Shalom - As Memórias de John Sigerson

36 Capítulo 36: Uma Suposta Casa Vazia (Parte 1)


Notas iniciais
Olá pessoal, voltei!!

Conforme já avisado - desde a sinopse da história, na verdade -, colocarei agora a versão by Katz do conto "A Casa Vazia". Tive de dividir em duas partes, porque ficou bem generoso. Vocês podem sentir familiaridade com o que Watson escreveu, mas garanto que tem muita coisa diferente. E o final desse capítulo tá daqueles hein... Mega gancho!!

Bem, espero que gostem! MPs e reviews no final sempre bem-vindos!

Já embarcados dentro de um cabriolé, Holmes sentou-se ao lado de Watson, e como era de se esperar, não pôde deixar de fazer alguns comentários.

-Eu estava prestes a dar-lhe os pêsames por sua perda, Watson, mas vejo que você se recuperou bem da morte da Sra. Watson e de seu bebê... Albert seria o nome dele, não?

Aquele assunto, como imaginava Holmes, chateava a Watson, e rapidamente ele o deixou triste.

-Sim, seria Albert... Mas o quê você quer dizer com isso, Holmes?

Holmes deu de ombros, suspirando com desinteresse. – Nada demais, apenas estou surpreso que tenha superado tão rapidamente a morte de sua Mary e da criança. Já está até caído de amores por outra mulher...

-Você está enganado, Holmes. Perder Mary e meu filho foi a dor mais insuportável que já senti, e ela ainda não passou. Eu estava triste, sem qualquer perspectiva de vida ou motivação, até que conheci Sophie. Acho, meu velho amigo, que jamais irei esquecer ou superar a morte de minha esposa e de meu filho, mas Sophie está me ajudando a dar continuidade à minha vida. Ela jamais irá substituir Mary, e se você tivesse amado alguém na vida, entenderia o que estou dizendo. Nenhuma mulher substitui a outra, mas ocupa lugar diferente no coração.

Holmes debochou. – Oh, deveras tocante, Doutor.

-E, aliás, eu acho que meu relacionamento com Sophie também é bom para ela. Quando eu a conheci, eu senti que ela... Não sei dizer... Parecia ter algum tipo de bloqueio a qualquer aproximação... E eu sinto que ela ainda não está totalmente aberta.

Holmes permaneceu calado, refletindo as palavras de Watson;

-Às vezes, eu sinto que o coração dela já está ocupado. Algumas vezes, eu tentei puxar assunto sobre isso, para saber se ela já conheceu alguém, claro, com todo o respeito, mas ela se esquiva. Aliás, ela evita falar qualquer coisa sobre o passado dela. Só o que sei é que ela não é britânica, mas o sotaque dela é um tanto estranho, acho que meio misturado...

Holmes bufou, fingindo estar desinteressado.

-Acho que encontrei a pessoa errada para desabafar meus problemas amorosos. Você é a última pessoa indicada para isso. – concluiu Watson.

-Claro, afinal eu sou a velha “máquina de calcular”, não sou? Fria, calculista e sem sentimentos, nascida e criada para solucionar crimes escabrosos. Essas trivialidades fazem mal ao meu cérebro.

Watson franziu a sobrancelha, e pôs-se a pensar.

-Holmes, às vezes eu tento te imaginar como você se comportaria se estivesse apaixonado.

Diante dessa afirmação, Holmes não resistiu e soltou uma boa gargalhada.

-Meu caro Watson, o dia que isso acontecer será o fim da minha sanidade mental. Tem o meu aval para me internar em um hospício, se desejar. Ou um hospício, ou então eu inevitavelmente irei à prisão.

-Ora, e porquê?

-Porquê uma mulher me deixará louco, e é até provável que eu cometa um crime ao invés de resolvê-lo, tamanho será o estrago dela em minhas faculdades mentais. Elas têm o poder de nos deixar loucos.

Watson olhou fixamente para Holmes, e deixou escapar um sorriso.

-É impressão minha ou você adquiriu experiência neste ramo, meu caro Holmes?

Holmes arregalou seus olhos cinzentos, não enxergando que Watson estava, na verdade, brincando.

-É óbvio que não! Eu não mudei nem um pouco nestes quatro anos. Continuo sendo o mesmo Holmes, com as mesmas conclusões sobre o sexo oposto.

-Eu estava só brincando, Holmes... Mas afinal, essa nossa conversa acabou por me fazer esquecer de seu objetivo, que ainda está um tanto obscuro para mim. O que iremos fazer, e para onde estamos indo?

Holmes ficou aliviado pelo próprio Watson tirar o tópico mulheres daquela conversa. Ele precisava estar concentrado.

-Esta noite, iremos pegar o único homem que apresenta real ameaça ao meu retorno, Watson. Aliás, creio que tenha acompanhado o caso Ronald Adair.

-Sim, eu tenho lido nos jornais, e inclusive Lestrade veio até mim e me entregou uma cópia do inquérito. Ele tinha esperanças de que eu tinha aprendido alguma coisa com você.

