Shalom - As Memórias de John Sigerson
24 Capítulo 24: Cocaína
Notas iniciais
Não podemos nos esquecer que Holmes é um viciado. (Embora os filmes e séries nos últimos tempos tenham sido bastante brandos com relação a isto, creio que para não incentivar ninguém)
Atenção: O capítulo a seguir contém cenas explícitas de consumo de drogas.
E galera, não usem drogas! Elas não levam a lugar algum.
Moran parecia não ter mudado nada desde a última vez que o Holmes o tinha visto, nas Cataratas. Claro, ele não precisou disso, uma vez que ele não estava fugindo de ninguém. Vestido com uma casaca e smoking, ele entrou no prostíbulo, e logo foi cercado por duas mulheres. Certamente, era cliente fiel da casa.
Enquanto tocava violino, Holmes o estudava brevemente. Ele gastava como um louco, comprando a bebida mais cara da casa e saindo com duas moças de uma só vez para a “suíte”. Sem dúvida, era um cliente de gostos caros. Ele percebeu que havia um uísque especialmente para ele, entregue pela cafetina.
Naquela noite, Holmes desejou observar Moran, e como seu expediente tinha acabado, ele resolveu arranjar um pretexto para continuar ali. Se ele precisava começar por algum lugar, certamente seria por suas fraquezas. Como a hipótese de ficar com uma daquelas prostitutas era impensável, ele resolveu ficar com um dos homens do quarteto, Smith, para beber.
Porém, assim como o restante dos músicos, Smith não era restrito apenas a bebida.
-Olhe só o que comprei do austríaco de Chelsea Street...
Aquela substância presente no vidro de Smith era muito familiar a Holmes. Seus olhos ficaram concentrados no frasco que o músico sacudia com devoção e deleite.
Cocaína.
Os demais músicos mostravam-se amistosos.
-Eu prefiro ópio. – disse um.
-Pois vá até o cais e encontre um daqueles chineses, se assim o quer. Ora esta. Esforço-me em conseguir uma diversão para nossa noite e você desdenha... E você, Sigerson? Quer?
Holmes cortou seus pensamentos, e voltou-se para Smith.
-O quê?
-Ora, não me diga que você não sabe o que é isso...
Os demais músicos riram. Holmes ficou sério.
-É obvio que sei distinguir cocaína quando estou diante dela.
-Então, meu camarada, se você é adepto, pode juntar-se a nós. Aproveite que estou de bom humor, pois dificilmente alguém iria oferecer-te de graça.
Holmes voltou-se rapidamente a Moran, divertindo-se com uma das meninas. De um lado, estava o desejo de acompanhar, passo a passo, seu inimigo. Do outro, uma tentação a ter aquelas mesmas alucinações, que deixavam sua mente potente e livre. Há quanto tempo ele não as tinha... Há quanto tempo ele não deixava a droga percorrer suas veias, entrar em seu corpo de maneira incontrolável...
Holmes juntou-se ao grupo, aspirando o pó branco por cerca de três vezes, em quantidades pequenas. Não tinha o efeito tão potente de sua solução sete por cento, mas já serviu por quebrar, quase que por completo, todos os últimos anos que se sentiu bem, ainda que sem usá-la.
Enquanto bebiam e se drogavam a noite toda, mais até do que Holmes estava acostumado, ele vigiava Moran. Percebeu que ele andava sempre armado, com uma pistola que ele achou, a princípio, curiosa em sua aparência. Percebeu-o conversar com alguns senhores, entre um copo de uísque e baforada de charuto, e o observou jogar amistosamente o que chamavam de strip-poker, que deixou Holmes corado por algumas vezes. Moran era tão bom nas cartas que tinha despido todos seus oponentes.
Assim que pôs os pés para fora, Holmes sentiu uma vertigem estranha passar, que remetia à sensação de seus vinte anos, em Cambridge, quando era apenas um rapaz inexperiente no sedutor mundo das drogas. Estes últimos anos o fizeram perder a prática neste assunto, ele constatou. Nos últimos tempos, era quase impossível pensar em drogas, ainda mais ao lado de Esther, mas agora que ela poderia estar em qualquer lugar do Reino Unido – ou mesmo da Europa -, Holmes encontrava-se, estranhamente, vazio. Porquê, se ele tinha objetivos claros ali? Aliás, tinha mesmo? Fora realmente a necessidade de vigiar os passos de Moran que o fez atrair-se ao pó sobre a mesa? Teria sido uma desculpa que sua mente, dita perspicaz, inventou?
Subir as escadas o fazia se sentir um equilibrista, em uma corda bamba. Sua mente, quando sob efeito da cocaína se encontrava estimulada, agora estava reduzida agora a algo iludido, confuso, incapaz de distinguir realidade e fantasia.
Holmes voltou para seu quarto, satisfeito com o que descobrira naquela noite. Ele sentiu-se um tanto grogue e tonto pela bebida, e com a mente alucinada pela droga. Obviamente, estava completamente entorpecido, mas ao menos tinha sido por uma boa causa, ele pensou. Só o que precisava, ele pensava, era dormir, e esperar o efeito de todos os entorpecentes que consumiu passar.
Enquanto estava se despindo, Holmes ouviu o barulho da porta. Ele estava tão distraído, confuso pelo efeito, que cometeu o descuido de esquecer a porta destrancada. Quem poderia estar abrindo a porta deveria ser um dos filhos de Mrs. Elliot, ele pensou. Não, são quase cinco da manhã e aquelas crianças nem acordaram, ele raciocinou. O álcool e a cocaína estavam confundindo suas faculdades mentais também, o que era péssimo.
Ao se virar, um tanto envergonhado porque estava com a camisa desabotoada, ele quase caiu para trás ao ver quem se tratava.
Esther?
Notas finais
Esther, mas que má hora pra voltar, não é?
Se bem que eu acho, caros leitores, que no estado de Holmes eu não teria tanta certeza de que era realmente ela... Hmm....
No próximo cap, veremos as consequências desse abuso de drogas.
Tudo na vida tem consequências, não se esqueçam. Até logo.
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