Notas iniciais
Olá pessoas, Demorei? Sim ou claro? rsrs Me desculpem por não ter atualizado por um tempo, eu simplesmente me distraí assistindo série. Aliás, vocês conhecem The Untamed? É um Boys Love (romance entre garotos) e eu sou definitivamente viciada nessa série, tanto que assisti ela completa pela 3ª vez em menos de cinco meses ~e olha que são 50 episódios de quase uma hora cada~... Daí você já vê o nivel vício do ser humano, né? Caso não conheçam, eu super indico, viu? É uma série maravilhosa e tem um livro, mangá e um anime dela também. Caso se interessem, tá disponível na Netflix e no YouTube. Sim, eu fiz propaganda mesmo kkk mas é que The Untamed é meu xodózinho e eu quero compartilhar isso com vocês ♥ Enfim, vamos ao capítulo, pois vocês já esperaram demais, né? Boa leitura. ps: esse capítulo tem uma música, caso queiram ouvir durante a leitura, não se esqueçam de clicar no hiperlink do texto.

Nos dias que se seguiram àquela noite terrível, Joseph se tornou ainda mais fechado que de costume. Era raro ver o garoto fora de seu quarto e, quando ele saía, mantinha-se quieto e afastado de todos, praticamente entrava em pânico se alguém chegasse muito perto. Brianna notou a mudança de comportamento, todos notaram, mas Erick continuava dizendo que o filho estava bem, então, ela não insistiu no assunto. Não era mãe do garoto afinal, tão pouco gostava de contrariar o marido, por isso, não fez nada enquanto assistia ao enteado se isolar cada vez.

— O que ele tem? — Aaron a questionou um dia. Ele brincava com Christopher enquanto Brianna lia uma revista e ela nem precisou perguntar a quem ele se referia, pois era óbvio que o filho estava falando sobre Joseph que, como de costume, estava sentado em um canto mais afastado do jardim, sozinho.

— Não sei, amor.

— Ele está esquisito assim já faz dias. E também não tem comido direito, você reparou? Ontem, durante o jantar, ele apenas remexeu a comida no prato, mas não comeu nada.

— Talvez ele ainda esteja um pouco doente — Brianna supôs.

— Então, porque o Erick não o leva ao médico? — Aaron quis saber. — O Joseph passou dois dias inteiros com febre, nem saiu da cama, mas o Erick não fez nada além de entupir ele de remédio.

— Eu não sei, Aaron, mas não cabe a mim opinar nesse tipo de coisa. O Erick é pai do Joseph, ele sabe o que faz.

— Será que sabe mesmo?

Brianna suspirou e fechou a revista que lia. Não queria discutir aquilo.

— Chega desse assunto, ok? Vem, vamos entrar. Está começando a esfriar e eu não quero que o seu irmão pegue um resfriado.

Aaron fez como a mãe mandou, mas não ficou satisfeito com a resposta dela. Ele tinha certeza de que havia algo errado com Joseph e tinha certeza de que não era apenas uma infecção estomacal qualquer. Ele próprio já tinha tido infecções assim e, embora tivesse se sentido muito fraco na época, vomitado e até tido febre, ele não tinha ficado esquisito como Joseph estava agora. Além disso, para ele, não fazia sentido algum Erick ter se recusado a levar o próprio filho doente ao hospital. Que tipo de pai fazia isso? Mas não importava o quanto questionasse, ninguém lhe dava ouvidos naquela casa. Ninguém se importava com a opinião de uma criança.

Naquela mesma noite, ele acordou com Joseph gritando. Não era a primeira vez que acontecia, mas o garoto geralmente despertava rápido, por isso, ele nunca se preocupava muito com aquilo. Daquela vez, porém, parecia que Joseph não acordaria de seus pesadelos tão rápido assim, então, para evitar que ele acabasse acordando Christopher — que dormia tranquilamente no quarto ao lado — Aaron se levantou e foi até o quarto dele.

