Shalom - As Memórias de John Sigerson
27 Capítulo 27: Miss Evans
Notas iniciais
Agora veremos como a Esther se arranjou nestes dois anos longe do Holmes. Preparem-se para as emoções das próximas linhas...
Shagford Street. 07:00 p.m.
Esther estava contente pelo Dr. Watson ter aprovado o peixe ensopado. Ela tinha aprendido a receita com sua mãe, e desde então, tinha feito poucas vezes. Seu falecido irmão, David, era um homem de paladar pouco exigente, e ela tinha a impressão de que se ela servisse uma bota frita ele aprovaria. Ela jamais imaginara que a segunda pessoa a provar seu ensopado seria seu namorado.
–Está divino! – disse Watson, após terminar a refeição.
–Que bom que você gostou, Doutor Watson.
–Pode me chamar de John, por favor. Desse jeito, eu fico me sentindo dentro de meu consultório.
Ambos riram. — Tudo bem, John, contanto que você me chame de Sophie. Mas espero que você ainda esteja disposto, porque eu irei servir a sobremesa agora.
–Pode servir, eu tenho certeza de que irá me surpreender mais uma vez com suas mãos mágicas para a cozinha.
Ela sorriu, deixando Watson na mesa, enquanto ia buscar a sobremesa. Ela estava insegura se iria preparar para aquele jantar qualquer coisa que remetesse à sua religião, o Judaísmo. Tinha medo de qual seria a reação do doutor, se ele soubesse que ela era judia.
Deixe de bobagem, Esther. Você não está na Rússia ou na Alemanha, e Watson parece ser uma boa pessoa.
Depois que serviu a sobremesa, um doce de nozes, Watson fez mais elogios atenciosos às suas habilidades na cozinha, deixando Esther sentindo-se especial. Ele era um homem gentil, ela pôde perceber, e muito carinhoso. Fazia tempo que ela não convivia com um homem assim. O último que conhecera, aliás, era também encantador e cavalheiro, mas não foi capaz de renunciar à sua vida aventureira para construir uma nova vida a seu lado. E o Doutor Watson acenava á ela uma vida tranquila, segura, ao lado de alguém que ela poderia sempre contar e que a faria feliz. Talvez a recusa de Sigerson de acompanha-la a Inglaterra tenha sido algo bom, pois permitiu que ela estivesse aberta a conhecer outras pessoas.
–Você parece distante, Sophie... O que foi?
Ela libertou-se de seus pensamentos. – Oh, não é nada. Mas conte-me Watson, como tem andado seus trabalhos, em seu consultório novo?
–Oh, estou recebendo cada vez mais clientes. Trabalho é o que não falta para mim, embora eu tenha que admitir que muitos são motivados por causa do que leem na Strand... – ele suspirou, ao lembrar-se de Holmes.
–Você deve sentir muita falta dele, não é?
Watson já tinha comentado com Esther sobre sua amizade com Sherlock Holmes, um nome do qual ela apenas conhecia de vista. Isso tornou-a mais simpática aos olhos de Watson, uma vez que todos o cercava apenas para saber mais detalhe de seu falecido ilustre amigo. Ao mesmo tempo, Esther sentia-se uma tola, desinformada, por saber tão pouco do ilustre detetive da Inglaterra. Watson já tinha lhe emprestado “Um Estudo em Vermelho” e alguns contos do Strand, mas ela ainda não tinha terminado tudo, por falta de tempo. Queria ler um de cada vez, na ordem.
–Sinto. Eu não fazia idéia disso na época, mas hoje, eu sinto que ele era praticamente um irmão para mim. Se eu contasse isso, ele certamente iria rir de mim.
Esther ficou horrorizada. – Oh, não diga isso! Rir de você, mas que crueldade!
–Ele costumava desdenhar das grandes emoções. Era uma máquina de calcular, fria e insensível, embora eu tenha testemunhando algumas ocasiões em que pude ver seu coração, mas foram raras. Ele era casado com seu trabalho, e achava patético qualquer sentimentalidade, como costumava dizer.
