Shalom - As Memórias de John Sigerson
3 Capítulo 3: A Companhia que Arranjei
Notas iniciais
Isso não pode estar acontecendo... Não, eu devo estar sonhando...
-Ah, posso ver bem o tipo de mulher que você é, senhora... – o homem disse, com desprezo. – Uma mulher que é “casada”, que não usa aliança...
-É exatamente o que você está pensando, senhor. Só não somos casados de verdade por causa dessa maldita lei britânica, que faz Johnny permanecer casado com uma mulher que não o merece, por causa daquela Rainha imbecil.
O guarda, que era italiano, sorriu. Era sempre bom ver alguém insultando a Rainha.
-Tudo bem, entendi a situação... Agora, vamos ver os documentos.
Holmes rapidamente mostrou o seu. John Sigerson, nascido em 14 de Abril de 1857, e...
-Mas o senhor é norueguês!
-Sou casado na Inglaterra. – disse Holmes, já impaciente.
Sem que o Guarda percebesse, Esther puxou de debaixo do colchão a passagem que estava usando, em nome de...
-Então, você é a tal Louise Molly... A irmã do judeuzinho...
Esther ficou assustada momentaneamente, mas voltou a si com rapidez. Já tinha ido longe demais para sucumbir daquela forma. Holmes a olhava admirado.
-Eu por acaso tenho cara de judia, senhor...?
-Giancarlo.
-Giancarlo... Pareço alguma judia? Creio que está acontecendo um grande mal-entendido... Eu estou aqui, para me estabelecer na França com meu... Homem, e o senhor agora fica dizendo esses absurdos à minha pessoa, e...
-Giancarlo, seu porco bastardo! Precisamos terminar essa revista logo!
Era a voz de outro guarda. Na terceira classe, as gentilezas morriam. Giancarlo suspirou, resignado, e se retirou. – É o suficiente. Os dois podem desembarcar.
Assim que o guarda saiu, Esther abraçou Holmes, aliviada.
-Nem acredito que acabou! Muito obrigada por me ajudar...
Embora estivesse sem jeito, Holmes retribuiu o abraço rapidamente. Era estranho ser abraçado, ele pensou. Estranho e constrangedor, afinal ele mal sabia o que fazer com suas mãos, temendo ser desrespeitoso. Mas logo depois ele se recompôs.
-Er... Precisamos arrumar suas coisas, e sair daqui o quanto antes.
-Tudo bem. Mas precisamos sair juntos, para sustentar a farsa.
-Tem razão.
Holmes ajudou Esther a levar sua bagagem. Carregando seu inseparável violino, agora seu instrumento de trabalho, ele acompanhou a moça pelo convés. Enquanto caminhavam de braços dados, com o intuito de sustentar a farsa, ele pensava no que seria da moça agora. Ele, obviamente, ainda tinha muito a fazer e saberia se virar, mas a moça estava sozinha, com o irmão morto... E ele ainda tinha que contar a ela o que viu. O que sabia.
-Para onde será que eles mandarão David?
-Er, Esther...
-Será que ele será deportado?
Holmes a segurou pelo braço, cuidadosamente.
-Miss Katz, precisamos conversar... Vamos descer do navio primeiro.
Ela o obedeceu, desembarcando do navio. Ele pôs sua pequena mala no chão. Aquela deveria ser a hora dos dois se despedirem, cada um ir seguir para um lado para nunca mais se verem, mas Holmes sentia um aperto cada vez que os segundos passavam. Ainda não era a hora de se despedir, para sempre, de Esther Katz.
-Acho que vou esperar aqui, pelo meu irmão ou por alguma notícia. Eu preciso vê-lo.
-Miss Katz, vamos comer alguma coisa. Aposto que a senhorita está sem comer nada desde ontem, e passou por muitas emoções. Vamos para uma taverna, eu posso pagar. Pela hora, eu posso ver que a senhorita deve estar com fome...
Sem que percebesse, Holmes acabou sacando o relógio do bolso. Os olhos de Esther voltaram rapidamente para aquele objeto dourado. Ela lembrou-se imediatamente daquela noite. Do jogo de pôquer, o relógio sobre a mesa, David correndo para pegar o dinheiro que estava sobre a mesa e...
-Sigerson, o que é isso?!
-Quê? – ele perguntou, ainda com relógio na mão.
