nico pensou ver uma almofada igualmente estropiada apoiada na caixa de madeira que se encostava na parede.

- V-Você... Trabalhava para os Jackson, não? — Thalia questionou quase desesperadamente, empurrando o cobertor verde das pernas e franzindo o cenho para ele. — Não pensei que tivesse permissão para sair da propriedade. O que faz no centro da cidade?

Nico havia avisado ao encarregado dos empregados que ele precisaria da manhã de folga para ir até o centro de Londres; como já havia cuidado dos cavalos e assegurando que estariam à disposição para a aula de equitação da Princesa Rachel, obteve sua permissão, e assim, partiu para o seu destino. Estava à caminho da ponte de Londres visitar seu amigo que possuía um barco quando passara por uma ruela de trás de um pequeno bar quando a vista de Thalia com o seu formoso vestido lhe chamou a atenção.

- Com todo o respeito, Lady Thalia... Trabalho para o Rei, agora, e posso sair quando bem entender. — Nico fez que sim, mas não tinha orgulho nenhum nisso. — A senhorita está bem? Está perdida? Machucada?

Thalia deixou escapar um suspiro trêmulo, assustado, quase que como fosse confessar tudo que havia acontecido no dia anterior. Mordeu o lábio inferior, levantou-se um pouco atrapalhada e enfim, falou.

- Não precisa me chamar de lady. Não sou uma madame aqui. Nada de formalidades... Não estamos mais naquele mundo, estamos? Então pode me chamar apenas de Thalia. — Thalia sorriu, e Nico permitiu-se admirar o quão bela ela realmente era. Com a exceção de Percy, era uma das primeiras vezes que um nobre fora gentil com ele, ou ao menos se permitia conversar.

- Está bem. — Nico concordou, e já que parecia ter a abertura para fazê-lo, resolveu questioná-la. — O que está fazendo aqui, Thalia? Tenho certeza que devem estar insanos atrás de você.

- Provavelmente tem razão. — Thalia deu de ombros, mordendo o lábio inferior enquanto olhava para os paralelepípedos do chão sujo. Nico já havia notado que ela certamente era nada convencional quando se tratava de ser filha de uma das famílias mais importantes da Inglaterra. — Mas se eu lhe contasse porque estou aqui, teria que te matar.

Nico riu quando Thalia proferiu as palavras, e ela eventualmente o acompanhou, uma sonora gargalhada escapando de sua garganta.

- Escute... — Nico pensou antes de falar, mas resolveu arriscar-se. Era óbvio que, por mais aventureira que Lady Thalia Grace pudesse ser, ela não gostava nada de ficar atrás de um bar no meio de caixas, gatos de ruas e legumes apodrecidos. Ela também parecia não querer voltar para casa, e seja lá porque diabos realmente estivesse ali, ele não conseguia deixá-la, e não sabia explicar porque. — Você não vai poder ficar sozinha aqui por muito mais tempo, e algo me diz que não quer que sua família a encontre. — Nico sugeriu. — Eu estava indo para a Tower Bridge visitar alguns amigos meus e... Um deles me deve um favor. Tenho certeza que poderá encontrar um quarto bom para você na pensão dele, algumas roupas limpas, e comida, e claro. Pode ficar lá até decidir o que quer fazer.

Os amigos de Nico, Travis e Connor, eram donos do barco e da pensão mais famosa das proximidades da Torre de Londres. Eram filhos do mesmo pai e mulheres diferentes, mas eram tão parecidos que eram chamados de gêmeos e extremamente conhecidos pela parte mais popular da cidade. Enquanto Travis cuidava do barco que herdara de seu falecido pai por ser pouco mais velho que o irmão, Connor tratava da pensão que recebera de sua mãe quando morreu, e estavam sempre a fazer piadas e serem ambos extremamente gentis e hospitaleiros, ainda que brincalhões.

Para a verdadeira surpresa de Nico, Thalia aceitou quase que de imediato, parecendo até mesmo ansiosa. Não fazia ideia do que estava fazendo, convidando uma garota podre de rica para ficar hospedada numa pensão ainda mais longe de sua família, mas não podia simplesmente deixá-la ali, à mercê de homens maldosos que eventualmente poderiam aparecer e prejudicá-la.

- Ninguém pode saber que estou lá... Acha que seus amigos conseguem guardar segredo? — Thalia aproximou-se dele lentamente, e Nico entregou o cachecol que trazia no braço para ela, já que não o usaria.

- Enrole isso em torno da sua cabeça. — Ele fez que sim, observando enquanto Thalia enroscava habilmente o objeto de lã em volta de seus longos cabelos e parte da testa e do rosto. — Não se preocupe, eles não dirão a ninguém que está lá. Pode confiar em mim.

Nico não sabia explicar porque Thalia deveria confiar nele. Não se conheciam nem um pouco além de seus nomes e suas respectivas funções sociais, mas a moça parecia nutrida com a emoção de não estar cercada de dondocas, e se fosse ele quem a ajudaria a se esconder da vida fútil da corte, ele estava mais do que feliz em prestar auxílio.

XXX

Os olhos de Annabeth quase se fechavam automaticamente de sono enquanto ela silenciosamente caminhava pelo longo corredor de um dos andares do palácio destinado a hospedar os nobres preferidos do Rei.

