Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up

6 There's No Christmas Without A Light


Notas iniciais
Oi de novo! Como prometido, eis aqui o sexto capítulo. Antes de vocês começarem a leitura, peço que se preparem psicologicamente para ele. Sei que a fic toda é pesada, mas esse capítulo é um pouco mais que os anteriores, então, se abuso sexual for uma espécie de gatilho para você, por favor não leia. Se for um assunto com o qual você não consegue lidar muito bem, por favor, não leia. Ou se você apenas se sentir desconfortável com esse tipo de leitura, por favor, não leia. Esse é um tema sensível e não quero que nenhum de vocês se sinta mal durante a leitura, ok? Aviso dado, vamos lá. Nos vemos nas notas finais.

Era oficial. Joseph agora tinha um irmão e, naquele momento, parecia que tanto Aaron quanto o bebê o odiavam, mas não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso, principalmente no caso do bebê.

Christopher — como Brianna e Erick o haviam batizado — era a criaturinha mais chorona e mimada que Joseph já havia conhecido. Durante o dia, ficava passeando entre o colo de Brianna e o da babá, pois armava um verdadeiro escândalo se fosse colocado no carrinho ou berço. Já durante a noite, Brianna precisava se levantar três ou quatro vezes para amamenta-lo e o fato do quartinho do filhote-de-cruz-credo ficar ao lado do seu, fazia Joseph passar tantas noites em claro quanto os próprios pais do menino, talvez até mais.

Quanto a Aaron, ele estava bravo com Joseph já fazia semanas pelo fato do mais velho ter fugido de sua responsabilidade de ensiná-lo a desenhar e de ter se recusado a brincar com ele por um tempo. O garoto estava tão chateado que até arrancou os desenhos que estavam colados na parede de seu quarto e os largou na porta de Joseph em uma noite com um bilhete muito mal escrito que dizia apenas “não gosto mais de você”. Joseph guardou os desenhos dentro da pasta de novo, para o caso de Aaron mudar de ideia algum dia, mas todas as suas tentativas de se reaproximar do menino depois disso foram frustradas, principalmente quando seu pai começou a impedi-lo de interagir com o próprio irmão e permitiu que apenas Joseph — que nem era tão interessado assim no bebê — brincasse com ele.

Aaron tomou aquilo como uma traição. Para ele, Joseph estava tentando monopolizar a atenção do irmãozinho apenas para si e aquilo o deixava enfurecido. Agora, além de não falar mais com ele ou de sequer olhá-lo na cara, Aaron ainda fazia questão de se retirar de todo e qualquer lugar onde Joseph entrava. Não importava se ele estava assistindo a algum programa do qual gostava muito na TV ou brincando no jardim, se Joseph aparecesse, Aaron se mandava e, depois de algum tempo tentando reverter aquela situação, Joseph simplesmente desistiu e deixou tudo como estava.

— Você nem gosta dele — foi o que Aaron resmungou em uma tarde quando Erick simplesmente largou o bebê chorão em uma cadeirinha diante de Joseph e foi atender a um telefonema de trabalho.

Joseph se perguntou por que seu pai não entregava o garoto para a babá nessas ocasiões, já que era para isso que a haviam contratado, mas ficou de olho no pivete mesmo assim. Não é que não gostasse do pestinha, só não fazia ideia de como fazê-lo parar de chorar e seus gritos agudos e ininterruptos o deixavam com dor de cabeça.

— Quer ficar de olho nele para mim? — Ofereceu e Aaron ponderou um pouco, mas o medo de Erick lhe dar uma bronca por isso o fez recuar.

— Você sabe que eu não posso.

— Bem, então me ajude a fazê-lo parar de chorar pelo menos.

— Dê a chupeta a ele — Aaron sugeriu.

— Já tentei, ele cospe. O pestinha está decidido a fazer da minha vida um inferno.

— Brinque com ele então.

— Eu não sei brincar com essa coisa.

— Ele não é uma coisa, Joseph. E, sei lá, mostra um desses ursinhos para ele. São coloridos, ele gosta de coisa chamativas.

Joseph pegou um dos ursos de cores fortes e mostrou para o garoto. Christopher apenas chorou mais alto.

— Está vendo? Ele me odeia.

