She Falls Asleep

17 Capítulo 17


Notas iniciais
OE!

Sally trazia uma renda azul marinho detalhadamente bordada sobre o rosto para que não houvesse possibilidade nenhuma de alguém a reconhecesse.

Havia muito tempo desde que estivera na cidade. Assim que Poseidon começara a fazer dinheiro rápido, ela se privara de visitar as partes mais pobres de Londres. Muitos diziam e pensavam que ela havia deixado a riqueza lhe subir à cabeça, mas a esposa do médico tinha suas próprias razões do coração, e preferia ser rotulada como esnobe do que revelar detalhes de sua intimidade para estranhos bisbilhoteiros.

Encolheu-se contra a mesa apertada da pousada simples em que se sentara há poucos momentos atrás. O local estava cheio de homens bêbados sujos de fuligem por trabalhar na linha do trem, e Sally lembrou-se vagamente do senhor seu pai, falecido antes mesmo de Perseu nascer. Ah, seu querido pai... Havia a amado tanto, ainda que tanto a machucado... O pai de Sally apreciava bebidas alcoólicas tanto quanto qualquer marujo. Ela se lembrava muito bem... Lembrava-se de todas as vezes que havia apanhado e sentido o bafo de uísque em sua face, e mesmo assim, jurou respeitar o homem que a educara até o dia de sua morte, e assim o faria. Independente de todos os anos que haviam se passado, independente do fato de que o seu pai fora o responsável pela morte de Paul... Sally encontrou um local em seu coração para perdoá-lo. Só queria o melhor para ela, assim como ela só queria o melhor para o seu único filho naquele exato instante.

Sua atenção foi requisitada novamente ao presente quando um homem de pele escura entrou pelo bar e sentou-se discretamente ao lado dela.

- Está atrasado. — Sally reprendeu-o, mas realmente não se importava. O importante é que ele estava ali. — Seu patrão me disse que poderia fazer o serviço para mim, sem vestígio ou suspeita. Acha que tem habilidade para isto? Estaria trabalhando em solo real. No palácio.

- Sem problema algum. — O homem corpulento e rudimentar respondeu. Sua pronúncia era carregada de sotaque árabe, e ele se destacaria numa multidão de londrinos, mas Sally esperava que ele conseguisse se esgueirar bem se fosse cumprir seu papel. — Como combinado, preciso do pagamento adiantado, de um retrato da garota e aonde encontrá-la.

Sally fez que sim, retirando da aba do vestido um grosso envelope que trazia o dinheiro contado, um retrato pintado em miniatura da criada e o número de seu quarto escrito em um pequeno pedaço de papel. Pensou que assim que recebesse confirmação de que o serviço seria executado se sentiria triste, mas continuou neutra como há poucos momentos atrás.

A ideia de contratar um assassino de aluguel surgira logo que fora dormir após ver seu filho com a criada nos braços. Repensou o assunto enquanto lutava para adormecer, e chegou à conclusão simples de que precisava aniquilar o último obstáculo que se encontrava entre Perseu e o trono: Ao escutar a conversa dos dois, interpretara que o filho planejava em mandar a moça para as terras do Novo Mundo, mas não podia correr o risco de tê-la viva. Se o amor entre os dois fosse tão forte como parecia e como havia sido o dela com Paul, um apaixonado Perseu atravessaria quantos oceanos fosse possível para que ele e sua serva ficassem juntos. Sallina conhecia seu menino. Sempre terrivelmente comprometido... Não podia permitir.

Pediu para que o pintor preferido do Rei, ainda residente no palácio, que procurasse a criada Annabeth Chase e se oferecesse para pintar-lhe um retrato. Moças pobres como ela não tinham oportunidades como aquela, e para que a serva não ficasse desconfiada, ele diria que Perseu era quem havia pedido um retrato de sua amada para antes que ela fosse para os Estados Unidos da América. Assim aconteceu. O pintor realizou um trabalho impecável em reproduzir as feições perfeitas de Annabeth, seu rosto doce, seus olhos cinza gentis, seu longo cabelo loiro e seu corpo escultural modestamente sentado em uma cadeira, seu corpo abraçado pelo uniforme preto das criadas do Rei. Assim que pronto, Sally fizera contato com o homem que contratava árabes e turcos para matar, e cá estava, finalizando seu plano até agora perfeito.

- Será feito daqui dois dias. — O homem a informou, deslizando o envelope com o retrato e o dinheiro no bolso de sua calça antes de levantar-se. — Na ínfima possibilidade de algo der errado, nós a contataremos, senhora. Saberá que o plano der certo quando a polícia chegar. Se algo der errado, será apenas mais um dia como qualquer outro no palácio. Agradecemos.

