Shalom - As Memórias de John Sigerson

20 Capítulo 20: Au Revoir, Paris


Notas iniciais
Chegou a hora... Isso mesmo, é o que diz o título... Sentem-se, peguem seus lenços... e preparem-se.

Às sete da manhã, Esther já estava levantada e devidamente arrumada. Embora usasse as mesmas roupas do dia anterior, ela estava perfumada. Certamente, aproveitou o banho de banheira, espuma e sais disponível na suíte, Holmes confirmou pelo perfume que exalava de seu corpo.

Mas que diabos eu estou pensando?

-Oh, vejo que já está pronta, mademoiselle. – disse Mycroft, lançando seu sorriso mais cortês e puxando-lhe uma cadeira, pois iriam tomar café no quarto.

-Sim, estou. Er... Eu poderia ir até a estalagem para pegar meus pertences?

Mycroft negou, com a mão. – Oh, minha cara, nada disso será necessário. Vida nova, novas roupas. Aliás, irei providenciar também uma nova identidade para ti. Será melhor, afinal não é bom ter a senhorita circulando por aí com o sobrenome de um espião, caso o Conde realmente saiba quem de fato seu pai era.

-Bom... Tudo bem... – ela disse, tímida.

-E parece que Sh... Sigerson teve uma noite esplêndida, não é? – caçoou Mycroft.

-S-Sim, muito. – disse Holmes, um tanto envergonhado. Desde que Esther lhe apareceu, agora com o destino traçado, ele sentia-se pisando em ovos, em um estado quase patético.

-Er, Mr. Mycroft... Desculpe perguntar, mas porquê o senhor chama o seu irmão Sigerson de Sigerson?

Tanto Mycroft quanto Sherlock Holmes quase engasgaram ao mesmo tempo.

-Eu observei que você chama seu irmão pelo sobrenome... Eu nunca vi nada igual, chamar o irmão pelo sobrenome...

-Er... Isso ocorre porque... Porque...

-Porque eu e Mycroft somos filhos de pais diferentes. – interferiu Holmes, arrancando um suspiro de Mycroft. – Mycroft é filho do primeiro casamento de minha mãe, e eu sou o segundo. Então, ele me chama de Sigerson. Por isso.

-Mas não seria melhor que você o chamasse de John? É mais simples.

-John é o nome de meu cachorrinho, um buldogue manco que parece ter um bigode. – quando Mycroft disse isso com uma risadinha, Holmes deu-lhe um pisão, fazendo seu irmão quase pular da mesa. Sem dúvida, era uma piada sobre Watson.

-Ah. – disse Esther, não muito convencida.

Deus, essa moça é mais esperta do que eu imaginei... Deve estar no sangue.

Depois do café, Mycroft e Esther acompanharam a comitiva da Inglaterra até a estação de trem, que os deixariam na Inglaterra. Mycroft conseguiu uma passagem de segunda classe para Esther, sem problemas. Praticamente todo aquele trem estava fretado por aquela comitiva, de modo que a viagem ocorreria sem problemas.

Holmes, temendo ser reconhecido por alguém, acabou praticamente escondido na estação. Ele não pôde se despedir da moça como gostaria. Ela estava cercada por funcionários do governo, algum dos quais Holmes conhecia, inclusive. Outros, ele constatou com certa raiva, já estavam rodeando a moça, como urubus. Pudera. A moça tinha traços encantadores. Os cabelos loiros, que embora o coque alinhado não demonstrasse, mas Holmes sabia, eram ondulados, os olhos claros, que faziam uma bonita combinação, e a pele branca, mais branca que a sua. O nariz pequeno, os lábios finos...

Ele suspirou. Droga, o que está acontecendo comigo?

Escondido entre um dos muros da estação, ele ouviu o apito do trem.

-Com licença senhores, eu acho que esqueci uma bagagem... – disse Esther, dispensando os ingleses que a rodeavam. Mycroft olhou de soslaio, mas fez apenas um comentário.

-O trem parte daqui a dez minutos, Miss Katz.

-Obrigada por avisar, Mr. Mycroft.

Ao ver que Esther se aproximava de si, Holmes encolheu-se de volta ao seu esconderijo. Porque ela estava fazendo isso? Porque tinha que tornar as coisas mais difíceis?

-Esther, o seu trem...

-Tenho dez minutos.

-Nove minutos e vinte segundos, pelo menos.

Esther riu. – Então, você tem boa audição.

-Leitura labial, nada mais.

Os dois ficaram diante um do outro, em um breve silêncio.

-Sigerson, eu queria te agradecer por tudo...

-Não precisa agradecer. Nada fiz de mais.

-Engana-se. Você estendeu a mão quando eu mais precisei. Foi respeitoso, gentil e... Um grande amigo. Um amigo como eu nunca tive na vida, e que talvez eu jamais venha a ter igual.

Holmes ouvia atentamente.

-Você vai ficar em Paris?

