Shalom - As Memórias de John Sigerson
19 Capítulo 19: O Destino de Esther
Notas iniciais
Espero corresponder às expectativas de vocês.
-Meu pai? Um espião? Ora esta, mas isto é um absurdo!
Mycroft continuou sério, mesmo diante da convicção da moça, que ria de nervosismo e descrença.
-Não senhora. Estou falando a verdade. Posso revelar sua verdadeira identidade, porque sei que ele faleceu em 1886, se não me engano. Ele estava ao nosso serviço.
Percebendo que a moça ainda não estava convencida, Mycroft continuou.
-Miss Katz, você sabe falar quantos idiomas?
-Três.
-Um feito um tanto impressionante para uma moça de sua idade, não acha? Isso é sinal de que você viveu em alguns países diferentes. Aposto que Inglaterra, França e Rússia, não é?
-Sim, exatamente.
-Exatamente os mesmos países que seu pai trabalhou, como espião. Seu pai era um antigo colaborador nosso. Ele já trabalhava como espião desde bem antes do casamento com sua mãe. Aposto que sua mãe deve ter morrido sem sequer saber sua real profissão. No quê exatamente ele trabalhava, você poderia me dizer?
-Ele era advogado.
Holmes ficou surpreso, porque ela não tinha contado sobre isso para ele.
-Na verdade, ele tinha um escritório de advocacia que trabalhava para o Czar. Quando o mandamos para essa Missão, ele mostrou-se um tanto resoluto em aceitar, por causa de sua religião e do sofrimento de seu povo naquele país, mas ele era um leal súdito da Rainha, e obedeceu sem queixas. Para não levantar suspeitas, ele precisou levar sua família. Nós garantimos que ele conseguisse um local de prestígio no governo, que tivesse acesso a informações preciosas. Mas a religião dele era um empecilho, e estava se tornando perigosa à sua própria vida e à de seus familiares. Seu principal opositor era Ivanov. Foi seu pai que descobriu o destino de centenas de judeus que eram presos: a Fazenda Ivanov. E foi neste ponto que ele errou. Ele deixou seus sentimentos falarem mais alto, e ao invés de se calar e se concentrar em sua tarefa de obter informações, ele começou a divulgar a existência dessa fazenda, que era um verdadeiro palco de horrores, para os opositores do Czar, e também para outros judeus de alguma posição relevante. Na época, nós não sabíamos o que o tinha motivado a fazer isso, mas agora que você me contou essa obsessão do Conde Ivanov por você, eu o entendo. Ele decerto tentou ameaçar o Conde, e como não houve resultado, ele lançou a notícia nas mãos dos opositores para te proteger. O Conde Ivanov ficou bastante ocupado, tentando controlar a baderna que seu pai causou, mas isso não era o bastante. Seu pai apenas ganhou alguns anos, até que o Conde desse o golpe final. É divulgado que seu pai morreu há uns seis anos atrás, não é?
-Sim.
-Errado. Seu pai morreu há quatro anos. Ele foi escravizado na Fazenda por mais dois anos, até não resistir. Mas ao menos, ele morreu sem jamais dizer que era um espião britânico. Ao menos, é isso que imagino. Afinal, não tivemos nenhum mal-estar diplomático.
Mycroft deu um suspiro. – Bem, acho que já conversamos o bastante. Se quiser, eu posso manda-la para a Inglaterra. Lá, podemos garantir que você seja protegida. Isso é o que podemos fazer pela filha de um grande colaborador nosso.
-Seria maravilhoso... – confessou Esther. – Mas... E Sigerson?
Mycroft olhou para Esther, e depois virou-se para Holmes.
-O-O que tem Sigerson?
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Holmes a interrompeu.
-Confie, senhorita, que eu ficarei bem. Não é de meu desejo ir à Inglaterra. Tenciono ficar em Paris por mais algum tempo, e agora devemos prezar por sua segurança, portanto aceite a proposta de meu irmão. Seu pai prestou serviços inestimáveis à Rainha, e os pagou com a própria vida, e você merece ser protegida pela Coroa agora.
Mycroft ressaltou. –É, exatamente, minha senhora. A Inglaterra lhe acolherá como uma filha. É a sua hora de ser devidamente recompensada, em nome de Mr. Katz, seu pai. Você terá direito a uma boa casa, e poderemos arranjar uma ocupação decente, até que você arranje um bom casamento. Lá o Conde Ivanov não terá qualquer chance de te usar para seus vis propósitos.
Esther, então, cedeu. – Tudo bem. Quando podemos ir?
-Amanhã, ainda.
-Mas tão rápido! – ela ficou impressionada. Holmes parecia entristecido.