Quando o homem se foi, Sally mordia o lábio inferior com força. Sentia as mãos quentes e o peito pinicando em angústia. Estaria arrependida? Não, ao menos, ainda não. Guardaria arrependimentos para mais tarde, depois que soubesse que a criada que seu filho tanto amava encontrasse as mãos da morte para que nunca mais voltasse. O que mais lhe doía era o quão hipócrita estava sendo. Há algumas décadas atrás, Poseidon colocava fim ao único homem que já havia amado, e ela viveria amarga e tristemente pelo resto de sua vida desta maneira, ainda assim, gravava em uma sepultura o mesmo destino para a amante de seu filho. Ele nunca entenderia, e nunca saberia (se os deuses fossem bons) que ela havia encomendado o assassinato da garota. Viveria para ser um bom Rei, o melhor magnata que a Inglaterra já havia conhecido. Encontraria outro amor, ou pelo menos, a mulher rezava para que assim fosse. Faria de tudo pela felicidade do filho, e estava certa de que seu menino seria muito mais feliz como Rei do que como amante foragido de uma maltrapilha qualquer.

Levantou-se e chamou a carruagem que até ali a levara, pagando o cocheiro uma boa gorjeta para que ele não revelasse seu paradeiro se perguntado. Os cavalos trotaram rumo ao palácio, e não fosse pela sensação de envenenamento que condenava Sallina Jackson pelo pecado que havia acabado de cometer, havia sido uma noite como qualquer outra. Poseidon estava muito ocupado com suas reuniões, assim como Perseu. Os criados do palácio não se importavam, não realmente, com aonde as ricas iam quando a noite caía. Estava tudo como deveria ser.

Pouco ela sabia, no entanto, que em sua inocente distração e descuido, Sallina Jackson havia colocado um retrato da Princesa Rachel dentro do envelope ao invés do de Annabeth, e que o seu feitiço viraria contra o feiticeiro.

XXX

Era apenas mais um dia de trabalho para Nico nos estábulos reais. Escovara todos os cavalos, como era de seu dever, e mesmo sabendo que não deveria, espiou pela janela do quarto de Annabeth, mas ela não estava lá. Provavelmente, era um dia ocupado para ela, que estaria andando de um lado para o outro no imenso palácio que se erguia sobre Londres como uma medonha, ainda que belíssima fortaleza. O moço já aceitava melhor o fato de que logo, teria que procurar por uma noiva. Ele estava completando vinte e dois anos em algumas quinzenas, e já era a idade de um homem feito como ele ter uma esposa, e eventualmente, filhos. Além disso, estava na idade para aceitar que a mulher que queria nunca seria dele, e a dor da paixão em seu peito se tornava cada vez mais dormente. Suspeitava que sempre amaria Annabeth, mas ficar distante dela naquele sentido iria ficar mais fácil, eventualmente, e ele não tinha objeção alguma em continuar sendo seu amigo ao invés de seu amante. Só pedia aos deuses para que ela não se machucasse... E esperava que a garota estivesse pelo menos à caminho de perceber que um romance com o futuro Rei não duraria muito.

Nico estava prestes a fazer uma pausa para um lanche e um cochilo quando dois criados se aproximaram do estábulo e conversavam com tons curiosos e acusadores. Normalmente, Nico seria o único a trabalhar num Domingo durante a tarde, mas pouco se importava. Assim que esticou o braço para recolher uma maçã verde do balde à sua esquerda, as palavras proferidas por um dos homens lhe chamou a atenção, e ele se imobilizou para escutar.

- Lady Thalia Grace, desaparecida? Isso é uma piada. — Um dos outros responsáveis pelos estábulos riu, fazendo com que Nico congelasse e se mantivesse em silêncio. Queria ouvir a conversa. — Ricos filhos da puta... Vá entender. Um dia se cansam de sentar em suas gigantes montanhas de dinheiro e dão de armar um escândalo ridículo desses.

- Dessa vez é coisa séria, meu chapa. — O cocheiro comentou enquanto esperava o homem aprontar os cavalos para uma das carruagens. — Os jornais não se atrevem a dizer, mas... — Ele limpou a garganta, e Nico teve de silenciosamente se aproximar da divisão de madeira do estábulo para poder escutar melhor. — Ela desapareceu no mesmo dia em que Luke Castellan foi morto. Ele foi encontrado assassinado no porão de sua casa de campo... Onde a família Grace estava de visita. Entende o que eu quero dizer?

- Acham que quem matou Castellan sequestrou Thalia? Se houvesse um sequestrador envolvido, acredito que já teria pedido resgate pela menina, não é mesmo? — O homem franziu o cenho, escovando uma bonita cela que logo seria usada em uma das carruagens reais.