— É porque você tá fazendo errado — Aaron se aproximou e sacudiu o ursinho diante da criança, fazendo uns ruídos engraçados que fizeram o bebê rir no mesmo instante e estender suas mãozinhas gorduchas na direção do brinquedo. — Viu só?

— Eu não levo jeito para isso. Faz você.

Então, Aaron continuou a brincar com Christopher enquanto Joseph se concentrava em terminar seu dever de casa e as coisas estavam muito bem até Erick voltar de seu telefonema e encontrar o enteado ali, brincando com o filho caçula.

— O que está fazendo? — Perguntou mirando Aaron com total desprezo.

— Ele estava chorando — o garoto tentou se explicar. — Joseph não conseguia fazê-lo parar, então, eu...

— Não quero saber. Solte isso e volte para o seu canto.

— Porque não o deixa brincar com o Christopher? — Joseph questionou sem se conter. — Ele gosta do menino e o menino gosta dele também. Alias, o Christopher nunca ri comigo, mas sempre ri com o Aaron.

— Eu pedi a sua opinião, Joseph.

— Não, mas...

— Então, fique calado — Erick estipulou e Joseph não conseguiu disfarçar sua expressão enraivecida, o que fez Erick se voltar para ele com um olhar enfezado. — Você quer me questionar?

Joseph não respondeu, mas isso não impediu que Erick fechasse os cadernos e os livros do garoto, requisitando sua atenção.

— Eu te fiz uma pergunta.

— Eu só não entendo porque... — Joseph começou a falar, mas foi interrompido quando a mão pesada de seu pai o atingiu no rosto. Ele sempre se esquecia de que Erick não esperava realmente uma explicação e, sim, obediência.

— Reflita melhor — Erick ordenou e mesmo querendo fazer um escândalo por causa daquilo, Joseph apenas desviou seu olhar do dele e abaixou a cabeça.

— Não, senhor. Não quero te questionar.

— Então, porque faz tantas perguntas?

Mais uma pegadinha, Joseph percebeu. Seu pai não queria realmente uma resposta. Provavelmente o agrediria de novo caso o fizesse.

— Me desculpe, não vou mais questionar.

— Ótimo — Erick assentiu. — Recolha suas coisas e vá para o quarto. Você já me irritou o suficiente por hoje.

Joseph não questionou dessa vez. Pegou seus livros, cadernos e os lápis que usava e subiu as escadas em silêncio. Apenas na privacidade de seu quarto foi que ele se permitiu extravasar sua raiva, atirando tudo o que segurava no chão. Já estava cansado do pai, daquela casa e daquela maldita família que só ficava pior.

— Você deveria ter ficado quieto — Aaron disse, parando na porta de seu quarto. — Sabe que ele não escuta ninguém além dele mesmo.

— Vou me lembrar na próxima.

— E eu não preciso que você me defenda.

— Eu não estava te defendendo.

— Então, o que foi aquilo? Estava tentando chamar atenção ou você gosta de levar uma surra de vez em quando?

Joseph se enfureceu. Caminhando até a porta do quarto, simplesmente agarrou Aaron pela camiseta e o jogou no corredor.

— Porque não vai cuidar da sua própria vida?

— Eu sempre cuido.

— Ótimo, então, continue fazendo isso.

— Porque você é assim?

— Assim como?

— Assim! — Aaron apontou para ele como se isso explicasse alguma coisa.

— Vai precisar fazer melhor que isso, pois eu não entendi.

— Estou falando sobre você sempre me mandar embora, Joseph. Achei que era meu amigo, mas você só fica me evitando agora. Eu não entendo o porquê.

— Eu não te evito, Aaron, mas sempre que eu tento conversar, você foge.

— Isso é uma mentira. Eu tentei conversar com você varias vezes, te chamei para brincar outras tantas e você sempre inventava uma desculpa para não ir. Além disso, prometeu me ensinar a desenhar e não cumpriu. Você é um mentiroso, Joseph.

— Não sou não.

— É sim. É um mentiroso igualzinho ao seu pai — Aaron o acusou.

Joseph quis gritar. Ser comparado com Erick era pior que qualquer coisa e não importava que ele fosse seu pai e ainda lhe devesse algum respeito por isso.

— Eu não sou igual a ele.

— Você acha mesmo que não? — Foi o que Aaron lhe disse antes de virar-lhe as costas e entrar no próprio quarto, batendo a porta ao passar.