— Joseph — Aaron se aproximou de sua cama e o sacudiu levemente. O garoto sequer piscou. — Joseph! — Ele o sacudiu um pouco mais e, por fim, Joseph abriu os olhos, mas sua primeira reação foi empurrar Aaron para longe, fazendo com que o menino caísse de bunda no chão. — Mas que porra?!

— Aaron? — Joseph o encarou preocupado, recebendo um olhar enraivecido em troca.

— Qual é o seu problema, cara? — Ele se colocou de pé, massageando a mão que havia usado para se apoiar ao cair.

— Você se machucou?

— Não. Mas que merda foi essa, hein?

— Você me assustou. Desculpa.

— Ah, e você não? — Aaron retrucou ainda irritado. — Geralmente você me acorda no meio da noite com esses seus pesadelos, mas dessa vez eu achei que você não ia parar de gritar. Estava sonhando com o que?

— Eu... — Joseph esfregou os olhos e sacudiu a cabeça, pensando. Estava sonhando com a noite em que seu tio o assediou, obvio que estava, mas não podia simplesmente falar sobre isso com Aaron. — Não sei, eu não me lembro.

— De nada?

— Não costumo me lembrar dos meus sonhos depois que acordo.

— Eu duvido!

— Eu disse alguma coisa? — Joseph perguntou, preocupado. — Enquanto eu dormia.

— Você sempre resmunga umas coisas, mas eu nunca entendo o que está dizendo. Por quê? Está escondendo algum segredo? Tem medo de falar sobre algo comprometedor? — Aaron especulou.

— Nada a ver.

— Você anda muito esquisito ultimamente — o loiro observou. — Mais que de costume, eu quero dizer. Tem algo errado acontecendo?

— Não é nada.

— Olha... — Aaron se aproximou para tocar o ombro dele, mas Joseph o afastou com outro empurrão que quase o levou ao chão novamente. — Que merda, Joseph!

— Desculpa. Eu não quis...

— Quis sim, ora essa. E nem me venha com a desculpa esfarrapada de que eu te assustei porque você está bem acordado agora. Eu não te peguei de surpresa.

— Eu sei. Me desculpa.

— Então você admite que fez de propósito? — Aaron o encarou.

— Não foi de propósito. É que eu... Eu só...

— Você o quê?

— Nada. Esquece. Volta para o seu quarto, tá bom?

— Isso é sério?

— Aaron, apenas sai, por favor.

Aaron ainda o encarou por mais alguns segundos, antes de finalmente se dar por vencido e lhe virar as costas.

— Otário — ele verbalizou, antes de bater a porta do quarto de Joseph com força.

Joseph não conseguiu dormir de novo depois disso. Na verdade, ele não tinha tido uma única noite de sono satisfatória desde que seu tio o estuprara. Era sempre aquele mesmo inferno. Sempre que fechava os olhos revivia aquele momento horrível de novo e de novo e sentia que iria acabar enlouquecendo em algum momento.

Quando as aulas recomeçaram, alguns dias depois, Joseph ainda tinha esperanças de que as coisas melhorassem um pouco. Ele estava se sentindo sufocado em casa, sendo assombrado por lembranças sombrias que preferia esquecer e achava que se afastar daquele ambiente e rever seus amigos o ajudariam a lidar um pouco melhor com aquilo. Ilusão sua, é claro. Voltar para o colégio não apenas se mostrou uma medida ineficaz de lidar com seu trauma, como também lhe mostrou que suas feridas eram bem mais profundas do que ele imaginava.

— E aí, princesinha — Nathan passou um braço por seus ombros e a primeira reação de Joseph foi afastá-lo bruscamente de si, assim como tinha feito com Aaron algumas noites antes. Seu amigo o encarou assustado. — O que foi, cara?

— Nate... — Joseph começou, mas não soube o que dizer a seguir. Não havia uma maneira de explicar para o amigo que não queria mais que ele o tocasse porque, após ter sido abusado sexualmente pelo próprio tio, qualquer tipo de contato físico o deixava em pânico.

— O que foi, Joe?