- É isso que querem que todos acreditem, para manter a imagem da família, meu chapa. — O cocheiro indagou com uma voz perversamente animada. — Não querem deixar que a possibilidade de que a filha dos Grace tenha matado Castellan chegue às ruas. A menina ainda não foi encontrada, e considerando a segurança excelente de uma casa de campo daquelas...

O coração de Nico disparou; bateu tão rápido que o moço pensou que seria possível que ele saltasse pela sua boca. Sua visão ficou turva, e ele teve que apoiar-se na madeira para não desmaiar. Já fazia alguns dias desde que levara Thalia para a pensão de Connor, depois que a encontrara nas ruas de Londres, e apesar de conversar com a jovem casualmente, ela ainda não havia fornecido explicação alguma para estar randomicamente nas ruas, e por querer permanecer anônima. Havia a possibilidade de que Thalia houvesse fugido de um possível sequestrador que teria também assassinado Luke Castellan, mas ele estava certo de que se tivesse sido levada da casa de campo e soubesse da morte de seu melhor amigo, ainda mais após ser a vítima de um sequestro, a moça teria corrido direto para casa.

Nico sabia que não deveria deixar-se assombrar por uma conversa entre homens que pouco entendiam de perícia, mas não podia evitar. Thalia sempre fora rebelde, ele escutara. E se ela realmente houvesse assassinado o primogênito de uma das famílias mais importantes do país? Nico havia simpatizado pela moça, a maneira de como ela era engraçada e nem um pouco arrogante, mas... Teria ele coragem para perguntá-la? Não podia deixar que Connor corresse o risco de perder suas economias por esconder uma assassina em sua pensão. A polícia certamente confiscaria os bens dos Stoll em um piscar de olhos se fosse provado que Thalia fosse encontrada lá, mesmo se a investigação não houvesse sido concluída.

Nico também não era burro no que dizia respeito a como os ricos burlavam o sistema de justiça: nobres nunca eram condenados de assassinato ou de crimes hediondos como uma chacina, e como sempre, pensava ser uma tamanha injustiça, mas... Seria Lady Thalia realmente capaz de tamanho ato? Ela fora tão gentil com ele até agora, dispensando qualquer forma de cordialidade ou formalidade, confiando cegamente nele, confiando até demais... Talvez fosse por isso que aceitara ir tão rapidamente com ele até a pensão de Connor. Talvez estivesse desesperada por um local simples e longe da nobreza para se esconder. Ou talvez... Talvez ela só estivesse com medo. Talvez houvesse presenciado o assassinato do amigo e fugira para não encontrar o mesmo destino mortal, e ao ser oferecida uma chance de repousar num local melhor para se esconder e clarear sua mente, havia se agarrado à oportunidade.

- Será possível? — O homem do estábulo balançou a cabeça riu. — Se ela realmente matou o rapaz, gostaria de poder lhe dar os parabéns. Esses mesquinhos nunca fazem nada diferente... É bom ver que algum deles tem garra. E ainda mais, uma mulher.

Depois que os dois criados saíram ainda conversando, Nico permitiu-se soltar o ar que tanto guardara nos pulmões. Suas mãos tremiam, e enquanto não obtivesse uma explicação da moça que havia ajudado se esconder, sabia que não conseguiria dormir ao pensar na possibilidade de estar encobrindo uma assassina.

XXX

Rachel Elizabeth Dare soltou um grande suspiro enquanto escovava seus cabelos ruivos.

Há exatamente seis dias atrás, a princesa havia presenciado seu noivo beijar outra mulher; mais especificamente, uma serva, pelo amor dos deuses, e desde então, ela passara por períodos de tristeza e raiva. Sabia que estava aborrecendo suas damas de companhia, mas pouco se importava. A morte já havia levado o senhor seu pai já havia quase dois meses, e o buraco de mágoa em seu coração quase cicatrizado havia sido aberto novamente à visão de seu Perseu beijando os lábios de outra mulher.

Quando o Rei James Dare morrera, Rachel encontrou consolo no fato de que logo estaria casada, e logo seria Rainha da Inglaterra, como estava destinada a ser. Havia crescido na eventual companhia de Perseu Jackson, e sempre fora encantada por ele, pelo menos, até há poucos dias atrás. Adorava despertar inveja em suas amigas e damas de companhia quando falava dele, e de sua beleza, e de sua gentileza, e agora... Não estava certa de que o tinha na palma de sua mão, afinal de contas, e precisaria reverter a situação assim que pudesse.