— Que droga! — Joseph também deu meia volta e entrou em seu quarto, batendo a porta com força. Pegou todas as coisas que estavam em cima de sua mesinha de desenho e as atirou pelo cômodo, com raiva.

Porque era tão difícil se entender com Aaron? Fazia pouco mais de dois meses que moravam na mesma casa e, em vez de se tornarem melhores amigos, estavam brigando. Ele sabia que parte da culpa era sua por ter fugido do garoto por semanas, assim como o diabo foge da cruz, mas em sua defesa, ele não se sentia bem para conversar ou brincar depois do que tinha acontecido. Se sentia sujo, estranho. Precisou de um tempo para se recompor, mas quando conseguiu, Aaron já estava muito bravo com ele.

As coisas não melhoraram a partir daí, pois Erick deixou de agredir somente a ele e passou a agredir Aaron também, sempre inventando uma justificativa esfarrapada para Brianna que, ou não queria arrumar uma contenda com o marido ou apenas era burra demais para não perceber as mentiras escorrendo por cada palavra que Erick dizia. Joseph não achava que a mulher era burra, principalmente por já tê-la encontrando chorando baixinho pelos cantos, provavelmente sufocada pela culpa de não defender o próprio filho de um homem como Erick, mas sentindo-se culpada ou não, a mulher não movia um músculo para mudar a situação e aquilo o enfurecia.

— Você é uma covarde — foi o que Joseph disse a ela um dia, ao encontra-la mais uma vez com seu choro bobo pelos cantos.

— O que? — Ela limpou as lágrimas silenciosas que escorriam por seus olhos e olhou para ele assustada.

— Você me ouviu. Sabe que o meu pai não tem motivo para fazer o que faz com o Aaron, mas o deixa fazer mesmo assim. Então, não adianta ficar chorando como uma idiota depois. Você é uma covarde e sabe disso. Todos nós sabemos.

Brianna abriu a boca, mas não disse nada e Joseph também não esperou por uma resposta da mulher. Não havia justificativa para aquilo e ele sabia muito bem, pois havia passado pelas mesmas coisas nas mãos do ex-namorado de sua mãe e, assim como Brianna, Celine não o defendeu.

Ele esperava que a madrasta fosse tomar alguma atitude depois disso, pois ter seus erros atirados na sua cara por um garoto de oito de anos deveria surtir algum efeito, mas para seu desapontamento, Brianna era tão passiva quanto sua mãe um dia fora. Erick a silenciava com um olhar nas poucas vezes em que ela tentava dizer algo e, assim, as coisas seguiram naquela casa, com seu pai tornando a vida de todos um inferno, Aaron se distanciando dele cada vez mais e seu tio ficando cada vez mais ousado em seus abusos.

Havia dias em que Joseph simplesmente achava que não iria mais suportar viver daquele jeito, mas sempre havia o dia seguinte e os próximos para lhe provarem que ele podia, sim, suportar toda aquela merda um pouco mais.

No meio de tudo aquilo, a única coisa que parecia crescer com alguma luz era Christopher, afinal ele era um bebê e não se importava que seu lar estivesse desmoronando desde que alguém brincasse com ele ou lhe cantasse cantigas de ninar quando estivesse com sono. Ele tinha sorte, era o que Joseph pensava. Se pudesse apenas ignorar tudo de ruim em sua vida e viver em uma bolha cor de rosa como Christopher vivia, tudo seria bem mais fácil.

Qué bincá — disse a pequena criatura, que recentemente completara dois anos, jogando para ele algumas peças de um brinquedo sem graça de montar.

— Agora não. Pede pro Aaron.

Bincá! — Christopher insistiu, atirando o brinquedo novamente para ele.

Joseph resmungou alto. Desde que começara a andar e a falar, Christopher estava ainda mais difícil de conviver.

— Eu não vou brincar com você agora, Chris, eu tô ocupado — explicou, mas o menino começou a choramingar manhoso. — Puta que o pariu, você não me dá um minuto de descanso? Porque não brinca sozinho?

Sozinho não qué — choramingou outra vez.

— Pois eu não vou brincar — Joseph estipulou e voltou sua atenção para seu trabalho escolar, mas foi surpreendido quando Christopher atirou uma das peças do brinquedo diretamente em sua testa. — Demoniozinho encrenqueiro — reclamou e a atirou de volta para o garotinho que fez um escândalo digno do Oscar.

