Shattered By Broken Dreams
1 Close our eyes so we can see
Notas iniciais
Boa leitura à todos.
Liadan fechou os olhos, deitada de barriga pra cima no carpete preto de seu quarto. Sua mente viajava enquanto ouvia música, que estava tão alta que machucava seus tímpanos, e fazia a sua cabeça doer. De qualquer maneira, ela não se importava com a dor, pelo menos assim não teria que lidar com seus pensamentos.
Mama take this badge from me, I can't use it anymore
It's getting dark too dark to see, Feels like I'm knocking on heaven's door
Ouvi meu pai bater na porta, enquanto gritava na tentativa débil de ser ouvido.
- É sempre a mesma coisa Liadan! Abaixa isso agora! – Quando não teve nenhum tipo de resposta da minha parte, ele gritou ainda mais alto. – LIADAN, SE EU ENTRAR NESSE QUARTO EU JURO QUE JOGO ESSE MALDITO RÁDIO NO LIXO!
Ainda com os olhos fechados, tateei o rádio e aumentei ainda mais o volume.
Knock, knock, kcnocking on heaven’s door
- LIADAN!!! — Meu pai gritou novamente praticamente esmurrando a porta.
- Knock, knock, kcnocking on heaven’s door – cantarolei, rindo.
Quando percebi que meu pai não desistiria tão facilmente, desliguei o rádio e abri a porta. Ele estava furioso.
- O que você quer? – Perguntei rudemente.
- O QUE EU QUERO? QUERO QUE VOCÊ TOME UM POUCO DE JUÍZO MENINA! É UMA HORA DA MANHÃ, DAQUI A POUCO OS VIZINHOS CHAMARÃO A POLÍCIA. QUER A POLÍCIA AQUI NA NOSSA CASA LOGO NO NOSSO PRIMEIRO MÊS? O QUE OS VIZINHOS VÃO PENSAR?
Limitei-me a rolar os olhos bufando.
- Tudo bem pai, me desculpa.
Na verdade pouco me importava se a polícia ia vir bater na nossa porta ou não, e muito menos com a opinião dos vizinhos acerca da família que se mudara a pouco menos de um mês. Eu odiava aquela casa, e principalmente, odiava huntington beach. Apesar disso, aquilo foi a coisa mais sensata a se dizer para me livrar da ira de meu pai. Esse pareceu satisfeito com a minha resposta.
- Isso mesmo, agora seja uma boa garota e vá dormir. Já está tarde, e você terá aula amanhã. – Ele fez menção de ir embora, mas então completou. Sua voz era amansada. – Isso vai passar filha.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Ele tinha sempre de me lembrar daquele fato. Murmurei baixinho:
— Sinto tanta falta da mamãe.
Meu pai me abraçou, em um raro gesto de carinho paterno. Desde a morte de mamãe (quando eu tinha apenas quinze anos), ele não fazia isso. George sempre fora uma pessoa muito fechada, e a morte dela só fez com que seu coração endurecesse ainda mais. Não que eu fosse algum tipo de filha carente por atenção, mas ele era a única figura familiar que eu tinha no momento e mesmo assim ele não a exercia com muita frequência. Bem, no final talvez fosse melhor assim, para ambos.
- Eu sei querida. Não está sendo fácil para ninguém. – Ele murmurou também baixo. – mas isso não quer dizer que você pode sair destruindo os tímpanos alheios. Além do mais, agora é a hora de começarmos a nossa vida do zero. Tudo ficará bem.
- Eu sei... – murmurei vagamente.
Ele beijou minha testa, e então saiu do quarto.
- Boa noite, querida.
- Boa noite, pai.
Fechei a porta, e me sentei na cama. Agora é hora de começarmos a nossa vida do zero, tudo ficará bem. Repeti as palavras do meu pai em minha mente.
- Nada ficará bem. – Murmurei subitamente tomada por uma mistura de mágoa e ódio. – Ele não entende nada, e não se importa com nada que não seja com a droga do trabalho.
E era verdade. Claro que eu não podia culpa-lo pela morte de mamãe, mas também não era justo que ele me culpasse por isso. Ela morrera de causas naturais.
Eu pensara que nunca mais conseguiria viver normalmente, não que isso fosse mentira, mas penso agora que o pior já havia passado. Quem já perdeu alguém especial sabe como é, você acaba se acostumando com a dor e a saudade.