Durante o tempo que passara desde que presenciara o ocorrido, Rachel fez o seu melhor para balancear uma punição justa para tanto seu noivo quanto para a maltrapilha serva que o havia levado para o mau caminho. Rezou no santuário, pediu a ajuda de senhor seu pai e até mesmo considerou pedir que os dois ficassem sem jantar por uma semana, mas sua tremenda ânsia para ter o que desejasse na hora que desejasse fez com que ela reconsiderasse. Talvez, a serva tivesse simplesmente se jogado em cima de Perseu. Era a possibilidade em que Rachel mais acreditava, afinal, seu Percy era perfeito, e ele nunca a trairia, mesmo que nunca houvesse beijado os seus lábios de princesa.

Por fim, tomou a atitude mais nobre e resolveu conversar com a serva. Explicar-lhe que Perseu seria príncipe, que já estava noivo e explicitar que a criada nunca teria chance de beijá-lo novamente, não enquanto ela fosse princesa. Decidida, abandonou a escova de cabelos em sua penteadeira e desceu cuidadosamente todas as escadas até o andar mais baixo do palácio, aonde os empregados dormiam. Perguntou a uma governanta aonde podia encontrar o quarto da serva de longos cabelos loiros e olhos cinza, e a mulher lhe informou educadamente a seguir pelo corredor e entrar na porta de número cinco.

Soltou uma reclamação frustrada quando encontrou o quarto vazio. As camas estavam perfeitamente feitas e um cheiro agradável de bergamota pairava no ar, mas não havia sinal nem da serva loira, nem de sua colega de quarto, seja lá quem fosse. Rachel deu de ombros, e como se sentia entediada, resolveu observar a paisagem da janela do quarto. Sorriu à vista do enorme quintal e do estábulo ao longe. Aquilo era tudo dela. Pensou em levar seu pônei para um passeio mais tarde...

Pouco Rachel Elizabeth Dare sabia que, enquanto em sua exagerada inocência, um homem disfarçado de cocheiro se esgueirava pelos corredores do palácio. Havia entrado na noite interior, enquanto todos dormiam, e ficado escondido na floresta atrás do estábulo, esperando para executar seu plano. Possuía todas as informações que necessitava, e aguardava calmamente para realizar o serviço. Não era a primeira vez que mataria alguém, muito menos um alguém insignificante (ou assim pensava ser) e seus níveis de ansiedade estavam baixos. Ele não era britânico, e vinha de muito longe, de suas terras esquecidas na Arábia Saudita, portanto, um assassinato no maldito palácio só significava ser um pouco mais cuidadoso e nada mais.

No dia seguinte, adentrou o palácio como se fosse um de seus trabalhadores sem nenhuma suspeita.

Faltava pouco para as cinco da tarde, ele descobriria ao passar silencioso por um relógio grande numa sala de estar. Desceu até o último andar, como indicado no papel que recebera como informação, e verificou seus arredores, tendo certeza de que estavam vazios antes de contar porta por porta até encontrar a de número cinco. Estava entreaberta, assim como as outras, e pequenos barulhos de movimento indicavam que seu alvo já estava em posição. Só precisaria mirar. Uma olhadela, e dispararia.

Deslizou sua mão até o cinto aonde escondera a arma. Era de calibre pequeno e grosso, mas suficiente para colocar a moça para descansar. Assim que estourasse o tiro, teria de silenciosamente fugir como sempre faria, deixando que as investigações nunca encontrassem o culpado. Já colocara silêncio na boca de 47 vítimas, e não seria pego dessa vez.

Pelo rabo do olho, sua visão lhe deu um panorama completo do quarto. Encontrou o alvo de costas, deslumbrado pela paisagem de uma janela quase fosca pela neblina. Os cabelos cor de fogo eram os mesmos dos do retrato, assim como o corpo rechonchudo e feio, além do vestido pomposo. Sem dúvida, seria ela sua vítima, e estava distraída como um cordeiro prestes a ser agarrado por um poderoso leão.

Atirou.

Tão rápido quanto havia entrado, o homem deslizou para fora do palácio, a tempo de refugiar-se na floresta antes que o alvoroço começasse. Observaria tudo da copa de uma das árvores mais altas, sem ter a mínima ideia de que acabava de ter assassinado a futura Rainha da Inglaterra, colocada como alvo erroneamente por Sallina Jackson, que desejara matar uma serva que ainda continuava viva e de coração pulsante dentro do palácio.

Notas finais
Acho que por essa, ninguém esperava! Esse aqui foi complicadinho de colocar no papel, mas acho que valeu a pena!
Sei que fui bem cruel em parar por aí, mas... DEIXE SEU REVIEW antes de sair! É falta de educação sair sem falar tchau ;)