— O que fez com ele? — Aaron questionou entrando na cozinha onde os dois estavam e olhando para Joseph de cara feia.

— Eu não fiz nada com essa peste. Ele só é mimado e a culpa é toda sua.

— Minha por quê?

— Porque você faz tudo o que ele quer, aí ele acha que todo mundo tem que fazer também.

— Ele só tem dois anos, Joseph. Você não vai morrer se brincar com ele por quinze minutos.

— Será que ninguém percebe que eu estou ocupado? — Joseph reclamou.

Aaron revirou os olhos.

— Grande porcaria. Você vai ser reprovado de qualquer maneira — então, se voltou para Christopher, aproveitando que Erick não estava em casa e pegou o irmãozinho no colo. — Quer brincar lá fora?

Qué — a criança respondeu animada e Joseph sentiu vontade de xingar.

Era bem verdade que ele não era o melhor aluno do mundo, mas era um saco que todos sempre fizessem questão de lembra-lo disso. O único momento em que não se sentia como um perdedor completo era quando estava com Nathan, seu atual melhor amigo de escola, talvez porque o garoto fosse tão mau aluno quanto ele próprio.

— Nem quero ver a bronca que vou levar dos meus pais esse bimestre — Nathan comentou certa vez enquanto ele e Joseph tomavam um refrigerante à beira da piscina. — Acho que vou bombar em tudo, exceto Educação Física.

— Tem certeza? Porque você matou umas cinco aulas esse bimestre — Joseph riu.

— E você estava comigo em todas elas, não tem nenhum motivo para estar rindo assim.

— Pelo menos eu vou passar em Artes, sabe?

— Seu metido de merda — Nathan o socou no ombro, fazendo-o rir ainda mais. — Fica aí se achando só porque sabe desenhar.

— É um dom, não tenho culpa.

— Por falar nisso, a Eve se amarrou naquele desenho que você fez para mim.

— Qual?

— Aquele dragão vermelho que eu colei no meu caderno. Ela ficou doida para saber quem tinha feito e ficou mais animada ainda quando descobriu que era você.

— Porque?

— Ah, fala sério, Joe. Você não tem espelho em casa?

Joseph não entendeu. Era óbvio que havia espelhos em sua casa, mas o que aquilo tinha a ver com seus desenhos?

Nathan pareceu notar sua confusão e riu.

— Cara, você é muito lerdo mesmo. Não é possível que não percebeu que metade das meninas da nossa sala é a fim de você.

— Isso não faz sentido nenhum — Joseph negou com um aceno. — Porque elas gostariam de mim? Eu sou mais novo que todos vocês.

— E desde quando isso importa? — Nathan olhou bem para ele. — Você pode ser o mais novo da sala, mas também é o mais bonito. Além disso, você é praticamente do meu tamanho e eu sou dois anos mais velho que você, Joseph. Não é como se a sua idade importasse tanto assim.

Joseph pensou sobre isso.

Ele tinha sido colocado em uma turma com vários repetentes naquele ano, provavelmente por não acompanhar direito o conteúdo na turma regular. Por isso, enquanto boa parte de seus colegas de sala já tinha entre doze e treze anos, ele ainda tinha dez — embora fosse completar onze em pouco mais de três meses. Era bem verdade que, parado ao lado dos coleguinhas, ninguém poderia dizer que ele era mais novo que os outros, já que sempre foi alto para sua idade, mas ainda assim...

— Bobagem — ele riu, um tanto sem graça.

— Você sabe que não é — Nathan terminou seu refrigerante e se alongou um pouco. — Ninguém resiste a essa sua carinha aí — então, o garoto pulou na piscina e, depois, jogou um tanto de água em Joseph que ainda estava sentado na borda. — Você vem ou não, princesa?

Joseph revirou os olhos, mas terminou seu refrigerante e também pulou na piscina.

Ele passou a prestar mais atenção nas garotas de sua sala depois disso e, para a sua surpresa, descobriu que Nathan tinha razão: elas realmente gostavam dele apesar de ele ser mais novo que todos ali.

