Shalom - As Memórias de John Sigerson
28 Capítulo 28: Informações em Whitechapel
Notas iniciais
Bem, podem sossegar. Não teremos, por hoje, nenhuma revelação dessas neste capítulo. Naturalmente, a história está andando e Holmes precisa focar no Coronel Moran se quiser voltar a ser Sherlock Holmes.
Aliás, eu sempre me perguntei, em "A Casa Vazia", como ele seguiu essa linha de investigação. Estou tentando colocar os bastidores da história de Watson, e espero que não esteja sendo muito chata. Veremos daqui pra frente um pouco mais disso - e, é claro, do nosso estimadíssimo casal John Watson, M.D., e Miss Sophie Evans.
Divirtam-se, e reviews no final são apreciados!
Embora estivesse ainda desnorteado com a notícia de que Esther estava sendo cortejada por Watson, Holmes decidiu continuar sua investigação contra Moran. Foi até seus aposentos em East End e buscou seu case com o violino. Estava decidido a tocar a noite inteira, se pudesse esquecer tudo que lhe afligia.
A noite seguiu normalmente, e para sua decepção, Moran não apareceu. Já estava tarde, passando das duas da manhã, e certamente ele não iria aparecer mais. Talvez tivesse outro compromisso, em outro local.
Às três da manhã, Holmes e os demais músicos encerraram o expediente, sendo devidamente pagos pela cafetina. O outro músico convidou Holmes para outra bebedeira, mas ele se recusou.
Do lado de fora do prostíbulo, caminhando pelas ruas imundas de Whitechapel, ele ouviu o grito agudo de uma mulher interromper a escuridão. Prontamente, ele lembrou-se do caso de Jack, o Estripador, e de suas vítimas naquele lugar. Seu instinto aguçado e perspicaz imediatamente foi acionado, fazendo-o correr à direção daqueles gritos.
Ele se aproximou de um beco, e viu uma mulher sendo esbofeteada por um sujeito. Aquela seria uma cena que qualquer cidadão acharia vulgar e não se importaria, pela provável profissão da mulher, mas Holmes não considerou isso como desculpa. Avançou em cima do homem, e o enfrentou. Ele estava visivelmente bêbado, facilitando a luta para Holmes. Depois de dar alguns golpes nele, Holmes pôs o malandro para correr.
-Oh, muito obrigada, senhor! – agradecia a prostituta, aos prantos, com a maquiagem borrada e o rosto vermelho pelos tapas.
-Não há de quê.
Holmes olhou-a nos olhos, e viu que era a tal prostituta que morava no mesmo prédio que ele. A mesma que...
-Você deve ser o Sigerson, não é? – ela perguntou, amolecida.
Holmes ficou paralisado, atônito, e com o rosto corado. – S-Sim.
-Se eu pudesse retribuir a sua gentileza...
Holmes a interrompeu. – Oh, não é necessário. Eu... Apenas fiz o que qualquer um faria.
A moça deu uma risada um tanto vulgar, deixando à mostra seus dentes amarelados pelo cigarro barato. – Oh, você é tão inocente... Qualquer um teria ignorado uma prostituta sendo assaltada, ainda mais aqui. E eu vi que naquela noite que você andou reparando naquele senhor, o Coronel Moran... Eu sei que o tipo de coisa que você gosta é ilegal, mas eu posso...
Ilegal? O que ela estava pensando que ele era? Oscar Wilde? Holmes sentiu-se ofendido pelas conclusões da mulher.
-Espere! Eu não sou o que você está pensando que eu sou...
-Eu sei que não, estava só te testando, seu tolinho... Sei que não é um sodomita, pois eu tive uma prova disso... Ontem à noite.
A risada da prostituta, bem baixinha, quase como o ronronar de um gato, fez Holmes corar até o último fio de cabelo.
-Por favor, poderia não falar sobre isso, senhorita...?
-Rose. Rose Willians.
-Certo, Miss Willians. Eu... Peço desculpas pelo meu comportamento completamente inadequado ontem á noite, e espero que a senhorita me perdoe e esqueça o que se passou.
Ela suspirou, um tanto impaciente. – Tudo bem.
-Acredito que o seu “expediente” já cessou, não é? Quer que eu a acompanhe para casa?
Ela sorriu. – Oh, então eu ganhei um segurança?! Fascinante.
Os dois caminharam as poucas ruas que separavam o reduto da prostituição de Whitechapel e seguiram para East End. Aproveitaram para conversar.