–Só o que posso é sentir pena dele. Deveria ser um homem infeliz.
–Sim, ele tinha momentos de infelicidade, que eram, infelizmente, sanados com doses de cocaína...
Cocaína? Ela lembrou-se daquele dia, em que encontrara Sigerson lançado à cama, inconsciente, e que vira marcas de agulha por todo seu braço. Quantas vítimas aquela droga fazia...
–Eu sei como é. Também conheci uma pessoa que era entregue à essa droga.
–Oh, não me diga! – sensibilizou Watson. – E essa pessoa está bem?
–Creio que sim. – ela disse. – Mas então, você estava me contando sobre seu consultório...
oooooooooooo
Pall Mall. 09:12 p.m.
–Não pode ser, Mycroft! Watson e Esther, juntos!
Mycroft testemunhou, pela primeira vez, Holmes descontrolado, beirando ao desespero. E para sua surpresa, por causa de uma mulher.
–Eles estão se acertando, Sherlock! Precisa ver como Esther está fazendo bem a ele. Se você tivesse visto como ele andava, desde a morte da Sra. Watson e do bebê...
Holmes levava a mão ao rosto, em frustração. Isso não deveria estar acontecendo... Ao mesmo tempo em que ele se sentia triste por saber que os dois estavam avançando em um romance, ele também ficava se perguntando: por que estou assim? Seria isso que ele estava sentindo, essa angústia que lhe atravessava o peito, apenas em pensar na possibilidade dos dois juntos, o que as pessoas chamavam de ciúme, e que era a causa de tantos crimes? Não. Esse tipo de sentimento não pertencia a seu vocabulário.
–Essa moça mudou você, Sherlock, isso você não pode negar!
Frustrado, Holmes sentou-se com violência no sofá, e bebeu o resto de xerez que jazia em seu copo de uma só vez.
–Eu deveria estar feliz, Mycroft, mas me sinto decepcionado, triste. Eu sei que ela é uma mulher extraordinária, e que Watson é um homem honesto e íntegro, mas...
Mycroft ergueu uma sobrancelha, como se estivesse esperando por uma confissão. Uma confissão que ele sabia, desde que encontrara seu irmão e a moça em Paris. Como não obteve resposta, ele disse.
–Não faça a besteira de interromper o relacionamento dos dois, Sherlock, Faz pouco tempo que o Doutor ficou viúvo e perdeu um filho. Pense bem no que você irá fazer. Veja só, meu irmão, a que ponto as coisas chegaram: eu estou pedindo a você que pense!
O próprio Holmes ficou surpreso com essa declaração.
–Meu irmão, meu irmão... Pense no futuro, não no presente. Você consegue se imaginar casado? Não falo da vida que você está levando agora, trabalhando aqui e ali como violinista, mas na vida que você pretende ter de volta, a vida como o “Grande Detetive Consultor de Baker Street”... Há espaço para uma esposa? Há espaço para... Filhos?
A última palavra assustou Holmes. Ele jamais tinha pensado em nenhuma das duas possibilidades, sequer na última. Mycroft viu que tinha atingido um nervo importante, e prosseguiu.
–Oh, mas é natural pensar nisso... Você teria de se casar com ela, se pretende escolhê-la, e filhos são consequência natural de um casamento. Está vendo como é necessário pensar com calma?
–Me sinto desequilibrado, sem chão... Perdido em um terreno que nunca caminhei, e que nunca tencionei caminhar.
–Então saia desse terreno, antes que você machuque as pessoas que mais estima. Concentre-se agora em derrotar o Coronel Moran. Ter sua vida de volta depende apenas disso agora. Você foi longe demais para parar agora.
Holmes suspirou, derrotado. – Vou tirar o resto dessa noite para pensar. – disse, levantando-se. – Boa noite, Mycroft.
Enquanto o observava descendo pela janela outra vez, Mycroft suspirava. Parece, meu pai, que você estava certo em seu palpite.
Notas finais
Obriagda pela atenção, e reviews sempre bem-vindos! Bye!
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