Joseph não sabia como reagir a isso. Era divertido saber que as garotas gostavam dele, mas também era... estranho. Ele nunca havia sido muito extrovertido socialmente. Durante o primário costumava estar sempre sozinho por não ser muito bom em fazer amigos, então, ter toda aquela atenção voltada para si o deixava um tanto sem jeito, mas ele tentava não surtar e responder àquilo da melhor forma que podia.

Como resultado, ele acabou se aproximando muito de Eve. A garota era legal e divertida e eles tinham muitas coisas em comum, além dela amar seus desenhos e sempre elogiá-lo por isso. Joseph se sentia bem perto dela e gostava do tempo que passavam juntos, conversando sobre assuntos aleatórios ou de quando ela, simplesmente, se sentava ao seu lado em silêncio e ficava observando-o desenhar.

Sua relação com ela não era como um namoro nem nada assim — pelo menos não do seu ponto de vista —, mas a garota era uma boa companhia e, por vezes, ele a acompanhava até em casa após sair da escola ou se encontrava com ela no parque ali perto para tomarem um sorvete. Às vezes, ela ia até sua casa visita-lo e eles passavam um bom tempo falando sobre HQ’s, super heróis e games, mas isso era menos frequente.

Naquele dia em especial, Joseph não esperava por uma visita dela, pois era véspera de Natal e muitos dos seus amigos tinham viajado para passar o feriado com outras pessoas da família. Além disso, tinha nevado muito na noite anterior, o que tornava difícil caminhar pelas ruas, então, ele ficou realmente surpreso quando Brianna o chamou e disse que Eve estava a sua espera no portão. Ele tinha quase certeza de que a garota havia dito que ela e os pais passariam o feriado na casa de seus avós na cidade vizinha.

— Eve, o que faz aqui? Achei que ia para a casa dos seus avós — ele questionou realmente curioso ao ver a garota praticamente tiritando de frio na calçada apesar de todas as camadas de roupas que usava.

Eve era uma garota realmente bonita. Sua pele morena, os cabelos encaracolados e os olhos castanhos contrastavam com a beleza branca padrão das garotas de sua escola e ele a achava realmente admirável por saber o quanto era linda e não deixar que o preconceito de alguns a fizesse sentir qualquer coisa além de orgulho por sua cor.

— Eu vou viajar daqui a pouco, mas vim te trazer uma coisa — ela abriu o casaco e tirou de lá um embrulho colorido, caprichosamente ornamentado, que estendeu em sua direção.

Joseph não reagiu a principio. Estava acostumado a receber presentes de Natal, mas não de pessoas fora de sua família e, certamente, não de garotas. Principalmente não de uma que ele considerava tão legal como Eve.

— É para mim?

— Claro que é! Porque eu sairia de casa num clima de merda desses para vir até aqui e te entregar o presente de outra pessoa? — Eve riu. — Abra. Eu espero que você goste, pois eu não sabia o que comprar e apelei para algo bem clichê.

Joseph pegou o presente e rasgou o embrulho dando de cara com um globo de neve que retratava os principais pontos turísticos de Londres, como o Westminster, a Big Eye e o Big Bang. Era o tipo de coisa que nenhum residente britânico daria a outro, já que todas aquelas paisagens eram mais que cotidianas em suas vidas, mas era exatamente esse o encanto daquele objeto. Era algo simples, divertido e que certamente ele não receberia de mais ninguém que conhecia.

— Gostou? — Eve perguntou, ansiosa.

Joseph sorriu.

— Adorei — respondeu com sinceridade. — Mas eu não tenho nada para te dar em troca. Me desculpe, Eve.

— Tudo bem. Eu não estava esperando nada em troca. No entanto... — Eve simplesmente se adiantou e depositou um selinho casto e muito rápido em seus lábios que mesmo assim o fez corar como um idiota. — Feliz Natal, Joe. A gente se vê na escola semana que vem.

Então a garota deu meia volta e ele ficou ali parado, com o globo de neve nas mãos, apenas observando-a se afastar, sem saber exatamente o que estava sentindo.

— Namoradinha? — A voz de sua tia Greta o tirou de seu transe e Joseph se virou para ela, dando de cara também com seu tio Andrew a quem infelizmente teria que suportar naquele Natal já que seu pai os convidara para a ceia.