— Eu... — Joseph tentou de novo. Pensou arduamente em um desculpa para sua atitude estranha, qualquer uma, mas não encontrou nada que pudesse usar. Era comum que Nathan o cumprimentasse daquela forma, mas agora ele se sentia tão... desconfortável. Nathan jamais entenderia se ele não lhe contasse a verdade e a verdade era a única coisa que ele não podia contar. — Desculpa — foi o que disse por fim. Então, se afastou e foi se esconder no banheiro durante todo o primeiro horário, envergonhado demais para encarar o amigo novamente.

Com Eve as coisas conseguiram ser ainda piores. A garota veio lhe cumprimentar toda animada, mas Joseph sequer conseguiu olhá-la nos olhos. Para ele, era impossível encará-la sem se lembrar de como o tio o havia abordado naquela noite já que, em teoria, aquilo tinha acontecido porque Andrew viu os dois se beijarem no portão. Ele não culpava a garota pelo que tinha acontecido, sabia que seu tio era o único culpado por tudo, mas simplesmente não conseguia interagir com ela sem sentir vontade vomitar, de chorar ou de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, por isso, ele passou o dia fugindo de Eve assim como o diabo foge da cruz.

Como esperado, sua atitude esquiva fez a garota se sentir mal, já que ela tinha plena certeza de que aquilo só estava acontecendo porque ela tinha se atrevido a beijá-lo sem saber se ele sentia o mesmo. Ela gostava de Joseph, era verdade, o achou bonito e fofo desde que colocou os olhos nele no primeiro dia de aula, mas depois de conhecê-lo melhor também passou a dar muito valor a sua amizade. Vê-lo fugir de si daquela forma a deixava verdadeiramente triste, por isso, ela se empenhou muito em tentar falar com ele durante todo o dia, mas isso só fez com que Joseph fugisse ainda mais. Por fim, Eve acabou se conformando com a situação e desistiu de tentar conversar, passando a evitá-lo também.

Então, quando o dia finalmente chegou ao fm, Joseph já tinha certeza de que havia perdido seus dois melhores amigos.

Ele se recusou a ir para a escola depois disso. Não conseguia conceber a ideia de frequentar a mesma escola que Eve e Nathan, mas não poder interagir normalmente com nenhum dos dois porque seu tio havia arrancado tudo de bom que havia dentro de si. Ele voltou a se trancar no quarto, se alimentar mal e ter crises de pânico e seu pai decidiu que era melhor ele passar alguns dias com a mãe, já que Brianna estava ficando assustando com suas atitudes.

Os dez dias que passou com Celine não foram muito diferentes dos outros que ele havia passado em casa. Tinha pesadelos todas as noites, não conseguia comer direito e passava mais tempo trancado no quarto que com a mãe de fato. Celine culpava Brianna por tudo. Dizia que ela havia estragado seu filho e fez de tudo para que Joseph confessasse que a madrasta o maltratava. Ele não podia fazer tal coisa, é claro. Brianna jamais encostara um dele e fora a raiva que ele sentia por ela nunca ir contra as ordens sem nexo de Erick, Joseph não podia dizer que tinha do que reclamar sobre ela. Sua mãe não se conformava com isso.

Foi apenas um dia antes de retornar para a casa de seu pai, que Joseph teve a certeza de que, na verdade, Celine não se importava nem um pouco com ele, apenas com seu casamento fracassado e com a possibilidade inexistente de superar Brianna e reconquistar seu pai.

Ele teve outro pesadelo e acordou tremendo e chorando como era de costume. Em meio ao seu completo desespero, Joseph acabou contando a Celine o que seu tio havia feito, esperando que a mulher fosse tomar alguma atitude, mas ela não moveu um músculo. Simplesmente lhe disse que ele estava imaginando coisas, que tudo não passava de um pesadelo e que ele deveria voltar a dormir. Quando ele insistiu no assunto, ela apenas lhe disse que aquela conversa estava lhe causando dor de cabeça e que não queria ouvir mais nada. Decepcionado, ele se calou depois disso. Então, quando sua mãe o levou de volta para casa e seu pai perguntou como ele tinha passado aqueles dez dias, a única coisa que Joseph disse foi que não queria ver queria ver Celine nunca mais e que esperava que ela fosse para o inferno. Erick nem mesmo perguntou o porquê. Para ele, pouco importava.

