Shalom - As Memórias de John Sigerson
40 Capítulo 40: Nada Mais Que Aparências
Notas iniciais
Fazia cerca de trinta minutos quando Holmes chegou, finalmente, ao Brandt. Passado os primeiros vinte minutos, Watson já considerava a possibilidade do amigo ter desistido de seu convite, e nos dez minutos que se seguiram, a possibilidade tinha se tornado uma certeza;
Para Esther, a temporária ausência de Holmes era um alívio. Ela não queria vê-lo, simplesmente porque ele estava mentindo para Watson, e fingindo com total frieza que não a conhecia. Ela sentia não merecer isso. Os dois tinham vivido uma sólida amizade, nada mais que isso. O que o levava a agir dessa maneira?
Sim, naquela tarde ele tinha sido gentil, em presenteá-lo com a bicicleta, mas ela não se venderia por um presente. Ele precisou presenteá-la várias vezes naquela noite em Montpellier para arrebatá-la. Não. Sua dívida era alta demais para ser compensada por duas rodas.
Até que ela irritou-se, profundamente, ao vê-lo chegar.
–Holmes! – acenou Watson. Ao vê-lo, Holmes aproximou-se, e puxou uma cadeira, sentando na mesma mesa que o casal.
–Meu caro Watson, perdoe minha demora. Enquanto eu começava a me preparar para sair, apareceu um cliente... Enfim, era um caso interessante, que talvez até venha a ser contado em mais uma de suas narrações fantasiosas sobre mim. – ele disse, com certo ar de tédio, e em momento algum fazendo qualquer sinal de que Esther estava presente. Como se a moça fosse inexistente, invisível.
–Está certo, meu amigo. Eu sei o quanto sua profissão lhe absorve. Mas agora, que já chegastes, creio que podemos pedir o jantar. Ainda mais nesta esplêndida noite, que teremos o mais delicioso Pernil de toda Londres, assim disse o Times. Mal posso esperar para provar.
Pernil? A palavra assustava Esther.
–Perfeito, Watson. Também quero uma porção. – disse Holmes.
–E você, Sophie? – perguntou Watson, com delicadeza.
–Er, John... Há algum outro tipo de refeição? Porque eu não gosto de pernil...
–Hum... – concordou Watson. – Bem, cá está o menu, minha cara.
Esther olhou bem. Além de pernil, havia frutos do mar, como camarão. Parecia que o restaurante servia tudo que era proibido na Torá.
–Er, acho que vou querer esse... Risoto de camarão. — disse, disfarçando seu desgosto.
–Certo. – disse o garçom, já anotando os pedidos.
Esther virou-se para Holmes, que parecia estar se divertindo com tudo aquilo. Pela primeira vez, ela o observava verdadeiramente, como ele era. Estava vestido de maneira elegante, com ternos parecidos com que Watson mostrara em sua visita à Baker Street, bem diferente da vestimenta simples e um pouco mais despojada que costumava vestir como Sigerson. O cabelo penteado rigorosamente e cheio de brilhantina contrastava com o desalinhado corte que Sigerson ostentava por debaixo de seu inseparável chapéu. Ademais a barba, que agora não existia, deixando à mostra uma área pálida em seu rosto um tanto bronzeado pelo sol de sua “vida passada”, era difícil para Esther acreditar que aquele homem de aspecto frio e calculista fosse o mesmo que lhe era companheiro por tantos meses. Nem mesmo os olhos azuis – cinzentos, como o próprio observara – eram mais os mesmos. O pouco de calor que havia neles, quando eram amigos, tinha se tornado pedra, dando agora lugar a um olhar penetrante e até mesmo um pouco agressivo.
–Bem Holmes, eu devo dizer que a minha pena está ansiosa em registrar nossa mais recente aventura capturando aquela cascavel. – disse Watson, animado.
–Sinto dizer que sua animação terá de ser abrandada, Watson. Eu não pretendo expor tão cedo o meu retorno à Baker Street. O que aconteceu terá de ser arquivado.
–Ora Holmes, não me diga!
–Sim, enquanto eu não terminar algumas pendências, seus rabiscos serão só rabiscos...
–Ora essa, Holmes. É uma pena, pois eu estava pretendendo lançar mais uma história. Você sabe que o Strand vem me rendendo um dinheiro extra, e acredito que se eu lançasse uma história sua seria um estouro de vendas! Imagine: "O Retorno de Sherlock Holmes"... O público iria adorar! Ainda mais que, ultimamente, com os planos que ando fazendo, eu venho necessitando cada vez mais de dinheiro.
Holmes engoliu a seco, pois imaginava bem que planos eram esses.
–Bem, a única aventura que acredito que você poderia publicá-la seria aquela que passamos em Dartmoor, com a família Baskerville. Há elementos que tenho certeza que o público iria aprovar, claro, somado a mais alguns de seus floreios.
Watson sentiu-se ofendido, mas mais uma vez evitou uma discussão. Foi papel de o próprio Holmes mudar a pauta do assunto.
–Então, Miss Evans, eu imagino que a vida como professora de Francês em um colégio de meninas seja... Emocionante. – ele disse, com um deboche e enfatizando seu nome falso, e de certa maneira, lembrando-se da noite da prisão de Sebastian Moran. – Poderia nos contar como é?