Meu pai a amava demais, e a eu tenho certeza que a única coisa que ainda o mantinha de pé era eu, caso o contrário ele não aguentaria. Só que sentia que ele tinha de fazer com que a minha vida piorasse depois disso. Não que fosse proposital.
Já aviso logo, a lista de coisas que meu pai fez que ferraram ainda mais a minha vida é extensa: Primeiro a mudança de colégios de anos em anos, sempre que eu começava a me adaptar e a fazer novas amizades ele vinha com o mesmo papo de que teríamos que se mudar para outro bairro por causa do trabalho dele, e eu consequentemente, para um colégio mais próximo de casa. Até ai tudo bem, já que nunca havíamos chegado a mudar da minha querida nova Iorque, e por isso ainda conseguia ver meus poucos amigos. Só que nesse ano meu pai decidira que acabar completamente com a minha vida social era o que faltava. George então tomou a brilhante decisão de que nos mudaríamos dessa vez para outro lado do País: huntington beach, California.
Para quem não sabe, esse lugar era o verdadeiro inferno, e tudo o que posso dizer para defini-lo é: insuportavelmente úmido, vadias bronzeadas vestidas com biquínis microscópicos, e insuportavelmente úmido. Ah é claro quase havia me esquecido, insuportavelmente úmido. Eu praticamente respirava água naquele lugar.
Não preciso nem dizer que eu não me adaptei, não é mesmo? Claro que o fato de eu ser quase albina, me vestir com a combinação coturno/camiseta gigante de banda praticamente todos os dias e ser (de acordo com os estudantes da minha atual escola) uma nova iorquina bizarra e esquizofrênica também contribuíram para isso, mas o principal motivo de eu não ter me adaptado era porque eu simplesmente não quereria me adaptar.
Não pensem que eu sou uma pessoa antissocial “legal demais para os outros”, mas eu não conseguia me imaginar andando com as garotas do meu colégio enquanto conversamos sobre bronzeamento artificial, surfistas gostosos e como a nova linha de maquiagem da MAC era incrível.
Suspirei profundamente. Talvez eu estivesse sendo exigente demais com as pessoas, mas o que eu podia fazer se aquilo fazia parte da minha personalidade? Sempre fora assim com tudo e todos.
Deitei a cabeça em meu travesseiro, subitamente exausta, e então, adormeci em um sono sem sonhos.
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Acordei com o barulho do despertador a tocar insistentemente. E eu reuni todas as minhas forças para não tacá-lo na parede.
- Porcaria de despertador inútil. Maldita casa, maldita vida. – Murmurei sonolenta no ápice de meu mau-humor matinal.
Desliguei o despertador civilizadamente, e fui à procura de alguma roupa para ir à escola. A escolhida da vez foi uma camiseta preta do Led zeppelin, shorts jeans, e um all star também preto de cano médio. Penteei meus cabelos castanhos de qualquer jeito. Não era necessário um cuidado especial, uma vez que eram irritantemente lisos e por isso à menor brisa voltariam a dar nós. Contornei meus olhos com deliniador preto, o que ressaltou ainda mais a cor acinzentada deles. Virei meu rosto e guardei o deliniador. Não gostava de ficar olhando muito para esses olhos. Lembravam-me demasiadamente os da minha mãe.
Desci as escadas, e fui até a cozinha onde meu pai tomava o café da manhã sentado à mesa.
- Bom dia, pai. – Murmurei, já preparando uma tigela de cereais com leite.
- Bom dia. – ele disse sem tirar os olhos do jornal, e bebericando a caneca de café de tempos em tempos.
Sentei a sua frente, e comi em um silêncio desconfortável.
Terminado o café da manhã, coloquei a tigela na pia e me despedi.
- Até mais, pai.
- Boa escola, querida. – ele respondeu sem nem ao menos olhar para mim.
E essa era basicamente as únicas palavras que trocávamos durante todo o dia, já que quando ele chegava em casa depois do trabalho, eu já estava enfurnada em meu quarto. Meu pai era assim, só falava comigo se era para me repreender de algo, ou quando era estritamente necessário. Se não fosse, ele não falava. E assim a vida da nossa família feliz continuava.