Para quem via de fora, aquilo parecia apenas um jantar em família para comemorar o feriado santo, mas Joseph sabia bem que aquilo na verdade era mais um jantar de negócios entre seu pai e seu tio, para comemorar o fato de que Andrew havia conseguido o cargo de Reitor da Universidade de Oxford, uma das maiores universidades do país e do mundo, e o fato de que Erick havia contribuído para isso não apenas financeiramente, mas também utilizando de sua influência enquanto dono de uma das mais renomadas empresas automobilísticas do Reino Unido.

No fim, ambos conseguiram o que queriam: seu tio, um cargo e seu pai, mais prestígio.

— É só uma colega de escola — Joseph corrigiu a tia, tentando não deixar transparecer em seu rosto o quanto o olhar fixo de seu tio sobre si o incomodava.

— Claro que é — sua tia Greta lhe deu uma piscadela cúmplice e, então, se voltou para o marido. — Ele tem uma linda colega de escola, não tem querido?

Seu tio Andrew assentiu.

— Sim, muito bonita realmente — concordou, mas não passou despercebido a Joseph a maneira predatória como ele o encarou.

Joseph só foi entender o real perigo por trás daquele olhar quando o tio o encurralou no banheiro de seu quarto, mais tarde naquela noite, enquanto ele se arrumava para a ceia de Natal.

Ele se arrependeu imediatamente de não ter trancado a porta do quarto quando sentiu as mãos do tio apertarem sua cintura, mas realmente não havia imaginado que Andrew tentaria alguma coisa com ele, enquanto toda a sua família estava na sala de jantar, envolvidos por uma conversa animada.

Estava enganado, era óbvio. Seu tio não tinha limites.

— Então, você arrumou uma namoradinha na escola — Andrew disse segurando-o com mais firmeza. — Estou com ciúmes, Joe.

— Ela não é minha namorada — Joseph se defendeu, na esperança de que isso fizesse seu tio recuar.

— Eu vi vocês dois lá fora, bebê. Não minta para mim. Sei que ela te beijou.

— Não foi desse jeito.

— Espero que não, pois não gosto de pensar em você com outra pessoa — Andrew acariciou seu rosto e Joseph sentiu seu coração acelerar por causa do medo. — Quantos anos você tem agora, Joe?

— Dez.

— Dez? Oh, você parece mais velho — Andrew sorriu para ele. — E sendo tão bonito assim, com esses olhos azuis e esses seus lábios... não é de se estranhar que as meninas da sua escola estejam tão interessadas em você. Eu não as culpo, aliás, sei bem como elas se sentem, mas, veja, não posso deixa-las ter você antes de mim, entende?

— Eu não...

— Shhhhhh — Andrew silenciou sua resposta com o indicador e se concentrou na camisa que Joseph não teve a oportunidade de fechar após ser surpreendido por ele. Seus dedos escorregaram dos lábios o menino para o seu peito e tocaram a pele alva e exposta. Andrew sentiu seu membro fisgar dentro da calça, denunciando uma ereção e suspirou. — Eu queria esperar um pouco mais, Joseph, mas você parece tão gostoso essa noite...

Então, sem dar muita chance de defesa para o garoto, Andrew o virou de costas e o imprensou contra a pia de mármore branco do banheiro. Um ruído de desconforto escapou pelos lábios de Joseph ao ter seu corpo inclinado para frente, mas foi abafado quando seu rosto foi pressionado com força contra a superfície lisa e fria do objeto.

Ele sentiu o pavor percorrer o seu corpo como fogo se alastrando pela grama seca ao ter suas calças puxadas para baixo, assim como sua roupa íntima e se debateu, em desespero, quando percebeu que seu tio estava fazendo o mesmo com suas próprias roupas.

— Tudo bem, bebê. Eu não vou te machucar, ok? Fica quietinho. Você vai gostar. Vai ser bom — seu tio disse, metendo-se entre suas pernas e pressionando seu rosto contra pia de novo, deixando seus pés totalmente sem apoio.

Joseph sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. Queria chamar por alguém, mas com a mão de seu tio pressionando seu rosto daquele jeito e com sua família inteira no andar de baixo, embalados por música clássica e conversas animadas, seria difícil o escutarem. Desesperado, ele ainda tentou escapar daquela posição mais algumas vezes, mas suas pernas fraquejaram quando sentiu o membro rígido de Andrew se forçar para dentro de seu corpo sem qualquer preparo.

Doeu.