No dia seguinte, Joseph descobriu que seu pai havia lhe arranjado outra escola já que ele havia se recusado a frequentar a antiga. Seu coração doeu por isso, pela possibilidade de nunca mais reencontrar seus amigos, mas ele não reclamou da mudança. Talvez fosse melhor assim. Ele não era mais uma boa companhia.

***

A nova escola de Joseph era como todas as outras em que ele havia estudado: cheia de crianças ricas e mimadas e com um método de ensino que possuía grande potencial para fazê-lo se sentir um idiota, então, não foi surpresa que, logo na primeira semana de aula, ele tenha se tornado o mau exemplo que os professores gostavam de citar, mas ele não se importou muito com isso.

Apesar de não ter recebido qualquer notícia do tio desde aquela noite e de tal fato, sem dúvida, o ajudar a lidar melhor com seu trauma, Joseph ainda tinha sérios problemas para dormir e certamente não se sentia pronto para voltar a ter qualquer contato físico com outras pessoas. Ser considerado um fracasso por noventa e nove por cento dos alunos de sua turma, era mais um presente que um problema, considerando que, como um excluído, ele não precisava se preocupar em evitar abraços ou em fugir de conversas mais pessoais já que não tinha amigos de verdade. Joseph até sentia falta disso às vezes, de conversar e de rir de coisas idiotas como antes, mas sempre que se lembrava do quão mal se sentia ao se aproximar das pessoas, mudava de ideia.

Nos meses que se seguiram, ele apenas se conformou em ser sua própria companhia e já estava se acostumando àquela realidade de estar sempre sozinho de novo quando, ao passar pelo parque em uma tarde, à caminho de casa, acabou cruzando com Nathan por acaso.

— Joe?! Ei! — O garoto acenou para ele e Joseph ficou indeciso entre sair correndo ou apenas fingir que não o tinha visto. Optou por se fazer de sonso e continuou andando como se nada tivesse acontecido. — Ei — Nathan apressou o passo para alcança-lo quando viu que ele não iria parar. — Joseph! Joe! Você tá fugindo de mim, é? — Perguntou, quando finalmente o alcançou.

Joseph não respondeu, mas parou para cumprimenta-lo adequadamente agora que já não tinha mais como evita-lo.

— Oi, Nate. Tudo bem?

— Tudo bem?! Você sumiu, Joe. Eu fui até a sua casa um tempo atrás, mas disseram que você tinha ido para a casa da sua mãe.

— Sim, eu passei uns dias com ela.

— E depois mudou de escola do nada — Nathan observou.

Joseph desviou o olhar, envergonhado.

— É, meu pai achou melhor assim.

— Seu pai? — Nathan o encarou desconfiado. — Bem, eu te liguei algumas vezes também. Deixei recado com a sua madrasta. Ela te avisou?

— Avisou, sim.

— E porque você nunca me ligou de volta?

Joseph deu de ombros. Não tinha uma desculpa para isso.

— Eu te fiz alguma coisa? — Nathan quis saber. — A gente estava de boa antes do feriado, aí as aulas voltaram e você ficou todo estranho. Eu não entendi o que aconteceu.

Joseph não sabia o que responder.

Não tinha uma explicação razoável para as suas atitudes após o feriado e realmente não queria pensar sobre isso agora, não quando tudo aquilo tinha apenas começado a deixar de ser insuportável para ele.

— Desculpa, Nate. Eu preciso ir — ele começou a se afastar, mas Nathan segurou seu braço, fazendo-o se retrair automaticamente. O garoto o soltou.

— Tá tudo bem mesmo, Joe? — Perguntou preocupado.

Joseph assentiu, praticamente abraçando o próprio corpo na tentativa de manter alguma distância entre eles.

— A gente ainda é amigo, certo? — Nathan insistiu. — Mesmo que você tenha mudado de escola, ainda podemos continuar nos vendo como antes?