-Então, Rose Willians, que motivo fez você escolher Londres, depois de abandonar sua terra natal, Nova Iorque?
Rose ficou boquiaberta. – Como você sabe que eu nasci em Nova Iorque?
-Seu sotaque.
-Mas eu saí de lá muito nova...
-Disso eu pude perceber. Mas as pessoas preservam um pouco do sotaque, mesmo assim. Geralmente, os ingleses deve notar que você não é inglesa, mas não saberiam especificar da onde ao certo você veio. Isso só é possível a partir do momento em que você fala mais um pouco, ainda mais porque no seu serviço... – Holmes hesitou. – ...Não é necessário muita conversa. Mas ainda assim, eu posso perceber que você morou um tempo na França, antes de vir para cá. Digo isso pelas roupas que você veste, que embora não sejam tão novas, são de um corte reconhecidamente francês. Mesmo as roupas das costureiras mais baratas da França tem um corte bem característico.
-Você está certíssimo! Eu saí da França apenas a dois anos.
-E porquê?
-Bem, minha mãe resolveu se casar com um sujeito que batia nela e queria abusar de mim. Como ela não acreditava em mim, decidi fugir. Então, pensei na Inglaterra, e vim parar aqui.
Rose despejou uma história lamentavelmente decadente como se tivesse ditado uma receita de bolo. Holmes percebeu isso.
-Er... Aquele Coronel Moran... Você o conhece?
Rose riu de maneira vulgar de novo. – O conheço muito bem. Ele é bastante fiel na casa de Madame Close. Um sujeito bastante aberto a tudo que você puder imaginar, e paga muito bem. Tive a sorte de ser escolhida por ele algumas vezes. Mas porquê pergunta?
-Bom, não é nada... Só não gostei muito dele.
Rose pareceu assustada. – Tome cuidado em não transparecer isso. Ele é bastante perigoso.
Oh, não me diga?!
-Porquê diz isso? Ele já fez alguma coisa com você?
-Não comigo, mas com um rapaz, cliente de uma colega minha... Parece que o Coronel costuma apostar alto nas mesas de pôquer, e às vezes acaba endividado. Ele foi cobrar uma dívida do Coronel, e sua mãe acabou sofrendo um grave acidente logo em seguida.
-É mesmo?
-O nome dele é Philip... Philip Stewart, eu acho. Sua mãe estava cavalgando e caiu do cavalo, em sua mansão em Lauder, isso foi há anos atrás, acho que em 87 ou 88.
Holmes lembrou-se do que era. A morte inexplicável de Mrs. Stewart, de Lauder, em 1887. Ele tinha um registro do caso em Baker Street. A moça continuou.
-Ele tinha levado minha amiga, que se chamava Catherine, com ele, para mais uma daquelas festinhas privadas... Ela viu a tudo, e me contou que tinha escutado um disparo um pouco antes de Mrs. Stewart cair do cavalo. Parece que alguém atirou e acabou assustando o cavalo. Mrs. Stewart sobreviveu, mas está em uma cadeira de rodas, e agora sofre dos nervos.
Holmes ficou surpreso. – Nossa, que destino terrível! Er, você saberia me dizer o que aconteceu com essa moça, ou com o rapaz?
-Bem, ele se casou anos depois e agora mora na América, e Catherine casou-se com um homem rico e largou da vida. Sortuda, ela. Mora aqui em Londres, perto da St. James’s Cathedral, eu acho.
Catherine, ex prostituta, que morava perto da St. James’s Cathedral. Aquela informação era vaga, mas Holmes sabia que não poderia perguntar mais nada, sem levantar suspeitas. Despediu-se de Rose, que antes de entrar em seu quarto lançou um olhar bastante travesso e disse.
-Por tudo que me fez, eu prometo que não irei cobrar se você me acompanhar.
Holmes corou todos os músculos de sua face, e nada disse. Prosseguiu pelo corredor até seu quarto. Antes de fechar a porta, pôde ouvir ainda uma risadinha da moça. Porque as mulheres agiam dessa forma?
Confuso e, no entanto, satisfeito com seu progresso, ele deitou-se em sua cama, depois de tomar um banho rápido. Acendeu seu cachimbo abastecido com tabaco shag, e pôs-se a meditar, empesteando o quarto com fumaça. Envolto em uma densa neblina de fumo, ele meditava nas palavras, e também procurava imaginar todas as possibilidades que acenavam diante de si, e que poderiam permitir a oportunidade perfeita de acabar com Moran e retornar à sua vida.
Notas finais
Reviews bem-vindos, como sempre.
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