Holmes assentiu. – A Scotland Yard está mais perdida que barata tonta neste caso. Bem, ele apresentou características que também me interessaram, creio que não preciso me delongar em titulá-las, uma vez que você está a par. Por suas características, eu não tenho dúvidas de que Sebastian Moran está por trás dele. Você já ouviu falar dele?

-Creio que o nome dele está no inquérito...

-Apenas como depoente. Nem sequer foi apontado como suspeito, quando é, na verdade, o executor desse assassinato sortido. Ele era o braço direito de Moriarty, e também o homem que tentou me matar, ao perceber que eu matei Moriarty. Foi ele que me perseguiu por quilômetros, e tentou me matar a tiros. Ele é um dos melhores atiradores da Europa, senão o melhor, e creio que serviu à metade das Guerras de nosso Exército. Por isso, eu o considerava o segundo homem mais perigoso da Europa, atrás apenas, é claro, de Moriarty. Com a morte do professor, ele ocupa agora o primeiro posto. Ele escapou da série de prisões à quadrilha de Moriarty, porque o professor sempre foi cuidadoso em evitar sua ligação à rede criminosa, uma vez que ele seria, naturalmente, o sucessor, caso algo lhe acontecesse. Posso não liga-lo à quadrilha, mas irei provar sua ligação em outro crime: assassinato. Dessa vez, ele não escapa da forca. Bem, parece que chegamos.

O cabriolé parou, diante de uma casa aparentemente fechada e vazia, e Watson rapidamente reconheceu o local em que estava.

-Mas esta é Baker Street!

-Exatamente. E aquele é o 221B, nossos antigos aposentos. Não, nós não entraremos em meus antigos aposentos, nem faremos uma visita à estimada Mrs. Hudson. Hoje, ficaremos por aqui. – disse Holmes, retirando do bolso uma chave.

A casa parecia fechada há muito tempo. Watson, que há anos não morava em Baker Street, sequer sabia do estado dela. Estava tudo escuro, e Holmes parecia tomar precauções, evitando qualquer tipo de luz e se movimentando sem provocar barulho, Watson fazia o mesmo, seguindo-o até as escadas.

-Esta casa nos dá uma excelente vista de nossa antiga residência. Eu poderia aborrecê-lo, meu caro Watson, pedindo-lhe para vir um pouco mais perto da janela, mas tomando toda a precaução para não se mostrar, e então olhar para os nossos velhos quartos – o ponto de partida de tantos dos seus pequenos contos? Veremos se os meus três anos de ausência anularam completamente o meu poder de surpreendê-lo.

Watson esgueirou-se para frente e deu uma olhada. Assim que viu, deu um suspiro e um grito de espanto. Havia uma silhueta idêntica a Holmes, escondida pela cortina que seria da janela da sala, com mesma altura, nariz e feições do rosto, que fazia pequenos movimentos, como se estivesse a dar pequenos passos.

-Então? – disse ele.

-Por Deus! – exclamou Watson. – É impressionante!

-Creio que o passar dos anos não murchou nem envelheceu a minha capacidade de me reinventar, – disse ele, fazendo Watson concordar. – Realmente está bem parecido comigo, não é?

-Eu estaria pronto para jurar que era você.

-O crédito dessa obra é devido ao monsieur Oscar Meunier, de Grenoble, que gastou alguns dias para fazer o modelo. É um busto em cera. O resto eu mesmo organizei durante a minha visita à Baker Street esta tarde.

-Mas por quê?

-Porque, meu caro Watson, eu tive a mais forte razão possível para desejar que determinadas pessoas pensassem que eu estava lá, quando realmente estava em outro lugar.

-E você acha que os quartos estão sendo vigiados?

-Eu sei que estão sendo vigiados.

-Por quem?

-Por meus velhos inimigos, Watson. Pela encantadora sociedade cujo líder jaz em Reichenbach. Você deve recordar que eles sabiam – e só eles sabiam – que eu ainda estava vivo. Sebastian Moran foi testemunha de minha sobrevivência, e evidentemente contou aos poucos criminosos que ainda possuem alguma parceria com ele, depois que a organização foi desmontada, ou seja, com os pequeninos peixes que escaparam da rede. Eles acreditavam que cedo ou tarde eu haveria de voltar para o meu apartamento, vigiaram-no durante estes quatro anos em que estive fora e esta manhã me viram chegar.

-Como você sabe?

-Porque eu reconheci a sentinela deles quando olhei pela janela. Ele é um elemento bastante inofensivo daquela organização, de nome Parker, um estrangulador de ofício e artista notável na harpa. Eu não queria nada com ele e sim com uma pessoa muito mais formidável que estava por trás dele, o amigo do peito de Moriarty, o homem que atirou aquelas pedras de cima do precipício, que desferiu alguns tiros contra mim, o criminoso mais esperto e perigoso de Londres. Esse é o homem que está em meu encalço esta noite, Watson; esse é o homem desavisado que procuramos.

-Sebastian Moran.

-Exatamente.

Silêncio seguiu-se por uma fração de segundos, até Watson olhar de soslaio para baixo e notar uma movimentação ruim na porta de 221B.