-Este... Este relógio... Lembro que não deu tempo do senhor toma-lo da mesa... Ele continuou lá, e David foi busca-lo... Como conseguiu pegá-lo de volta? O senhor viu David?
Holmes suspirou. A moça era muito mais esperta do que os indivíduos de seu sexo costumavam sê-lo, ele constatou.
-Vamos almoçar primeiro.
Ele a levou até um restaurante simples, de comida razoável, mas sem dúvida muito melhor do que o consumido no navio, na terceira classe. Esther parecia não ter uma refeição decente há dias, e Holmes comportou-se como o de costume: comeu metade do que estava em seu prato. Até demais, se comparado com as poucas garfadas de suas refeições em Baker Street.
Após o almoço, quando ainda restava o copo de suco para beberem, ele começou a conversa. Sentiu-se estranho, e sentia que, se pudesse, daria qualquer coisa para não causar dor naquela pobre moça, mas isto seria impossível. Ela teria de saber o que houve a seu irmão.
Ele deu um longo suspiro, e começou.
-Miss Katz, assim que saí do esconderijo, eu soube que seu irmão estava preso e que estavam à nossa caça. Como tenho algum conhecimento de navios, eu logo sabia onde ele estava preso. Aproximei-me incógnito até a cabine, e cheguei bem perto. O Comandante ainda estava lá, com seu irmão, e o senhor David estava... Já sem vida. Eu sinto muito.
Esther ficou paralisada, com seus olhos verdes paralisados, que começavam a marejar. Holmes tivera pouquíssima convivência com mulheres em toda sua vida, e sabia que aquela era a hora em que uma delas certamente choraria. Em outro momento, ele olharia para ela com desdém e frieza, mas desta vez, era diferente. Ele sentiu-se emocionado, de fato, como poucas clientes puderam incitar nele, e agora, aquela perfeita estranha que estava almoçando com ele, que ele apenas conhecia a alguns dias, tinha despertado em si uma humanidade tão profunda que talvez o ser humano que tenha incitado algo mais próximo a isso tenha sido seu melhor amigo Watson. Era inexplicável.
-Eu sei, eu sinto muito... Queria ter as palavras certas para confortar a senhorita, mas...
-Certamente lançaram o corpo dele no mar. – ela constatou, com as mãos sobre o rosto, que já estava vermelho.
-Sim, certamente. – ele confirmou, sem jeito.
Passaram-se cerca de dez minutos, sem que um não dissesse uma palavra sequer ao outro. Holmes já tinha esgotado todo o seu repertório de lamentações (que não era muito vasto, mesmo com seu histórico de detetive e as eventuais perdas que afligiam suas clientes) e limitou-se a esperar.
-Deus, o que vou fazer agora? O combinado seria irmos até Paris e...
-Se me permite, mademoiselle... – acrescentou Holmes, com um sorriso. Isso fez Esther sorrir brevemente, por lembrar que ela estava na França. – Eu poderia saber o quê exatamente você e seu irmão pretendiam fazer aqui na França?
-Nós nascemos na França, eu e... David. Na verdade, estávamos voltando a nossa terra natal. Saímos daqui quando éramos crianças, e moramos na Rússia, onde meu pai tinha alguns parentes. Como o senhor deve saber, as coisas por lá não são das melhores para as pessoas de minha religião. Papai decidiu ficar, mas minha mãe decidiu levar a mim e a meu irmão para a Inglaterra.
-Então, por isso você é fluente em inglês, como eu? – compreendeu Holmes.
-Na verdade, eu sou fluente em francês, inglês e russo. E sei alguma coisa de hebraico também.
-Um feito e tanto, especialmente porque o russo é uma língua extremamente complicada. A senhorita apresenta qualidades que seriam muito apreciadas no meio diplomático. Uma pena que este meio seja inacessível a...
-Às mulheres, eu sei, como tudo na sociedade. E especialmente se esta mulher for judia.
-Sim, de fato.
Holmes, é você mesmo quem está aí? Você está mesmo concordando com a falta de oportunidade às mulheres?
-Mas isto é algo inalcançável. Um meio que já é inacessível até mesmo para os homens de boa posição, que dirá para aqueles que estão em nossa situação. Imagine, Mr. Sigerson, o senhor com contatos diplomáticos...?
“Meu irmão é Secretário em um gabinete relacionado ao Ministério das Relações Exteriores...”