-Sim, o mais rápido possível... – Mycroft olhou para o irmão. – Amanhã, eu estarei voltando para Londres, e você pode pegar o mesmo trem que a minha comitiva. Ao menos, você estará mais segura.
-Sendo assim...
-Agora, a senhorita precisa dormir. Pedirei ao Hotel que arranjem uma suíte para ti... Oh, esqueci-me de que todos os quartos estão ocupados! Bem... — Mycroft parecia desnorteado e sem ação. — Há um quarto menor aqui, onde estão as minhas malas. A senhorita pode ficar com ele. Eu e Sh... Sigerson dividiremos este quarto.
Quando Esther já estava recolhida, os dois Holmes puderam conversar.
-Eu não fazia a menor idéia de que ela era filha de um espião.
-Nem eu, confesso, poderia dizer isso na primeira vez que a vi. O sobrenome dela me era familiar, mas a medida que ela contou sua história, eu tive certeza de que ela era mesmo filha do velho Katz. O pai dela foi um verdadeiro herói. – Mycroft suspirou. – O Gabinete de Inteligência determinou o caso dos Katz como fracasso. Um dos poucos fichados assim. O espião, morto oficialmente, e a família desaparecida, que para nosso entendimento, estava morta também. Se ela estava fugindo desse Conde, conseguiu com proeza, porque não deixou rastros, nem mesmo para nós.
Holmes estava impressionado. Ele, então, assobiou, em admiração e com deboche. – Então, Miss Katz conseguiu burlar o Serviço de Inteligência Britânico?
Mycroft, que odiava ser caçoado, ou mesmo admitir uma derrota, estava agora diante das duas situações. – Não ria, Sherlock. O caso dos Katz rendeu a derrubada de dois secretários naquela época. E eu confesso que me sinto melhor, como súdito de Sua Majestade, em saber que ao menos um membro daquela família está bem. E agora, pelo menos, eu poderei fazer alguma coisa pela moça.
Holmes parecia, de alguma forma, chateado. Mycroft sorriu.
-O que foi, Sherlock? Você parece insatisfeito com o fato de que a moça irá partir amanhã...
-Não estou triste com a viagem, meu irmão... Apenas...
-Sei. – decretou Mycroft, dando uma baforada de seu charuto. – Você esteve mais de um ano, vagando por terras estranhas, completamente sozinho, depois de viver o calor de uma boa amizade com o Doutor. É claro que a primeira amizade que conseguiu fazer neste tempo iria impactá-lo, depois de tanto tempo solitário. Você se desacostumou com a solidão, Sherlock.
-Talvez seja isso... – disse Holmes, sem convicção.
Mycroft, que não era de demonstrar afetos, deu três vigorosos tapas no ombro do irmão, que surpreendeu até mesmo seu irmão. – Não fique assim, ela está indo para um lugar seguro. Lá, esse Conde perverso não poderá fazer qualquer coisa. Bem, Sherlock, eu vou dormir... Sinto muito, mas você terá de dormir no sofá. Ao menos que você queira ser esmagado por mim naquela cama.
Holmes sorriu, em deboche. – Acho que o sofá será mais apropriado.
-Então, boa noite, e até amanhã.
-Boa noite.
Holmes desabotoou parte da camisa, deixando a gravata pendida no sofá, e tirou os sapatos. Já passava da meia-noite, e ele sabia que não iria conseguir dormir muito. O sofá, ao menos, era confortável, embora seus pés ficassem do lado de fora da cama, por causa de seu tamanho. Mycroft tinha lhe cedido um travesseiro e um lençol, de modo que ele se acomodou como pôde. Aquilo parecia a cama de um Marajá, perto do que era dormir no chão sem qualquer conforto, como o que ele tinha passado em sua estadia no Tibete.
Holmes fechou os olhos, e seus sonhos custaram a chegar. Para sua surpresa, ele não tinha sonhado com Cataratas, ou sua rotina como detetive resolvendo algum mistério, nada disso. Dessa vez, ele tivera um sonho muito diferente.
Ele sonhara com Esther.
Ao menos, foi esta a sensação que ele teve, ao acordar momentaneamente, com o coração disparado no meio da noite. Ele não lembrava exatamente de como era seu sonho. Apenas dos pesadelos ele tinha a lembrança dos detalhes, de modo que, o que ele sonhara certamente não era um pesadelo. Pelo contrário. Ele tinha a sensação de que sonhara algo bom, e se lamentava por não se lembrar dos detalhes.
-Sigerson?
Holmes, que estava sentado sobre o sofá, foi imediatamente tirado de seus pensamentos por aquela voz feminina, que tinha se tornado sua companheira nos últimos tempos.
-Desculpe, eu não quis acordá-lo... Só... Fui buscar um copo d’água...
