Shalom - As Memórias de John Sigerson
18 Capítulo 18: Os Katz
Notas iniciais
Em apenas duas horas, Mycroft já estava de volta. A estadia de seu irmão Sherlock e Esther não foi um fator que apressou seu retorno ao quarto. Tímido, Mycroft detestava aquelas reuniões sociais de seus colegas de trabalho. Inclusive, achava toda aquela baboseira de banquete uma terrível desculpa para franceses e ingleses se reunirem para fumar e contarem vantagem uns para os outros, algo que Mycroft sempre detestou. Mas aquele era apenas um dos ônus de seu trabalho no Governo: eventualmente, participar desse tipo de reuniões, embora o mais velho dos Holmes sempre mostrasse uma inclinação contra qualquer festividade e já fosse conhecido em seu meio pela maneira antissocial que costumava ser.
Apenas agora Holmes deu-se conta de que estava de camisas de manga, e com o colete desabotoado. Jamais se imaginara andar pelas ruas de Paris nestes trajes. Ele já tinha dispensado a casaca de garçom, que estava apertada e curta nas mangas, e estava disposto no sofá, enquanto Esther estava sentada sobre uma poltrona, que por sinal era parecida com a que ele tinha em Baker Street. Esther parecia não ser acostumada a tanto luxo, embora também não tivesse a falta de educação dos camponeses ou dos operários. Talvez porque ela pertencia a uma família de comerciantes, dona de pouquíssimas posses, mas ainda com alguma dignidade. Ou ela era até mais simples do que ele poderia supor. Os judeus eram conhecidos por ser um povo próspero, com vocação para o comércio. Muitos banqueiros mundo afora eram judeus. Holmes achava uma estupidez a hostilidade que países como a Rússia ainda fazia aos praticantes dessa religião, de modo escancarado ou velado.
-Mycroft! – exclamou Holmes, ao ver seu irmão voltar, visivelmente irritado.
-Vejo que se comportaram, então. Ah, se soubesse o tédio que foi esse jantar! Tudo poderia ser perfeitamente resolvido se apenas um quarto de todos aqueles homens estivessem trancados em um escritório, sem qualquer banquete. Em três horas, faríamos o que é feito aqui em três dias, se não fossem por essas festividades desnecessárias. – ele bufou, por fim.
-Não reclame, Mycroft. Eu sei que você aprecia a comida parisiense.
-Posso ser um admirador da culinária francesa, mas posso perfeitamente ir a bons restaurantes em Londres, como o Le Grand. Não é necessário pegar um trem para desfrutar das maravilhas da cozinha francesa como os bons restaurantes que temos em Londres, meu caro Sh... Sigerson.
Esther achou estranho. Não era a primeira vez que Mycroft chamava seu irmão pelo sobrenome. Que tipo de familiar chamava alguém pelo sobrenome o tempo todo?
-Aliás, vocês devem estar com fome. Eu sei que você pode não estar, mas você não deve submeter a moça à sua vida desregrada, ainda mais em matéria de comida. Vou pedir um jantar reforçado, para os dois. – ressaltou Mycroft.
Rapidamente, o jantar foi servido para Holmes e Esther. Aquela deve ter sido a melhor refeição de Esther em anos. Embora tivesse acabado de jantar, Mycroft também pediu mais uma refeição para si, provando seu lado comilão. Até mesmo Holmes não resistiu à boa comida e terminou completamente sua refeição, deixando Mycroft maravilhado.
-Puxa, acho que você tinha doze anos na última vez que te vi comendo tudo que havia no prato. Nossa mãe ficaria satisfeita.
Depois de terminarem o jantar, os irmãos Holmes começaram a conversar. Holmes contou-lhe tudo que acontecera na estalagem em que estavam hospedados, e precisou explicar também as circunstâncias em que conheceu Esther. Ela, por sua vez, contou os motivos que a levavam a Paris e um pouco de sua história.
-Mycroft, você saberia me dizer se o Conde Ivanov está em Paris?
Mycroft, que estava fumando, deu uma vagarosa baforada.
-Conde Ivanov, o “Bravo Urso”, de Moscou?
-Exato.
-O que você quer com este homem, Sh... Sigerson?
Outra vez, chamando-o de Sigerson. Que estranho...
-Desconfio que ele esteja por trás das tentativas contra mim e contra Esther. O pai dela entregou sua mão à este homem, para pagar uma dívida, e ele agora pensa que tem direitos sobre ela.
Mycroft parecia preocupado.
-De fato, eu soube que este Conde Ivanov está nas redondezas, mas não propriamente em Paris. Um homem como ele não consegue passar despercebido por onde passa. Você sabe que ele é um militar de alta patente e que goza de prestígio com o Czar. Conhecemos Ivanov por sua crueldade contra aqueles que fazem oposição ao Império Russo. Ele é um dos maiores perseguidores dos judeus também. – ele disse, virando-se para Esther. – Dizem, e isso é um boato quase verídico, que ele possui uma fazenda onde fazem judeus de escravos. Os homens trabalham na lavoura, as crianças fazem trabalho pesado, e as mulheres... Bem, você deve imaginar ao quê elas são submetidas.
Esther, que estava em silêncio, começou a falar.
-Eu estive apenas uma vez com esse homem. Eu tinha dez anos, e lembro que estava voltando da escola com meu irmão. Os gritos de uma discussão ecoavam sobre a casa. Meu irmão, que sempre foi curioso, acabou indo procurar de onde vinham esses gritos, e eu o acompanhei, pois éramos muito agarrados. Acabamos encontrando Papai discutindo com outro homem, no escritório dele. Era um homem de aparência horrível, que habitou nos meus piores pesadelos por muito tempo, tamanho era o impacto que ele exerceu em mim. Parecia um gigante, com quase dois metros de altura, embora hoje em dia eu pense que sua postura favorecia essa impressão. Ele tinha uma barba espessa, bastante comum nos homens russos, mas os olhos... Estes eram frios, como gelo. Ele tinha olhos azuis que irradiavam ira, maldade. Eu me lembrei das duas vezes que ele deu socos na mesa, que por um momento pensei que iria quebra-la. Papai, que era um homem forte, mas não tão rude, tentava expulsá-lo. Eu era muito jovem para entender o porquê daquela conversa, mas alguns anos depois, meu irmão me explicou: o Conde Ivanov queria me levar desde ali.
-Mas você era só uma criança! – indignou-se Holmes.
-Meu caro, há crianças com menor idade que essa que são desposadas, não só na Rússia, mas também em outros lugares. – disse Mycroft. – Continue, Miss Katz.
-Então, minha mãe começou a falar em ir embora para a Inglaterra... Ela tinha um tio que morava em Liverpool. Meu pai demorou anos para aceitar, até que cedeu. Mas apenas eu, meu irmão e minha mãe fomos. Meu pai continuou por lá. Minha mãe alegou que meu pai precisava cuidar de seus negócios, mas hoje eu não acredito muito nisso.
Mycroft ficou sério.
-O seu pai chama-se Abraham Katz?
-Sim, exatamente. – ela concordou com surpresa. – Porquê?
-Abraham Katz... – pausou Mycroft. – era um espião nosso, da Inglaterra.
Notas finais
O que Holmes vai achar disso? Será que Esther é exatamente o que ela conta? Já percebemos que ela mentiu para Holmes sobre sua família, mas por quê? E Mycroft? Será que sua opinião sobre Esther irá mudar depois de descobrir a verdade sobre sua família?
Aguardem os próximos capítulos. E deixem reviews, por favor!
BadWolf
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