Shalom - As Memórias de John Sigerson
47 Capítulo 47: Em Perigo
Notas iniciais
Quando estava no intervalo, dando uma volta pelo jardim e conversando com algumas professoras, Esther foi surpreendida por uma de suas alunas, Harriet Morris, a menina mais alta da turma e uma das amiguinhas de Maggie.
–Professora... – ela chamou por atenção.
–Pois não?
–Professora, a senhora sabe como eu posso entregar esse livro? Maggie me emprestou e eu não devolvi...
A menina tinha os olhos tristes, e entregou às mãos de Esther um pequeno livro infantil. Esther soltou um suspiro.
–A casa dela fica aqui perto. Podemos entregar, eu e você, se seus pais não se importarem.
Em meio à tristeza, a menina soltou um franco sorriso, e concordou.
–Alfred não vai se importar, eu acho. – ela disse. Alfred deveria ser o cocheiro ou o mordomo da família dela, pensou Esther.
–Então tudo bem. Daqui a pouco, você segue comigo.
No fim da aula, as duas seguiram a pé até a casa de Maggie, a imponente Mansão dos Howard, que demonstrava bem o padrão de riqueza que envolvia a família da menina.
Havia um cabriolé estacionado na porta, percebeu Esther, a medida que se aproximava da casa. Ainda na calçada, a certa distância, ela viu um homem sair do portão de ferro da casa e rapidamente entrar no cabriolé. Ele estava acompanhado por Howard, pai de Maggie. Esther reconheceu o sujeito imediatamente como Dmitri, seu algoz, e imediatamente parou de se aproximar, de pavor.
–O que foi, professora? – questionou Harriet.
–Er... Não é de bom tom interromper a conversa de dois senhores, Miss Morris. Devemos esperar aqui.
–Tudo bem.
Antes que o cabriolé partisse, ela pôde ouvir claramente a voz de Dmitri dizer “Para Baker Street, e depressa”. Aquilo fez seu coração disparar de medo e pavor do que poderia acontecer.
Holmes!
–Professora, a senhora está bem?
–Estou, Miss Morris. Er... Vamos entregar esse livro outro dia, creio que o momento não é adequado...
–Mas professora...
–Vamos embora, ou Alfred ficará impaciente com sua demora.
Harriet não parecia satisfeita com a decisão de sua professora, mas teve de acatar. E ainda precisou andar a passos rápidos, como se o mundo fosse acabar em um instante. Assim que chegaram ao colégio, Esther deixou sua aluna com o mordomo – ela descobriu, pela vestimenta impecável – e pegou um cabriolé, que por sorte estava passando ali naquele momento.
–Para Baker Street, e rápido. – ordenou.
Naquele momento, ela lembrou-se de uma das histórias de Holmes e Watson, e adicionou. – Um soberano, se você chegar em dez minutos! – disse, e o cocheiro deu um galope, ditando o ritmo daquela corrida.
Em dez minutos, Esther estava em Baker Street, e na metade da distância da rua, ela pediu que o cabriolé parasse. Deu-se conta, então, que havia um cabriolé estacionado um pouco a frente do número 221. Era o mesmo cabriolé. Sinal de que Dmitri já tinha chegado.
Esther sabia que Dmitri não deixaria aquela confusão à toa, e que certamente colocou homens atrás de Sigerson para saber sua localização. Acho que ele deve ter ficado surpreso ao saber que Sigerson nada mais era que o ilustre detetive, pensou Esther. Agora ele teria um inimigo à altura.
Sem rodeios, Esther pensou em uma maneira de ajudar Holmes.
Em um comércio próximo a Baker Street, havia uma pequena loja de doces. Esther se aproximou e comprou uma pequena compota, mas pediu uma sacola grande, deixando a balconista um tanto estarrecida. De posse de uma sacola enorme, Esther a levou na altura do rosto e foi bater à porta de Baker Street. Depois de alguns minutos de tensão, quem abriu a porta felizmente foi Mrs. Hudson.
–Oh Mrs. Hudson! – aliviou-se Esther. – Eu posso entrar?
–Miss Evans? Mas é claro que sim, entre por favor... – pediu educadamente Mrs. Hudson. Apressada, Esther cortou todo e qualquer assunto a respeito de seu noivado com Watson e foi direto ao ponto.
–Onde está Mr. Holmes? – ela perguntou.
–Ele está lá em cima, com um cliente. Um homem estrangeiro, de ar imponente.
Esther arregalou os olhos. – Eu preciso falar com ele!
Quando se dirigia à escada, Mrs. Hudson tentou impedir sua passagem. – Er, Miss Evans, Mr. Holmes pode não gostar disso, e...
Esther ignorou os apelos de Mrs. Hudson, e já perto da porta, ela parou e perguntou. – Mrs. Hudson, você tem uma arma?
–Deus me livre, Miss Evans! – exclamou a senhora.
–Mas e Watson, ele teria deixado alguma em seus aposentos?
–Bem, ele tinha duas carabinas do tempo do Exército e deixou que eu ficasse com elas, mas as duas só servem para decoração, e uma delas até não funciona...
Até uma carabina imprestável era melhor do que nada, concluiu Esther. – Onde ela está?
Ao ver as duas armas, idênticas, penduradas na parede da sala de Mrs. Hudson, Esther teve dúvida. Direita ou esquerda? Pegou, então, a da direita. Já de posse de uma carabina, Esther parecia desafiante, a ponto de deixar Mrs. Hudson assustada.
–Mrs. Hudson, eu peço que a senhora fique de prontidão, pois algo de ruim pode ocorrer nesse quarto. – disse Esther, fazendo a pobre senhora correr dali.
Esther respirou fundo, fechou os olhos, e quando os abriu, seguiu para abrir a porta.
Ao fazer isso, ela encontrou um cenário destruído. Alguns móveis estavam revirados. Ela poderia tirar maiores conclusões daquele cenário de guerra que se formou ali, mas isso foi impossível, ao ver Dmitri amarrando um inconsciente Holmes em sua poltrona.
–Ora, mas veja quem temos aqui... Minha amada esposa veio me ver!
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