Shalom - As Memórias de John Sigerson

39 Capítulo 39: Sobre Bicicletas


Notas iniciais
Tava passando pelo site e pensei: bem, porquê não mais um cap? RS Acho que meu coração está amolecendo...

Pessoal, esse cap deveria ser uma ponte e acabou ficando um pouco maior do que eu pretendia. Espero que gostem.

Acho que trollei vocês. Esse cap é um pré-jantar ainda, mas tem algumas coisas elucidativas.

Quando fechou a porta contra suas costas e entrou na sala de estar, Esther quase soltou uma exclamação de surpresa.

Havia uma bicicleta em sua sala de estar!

Como aquele bicicleta, bastante sofisticada, de cor verde e banco de couro, foi para ali? Ela aproximou-se, e percebeu que havia um laço de fita vermelho ao redor do guidão. Junto ao laço de fita, um pedaço de papel, escrito por uma caligrafia sofisticada.

Será que ainda consigo te surpreender?

Era ele. Como ele poderia ser tão gentil, e ao mesmo tempo, ser tão horrível para com ela e com Watson? Ele era mesmo um homem de máscaras, que trocava da maneira que quisesse. Sua frieza no consultório de Watson quase fazia Esther tremer de raiva, dava vontade de estapeá-lo, mas... Era uma raiva de segundos. Ela não conseguia sentir raiva dele o tempo, e se odiava por isso.

Ela segurava o bilhete, que dispensava qualquer apresentação quanto ao seu remetente, com um afeto um tanto resignado. Olhou para aquela caligrafia desenhada, de um perfeito cavalheiro britânico, distante daquele homem de barba espessa e vida simples que parecia prometer-lhe um mundo longe de qualquer burocracia ou velhas normas de sociedade. Quem era ele, afinal? Quem ela conhecera, realmente? Será que ela esteve frente a frente do verdadeiro Holmes, em Montpellier e Paris? Terá sido aquele Sherlock Holmes, The Great Detective, apenas um produto modelado por Watson e sua confiança cega? O fato era que tudo parecia confuso e aquele gesto dele dizia muita coisa.

Droga, porquê ele faz isso comigo?

Ela ouviu o bater da porta. Era Watson, que logo lançou um de seus melhores sorrisos.

–Você está maravilhosa.

Esther sorriu com o elogio. Seu vestido, verde escuro, de uma cor próxima a de seus olhos, com detalhes negros em seda e um decote discreto, porém mais revelador do que dos vestidos que ela usava ultimamente, tinha sido realmente uma escolha acertada, ao menos para seu namorado, Watson, que sabia ser galante e verdadeiramente charmoso quando queria. Ele deu-lhe um cortês beijo suave nas costas da mão, e depois beijou-lhe os lábios recatadamente. Desde seu primeiro beijo nos aposentos de Baker Street o ato passou a se repetir com mais frequência, embora permanecesse recatado, quase puro, notou Esther.

Mas nem mesmo o melhor dos galanteios faria Esther esquecer o lamentável episódio que Dmitri a fizera passar. Agora, ele sabia onde ela estava na imensa Londres, e sem dúvida, sabia também da localização de sua casa. A idéia a fez pensar em arrumar suas malas e sumir no mundo outra vez, mas ela não poderia fazer isso a vida toda. Um dia, teria de enfrentar seus problemas, e ela sentia que este dia estava próximo.

Ao menos, ela passaria aquele jantar com Watson, que era um ex-soldado e poderia protegê-la. Certamente, Dmitri estava sozinho, pois quase nunca ele colocava suas mãos para fazer algo sujo. Talvez porque seus capangas na Rússia eram um tanto impróprios para abordá-la em solo britânico. Mas ela sabia que ele, em breve, iria recrutar alguns marginais da própria cidade para captura-la.

–O que foi, meu bem? Você parece preocupada...

Ela fugiu de seus pensamentos obscuros, e deu um sorriso rápido. – Oh não, são só alguns problemas na escola que eu preciso resolver...

Watson riu. – Sei como é. Volta e meia, eu fico com os pensamentos em meus pacientes. Aliás, Holmes irá jantar conosco.

–Holmes?!

–Sim. Foi um custo trazê-lo, dado que ele está em um de seus piores humores... Mas ele virá, eu tenho certeza. Será bom para ele sair um pouco de Baker Street. – disse Watson, lembrando-se das sessões de letargia dos quais Holmes certamente estaria submerso. – Mas olhe, vejo que você comprou uma bicicleta! Ou seria... Um presente?

Esther escondeu o bilhete em seu bolso.

–Não Watson... Eu comprei, na verdade. Ouvi dizer que há parques maravilhosos nos arredores da cidade e... Estava pensando em fazer alguns exercícios...

–Ah, andar de bicicleta deve ser maravilhoso. Uma pena que minha perna me impossibilite disso. – ele disse, com pesar. – Mas fico feliz em vê-la animada com exercícios. Exercitar-se faz bem ao corpo e a mente.

–Sim, certamente.

Corpo e Mente.

"Vamos, Esther! Mais um pouco, vamos! Ou chegaremos atrasados!"

Esther andava a passos lentos. Aquela era a última colina até a cidade de Montpellier. O sol ainda não estava forte e ventava um pouco. Ao menos não estava chovendo. Sigerson, impaciente, a esperava já no topo, com os braços cruzados e semblante franzido. Talvez parecesse intimidador a qualquer um que passasse ali, mas ele não era capaz de exercer esse poder em Esther.