-Por Deus, Holmes! Há um bandido entrando em nosso apartamento!

-O quê?! – desesperou-se Holmes, tomando cuidado em se aproximar da janela, para não ser visto. – Oh não, Mrs. Hudson! – ele balbuciou. – eu pedi que ela movesse o boneco de cera!

-Decerto Sebastian Moran decidiu mandar outro agente para mata-lo!

-Ele não faria isso, Watson!

-Precisamos agir, Holmes! Mrs. Hudson não pode ficar a mercê de um marginal! – disse Watson, desesperado, se movendo para a porta.

-Ei, para onde você vai?

-Agir, meu velho! Minha presença naquela casa não será suspeita. Não se preocupe, eu estou armado.

-Watson...

Era tarde. Watson já tinha descido as escadas rapidamente, deixando Holmes sozinho, prestes a encontrar-se com Moran em um acerto de contas. Holmes bufou, um tanto irritado, e continuou a acompanhar a movimentação. Nada aconteceu.

Holmes ouviu um estalo do assoalho. Havia mais alguém subindo. Ele se esgueirou para um canto escuro do cômodo e esperou, esquecendo-se de que estava completamente desarmado contra o maior atirador da Europa. Ao ver o sujeito, alto, de idade, aproximar-se do feixe de claridade que irradiava do lado de fora, Holmes teve a comprovação de que era Moran. Certamente o tal bandido foi apenas uma certificação de que Holmes estava ali, e Watson deu um jeito nele, de alguma maneira. Ao menos ele esperava que isso tivesse ocorrido, e não o contrário.

Não era tempo de se preocupar com Watson, diante de uma caça daquela magnitude bem ali, diante de seus olhos.

Moran se aproximou da janela, com a tenacidade de um expert. O sujeito trabalhava em sua arma, completamente despreocupado, montando peça por peça, e eventualmente assobiando. Quando pronta, Holmes pôde ver nitidamente o quão raro era aquele tipo de arma. Nunca tinha visto nada igual. O sujeito, ainda despreocupado, a colocou em posição de tiro.

Holmes já estava sem suas luvas, com o ódio transparecendo em seus olhos. Passava por ele a sua fuga nas Cataratas, e na maneira covarde que o Coronel Moran tentou matar-lhe. Agora os dois estariam ali, sem qualquer artifício, pronto para ajustarem suas contas.

O coronel Moran foi rápido, e em menos de um minuto com a bela carabina em punho, ele efetuou um disparo.

No mesmo instante do disparo, Holmes lançou-se contra ele, e o retirou da arma. Embora Holmes tivesse técnica, Moran dava sinais de que era bom lutador, esquivando-se e também golpeando. Por final, Holmes acabou recebendo um soco indefensável, e caiu no chão. Moran rapidamente lançou-se contra seu pescoço, com as duas mãos estrangulando Holmes, que embora tentasse lutar contra seu adversário, sentia o ar esgotar-se e suas mãos cada vez mais frouxas, impedindo-o de lutar por sua própria vida.

Quase fechando por completo os olhos, Holmes teve tempo de ver, ainda, alguém lançar sobre o rosto de Moran um pano branco, que logo o detetive deduziu estar embebecido com éter. Moran estava tão ocupado com o segundo oponente que acabou por largar Holmes, que ficou recuperando o fôlego, até começar a assistir a luta feroz e inacreditável que estava diante de seus olhos.

A tal “luta” for bem rápida. O pequeno oponente soube montar-se sobre Moran e fazê-lo aspirar por tempo suficiente o éter, até deixa-lo desmaiar. Enquanto Moran lutava, com o pouco de sua consciência, para o sujeito abandonar suas costas, o chapéu do sujeito caiu, revelando seus longos cabelos.

Era uma mulher?

Moran caiu no chão atordoado, provocando um forte baque no assoalho. A mulher suspirou, aliviada. Sem olhar diretamente para Holmes, ela pegou seu chapéu e o pôs na cabeça rapidamente, mas já era tarde. Seus longos cabelos já tinham sido revelados.

-Er... Quem é você?

A mulher enrijeceu-se, surpresa. O ambiente estava tão escuro que ela não o viu diretamente ainda. Ela aproximou-se da claridade, de costas para Holmes.

-A última pessoa que você poderia imaginar.

Antes que Holmes se recuperasse do choque daquela voz, tão familiar, ela retirou a longa peruca, revelando seus verdadeiros cabelos, presos em um coque.

-Esther?!

Notas finais
O: O: O: O:

Esther, sempre surpreendendo todo mundo, não é?

E não é que "A Casa Vazia" não estava tão vazia assim? RS

Então esse nosso título é nada mais que uma espécie de ironia.

E Mrs. Hudson? Será que ficou bem? E Watson? Parece que ele perdeu um pedaço muito interessante de seu conto... Com certeza Holmes contará outra versão dos fatos...

E preparem-se: no próximo episódio:

Na Casa "Vazia", Esther vai lavar um pouco sua alma... Ih...

Até a próxima, e deixem reviews e MPs, se preferirem. Quero saber se estamos no caminho certo.