-... Isso não funciona na prática. O senhor certamente não teve respaldo de nenhum diplomata ou algo do tipo para fazer suas viagens, não é?
“... E isso quando ele não é, praticamente, o próprio Governo Britânico.”
Holmes saiu, mais uma vez, de seus devaneios.
-Er... Não, eu realmente não conheço ninguém, e não tenho nenhum apoio deste tipo. Isso foi só... Algo que me passou pela cabeça. Bem, senhorita, eu ainda posso te ajudar a arranjar alguma ocupação honesta, para que a senhorita se estabeleça como deva. Para começar... A senhorita tem mais algum familiar?
Ele bebeu mais um gole do suco.
-Não. Como eu estava dizendo, minha mãe nos levou para Inglaterra, e só sabíamos das notícias de Papa à distância, por carta. Ele nos contava os horrores que passava em Moscou, e do quanto a vida do judeu estava dificultada pelo Czar. Tudo era difícil: reunir dinheiro para pagar as passagens para sua família, se comunicar... Até que... Ele faleceu. Isso foi há seis anos. Acho que ele se foi assim como o restante de meus parentes que foram presos naquele país, acusados de traição, e condenados ao fuzilamento. Minha mãe faleceu uns dois anos atrás, de pneumonia, e só sobramos eu e meu irmão.
-Seu irmão era joalheiro, não é?
Ela sorriu brevemente. – Sim, mas como... ?
-Na verdade, eu diria que um joalheiro em início de carreira, que se preza ao ofício de polir as pedras brutas. A marca que ele possuía no dedo polegar e indicador da mão esquerda demonstram que ele se cortava com frequência. A profundidade dos cortes me disse que o instrumento que ele utilizava era afiado, mas curto. Pensei que era um carpinteiro, mas notei que ele tinha poucos calos nas mãos. Um dia, me surpreendeu ao dizer que o cordão usado por uma senhora da primeira classe era falsificado, porque usava pedras falsas. Só um joalheiro conseguiria atestar isso, apenas com o olhar.
Esther passou a nota-lo, e Holmes, que estava fumando, percebeu isso.
-Adonai, como você pode saber de tudo isso?
Holmes estava prestes a dizer que era seu ofício, mas deixou para lá. Ele era um violinista agora, e esse tipo de coisa não se aplicava.
-Sou apenas um homem observador, minha senhora. Mas vejo que a senhorita está se sentindo um pouco melhor, não é? Folgo em ver que sim. Eu sei que a perda do seu irmão será uma dor que jamais cessará, mas a senhorita tem o direito de continuar a viver, como eu tenho certeza de que este seria o desejo de seu irmão.
Os dois voltaram ao silêncio, com Holmes dando algumas tragadas em seu cigarro.
-Poderia saber quais são os seus planos, Mr. Sigerson?
-Hum... Pretendo ir a Montpellier, uma cidade ao sul da França. Tenho um trabalho que comecei na Itália, e pretendo conclui-lo por lá. Talvez, também, trabalhar como violinista em alguma Orquestra ou Companhia... Não sei. Sou como uma folha ao vento. Mas e quanto a você? Seu irmão mencionou o desejo de ir à Paris...
-Sim, ele achava a cidade um campo promissor para um joalheiro.
-Compreendo. Mas quais eram os seus planos, Miss Katz? Pergunto porque não consigo vê-la com o destino á sombra do sucesso do irmão...
-Eu estaria satisfeita, Mr. Sigerson, apenas de estar com ele, de estar longe de...
Holmes ficou em silêncio. Há algo que ela não quer me contar.
-A senhorita e seu irmão embarcaram na Itália, junto comigo, se me recordo. No entanto, a senhorita mencionou que estava na Inglaterra... O que a levou ao Continente, Miss Katz?
Ela parecia resoluta em dizer.
-Vamos lá. Pode confiar em mim, e eu prometo ajuda-la, se estiver ao meu alcance. Foi alguma coisa grave, não foi?
-S-Sim, gravíssima. O senhor está certo em supor isto. Há algumas coisas que eu não te contei. Como o que aconteceu conosco após a morte de nossa mãe.
Holmes acenou para que ela prosseguisse. Ainda fumando, ele observou-a com seus olhos cinzentos, estudando-a profundamente. Ela era morena, de uma pele talvez até mais branca que a sua, como porcelana, os olhos azuis que faziam um contraste interessante, no entanto emanava sofrimento. Não tanto tristeza. Ela transparecia ser uma pessoa de fibra, capaz de não esmorecer. Mas o sofrimento era complicado de se enfrentar.