Holmes, que já estava a par de seus hábitos noturnos, de sempre recorrer à água no meio da noite, compreendeu imediatamente sua presença ali, interrompendo seus pensamentos cada vez mais perturbadores.
-A senhorita não me incomodou. Eu já estava acordado.
-O-O sofá... Ele deve ser desconfortável, não é? – ela disse, sem graça.
-Deveras.
-O senhor quer um copo d’água? – ela perguntou, enquanto enchia um copo para si com a jarra sobre a mesa.
-Gostaria, obrigado.
Ela entregou um copo cheio a Holmes, e sentou-se na poltrona. Sem querer, sentou-se sobre o colete de Holmes, e instintivamente tentou retirá-lo dali. Acabou por deixar cair do bolso do colete uma pequena caixa, que lhe era familiar. Era a jóia que Holmes tinha lhe presenteado.
-Oh, isso... – ele tentou se retratar. – Eu estava planejando te devolver amanhã.
Ela, então, abriu aquela pequena caixinha, mostrando a jóia que ela reconheceu como sendo seu colar com a Estrela de Davi.
-Antes de sair da estalagem, quando fui pegar nossos pertences, a primeira coisa que fiz foi pegar isso na gaveta. Você nunca o usou, sempre o deixa guardado. – disse Holmes, com a própria intenção de ferí-la, enquanto fitava a pequena jóia.
-Sinto muito se lhe deixei desapontado por não usar o seu presente. – ela se desculpou.
-Posso entender o seu gesto não como ingratidão, mas como sobrevivência. Mas agora, eu saberei reconhecer ingratidão em ti, a partir do momento que você colocar seus pés na Inglaterra e ainda temer pelas sombras.
-É fácil acusar-me de covardia, Sigerson, quando não foi você que...
Esther se interrompeu, visivelmente abalada. Holmes esperou que ela concluísse suas palavras, mas ao perceber que ela não faria isso, ele continuou.
-Você está livre, Miss Katz, para ser quem você verdadeiramente é. Na Inglaterra, você não sofrerá as mazelas da Rússia. Pode usar este colar sem medo, até mesmo agora. Se me permite...
Holmes levantou-se do sofá, indo para trás da poltrona de Esther com o colar em suas mãos. Ela puxou seus cabelos para frente, deixando o pescoço descoberto, para que Holmes pudesse abotoar o cordão.
Para surpresa de Holmes, os dois primeiros botões do vestido de Esther estavam soltos, revelando parte de suas costas, ou melhor, as marcas em suas costas. Eram cicatrizes, antigas, mas completamente assustadoras para uma dama ostentar.
Sem dar-se conta de seus atos, Holmes passou seus dedos sob as linhas traçadas perto de seu pescoço. Instintivamente, Esther se esquivou e voltou-se de frente a Holmes, deixando o cordão cair no chão.
-O que são essas cicatrizes, Esther? – foi apenas o que ele pôde perguntar, diante do estado estarrecedor da moça.
-N-Nada demais. Vestígios de uma infância.
-Uma infância nada comum, pelo visto. Ao menos que receber chicotadas nas costas seja uma punição por traquinagens, o que eu aposto não ser este o caso para tanto.
Esther parecia chocada, e nem um pouco disposta a ceder.
-Definitivamente, isso não é da sua conta. – ela disse, com os olhos arregalados.
Holmes suspirou, resignado e aborrecido, e usou o momento para fazer um desabafo.
-Você, Miss Esther Katz, é um mistério para mim. Quanto mais eu a conheço, mais a desconheço.
-Eu já lhe expliquei minha história. Não há mais nada que você não saiba.
-Você me disse que vinha de uma família de comerciantes, e agora revela que seu pai era um advogado na Rússia. Diz que um Conde, reconhecido assassino de judeus na Rússia, a desposou e está lhe perseguindo, algo que tenho minhas suspeitas que seja verdade. Um típico homem honrado da Rússia, que goza reputação para com o Czar, jamais se casaria com uma judia.
-Cale essa boca. – murmurou Esther. Holmes permanecia inabalável.
-Só o que posso ver é o perigo eminente, apenas isso e mais nada além de suas mentiras. E eu não posso confiar em mentiras, Miss Katz.
-O senhor também mente o tempo todo para mim, Mr. John Sigerson.
Holmes arregalou os olhos, com medo.
-O-O que quis dizer?
-O senhor mentiu sobre seu irmão, por exemplo. – ela disse, reflexiva. – Escondeu de mim que... Usava drogas. E ainda assim, eu não lhe julguei por isso. Não o chamei de mentiroso, muito embora o senhor seja.
Holmes bufou, irritado. Esther pegou o colar, que estava no chão, e o levou em sua mão.
