Shalom - As Memórias de John Sigerson
7 Capítulo 7: A Face de Holmes
Notas iniciais
Espero que o pessoal não tenha abandonado a fanfic, rs.
Claro, a carta de Mycroft mexeu com Holmes. Vocês verão o quanto.
Sigerson tinha passado madrugada adentro em uma pesquisa, sem perceber. Ele dividia suas atenções entre aqueles inúmeros tubos de ensaio e o que tinha deixado na Inglaterra. Seu irmão, Mycroft, não era de viajar. Não ocupava todos os dedos de uma mão as vezes em que estava fora de Londres, e agora ele estava em outro país. Será que era Watson? Talvez seu amigo, que sempre amou Mary, não tivesse resistido a morte dela e do filho, e isso para não mencionar sua “falsa morte”...
Talvez a notícia fosse ruim demais para ser dita em uma carta.
Ele deu um soco na mesa, quando notou que o experimento que ele tinha trabalhado nos últimos tempos dera errado, mais uma vez. Tudo estava dando errado, ele desabafou. Não queria que nada acabasse assim. Watson não merecia mais dor, ele já tinha causado o suficiente, fazendo-o acreditar que estava morto. Ele deveria estar lá, ao lado de seu amigo, e não no Continente entretido com a Química e uma nova amizade. Com as mãos trêmulas sobre o rosto, Holmes tentava se acalmar. Estava tão nervoso, aflito por tanta culpa, que poderia fazer explodir aquele laboratório.
Ele procurou por seu relógio, e depois lembrou-se de que já não o possuía mais. Tinha desaparecido. Alguém da estalagem deve ter roubado o seu estimado relógio, ele pensou. Curioso. Em momento algum, ele considerou Esther como suspeita. Ela é uma estranha, isso é fato. Os dois se conhecem a pouco tempo, mas ele tinha certeza de que ela seria incapaz de fazer isso.
A lua estava alta quando ele decidiu sair do Centro de Pesquisa. Havia só um vigilante sentado no hall, que costuma ser movimentado durante o dia. Ele estava sonolento, mas ainda acordado. Sinal de que não deveria ser tão tarde quanto ele imaginava.
-Demorou esta noite, professor...
-Sim, uma pesquisa muito importante... Er, você poderia me informar as horas?
-Duas da manhã, senhor.
-Obrigado.
Era tarde da noite, e havia muitos homens bebendo no bar. Muitos estavam bêbados, e cantavam músicas de letra obscena. Graças a Deus, ele pensou, Esther não precisava ficar servindo-os. Alguns deles eram estranhos. Nunca tinha visto-os antes por ali. Tinham um semblante marginal, de estar disposto a qualquer coisa por algumas moedas. Como detetive, ele já sabia distinguir um bandido até pelo cheiro, pensou Holmes, e aqueles sujeitos eram um destes.
Holmes estava no limiar da porta de seu quarto, quando notou que a porta estava semiaberta. Embora estivesse calor, ele pensou, a porta sempre costumava estar fechada. Havia algo estranho ali.
Ele olhou para o chão. Havia alguém ali. Uma única vela, certamente, estava acesa. Aquela hora, Esther deveria estar dormindo, e ela não consegue dormir com qualquer sinal de luz. Ele se aproximou da porta, e foi abri-la. Seu instinto adormecido de detetive foi muito maior do que os bons modos, que o fez abrir a porta bruscamente.
-Oh, perdoe-me, senhorita! – Holmes virou o rosto imediatamente, e saiu do quarto, fechando a porta atrás de suas costas. Esther estava terminando de se vestir, foi só o que Holmes pôde constatar.
-Mr. Sigerson, é você?
Holmes esperou um pouco, porque ainda estava corado, pela surpresa da visão. Ele detestava estar neste estado. – S-Sim, sou eu. Perdoe a minha indelicadeza, é que percebi que a luz estava acesa e... e, a estalagem está cheia de sujeitos estranhos, e...
A própria porta se abriu, para revelar Esther já devidamente vestida.
-Está tudo bem, Mr. Sigerson. Acho que o senhor foi educado o bastante, não precisa se justificar. Na verdade, eu já estava me vestindo para ir atrás justamente do senhor! Aconteceu alguma coisa? Você está um tanto estranho...
-Nada demais, Miss Katz. Aliás, a senhora não precisa se preocupar comigo.
-Como eu não preciso? O senhor é um homem tão regrado, costuma chegar em casa a mesma hora quase todos os dias...