"Ah Sigerson, eu não sei como tens tanto fôlego para caminhar uma colina dessas tão rápido! E veja só, sequer são oito horas!", lamentava Esther, carregando sua bolsa.

"Precisamos estar lá às oito e quinze, no máximo! O que você quer, reclamações de Mr. Johnson?"

"Não, acho que já tenho minha cota diária. Não preciso de mais."

Descer era mais fácil. Logo os passos se apressaram, e já era possível ver a Universidade dali, um pouco afastada do vilarejo de Montpellier, no horizonte dourado que se vislumbrava naquela paisagem.

"Sem dúvida, uma bicicleta seria melhor", comentou Sigerson.

"Eu não sei andar de bicicleta", confessou Esther, para surpresa de Sigerson.

"Não?! Ora esta, minha cara, disto eu não sabia!"

"Porquê a surpresa? Quantas pessoas podem ter uma bicicleta?"

Sigerson voltou a si. Realmente, ter uma bicicleta não era algo comum, que dirá saber conduzi-la.

"Um dia eu posso ensiná-la. Podemos pegar a bicicleta de Jean-Paul e eu lhe ensino por aqui, bem longe de todos, para que ninguém veja você cair."

"Cair?! Ora, você já está dizendo que irei cair?!"

"Todos caem de bicicleta durante o aprendizado. Eu mesmo caí algumas vezes. Perfeitamente normal."

"Claro, se mesmo o grande Sigerson caiu, porque eu, pobre mortal, não poderia fazer o mesmo?" caçoou a moça. "Realmente Sigerson, você me surpreende. Há quanto tempo anda de bicicleta?"

Sigerson ficou reflexivo, enquanto ajeitava o chapéu.

"Alguns anos."

Anos? Certamente ele estava exagerando. Há alguns anos atrás, bicicleta era um artigo raro, de luxo. Como ele poderia ter acesso?

"Digamos que tive certos privilégios." ele disse, já antecipando seus pensamentos. "Mas isso não vem ao caso. Neste sábado, quando encontrarmos Jean-Paul, pedirei a bicicleta emprestada e você irá aprender. Jean-Paul é um homem bastante prestativo, tenho certeza que ele nos cederá para seu aprendizado."

Esse dia nunca chegou.

Naquela manhã, Jean-Paul foi assassinado. Um assalto, feito por algum marginal inexperiente, provavelmente mais nervoso que a própria vítima. Uma facada na barriga levou a vida do pobre professor.

Esther soubera disso por Sigerson, quando ambos ainda estavam na estalagem, tomando seu café. Ele parecia um tanto impaciente consigo mesmo, e mal tocara no café. Por final, lamentou.

"O crime está perto de nós o tempo todo, Miss Katz.", ele dizia, quase murmurado. Sempre que a chamava de Miss Katz, era sinal de que o assunto era sério e delicado.

Um silêncio ficara naquela mesa, até Esther interrompê-lo.

"Sempre vou me lembrar dele, da maneira sorridente que ele chegava na Universidade, de suas piadas... Ao menos ele era um homem feliz, tinha uma vida saudável."

"Não tenho muito a falar dele. Não era um professor brilhante, era até mesmo um tanto medíocre em sua área de atuação. Um dos poucos que contribuíam com artigos. Volta e meia, eu tinha de fazer alguma correção neles"

Esther ficou pasma com o comentário frio de Sigerson.

"Puxa, eu pensei que você gostasse dele..."

"Sim, e isso não me impede de reconhecer sua mediocridade."

Esther voltou-se para um último gole em sua xícara de café, um pouco indignada com o rumo da conversa tomado por Sigerson. Ele, que sempre parecia ler suas reações espontâneas, desde um sutil levantar de sobrancelhas a um rolar de olhos, respondeu-lhe com uma frase que só agora ela poderia entender que nada mais era que sua própria essência.

"A felicidade é benéfica para o corpo, mas é a tristeza que desenvolve os poderes da mente.", disse Sigerson, voltando ao seu café.

Esther recuperou-se dessa lembrança, atônita. Sua mão, sobre o gélido aço da bicicleta, foi retirada dali, como se pegasse fogo. Suas lembranças agora faziam sentido.

"Como eu não percebi você o tempo todo diante de mim? Como?" — ela se lamentou em seus pensamentos, num misto de raiva e descrença.

–Sophie? Está tudo bem? Você tem estado tão distraída...

Esther voltou a si. Havia um homem maravilhoso ali, vestido impecavelmente e disposto a amá-la e protegê-la. Um homem que lhe daria um sobrenome, um lar e uma vida confortável e estável, além de todo amor que ela, ainda que no mais íntimo de si, desejava sentir. Amor que poucos poderiam dar, inclusive o remetente do pequeno bilhete, agora amassado entre suas mãos.

–Vamos Watson. — ela disse. — Agora, podemos ir.

Notas finais
É, eu sei que avançamos quase nada... Mas prometo que no próximo cap teremos Esther e Holmes, frente a frente... Vamos ver no que isso vai dar...

A frase dita por Holmes é de Maurice Proust. Sempre imaginei o Holmes dizendo essa frase, eu acho que é a cara dele...

Obrigada pela atenção e deixem reviews!