–Sim, eu posso contar-lhe, Mr. Sherlock Holmes. – ela devolveu na mesma moeda. – Trabalho de segunda a sexta, no período da manhã, e dou aulas para três turmas. Se meu trabalho é emocionante, tenho cá minhas dúvidas, mas é gratificante vê-las aprender um novo idioma. Além disso, eu me dou bem com todas elas. Conversamos sobre a vida, elas me pedem conselhos que muitas não tem coragem de pedir às mães. Eu as ajudo a torna-las pessoas melhores, e ensino coisas essenciais, como a importância de se respeitar ao próximo, a ser amável, a dizer sempre a verdade,...
Holmes calou-se, por ter sido claramente atingido por ela, e Watson ficou impressionado com a desenvoltura de Esther em seu discurso, conseguindo esquivar-se de uma suposta tentativa de depreciação de Holmes.
–Sophie ama o que faz, Holmes. Ela é uma professora muito dedicada.
–Posso imaginar Watson, dado suas preferências. Você tem o dom para escolher “profissionais dedicadas”. Afinal, sua falecida esposa também era, como você mesmo dizia, uma “tutora dedicada”.
O assunto mexeu com Watson, que rapidamente se calou. Esther olhava horrorizada para Holmes, que permanecia frio como uma pedra de gelo. Porquê ele tocou nesse assunto, sabendo que seu amigo ainda ficava triste com relação a isso? Porque ele precisava ser tão cruel?
–Se me dão licença, senhores. – disse Watson, levantando-se da mesa, bastante abalado. Quando Watson já não estava na mesa, Esther reagiu.
–Viu o que você fez? – indagou Esther a Holmes, aos cochichos.
–Não fiz nada demais, apenas uma observação bastante relevante. – disse Holmes, enquanto bebia mais um gole de vinho, com ar desinteressado.
–Você realmente não se importa com nada nem ninguém além de seu trabalho estúpido. É uma pena que Watson confie tão cegamente em você, a ponto de acreditar que são amigos. O senhor, Mr. Sherlock Holmes, não é amigo dele, depois de tudo que você fez.
–Oh, eu não sou? Devo alertar-lhe, Miss Evans, que você também não é. Está se aproveitando de um momento de fraqueza de meu amigo para conseguir se libertar do Conde Ivanov. Usar os sentimentos de alguém que está esgotado emocionalmente para seus próprios propósitos é algo muito covarde.
–Não é nada disso! – resmungou Esther. – Eu gosto dele.
–Claro! Watson é uma pessoa muito fácil de gostar, mas será que a senhorita gosta dele a ponto de se casar? Tenho minhas dúvidas.
–E posso saber por que o Todo-Poderoso Sherlock Holmes não acredita em meus sentimentos? Será por causa do tipo de terra nos meus pés ou do tabaco que Watson usa, hein?
Holmes estava irritado por dentro, a ponto de quase explodir de raiva, mas permanecia irredutível. – Isso é simples. Em nenhum momento de nossa pequena conversa aqui a senhorita se referiu a ele como John, mas como Watson. Porque só o faz isso na frente dele? Gostaria de entender... Ou melhor, porque só faz isso quando eu e ele estamos juntos? Não, não tente se justificar. Posso imaginar que seja para fortalecer o personagem, não é?
–Você não sabe o que é amar outra pessoa além de si mesmo...
–Se assim eu sou, então estamos tecnicamente empatados, mademoiselle. – replicou Holmes. – Eu amo meu irmão, a senhorita amava o seu, e nós dois gostamos de Watson igualmente, como amigos. Algo mais a acrescentar?
–Você é ridículo, Sigerson.
–Holmes. – ele corrigiu. – Você não me chama de Sigerson, e nem eu te chamo de Esther Katz. Ah, e vejo que a senhorita não contou a ele suas verdadeiras origens, e muito menos o seu passado... E aposto que nem o seu presente... Professora... Tende Piedade... – debochou Holmes.
–Estou proibida disso. – ela disse, enquanto bebia mais vinho. – Imposições da nossa amada Rainha de que eu jamais deveria revelar a verdadeira profissão de Papai e nem sobre o passado de nossa família. Foram estas as condições para que eu fosse protegida, recebesse uma nova identidade e moradia. Além de quê, o que faço no Ministério não é algo que se conta com naturalidade. E eu não menti, eu realmente trabalho como professora. Seu caro irmão de nome exótico não lhe contou isso?
–Não, ele costuma ser bastante econômico com novidades.
Watson já estava de volta, recomposto, e parecia um pouco melhor ao notar que os dois já estavam conversando.
–Vejo que estão se dando bem.
–Sim, deveras. Não é, Miss Evans? – perguntou Holmes.
–Sim, Mr. Holmes. — ela confirmou, com sarcasmo e veneno na fala.
–Er, minha cara... Há uma pergunta que eu nunca lhe fiz. Você é francesa? – perguntou Watson.
Sem pensar, Esther acabou confessando. – Sou, por quê?
Watson virou-se para Holmes, que bebia de seu vinho com ar de vitória. Em resposta, Holmes apenas ergueu uma mão sobre a mesa, fingindo desinteresse.
O que será que ele fez dessa vez?
Quando Watson sacou a carteira e entregou um soberano a Holmes, Esther pôde entender o que estava acontecendo ali. Uma aposta. Uma aposta injusta, ainda por cima. Holmes jamais teria adivinhado que ela era francesa apenas por deduções. Ela não tinha qualquer sotaque, tinha saído da França quando sequer sabia falar “papa” ou algo do tipo. Seu sotaque era uma mistura de Russo e Inglês e não tinha qualquer coisa francesa, embora ela soubesse falar a língua. Se Holmes sabia disso, foi porque ela mesma lhe contou, e não por mérito. Informação privilegiada, nada mais.
Ele estava indo longe demais com o pobre Dr. Watson.
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