-Eu estava vivendo com meu irmão, e um ano depois da morte de minha mãe um homem nos procurou. Ele era russo, e se chamava Dimitri. Se dizia advogado de um importante militar da Rússia, um homem bem bastado, e mostrou para meu irmão, em sua pequena joalheira em Liverpool, onde morávamos, uma carta onde meu pai selava o meu casamento com ele. Este cavalheiro chama-se Conde Josef Ivanov, e é de fato um homem poderoso. Esse Dimitri explicou que meu pai estava endividado, e aceitou “entregar-me” como pagamento. Quando Dimitri veio meu procurar, eu tinha dezesseis anos, e segundo ele, “uma boa idade para o casamento”, e veio nos avisar que Ivanov viria pessoalmente me buscar. Sem que ele percebesse, meu irmão mandou avisarem-me, exigindo que eu me escondesse. Mal estava fazendo isso, percebi que havia homens estranhos, falando em russo, cercando a nossa casa. Eu me escondi na casa de uma amiga, e meu irmão acabou tendo um desentendimento com um deles... Ele foi atacado, e o Conde mandou incendiarem nossa casa... A casa que minha mãe viveu... Perdemos tudo.
Holmes parecia visivelmente perturbado. Especialmente porque ele já tinha estudado esse Conde Ivanov, mas não se lembrava dos detalhes. Eles estavam em Baker Street, infelizmente. Mas ele sabia que era um homem perigoso.
-Como morávamos em Liverpool, uma cidade portuária, escapar foi fácil. Passamos, então, a viver como andarilhos pelo Continente. Estivemos na Alemanha, Itália... Estávamos em uma cidade no sul da Toscana quando fomos, mais uma vez, localizados. Nos últimos quatro anos, esta tem sido minha vida. Fugindo o tempo todo dos mandos do Conde Ivanov.
-E por quê a França, e não a Inglaterra?
Ela deu de ombros. – Não sei. Foi idéia de David. Para me fazer oculta dentro do navio, ele até mesmo pediu a uma mulher qualquer que comprasse a passagem em seu nome. – ela riu. – David pensou em todos os detalhes.
-Bem, se você quiser, eu posso te ajudar. Eu pretendo me hospedar em algum hotel por aqui mesmo, e depois seguir rumo à Montpellier. Sei que não é a cidade que você intencionava ir, mas garanto que uma cidade menor como Montpellier será melhor a uma senhora sozinha e... Posso leva-la até lá em segurança.
Esther ficou séria. Holmes percebeu sua falta de senso. Onde eu estava com a cabeça para propor uma coisa dessas?
-Desculpe. Não foi isso que quis dizer. Eu... Fui indelicado, eu sei. Mas garanto que tenho boas intenções. Podemos, é claro, sem maldade... Dividir um quarto.
Esther se levantou. Em um impulso, Holmes a pegou pelo braço.
-Por favor, eu só quero ajudar. Confie em mim. Sente-se.
Ela sentou-se, e bufou.
-Será por pouco tempo. Eu confio que chegaremos em Montpellier em questão de dias. Você não conhece a França, mademoiselle, e é sempre perigoso ter uma mulher sozinha, vagando por aí. Eu posso leva-la a Montpellier, creio que lá você encontrará algum trabalho decente, como lecionar aulas, ser tutora, algo assim. E definitivamente, Ivanov não será bem-vindo lá. Um bom lugar para você recomeçar sua vida.
Ela abaixou a cabeça, e concordou.
-Ótimo. Podemos procurar um quarto ainda hoje, ao menos para passarmos a noite. Tem uma estalagem aqui perto, que eu conheço, que oferece um quarto com duas camas solteiro, creio que servirá aos nossos propósitos. Confio que será melhor do que dormir ao relento.
-Tudo bem, se você prometer ser respeitoso... Porque se não for...
Holmes sorriu. – Tudo bem, ameaças não serão necessárias. Agora, vamos.
Notas finais
Tô pensando em uma outra fic, mas falta tempo. Assim que der, eu começo, mas primeiro pretendo terminar essa. Opiniões, dúvidas, críticas, qualquer coisa, em reviews ou mensagens privadas, que irei responder.
Thanks,
BadWolf
Fale com o autor