Doeu como nada havia doído antes em toda a sua vida, nem mesmo as surras de Erick ou as agressões embriagadas de sua mãe e ele sequer percebeu que um grito havia escapado por seus lábios até que sentiu a boca de Andrew cobrir a sua, abafando o som.

Era como se o estivessem rasgando inteiro, queimando-o de dentro para fora e isso só piorou quando seu tio investiu mais uma vez contra seu corpo fazendo seu quadril se chocar contra a pia de mármore com um baque seco.

As lágrimas rolaram sem pudor por seus olhos e quando seus dentes abocanharam os lábios do tio em uma mordida forte foi mais por instinto de sobrevivência que por ele estar realmente consciente do que fazia.

— Tão selvagem, bebê — foi tudo que seu tio disse a respeito de sua aberta tentativa de feri-lo e não pareceu que aquilo o havia afetado de todo, pois ele continuou investindo contra si, penetrando-o com mais força e mais rápido que antes, fazer Joseph desejar morrer para que aquilo acabasse logo.

Era horrível!

Provavelmente a pior e a mais dolorosa experiência que ele já tivera na vida e talvez, por isso, em algum momento daquele abuso, seu cérebro tenha se desligado, permitindo que ele passasse por tudo aquilo apenas parcialmente consciente.

Ele ainda podia sentir as mãos de seu tio o segurando com firmeza, os ossos de seu quadril se chocando contra o mármore duro da pia a cada vai e vem de seu corpo e o fato de que seu rosto resvalava contra a superfície fria do objeto enquanto isso, mas a dor aguda do ato em si parecia ter sido bloqueada por sua mente entorpecida, se tornando apenas um murmúrio sôfrego do que era no início.

Joseph tinha certeza de que apagara algumas vezes enquanto seu tio se arremetia contra si sem se importar com o fato de que ele mais parecia um objeto inanimado em suas mãos por já não estar realmente consciente àquela altura, então, não foi nenhuma surpresa que após Andrew finalmente se aliviar e sair de dentro dele, seu corpo tenha apenas deslizado até o chão, sem forças para se sustentar por si só.

Ele podia sentir o cheiro férreo do sangue que escorria por suas pernas junto com o sêmen pegajoso do tio. Sabia que estava machucado e dolorido, queria se vestir novamente, mas não conseguia reagir. Seu corpo simplesmente não o obedecia.

— Joseph? — A voz de seu tio ecoou distante, mesmo ele estando a poucos centímetros de distância. — Joseph? Merda!

Andrew pegou uma das toalhas do banheiro e, após molhá-la na torneira da pia, tratou de limpar o sobrinho da melhor maneira que pode e recolocar sua roupa intima. Joseph não ofereceu resistência, seu corpo estava fraco e pesado e, quando o tio o pegou no colo e o carregou para fora do banheiro, ele sentiu seus membros penderem para todos os lados como se ele fosse um brinquedo.

Joseph também não resistiu quando foi colocado de volta em sua cama, nem mesmo se manisfetou quando Brianna apareceu para chama-lo para o jantar e seu tio inventou uma mentira sobre ele estar com alguma infecção estomacal e não poder participar da ceia daquela noite. Por dentro, tudo que Joseph queria era gritar para o mundo que seu tio Andrew era um pervertido mentiroso e nojento, mas, por fora, ele apenas não tinha forças para nada, nem mesmo para abrir os olhos e, muito menos, para verbalizar qualquer frase. Então, quando a porta de seu quarto se fechou, levando Brianna e seu tio para longe dali, Joseph apenas se deixou cair em um sono de completa exaustão que nem mesmo seu corpo dolorido e tão maltratado conseguiu evitar.

Ele acordou horas depois, com uma mão gelada tocando sua testa e gemeu em desgosto, ainda mole demais para sequer virar a cabeça e se afastar do toque.

— Eu disse que ele estava ardendo em febre — a voz preocupada de Brianna se fez ouvir, mas Joseph não sabia se ela estava perto ou longe. Provavelmente perto. — É melhor leva-lo ao hospital, Erick. Isso pode ser grave.

— É apenas uma infecção estomacal, Brianna. É normal ter febre. Vamos dar um antitérmico a ele e aguardar. Se ele não estiver melhor amanhã e eu o levo ao médico.

— Tudo bem — Brianna concordou e Erick saiu do quarto para buscar o remédio.