Joseph hesitou. Sentia falta da companhia de Nathan, mas não sabia se era uma boa ideia manter aquela amizade quando ele mal conseguia interagir direito com o garoto sem surtar.

— Eu não vou tocar em você — Nathan disse, pegando-o de surpresa. — Eu percebi que isso te incomoda e tudo bem para mim, é sério.

— Eu...

— Por favor, Joseph — Nathan olhou bem para ele. — Você tem fugido de mim há meses. Eu sinto falta do meu melhor amigo, sabe?

Joseph não conseguiu lhe dizer não depois disso. Mesmo sem ter certeza de que aquilo seria uma boa ideia, concordou em retomar a amizade que tinham antes e se esforçou de verdade para fazer tudo dar certo.

No inicio, foi esquisito. Nathan não sabia muito bem como agir perto dele e Joseph, por sua vez, tinha sempre a impressão de que estava sendo uma péssima companhia, já que tinha se tornado retraído como o inferno, mas eles continuaram se vendo diariamente e tentavam agir como se não tivessem ficado meses separados. Nathan manteve sua promessa não encostar nele e Joseph admirou sua força de vontade já que o amigo tinha a mania de tocar nas pessoas enquanto falava e precisava se esforçar muito para não fazer isso com ele. Com o tempo, as coisas foram melhorando e, aos poucos, eles voltaram a conversar normalmente e a sorrir juntos como antes.

Quanto a Eve, Nathan lhe contou que a garota e os pais haviam se mudado da cidade algumas semanas antes e Joseph sentiu muito por não ter reatado a amizade com ela a tempo, mas estava grato por ter conseguido manter ao menos um dos amigos em sua vida. Aquilo era mais do que ele poderia pedir.

***

— Fala a verdade: esse é o melhor aniversário que você já teve, não é? — Nathan disse a ele certa noite quando estavam jogados no meio da sala dos pais do garoto. Joseph revirou os olhos, mas não negou, apenas pegou outro salgadinho da tigela e o atirou na boca.

Na verdade, não era realmente seu aniversário. Ele tinha completado quatorze anos alguns dias antes, mas só agora os dois estavam tendo a chance de comemorar porque Joseph tinha ficado quase um mês de castigo por ter chegado bêbado em casa. Culpa de Nathan, é claro. Por ser dois anos mais velho que Joseph, ele já estava naquela fase da adolescência em que a pessoa faz uma merda atrás da outra — tipo começar a fumar só para parecer mais descolado ou conseguir uma identidade falsa só para poder comprar bebidas — e, como Joseph estava sempre ao seu lado, ele acabava fazendo uma merda atrás da outra também, embora isso fosse muito mais inadequado na sua idade que na de Nathan.

— Tem certeza de que seus pais não se importam se eu passar a noite aqui? — Joseph questionou.

Nathan sacudiu a cabeça, negando.

— Desde que eu não faça uma rave ou coloque fogo na casa enquanto eles estão viajando, ele não ligam se eu chamar um amigo para dormir aqui. Aliás, me passa o isqueiro, por favor?

Joseph alcançou o isqueiro que estava jogado em um canto e o entregou a ele.

— Isso aí é maconha? — Perguntou quando viu o amigo acender um cigarro diferente dos que ele costumava fumar.

— É. O Danny arranjou para mim.

— Você tem passado muito tempo com o Danny, né?

Nathan riu.

— Ciúmes?

Joseph o empurrou para longe, o que só o fez rir ainda mais.

— Estou brincando, Joe. Qual é? Você sabe que é o meu melhor amigo, certo?

— Vou pegar mais cerveja — Foi o que Joseph disse em resposta.

— Traz uma para mim.

— Pede pro Danny.

— Ah, seu filho da puta — Nathan atirou alguns salgadinhos nele e dessa vez foi Joseph quem riu.

Ele voltou da cozinha com uma garrafa de cerveja para cada um e substituiu aquelas que estavam vazias. Nathan lhe passou o cigarro e Joseph hesitou um pouco antes de pegá-lo, pois já tinha fumado escondido algumas vezes, mas não maconha. Levou o cigarro a boca e tossiu um pouco após tragar.

