Shalom - As Memórias de John Sigerson
48 Capítulo 48: Nosso Desfecho
Notas iniciais
–Não se aproxime, Dmitri! – ela ordenou, com arma em punho. – Estou armada.
–Será que você sabe mesmo usar?
–Muita coisa aconteceu nos últimos tempos. Não pague para ver.
Um silêncio esquisito ficou no ar, e de repente, Esther percebeu que Dmitri avançou contra si. Desesperada, ela apertou o gatilho, mesmo já sabendo que a arma poderia não funcionar. Ela fechou os olhos repentinamente, e para sua surpresa, ouviu um estrondo, e também um baque que quase a fez cair no chão.
A arma funcionou!
Ao abrir seus olhos, ela viu que Dmitri tinha uma ferida horrível na altura das costelas, e estava cambaleante. Ainda assim, ele tentou correr contra ela, embora fraco. Ela adentrou ao apartamento, procurando por uma arma, qualquer que fosse, carregada e em melhores condições. Não encontrou.
Ela percebeu que Holmes estava um tanto tonto, mas já despertando. Ele se contorcia, em meio às cordas, tentando libertar-se. Esther gritava pelo apartamento, enquanto Dmitri gastava suas últimas energias para pegá-la, tentando desviar-se dos objetos e móveis que ela atirava pelo caminho. Quando Dmitri tentou pegá-la, ela mordeu-lhe a mão, e voltou até a sala, onde Holmes estava ainda amarrado. Ela tentou correr pela porta, mas percebeu que estava trancada. Dmitri tinha trancado a porta agora, e mostrava-lhe a chave, com um olhar de vitória.
–Não há mais por onde fugir, sua ratazana... — ele disse, ainda sentindo a mão dolorida por sua mordida, enqusnto a encurralava contra a lareira, lentamente.
Então, Esther lembrou-se do canivete que Holmes tinha sobre a lareira, que usava para guardar suas correspondências, no mesmo lugar que Watson lhe mostrara. Acuada, e de costas para a lareira, ela fingiu apoiar sua mão sobre a lareira, tocando disfarçadamente no gélido canivete.
–Mal vejo a hora de te levar de volta para nossa Rússia, de onde você nunca deveria ter saído, sua vadia! – ele exclamou, em russo.
–Eu não vou voltar àquele inferno, mas vou fazer você conhece-lo!
Ele correu, para pegá-la de uma vez por todas, quando ela gritou, e então o apunhalou com o pequeno canivete. O canivete rasgou o canto de seu pescoço e fez Dmitri gritar de dor. O sangue passou a escorrer em seu pescoço de maneira desenfreada, como se jorrasse, mas ele ainda estava disposto a agredi-la. Em um impulso, Esther o empurrou e tentou tomar a chave de Dmitri, mas ele ainda a mantinha firmemente entre suas mãos. Como estava fraco, a força de Esther, em sue ímpeto de sobreviênvia, fez Dmitri cair no chão, perto do kit de Química de Holmes. Mas o ódio daquele rapaz era muito maior que a dor, e quando ele se preparava para se levantar e mais uma vez atacá-la, ou mesmo matá-la, Holmes levantou-se primeiro, já livre das amarras, e derrubou o conteúdo de seus frascos sobre Dmitri.
O rosto de Dmitri começou a queimar. Sua pele estava agora envolta em fumaça, enquanto desmanchava-se lentamente, revelando apenas sua carne crua. Era uma visão terrível. Os gritos de dor de Dmitri eram insuportáveis de se ouvir, capazes de causar aflição a quem quer que fosse e sem dúvida audíveis por metade de Londres.
Holmes, ainda um tanto tonto, aproximou-se correndo de Esther e a fez desviar os olhos daquela visão.
–Esta não é uma visão muito agradável de se ver, Miss Katz.
Esther percebeu que Holmes estava estranho. Ela notou, então, que sua manga esquerda estava desabotoada, o que só tinha um significado: cocaína.
Em meio aos berros desesperados de Dmitri, Holmes conduziu Esther até seu quarto, e depois fechou a porta. Sentou-se sobre a cama, despreocupado. Ela percebeu que suas pupilas estavam dilatadas, o que ressaltavam ainda mais suas suspeitas.