Sai de casa, e então caminhei até o colégio que ficava a mais ou menos cinco quarteirões dali. Era um típico dia californiano: Ensolarado, sem nuvens e de brisa suave. Apesar do sol não estar assim tão forte, já conseguia sentir minha pele ficar com um leve tom rosado. Ao chegar à escola atrasada, fui direto para a primeira aula de física. O professor me deixou entrar, e eu tentei ignorar ao máximo os olhares desaprovadores de meus colegas de classe. Sentei-me estrategicamente na última carteira, ao lado da janela. A árdua tarefa de me manter presente nas aulas se tornavam um pouco mais razoáveis quando eu podia me distrair olhando o movimento do lado de fora. Era meu último ano no colégio, depois eu estaria livre disso tudo.
Enquanto eu estava absorta em meus pensamentos de tédio, pude perceber da janela uma figura estática próxima à entrada do Colégio. Essa figura já estava ali há um bom tempo, mas eu não dei muita atenção a ela. Apenas agora ela começara me incomodar um pouco.
Olhei pelo canto dos olhos, e vi que a figura que me observava na verdade se tratava de um garoto, bastante excêntrico eu diria. Ele pareceu ter percebido o flagrante, pois começou a acenar em minha direção.
A primeira coisa que eu pensei foi: O que esse idiota de roupão pensa que tá fazendo? Mas então um segundo pensamento veio a tona acompanhado com uma careta: Esse cara realmente está de roupão no meio da rua?
Acenei um pouco hesitante, e um largo e sincero sorriso se formou no rosto do rapaz. Não pude deixar de sorrir também. – Eu já o vira na companhia de alguns amigos dele, e se eu não me enganava, ele devia ser James Sullivan. A reputação dele e de seus amigos já era bastante conhecida na região.
— Senhorita Collins. – O professor se dirigiu a mim com aparente irritação. – Quer repetir o que eu acabei de dizer?
Olhei para ele surpresa. Esse era especialista em chamar toda a atenção da sala para mim. Umedeci meus lábios, um gesto que eu sempre fazia quando estava desconfortável.
- E então? – Ele pressionou.
Desviei o olhar do professor para o lado de fora da janela. Não havia mais sinal do garoto. O professor percebeu que eu não responderia, então começou a andar de um lado para outro com uma pose esnobe.
- Se passasse menos tempo olhando do lado de fora da janela talvez saberia a resposta, Collins.
Um engraçadinho então completou:
- Se passasse menos tempo se drogando talvez ela fosse menos esquisita.
Um mar de risadas inundou a sala de aula, e então todo o meu auto-controle veio abaixo:
- Talvez sim, mas sabe de uma coisa? Eu estou pouco me lixando para o que você acha de mim seu filho de uma puta. – E então virei-me para o professor, que me olhava chocado. Se eu tivesse em um humor um pouco melhor teria rido de sua expressão. – Eu tiro boas notas, e faço todos os seus malditos trabalhos, então porque você não me deixa em paz olhando pra porra da janela?
Bem, você deve estar se perguntando que merda eu tinha na cabeça pra falar aquilo tudo, mas acredite, eu tinha bons motivos para tomar tal atitude. – Imaginem um professor que não satisfeito com as ótimas notas daquela aluna nova, quer também que você fique com os olhos vidrados na cara dele a todo minuto. Imaginaram? Agora pensem que este mesmo professor faz todas perguntas para você, te usa como exemplo em toda merda que diz, e sempre te escolhe para ler algo na frente da sala, por mais idiota que fosse? Eu já havia adiado aquelas palavras há muito tempo, e apesar de saber que me arrependeria por isso mais tarde, agora eu estava orgulhosa por ter conseguido proferir tais coisas. Paciência nunca fora meu ponto forte..
O rosto do professor passou do vermelho, para o roxo, e eu me perguntei se eu tinha acabado de sentenciar minha reprovação em física.
- Saia agora da minha sala e vá direto para diretoria.- Ele disse, e eu não me fiz de rogada, sair daquela sala era o que eu mais queria no momento. – Quero que repense no que acabou de dizer, e que reveja seu tipo de palavreado. Seus pais terão conhecimento disso, é melhor você se preparar.
SEUS pais. repeti irônicamente em minha cabeça. Pensei em dizer que eu tinha apenas um pai, mas decidi que ele não tinha nada a ver com isso, sai da sala e me dirigi ao corredor ignorando os olhares e risadinhas em minhas costas. No caminho da diretoria, pensei comigo mesma, por que diabos eu estava indo lá, sendo que a minha sentença já havia sido tomada? Eu já estava ferrada o suficiente, não tinha como nada piorar.
- Ah, foda-se. – Murmurei, mudando a rota para a saída do colégio.