— Forte? — Nathan perguntou, pegando o cigarro de volta.

— Um pouco.

— Você se acostuma.

Eles continuaram bebendo cerveja e comendo salgadinhos, enquanto jogavam vídeo game e ouviam música. Joseph agradeceu por seu pai estar em uma viagem de negócios, caso contrário, jamais poderia passar a noite ali já que Erick não permitia que ele dormisse fora de casa. Brianna já era mais tranquila quanto a isso. Desde que Joseph prometesse que não faria nada de errado, ela não se importava de deixa-lo sair. O problema é que ele sempre fazia alguma coisa de errado, mas Brianna não precisava saber disso, certo?

— Seu nerd! — Nathan exclamou após perder mais uma partida para Joseph. — Isso que dá não ter vida social. Você passa o dia inteiro jogando videogame, né?

— Quer um lenço para secar suas lágrimas, seu perdedor?

— Pau no seu cu — Nathan lhe mostrou o dedo do meio e terminou de beber sua cerveja. — Revanche?

— Só se você prometer não chorar muito.

— Ah, vai se foder, Joe! Metido do caralho.

Eles se preparam para iniciar outra partida, mas antes que pudessem começa-la de fato, Nathan se levantou do sofá e praticamente tropeçou até a estante na pressa de aumentar o som.

— Porra, eu amo essa música! — Ele disse animado.

— Que música é essa?

Unconsolable, do X Ambassadors. Não conhece? É boa para um caralho. Escuta só — ele voltou a música para o começo e aumentou o volume do som um pouco mais.

Joseph deixou o videogame de lado e concentrou sua atenção na letra da música e em Nathan que usava o controle da TV como microfone, enquanto cantava junto com a banda e fazia uma dancinha que, talvez, tivesse a intenção de ser sensual, mas era apenas meio desengonçada mesmo.

Joseph riu do entusiasmo do colega.

— Você já tá muito chapado, né? — Perguntou enquanto Nathan dançava em círculos ao redor do sofá.

— Eu quase nem bebi, Joe. E você devia era calar essa boca e vir dançar também.

— Mas nem morto. Já basta você pagando mico.

— Nossa, mas você é chato pra caramba, né? Eu nem sei porque eu ainda sou seu amigo.

— Ouvi dizer que é porque você gosta de gente esquisita.

— E eu gosto mesmo, mas você é esquisito demais — Nathan tropeçou no tapete da sala e acabou caindo de costas no sofá, com a cabeça quase no colo de Joseph que se afastou alguns centímetros para evitar o contato. Nathan riu como um idiota. — Poxa, nem para me segurar você presta. Que amigo é esse que eu fui arrumar, hein?

— Ninguém mandou você ficar rodando igual a um retardado. Achei foi pouco.

— Você é um serzinho muito cruel, Joseph. Não merece nada do que eu faço por você, sabia? — Nathan o encarou daquela posição e, então, franziu a testa. — Porra, você não tem nenhum ângulo ruim?

— Que?

Com certa dificuldade, Nathan se sentou no sofá e se aproximou de Joseph para observá-lo melhor. Uma coisa que podia dizer com certeza é que Joseph sempre tinha sido muito bonitinho e não a toa havia despertado o interesse de metade das garotas de sua turma na época em que eles estudavam juntos. Agora, com sua beleza infantil dando lugar a uma beleza um pouco mais madura, o garoto estava bonito de verdade. As linhas fortes de seu rosto haviam começado a se definir e seus olhos azuis e a boca bem feita tinham se tornado bem mais chamativos também. Diferente dos outros adolescentes de sua idade — que a essa altura estavam com uma aparência questionável, cobertos de espinhas ou com meia dúzia de pelos na cara que juravam ser uma barba — aquela fase havia feito muito bem a Joseph e Nathan só podia imaginar como o garoto se tornaria um adulto lindo daqui alguns anos.

— O que foi? — Joseph insistiu visto que o amigo não parava de encará-lo daquele jeito estranho.

Nathan sacudiu levemente a cabeça.