-Certamente não. – Holmes procurava as palavras. – Eu... Eu não finco raízes em lugar algum. Estive em Paris apenas para ver Mycroft, apenas isso. Não sei para onde vou. Amanhã eu posso acordar com desejo de ir à Madrid, Veneza...

Esther suspirou. – Por favor, peça ao seu irmão o meu endereço. Eu quero saber notícias suas.

-Esther... – Holmes insistiu, com a cabeça baixa. – Por favor, não torne as coisas mais difíceis.

-I-Isso é um adeus?

-Esther, Esther... – disse Holmes, em um suspiro quase suplicante. – Não prolongue o inevitável. – ele disse, por fim, envolvendo suas duas mãos em seu rosto gracioso, já com algumas lágrimas.

-Seu irmão certamente saberá onde eu estou. – ela insistiu. – Por favor, me dê notícias. Mesmo que isso não siginifica nada para você.

-Esther... Acredite em mim, eu me importo para você, mas neste momento sejamos racionais: sua ida à Inglaterra e minha permanência aqui é o melhor para nós dois. Você vai demorar a perceber isso, mas vai perceber. O tempo irá passar, você construirá uma nova vida, conhecerá outras pessoas... Certamente irá se casar e terá uma vida muito melhor do que esta, ou qualquer outra que minha companhia poderia oferecer. Além disso, eu... Creio ter alimentado falsas esperanças a respeito de... Nós dois. Eu... Eu... Não posso corresponder ao que você quer de mim.

Esther arregalou seus olhos, em choque com as palavras de Holmes. De maneira firme, Holmes olhou em seus olhos, e depois baixou a cabeça. Explicações não eram necessárias. No fundo, ele sabia o quê suas palavras estavam matando dentro dela. Amor, desejo, paixão, seja lá o que for a sentimentalidade que a moça sentia por si, não era correto que ele a alimentasse. Ele agora sentia-se culpado por ter alimentado. Deu esperanças, querendo ou não, e só agora ele pôde enxergar isso, graças à visão de uma terceira pessoa: seu irmão, Mycroft. Passar aqueles dias com Esther o fez ficar tão familiarizado com uma mulher que ele não percebeu o grave perigo que estava colocando à sua racionalidade, sempre acima de tudo. Não. Aquele era o momento de manter-se duro, inflexível, frio.

Ele mal pôde ver Esther se distanciar, pouco a pouco. Mal pôde ver seus olhos marejados, sua reação atônita diante do inevitável. Ele não a amava, assim ela pensava. Que grande tola, acreditar nisso. Um homem, tão livre, sem preconceitos ou raízes, dono de si, jamais se prenderia a qualquer mulher que fosse. Como ele mesmo disse, ele amava sua liberdade acima de tudo. Não havia espaço para ela, embora ela tivesse, por poucos momentos, acreditado o contrário. Ela queria ouvir de sua boca um pedido para que ela não fosse à Inglaterra, para que ela permanecesse em Paris, mas ele era tão racional quanto ela. Ficar em Paris não era o melhor para ela. Talvez a atitude mais racional fosse justamente sua maior prova de amor, ebora ela tivesse a sensação de que ele jamais iria admitir isso, deixando-a ir embora para sempre apenas para vê-la bem, feliz e longe do perigo.

Quando ele ergueu o rosto outra vez, Esther não era mais nada além de um ponto distante, perdido no meio da multidão que estava pronta para deixar Paris. Seu irmão olhou para sua direção e se despediu à sua maneira: sem abraços, sem choros. Apenas um olhar confortante, dado à distância.

Holmes ainda permaneceu à espreita, depois que Esther embarcou junto com seu irmão. Queria ter certeza de que nenhuma ameaça iria acompanhá-la. Esperou o último passageiro, já atrasado, embarcar, para seu alívio nenhum deles suspeito. Um funcionário fez seu último chamado, e o apito do trem soou, tristemente, em seus ouvidos, despertando-o para aquela realidade.

Ela estava indo embora. Para sempre.

-Adeus, Esther. – ele murmurou, enquanto assistia o trem adquirir velocidade gradualmente.

Notas finais
Morri! Pobre Esther, que toco! Não é assim que se faz com uma moça, Mr. Holmes! Que feio!

Antes que alguém me trucida, por favor, isso não significa que a história acabou, pelo contrário!

Ainda tem muita coisa para acontecer. Esther está voltando para a Inglaterra, mas os perigos que ela tenta fugir. Holmes ainda tem seus inimigos para enfrentar, para poder voltar à sua antiga vida em Baker Street, e ainda tem que lidar com a perda definitiva de Esther. Ele está convencido de que jamais poderá vê-la novamente, ainda mais se ele voltar a ser Sherlock Holmes. Esta é uma perda que fará mais mal do que ele poderia imaginar - embora ele ainda não admita, ou mesmo desconheça, seus verdadeiros sentimentos.

Enfim, Holmes precisa de um psicólogo, Esther de um guarda-costas, e Mycroft de seu Clube Diógenes e chá com biscoitos.

Obrigada pela atenção, e semana que vem tem mais! Até logo!

BadWolf