Ao sair de lá, dei uma olhada em volta, não havia ninguém no pátio, para a minha sorte. Caminhei em volta do prédio me esgueirando na janela para que ninguém pudesse me ver e pulei a cerca de metal.
Não sei por que, mas no trajeto de volta para a casa sentia que alguém me observava. Esperava com todas as minhas forças que não fosse a Sra. Grammer, essa velha enxerida com toda certeza contaria para meu pai se me visse voltando para a casa antes do horário de saída escolar, não que isso não chegaria ao conhecimento dele uma hora ou outra mas não havia porque adiantar esse fato. De qualquer modo, continuei a andar.
- Ei, você, garota! — Uma voz gritou atrás de mim. Olhei para trás e pude ver aquele mesmo garoto de roupão encostado em um muro próximo a mim. Com toda a certeza a fonte daquela sensação de observação deveria ter vindo dele.
- Ah, você. – Apesar das palavras terem saído perfeitamente calmas, aparentando apenas uma leve surpresa, eu estava assustada por aquele garoto estar falando comigo. – Você estava me seguindo? – Minha voz saiu um pouco dura, porém sua resposta foi simpática.
- Tá de brincadeira? Eu tava indo para casa, e te reconheci lá do colégio. – Ele se aproximou calmamente, e apesar da resposta não ter sido muito convincente decidi não retrucar. – Você deve ser a nova iorquina do final da rua.
- É, sou eu mesma.
Ele estendeu a mão, e eu a apertei um pouco hesitante. Ele não parecia nem de perto o garoto problemático que as pessoas tanto diziam.
Depois foi a vez da habitual, e clichê troca de apresentações:
- Sou James Sullivan, mas pode me chamar de Jimmy.
- Liadan Nevaeh Collins. — Pensei por um momento em como meu nome soava ridículo, e então dei de ombros. – Você pode escolher entre Liadan e Navaeh, os dois nomes são igualmente horríveis.
Ele gargalhou.
- Eles são horríveis mesmo! Talvez Lia fique melhor para você. Posso te chamar de Lia?
Meneei com a cabeça, realmente, Lia era bem melhor.
- Hum, pelo o que eu vejo você deve ter fugido da escola... Quer dar uma volta por ai? Aposto que ainda não conhece muito a cidade. Quero dizer, as partes interessantes dela.
Aceitei o convite um pouco desconfiada. Jimmy pareceu perceber essa desconfiança pois acrescentou com um sorrisinho divertido no canto da boca:
- Não se preocupe, não vou te levar para nenhum tipo de puteiro, apesar desse lugar ser bastante interessante. É melhor começarmos com algo um pouco menos agitado, o que acha de sairmos para assaltar algumas velhinhas na praça?
Arregalei os olhos, não podia acreditar que aquele garoto estava falando uma coisa dessas pra uma pessoa que havia acabado de conhecer.
- Só estou brincando. – Ele pareceu se divertir com a minha reação. – Sei que a minha reputação não é a das melhores, mas eu também não sou um completo retardado.
- É, definitivamente sua reputação é uma droga. Fiquei sabendo de muitas coisas envolvendo seu nome. – Disse já andando ao seu lado.
- Não acredite em tudo o que dizem, provavelmente um terço do que falam é mentira. Quanto ao resto, deve ser verdade.
Nós rimos juntos, logo de cara já havia gostado dele. – Jimmy tinha olhos muito azuis e sinceros, mas que ao mesmo tinham um quê de crítica incontestável. Era muito alto também, e emanava uma aura de paz que eu rapidamente me deixei contagiar.
Ele me levou a um bar – do qual ele disse que sempre vinha com os amigos dele – E lá conversamos sobre muitas coisas. Descobrimos muitas ideias e gostos em comum. Ele também me contou que era tocava bateria em uma banda junto com alguns amigos dele. Prometeu que me levaria a um ensaio da banda um dia desses. Logo depois, eu também já estava contando sobre a minha vida, como se eu já o conhecesse a muitos anos, e não a apenas a algumas horas.
Ao anoitecer ele me trouxe até a porta de casa.
- Então acho que é isso. – Ele disse. – Nos vemos depois.
Sorri.
- É, acho que sim. E vê se não vai aprontar nada até lá. – Nós rimos – Até mais Jimmy.
E aquilo foi só o começo do que se tornaria uma grande amizade.
Notas finais
Obrigada por lerem, e espero que continuem acompanhando :)
Beijos à todos!
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