— Nada? — Joseph riu. — Sério? Então, porque está me olhando assim?

A resposta que recebeu foi totalmente inesperada.

Nathan simplesmente enlaçou os dedos em sua nuca e o puxou para um beijo.

De inicio, Joseph não reagiu. Seus olhos se arregalaram e sua respiração ficou presa na garganta quando sentiu os lábios do outro junto aos seus, mas ele não conseguiu se mover. Demorou alguns segundos para que absorvesse o fato de que seu melhor amigo o estava beijando e quando a ficha finalmente caiu, Joseph o empurrou para longe, levantando-se do sofá tão rápido quanto um raio.

— Porque fez isso? — Perguntou assustado. Nathan o encarou parecendo bastante indeciso sobre como responder àquele questionamento. — É porque você está bêbado, certo?

O garoto não confirmou.

— Diz que é porque você está bêbado, Nate. Diz!

— Isso vai fazer alguma diferença?

— É claro que vai! — Joseph o encarou quase desesperado. — Você não queria me beijar de verdade, queria? Você gosta de garotas, Nate. Você não é gay.

Mais uma vez Nathan não respondeu.

Joseph sentiu o coração parar.

— Você é? — Ele questionou preocupado. — Nathan!

— Eu não sei, Joseph! — Nathan esbravejou colocando-se de pé também. — Que porra, eu não sei.

— Como você não sabe?!

— Eu apenas não sei, tá legal? Eu só... Puta que pariu!

Joseph levou as mãos aos cabelos e respirou fundo. Aquilo não podia estar acontecendo justo com ele!

— Desculpa se eu fiz merda. Eu sei que não deveria ter te beijado assim, mas também não quero que pense que eu só fiz isso porque estou bêbado, ok? Não foi por isso. Se eu te beijei foi porque eu quis te beijar.

— Então, você é gay!

— Eu não sou... — Nathan se interrompeu, pensativo. — Ah, que se dane! Talvez eu seja gay. E daí? Isso não muda porra nenhuma.

— Não muda?

— A gente não vai deixar de ser amigo por causa disso, vai?

— Você acabou de me dar um beijo na boca, Nate! Que tipo de amigo você conhece que faz uma merda dessas?

Nathan avaliou a situação. A resposta era “nenhum”, mas verbalizar isso significaria ter que reavaliar todo o relacionamento que tinha com Joseph até então e ele realmente não queria fazer isso agora. Podia não estar tão bêbado ao ponto de não poder se responsabilizar pelo que fazia, mas também não estava sóbrio o suficiente para tomar decisões importantes.

— Há quanto tempo? — Joseph perguntou quando não obteve qualquer resposta do amigo para a pergunta anterior.

— Há quanto tempo o que?

— Há quanto tempo você gosta de garotos, Nate? Porque eu não acredito que você apenas tenha se levantado da sua cama hoje e pensado “é isso, eu sou gay”.

— Eu não sei há quanto tempo, Joseph — Nathan respondeu com sinceridade.

— Quando nós estudávamos juntos...

— Eu já gostava de você — ele confessou. — Não tinha certeza do que era na época, mas eu sempre me senti estranho quando você estava por perto. Então, sim, você foi a minha primeira paixonite gay, Joseph. Está satisfeito?

— Porque você nunca me falou nada?!

— Porque eu tinha doze anos, caramba! O que você queria que eu dissesse? Ou melhor, o que você faria se eu dissesse que gostava de você, hein? Nós éramos duas crianças, Joe.

— Isso não te impediu de me jogar para cima da Eve — Joseph retrucou de maneira amarga.

Nathan o encarou.

— Eu nunca te joguei para cima dela, Joe. Dizer que ela te achava bonito e que gostava dos seus desenhos não é o mesmo que te pedir para ficar com ela. Porra! Eu nem gostava de ver vocês dois andando juntos. Aquilo me dava era raiva!

— Ah, que ótimo! — Joseph riu, mas seu riso não tinha qualquer traço de humor. — Então, eu sou a maior piada de todas, certo? Porque eu vivi no meio de um triângulo amoroso e nem me dei conta disso!