–Que falta de sorte a de Dmitri. Eu estava trabalhando justamente com ácidos.
–Ácidos?!
–Sim, ácidos de todos os tipos e naturezas, nem darei-me ao trabalho de explicar todas as suas propriedas. São tantas variedades que eu nem sei o efeito do estrago. Acredito que suas ações foi o suficiente para liquidá-lo. O tiro que você deu teria grandes chances de limitar seus movimentos, embora não fosse fatal, e a facada que você deu no pescoço dele, com sua pontaria um tanto limitada, faria-o sangrar até morrer. Calculando-se a quantidade de sangue humano que há no corpo humano e a gravidade de seus ferimentos, ele morrerá em duas horas, de hemorragia. Somente os ácidos poderiam apenas desfigura-lo, se ele fosse atendido a tempo, e creio que, em nosso caso, dará a ele apenas uma morte mais dolorosa.
Holmes falava freneticamente, e andava de um lado a outro, gesticulando consigo mesmo, fazendo cálculos. Parecia ter uma energia que não cabia em si.
Então, esse era o efeito da cocaína. Uma mente inquieta.
Depois de alguns instantes, ela ouviu um grito feminino.
–Ah, mas que pena. Mrs. Hudson viu o sujeito naquele estado lamentável. Certamente chamará a polícia. Caso ele venha a sobreviver, coisa esta que eu não acredito, diremos que ele tentou me matar, e pronto. Tentativa de assassinato. Temos um crime perfeito para deixar Dmitri em maus lençóis.
Esther se levantou, e pôs suas duas mãos sobre a de Holmes, como se quisesse segurá-lo e tirá-lo de toda aquela agitação. Ele tinha seus olhos perdidos, mas imediatamente olhou-a atentamente.
–Por quê você usa isso? – ela perguntou, acariciando as marcas recentes que havia em seu braço.
–Tédio. – ele respondeu. – Eu preciso me ocupar com algo, senão eu me sinto perto de enlouquecer.
–E isso não é enlouquecer?
Holmes parou para analisar. – Talvez, mas é irresistível.
–Há outras coisas na vida que são irresistíveis.
–Tolice.
Ela resolveu seguir outro rumo. – Você pensou em usar isso, quando moramos na França?
–Não.
–E eu poderia saber o motivo?
–Porque eu não precisei. Apenas isso.
Esther parecia insatisfeita. – "Apenas isso"? Fala como se não soubesse o porquê...
Holmes irritou-se com a insinuação.
–O que quer saber? Que você me distraía, que me mantinha longe da droga, que era instigante o bastante para substituir os efeitos narcóticos?
–Holmes... – murmurou Esther, emocionada. – O que você sente por mim?
–Basta Esther, isso é demais. Um homem como eu não tem brechas para essas sentimentalidades. Esse tipo de sentimento irá ocupar minha vida até demais, irá roubar toda a atenção que necessito para minha profissão. Não há como eu ser bom ao mesmo tempo na esfera profissional e... – Holmes estremeceu. – Amorosa.
Esther soltou um suspiro.
–Então, você quer dizer...
–Você entendeu perfeitamente o que eu quis dizer, e acho que os últimos fatos têm consolidado estas conclusões. – disse Holmes, metódico.
Oh Holmes, essa foi a declaração de amor mais fria e maravilhosa que já ouvi, pensou em dizer Esther, mas se calou. Selou o momento com um beijo, um pouco mais ardente do que o primeiro, trocado em sua casa. Holmes correspondeu-o, com mesma avidez, talvez por efeito da cocaína, talvez por sentimentos.
–Eu vou terminar com Watson, Holmes. Esta noite.
–Você vai falar sobre... Nós dois?
–Porquê, está com medo? – perguntou Esther, um tanto agressiva, a ponto de dar-lhe um soco leve no ombro, de brincadeira.
–Claro que não, mas... Você sabe, a minha profissão, os perigos que envolveriam você... Eu a colocaria na linha de frente, da mesma maneira que coloquei Watson no caso de Moriarty e tantas outras vezes.
–Ora, e que escolha eu tenho? – questionou Esther. – O que eu não posso é escolher uma vida sem você.
–Você disse que não tinha escolha... Mas eu acredito que tenha, sim.
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