Sabia que o quarto de Percy era ali, e o de Sally e Poseidon também. Seus pés pequenos deslizavam pelo carpete vermelho enquanto ela carregava uma pilha de toalhas limpas até o banheiro de um dos quartos vagos; logo antes de deitar-se para dormir, a chefe das governantas pedira que Annabeth levasse as grossas toalhas para o hóspede que aparentemente chegaria no dia seguinte, e assim ela o fez. Fechou a porta do quarto quando terminou, pronta para descer as enormes e geladas escadas até o térreo e os fundos do palácio aonde os empregados dormiam, mas seu coração disparou dentro de seu peito quando uma figura alta entrou no corredor.

Percy.

Quando ele a notou, parou seu andar apressado. Annabeth podia ver que também estava cansado. Não haviam mais conversado desde duas semanas atrás, quando Percy a explicou tudo sobre a nova vida que teria em Nova York, aonde moraria, como conseguiria administrar seu dinheiro. Sentira tanta falta dele... Seu peito contraiu-se de angústia e amor pelo homem que amava.

De imediato, ele correu até ela, e ela correu até ele, quase que como ímas atraídos e, ainda assim, repelidos. Encontraram-se no meio do corredor, e os braços finos dela envolveram o tórax forte dele enquanto ele retribuía seu abraço. Annabeth inalou seu cheiro, cheiro de eucaliptos, morangos e Percy, o melhor aroma que ela havia conhecido. Havia dito a si mesma que quanto mais rápido aceitasse que nunca mais o veria, melhor seria para os dois, mas não conseguia. Independente do que havia acontecido com ela, a traição de sua família, o frio, o estupro... Nada era mais cruel ao seu coração do que separar-se dele, sabendo que o ato só faria com que ele sofresse, também.

- Percy. — Ela suspirou, o corpo tomado de felicidade e saudade ao mesmo tempo. — Não quero deixá-lo. — Quando encarou-o, os olhos verdes de seu amado observaram-na, e ela sentiu-se derreter. Era tão apaixonada e devotada àqueles olhos... — Eu sei o que vai dizer. Sei que tenho de ir... Mas...

- Annabeth. — Percy a interrompeu, falando com o tom o mais baixo o possível para que Sally e Poseidon não os ouvissem. — Por favor, Annie... Isso está sendo mais difícil para mim do que para você. — Ele engoliu em seco, dor fazendo com que seu rosto se contraísse por um breve instante. — Queria poder construir mais memórias com você, anjo meu... Mas vamos nos deixar permitir que nossas últimas lembranças juntos sejam alegres.

Ele tem razão, Annabeth pensou, pressionando um pequeno beijo contra o tecido vermelho escuro de suas vestimentas. Queria poder forçar-se a fazer amor com ele uma última vez antes que partisse; queria sentir aquela conexão física que há tempo não sentira com o único homem que havia amado, mas não queria tentar sabendo que não conseguiria. As memórias de Luke Castellan e a ardência forte em seu abdômen mais baixo era muito recente para que ela conseguisse entregar-se para Percy, ainda que soubesse que ele nunca faria nada para machucá-la e não seria nada além de gentil, como fora na primeira vez em que dormiram juntos e todas as vezes depois desta.

Limitou-se a ficar na ponta dos pés e beijá-lo, coisa que sabia que nunca poderia deixar de fazer. Derreteu-se contra os lábios macios de Percy, lábios que nunca tocaram outra mulher, mas nunca haviam sido realmente só dela...

Há poucas portas de distância do casal, Sallina Jackson cobria sua boca em um misto de choque e preocupação. Não podia negar que sempre soube que o filho tinha uma paixonite infantil pela criada que comprara na Casa de Leilões há quase nove anos atrás, e até desconfiava que Perseu pudesse usá-la para propósitos meramente sexuais como qualquer adolescente rico, mas não fazia ideia de que deixara as emoções crescerem daquela maneira. Havia avisado Poseidon; diabos, se apenas o marido a escutasse... Ela se lembrava, há um ano ou dois, sempre importunando o marido, dizendo que o filho gostava um pouco além do aceitável daquela loira maldita, e nunca fora escutada... Percy estava seguindo o mesmo caminho que ela... Apaixonando-se por uma serva quando já era prometido em casamento... Não. Depois de dezoito anos de dedicação ao seu único filho, não deixaria que uma empregada qualquer ficasse no caminho de Perseu nos seus longos anos de reinado. Não permitiria. Faria qualquer coisa, mas deixar que seu menino se envolvesse da mesma forma que ela se envolveu, Sally não deixaria. Colocaria um ponto final naquela situação, de uma vez por todas, de uma forma que Perseu Jackson nunca voltasse a procurar por ela, nem na Inglaterra, nem em qualquer outro país.

O que nem Sally, nem Percy ou Annabeth suspeitavam, no entanto, é que mais alguém assistia ao casal apaixonado trocar beijos: No início do corredor, escondida de trás da parede, a princesa, Rachel Elizabeth Dare, tinha seu corpo rechonchudo pulando em soluços enquanto lágrimas grossas caíam para suas bochechas gordas. Sabia que Perseu tinha tido uma reunião com os parlamentaristas e chefes de estratégia até pouco tempo, e queria descer para dizer-lhe boa noite, mas ao contrário do que pensava, seu coração se quebrava em um milhão de pedaços enquanto observava seu noivo com a serva bonita de longos cabelos loiros.

Notas finais
E aí, sim ou não? Espero que tenham gostado do capítulo. Ele foi realmente chatinho pra escrever, mas eu gostei do resultado final.
DEIXE SEU REVIEW, não saia sem falar tchau! É falta de educação. ;)
Adios!