— Às vezes a ignorância é uma benção, Joseph.

— Não, não é! — Joseph retrucou irritado. — Eu te conheço há cinco anos, Nate. Cinco anos! Em nenhum momento você pensou em me contar sobre isso?

— Você quer mesmo entrar nesse mérito?

— É claro que eu quero! Nós somos melhores amigos, certo? Você deveria ter conversado comigo a respeito!

— Assim como você conversou comigo sobre ter sofrido um abuso, Joe? — Nathan perguntou e Joseph quase parou de respirar. Seu coração batia desesperado dentro do peito e por um instante, ele apenas conseguiu encarar Nathan sem qualquer reação.

— Não sei do que está falando.

— Você acha que eu sou idiota, Joseph? Acha que eu não sou capaz de juntar as peças? Você treme sempre que alguém toca em você, fica assustado toda vez que algum homem mais velho se aproxima e sempre reage de maneira estranha quando se depara com uma cena de sexo em filmes, mesmo que seja algo bobo. Você pode achar que disfarça bem, mas eu noto, Joe. E eu sei que isso não é normal.

— Você tá falando merda.

— Não, não estou. E você sabe que não estou. Você sempre guarda tudo para si mesmo, mas isso um dia vai te fazer sufocar, sabia? Você pode falar comigo, Joseph. Seja como for, a gente resolve.

Joseph apenas negou com a cabeça, apavorado demais para verbalizar qualquer coisa.

— Quem foi? — Nathan perguntou se aproximando dele. — É alguém próximo de você?

— Para.

— É alguém da sua família, Joseph?

— Para, Nate.

— Foi o seu pai?

Joseph nem percebeu quando reagiu. Quando deu por si, seu punho já tinha ido de encontro ao rosto de Nathan, atingindo-o com um soco. Ele recuou rapidamente. Suas mãos tremendo ainda mais que antes por causa disso. Não costumava agredir as pessoas assim.

Sem dizer mais nada, Joseph apenas correu porta a fora, sem se importar se estava deixando todas as suas coisas na casa de Nathan. Ele queria se afastar dali o mais rápido que podia, mas sentiu os dedos longos do amigo se fecharem ao redor de seu pulso, impedindo-o de ir mais longe.

— Joseph, por favor!

— Me solta!

— Você tá bêbado! Eu não vou te deixar sair assim, é perigoso!

— Eu disse para você me soltar! — Joseph o empurrou com força e aproveitou seu desequilíbrio para se desvencilhar se suas mãos e fugir.

Não importava que fossem três da manhã ou que não estivesse sóbrio o suficiente para zanzar pelas ruas desertas de Londres daquele jeito, ele só queria se afastar de Nathan e de toda aquela conversa. Não queria ter de lidar com aquilo, não queria ter que enfrentar todos aqueles demônios de novo. Tinha levado quatro anos para se recuperar, para esquecer aquela noite o suficiente para que aquilo não o devorasse por completo e, logo agora, Nathan tinha trazido tudo à tona novamente.

Será que ele não sabia como era difícil ? Não sabia como era doloroso para ele voltar àquele momento e reviver todas aquelas memórias terríveis? Não... É claro que Nathan sabia. Ninguém além dele mesmo sabia como era. Ninguém além dele mesmo conhecia aquela sensação.

Estava sozinho, sempre esteve e sentia-se estúpido por ter acredito no contrário em algum momento.

Por isso, quando Nathan o procurou no dia seguinte para lhe devolver suas coisas e conversar, Joseph simplesmente o ignorou.

Notas finais
Muitas emoções nesse capítulo, hein? E aí, alguém já desconfiava que o Nathan tinha quedinha pelo Joseph? Aliás, o que vocês tem a me dizer sobre ele? Problemático, neném, ambos? rsrs Eu particularmente gosto muito do Nathan (apesar dele não ser um exemplo a ser seguido por ninguém ~não usem drogas, tá, crianças?) e mais na frente vocês vão descobrir porque. Beijocas e até o próximo capítulo.