Regrado. Ela estava usando este termo para se referir a Sherlock Holmes? Eu, regrado? O que está acontecendo contigo, Sherlock? Você vai deixar essa moça ditar as regras?
-Sim, mas eis que um dia eu decido fazer algo diferente, e ao chegar vejo que não tenho essa liberdade, porque descubro que possuo um cão de guarda para me vigiar.
Holmes utilizou quase todo o cinismo e arrogância que tinha. Os mesmos que utilizava há anos atrás, em sua profissão. Esther ficou abalada, mas como Holmes percebera, ela sabia disfarçar seus sentimentos. Sempre soube e sempre o faria.
Exceto por aquela noite.
-Então, é isso que pensa de mim? Cão de guarda?
-É como a senhorita está agindo.
-Eu estava preocupada com o senhor! Jeová, o senhor é mesmo um ingrato! Quando alguém mostra-se preocupado, disposto em ajudar, o senhor o agride, com essas palavras tão ríspidas...
Holmes riu, em deboche. – Ah, então como se não bastasse me vigiar e controlar os meus horários, agora também está me ofendendo? O que mais terei de esperar de você?
Esther ficou enfurecida. – O senhor só pode ser louco! O que deu em você? Parece alterado!
-É claro que estou! – gritou Holmes. – Óbvio que estou, Miss Katz! A coisa que mais prezo em minha vida é minha liberdade! Não preciso que alguém cuide de mim e não dei direito para que você o fizesse!
Um silêncio pairou sobre o quarto.
-O senhor é um insensível. Deve ter perdido qualquer senso de humanidade nestes anos em que passou, como o senhor tanto diz, “longe da Civilização”. Acho que o senhor é que é um selvagem, não os tibetanos que estão em seus relatórios!
-O quê? O que você disse?
Holmes se aproximou de Esther. Sua altura costumava causar medo a qualquer um mais baixo, de mesma estatura que Esther, mas ela se mantinha firme, desafiadora. Ele viu que seus olhos estavam lacrimejantes.
-Chega, Mr. Sigerson. Eu vou embora.
Aquelas três palavras, “eu vou embora”, chocaram Holmes. Ele sentiu seu coração disparar, ao ver a moça ir até suas coisas para recolher seus pertences. Ela estava mesmo decidida. Ele não queria que ela fosse embora, mas era teimoso para reconhecer isso. Tão teimoso quanto ela.
-Se você for, eu não vou te impedir. – ele disse, tentando demonstrar desprezo com a situação, enquanto Esther reunia tudo em sua pequena mala. Mas no fundo, ele sentia aperto. Um aperto esquisito, até um pouco pior do que estava sentindo no laboratório, imaginando seu amigo afundado na tristeza.
-Pois não me impeça, que isso torna as coisas mais fáceis para mim. Melhor assim. – ela também era teimosa. Embora não quisesse ir, ela queria mostrar que ainda tinha um pouco de senso.
-Er, a senhorita tem algum lugar em vista?
-Depois eu vejo isso.
Pensa rápido, Holmes.
-Não precisa ir a lugar algum. Eu já não disse que estarei indo a Paris daqui a quatro dias? Espere mais alguns dias que eu irei primeiro, e você terá esse quarto só para você.
Ao perceber que ela não parou de arrumar as malas, Holmes continuou.
-Não se finja de irracional, Miss Katz. Eu sei que a senhorita não é. – ele disse, juntando-se a ela no chão. – Eu já vou embora, já estava combinado. Se a senhorita pensa todas aquelas coisas de mim, eu devo imaginar que a minha “presença repugnante” deva ser tolerável ao menos por mais alguns dias.
Esther suspirou, num misto de raiva conformada. Largou parte das malas e virou-se para Holmes.
-Onde você estava?
-Trabalhando, em uma pesquisa. Onde mais imaginou que eu estaria?
-Até você chegar, pensei que... Deixa pra lá.
-No cabaré, é? Mas eu não estava com meu violino...
-Steve, um professor, comentou que sempre te convida para tomar uma cerveja ou ir ao cabaré, para fins... Recreativos.
Holmes teve vontade de rir. – E alguma vez eu fiz isso?
-Não, que eu saiba. Mas há sempre uma primeira vez. – Esther bufou. – Mr. Sigerson, o senhor está certo, eu não tenho qualquer direito de julgar o que você faz da sua vida.
Ela está com ciúmes, é isso?
-Ainda assim... Você também está certa, Miss Katz. Eu é que não tenho direito de deixar minha... – Holmes procurava as palavras – “Colega” preocupada. De fato, eu estava no laboratório, nada mais que isso. Não tenho mais a noção da hora desde que perdi meu relógio. Acho que amanhã vou comprar outro.