-De fato, Miss Katz. Uso cocaína para fins recreativos, eu tenho um irmão que não concorda com minhas práticas e meu modo de vida... E o que eu posso dizer de você, além de que você detesta gatos e que tem alergia a metazinol? Será que David era mesmo o seu irmão? Você realmente é francesa, ou seria russa? Porque o seu sotaque realmente me diz que você esteve em muitos países. O seu francês é tão impecável quanto o meu, o seu inglês é excelente e o russo eu não tenho condições técnicas para avaliar, mas acredito ser tão bom quanto o restante, o que me diz que a senhorita tem extrema facilidade em se adaptar a ambientes. Foi o seu pai quem ensinou isso a você? Ou terá sido o seu tio paleontólogo Isaac?
Esther arregalou os olhos, surpresa. Antes que ela fizesse mais uma pergunta, Holmes completou.
-Uma vez, em Montpellier, Julies encontrou um gato na estalagem. Todas as moças se alvoroçaram ao redor do gato, menos você, que parecia nada amistosa com a presença do bichano ali. Você tem alergia a metazinol porque certa vez, em Montpellier, quando você amanheceu com ressaca e estava com dor de cabeça e Lucy, a dona da estalagem, lhe ofereceu metazinol. Você rejeitou um medicamente simples, mesmo com dores de uma ressaca, o que implica que você não pode toma-lo. E eu sei que você tem um tio com esse nome porque eu percebi que você sabia algumas coisas do campo da Paleontologia, que não são nada comuns. Certamente alguém bem próximo lhe passou isso, alguém da sua família e que pertence a área. Citei Isaac porque é um nome judaico comum, e o fato dele ser seu tio foi apenas um palpite, do qual vejo que acertei.
-Mr. Sigerson... O senhor é o sujeito mais irritante que eu já conheci.
-Obrigado pelas palavras gentis, Miss Katz.
-O senhor parece se divertir em ler a pessoas, dizer o que elas fazem da vida, o que desejam, o que são... Isso beira ao desagradável.
Holmes ergueu uma de suas sobrancelhas, surpreso pela sinceridade, e esperou a moça continuar.
-E ainda assim... Não consigo te detestar.
Holmes precisou admitir o mesmo. – O mesmo devo dizer de ti.
-Eu estou surpresa de ter sobrevivido tanto tempo a sua companhia.
-E eu também, da sua. – confessou Holmes. – Sobreviver por quase dois meses, vivendo sob o mesmo teto que uma mulher não é uma tarefa simples. Sobreviver a seus humores, egoísmos, vaidades...
-Ainda assim, sobreviveu.
-Sim. – concordou Holmes. – E devo admitir que foi uma experiência... Construtiva.
Houve ali nada mais além de silêncio, e os ecos das lembranças de Holmes. Cada momento simples daquela breve convivência, que ele mesmo chegara a admitir que só se assemelhava a seu único amigo, John Watson. Mas Esther era diferente, em todos os sentidos. Ela era inteligente, divertida, bem diferente de todas as mulheres que ele conhecera. Talvez pela sua educação quase mundana e andarilha, ou pelas mazelas de uma vida que ele não sabia dos detalhes. Ele não sabia, exatamente, o que fazia Esther ser assim, alguém que, assim como o aventureiro John Sigerson — e não Sherlock Holmes -, vivia um dia de cada vez com pouco a esperar do futuro. Apenas os que pouco têm a esperar da vida seguem por caminhos tão cinzentos.
Mas agora, ela iria embora para sempre. Ele sabia que o dia em voltaria a ser quem era estava cada vez mais próximo. Quando esse dia chegasse, John Sigerson estaria morto, definitivamente morto, morto, e levaria em seu túmulo todas as lembranças daquela vida que Holmes pôde se dar a liberdade de viver. Uma vida que nem mesmo o jovem universitário de Cambridge, amante da Química e da Criminologia, jamais imaginara em seus mais loucos e rebeldes sonhos. Algo impensável, então, ao Grande Mr. Sherlock Holmes.
-Boa noite, senhorita. — ele disse, por final, com um sorriso. Aquele não era um sorriso simples de boa noite, mas um sorriso de gratidão. Gratidão por ter tido a chance de experimentar uma vida da qual ele jamais fora projetado.
Ele foi recompensando com um sorriso de Esther, e uma constatação: não importasse seus erros, ele não conseguia sentir raiva dela, como certamente sentiria de qualquer outra pessoa.
Já deitado, ele puxou as cobertas contra o peito,esperando por outro sonhos que não tivessem aqueles abismos esverdeados que ele andava se deparando nos últimos tempos.
Notas finais
Exatamente. Está prestes a acontecer o que todos nós esperávamos... Preparem lenços!
Lenços e reviews, pessoal! Por favor, comentem! Quero saber o que estão pensando da história!
Obrigada pela audiência
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