— O que ele tem? — Dessa vez foi a voz de Aaron que ecoou pelo lugar.

— Ele está doente, amor. Vem, vamos deixa-lo descansar um pouco. Já está tarde e você deveria estar dormindo.

— Eu não estou com sono agora, mãe.

— Sem discussão, Aaron. São quase três da manhã, vá já para a cama — a mulher estipulou e o garoto saiu batendo os pés.

Joseph acabou adormecendo de novo.

Mais tarde, ele acordou com a sensação de estar se afogando. Tentou fugir da água que caía incessante sobre sua cabeça, mas foi mantido no lugar por uma mão pesada contra a qual seu corpo instintivamente começou a lutar.

— Não. Por favor. Não — Joseph balbuciou em sua frágil tentativa de se livrar daquele toque firme.

— Fique quieto, Joseph. Você está queimando. Precisamos baixar essa sua febre se você não quiser perder o feriado inteiro em uma sala de hospital — seu pai retrucou e pela primeira vez na vida Joseph sentiu alívio ao ouvir a voz dele.

— Não deixa ele me tocar de novo, pai, Por favor, não deixa — Joseph choramingou.

— Do que está falando, Joseph? Não deixar quem tocar em você?

— Tio Andrew.

— Seu tio? Porque? — Erick perguntou, mas descobriu a resposta sozinho ao despir o filho e ver todas as marcas do abuso que ele sofreu estampadas em sua pele. — Aquele filho de uma puta!

Erick deixou Joseph sentado dentro do box e telefonou para o irmão, fechando a porta do banheiro para que ninguém os ouvisse.

— Você tem noção do que fez, seu desgraçado? — Joseph o ouviu murmurar ao telefone. — Não se faça de idiota, Andrew. Você sabe que estou falando do Joseph. Eu vi as marcas e ele me disse que foi você. É claro que acreditei! Porque ele inventaria uma merda dessas? Eu não sou estúpido, Andrew! E como é que poderia te denunciar, hein?! Eu acabei de te eleger reitor dessa merda de universidade. Vinculei a minha imagem e o nome da minha empresa a você, uma acusação de abuso sexual de menor agora atiraria o meu nome na lama! Você é um filho de uma puta e se ele abrir a boca para mais alguém, você vai para a cadeia e os sócios da White Run vão colocar a minha cabeça a prêmio na diretoria. Vai se foder, Andrew. A gente conversa sobre isso depois! — Erick encerrou a chamada e voltou para dentro do box.

Joseph continuava no mesmo lugar onde ele o havia deixado.

— Vamos cuidar disso, ok? — Foi o que ele disse ao filho, alcançando o xampu para lavar seus cabelos. — Não pode falar sobre isso com ninguém, entendeu? Ninguém.

— Porque?

— É complicado, Joseph. Você vai entender quando crescer e herdar os negócios da família. Algumas coisas precisam ser feitas. Então, me prometa que não vai contar a ninguém o que aconteceu aqui ontem.

— Ele ainda vai me machucar, não é? — Joseph voltou a chorar e seu pai segurou seu rosto.

— Não. Não vai. Eu vou resolver tudo, mas precisa manter segredo. Você me entendeu? — Joseph não respondeu, então, Erick segurou seu rosto com um pouco mais de firmeza. — Me diz que entendeu, Joseph.

— Entendi — o garoto respondeu com um fio de voz.

— Ok. Vamos cuidar dessa febre agora. Você vai ficar bem — assegurou, mas Joseph não acreditou em uma só palavra.

“Bem” era a única coisa que ele não se sentia.

Notas finais
Então, chegamos até aqui e quem está com ódio do Andrew, do Erick e de metade dos personagens dessa fic, levante a mão o/ É, galera, não é fácil e não melhora daqui para frente não, viu? Sinto por informar. Bem, esse foi o último capítulo sobre a infância do Joseph, os próximos se passarão já na adolescência dele, então, podemos dizer que encerramos o primeiro arco dessa estória. Gostaria de saber de vocês o que estão achando da fic até aqui e, se possível, se ela mudou algum pensamento de vocês sobre o Joseph em relação ao que pensavam enquanto liam a Wake Me Up. Vamos lá, dissertem, eu adoro um debate kkk Vejo vocês em breve com um novo capítulo. Beijocas.