-Não será necessário.
-Huh?
Esther estava séria, com o rosto neutro. – Em cima do criado-mudo.
Holmes se levantou, e foi até o pequeno criado-mudo. Lá estava uma pequena capa, de veludo.
-Feliz Natal antecipado, Mr. Sigerson.
Holmes tomou a capa em suas mãos. Ao abrir, deu-se conta de que era o seu relógio de bolso, bastante reformado e impecável.
-Espere... Mas este é o meu relógio!
Esther sorriu diante de sua reação, e explicou.
-Eu percebi que você estava usando-o mesmo com o vidro quebrado. Juntei um dinheiro e o levei a um ourives decente. Ele deu um pequeno reparo até na corrente, mas não se preocupe, o soberano que você carrega nela está intacto.
Holmes sorriu, enquanto observava o relógio atentamente.
-Esse soberano deve trazer muitas boas recordações, não é? – perguntou uma curiosa Esther.
-Sim e não. – confessou Holmes, lembrando-se do caso agridoce que lhe fez deparar com a mulher mais magnífica que ele conhecera.
-Hum... – limitou-se a dizer Esther, ao perceber que nada mais seria revelado, como quase tudo relacionado a Sigerson.
-Obrigado. – ele disse, comovido e sem graça. – M-Muito obrigado.
Com uma naturalidade até um tanto incomum, Holmes deu um forte abraço em Esther. Naquele momento, ele percebeu que fazia quase três anos que não comemorava um Natal. Embora desprezasse um tanto a data no aconchego de Baker Street e a tivesse esquecido em seu tempo no Tibete, ele sentiu-se bem por ser lembrado, e agora, por estar compartilhando um momento com aquela pessoa que era a única que ele tinha agora.
-Eu... Pretendia te presentear no Natal, mas como você irá a Paris semana que vem e, eu posso nunca mais te ver... Eu tive de antecipar o presente. Embora eu seja judia e não acredite em Natal, eu respeito a crença cristã, mesmo com os outros respeitando a minha ou não.
-É claro que eu respeito a sua crença, Miss Katz. Saiba disso.
Ele apertou sua mão e deu um leve beijo de gratidão nas costas de suas mãos, que fez Esther estremecer um pouco, de arrepio e nervosismo. Ela olhou firmemente em seus olhos cinzentos, e sentiu que ele retribuía.
-Perdoe a minha indelicadeza, e essa briga que tivemos.
Você está MESMO pedindo perdão, Holmes?
-Tudo bem, Mr. Sigerson. Mas aviso que não me esqueci do que aconteceu. O que você me disse agora a pouco ainda dói. E se quer saber, eu não retiro nada do que eu disse. Você age muitas vezes como se...
Holmes a interrompeu, estendendo uma mão para pará-la. – Ei, ei. Chega, eu já entendi. Se não vamos esquecer, vamos superar, ao menos. Enfim, eu gostei do presente, e acho que estou te devendo um presente também.
-Não espere que eu vá te dizer o que quero. Gosto de surpresas.
-Mas eu lhe conheço muito pouco, Miss Katz, e além de quê, eu só tenho três dias...
-Ora, faça um esforço. Tente saber o que eu gosto ou o que eu quero. Você não foi esperto o bastante para saber tudo sobre mim na primeira vez em que nos vimos? Não é esperto para dar um presente?
Não para dar um presente para uma mulher. Eu nunca fiz isso na minha vida, pensou Holmes.
-Você está me desafiando, Miss Katz? Acha que vou errar no presente? – caçoou Holmes. Esther sorriu, provocante.
-Duvido que consiga adivinhar o que eu quero, Mr. Sigerson.
-Minha cara senhorita, eu nunca adivinho.
Notas finais
É Holmes, vai pensando em uma maneira de surpreender Esther... Comprar um presente para uma mulher é algo que costuma ser, para alguns homens, tão complicado quanto desvendar um crime. Veremos como ele vai se sair...
Pessoal, peço paciência. As coisas irão avançar. Devemos nos lembrar que isso é século XIX e o personagem é conhecido por desprezar as mulheres. Não dá para haver "pegação" ou qualquer outra coisa do nosso tempo, ainda mais se tratando de Holmes. Nossos personagens são problemáticos mesmo, e digamos que nenhum deles está em busca de relacionamento. Nem a Esther tá querendo muito, vocês vão entender.
Deixem review, por favor, e obrigada pela leitura.
BadWolf
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